Seculo

 

Minha luta com o sol - Pentagrama – Parte II


30/05/2018 às 14:23
O sol virá, cada instante será eterno, o sol quando
Cai em nossas mãos como sonho vermelho,
A luz de sua origem é fim de noite em aurora.
Corremos na vida com o livro aberto adiante,
Redemoinhos se formam no pesadelo de criança,
Notas do apocalipse eram tomadas naquele momento,
Um desenho é registrado com o sangue jovem,
Perde-se no tempo, depois do desastre a célebre canção,
A tempestade encontra o sol e se torna o céu com todas as vidas,
Virá o sol maior com todos os elementos da fúria,
Pintará de estrela firme de firmamento com voz de sepulcro,
Todos os lados do enigma ascendem ao espírito da manhã.
 
Eu sinto, com o ardor da noite, que o sol virá,
Os signos sentidos em dor pungente semearão
Nova colheita, a vida enamorada de vinha e macieira,
Toda flor do campo com montes sinuosos de harmonia,
Toca-se o corpo do sol que virá, o pentagrama
Se forma, a batalha espiritual começa,
Os lares esquecidos são destruídos pelo vento do drama,
O dharma é pronunciado com a substância primordial : o fogo.
Prometeu nos deu, o roubo de todas as eras das esferas,
Vingou-se Zeus, com trovão de grito supremo.
Voz do subterrâneo ecoou como na caverna de Platão,
Visões deste mundo ideal são realidades ocultas,
O signo do poder é uma espada dentro do coração,
Corta o silêncio com seu som de estilhaços,
A realidade partida vai de sombra a luz
Num claro-escuro renascentista,
Num volume de vestes nababescas
Como o reino do sol na paz mundial,
Surge Cristo em vida diamantada de amor,
O amor que ressuscita, a morte fere,
E o pecado esmaga!
Estou vivo, viverei eternamente!
 
Estou na palavra primordial, a sensação é de
Êxtase, eu vi essas coisas, eu as vi
em minha alma, e dentro dela estava um sol,
Não sei explicar, era o sol no coração, nos olhos,
A compaixão se tornara irresistível,
Poderia ser um demônio produzindo o satori,
Ou a graça dentro dos simulacros de nossa História.
Não viverei para ver tudo que quero ver, as visões
São múltiplas, mas não são da totalidade do universo,
Nem seu sentido, nem a sua falta de sentido,
É o êxtase, é uma onda de sol com o espírito a flutuar,
Não há lógica, é só o brilho celeste de uma paixão.
Tenho o tempo em minha mão, não sofro mais as tres
Da loucura, vejo o sol que virá,
Vermelho fogo em que luto na eternidade
Desta visão.
Enfim cheguei ao fim da estrada, logo viria a luta espiritual pela qual passara. Eu vou então, desço do meu ônibus, com aqueles dois sonhos dançando em minha cabeça, olho para a vila, fico pela manhã nela, bebo água, tomo um banho de rio, e corro em direção das dunas para ver o mar,. A praia é vasta, tão vasta como pode ver a visão, e a visão alucinada logo seria revelada, o livro da morte que um dia vou publicar tem destas armadilhas, um grimório dos 77 demônios que me possuíram quando era bem jovem, eu tive a salvação depois deste tormento, busquei a luz espiritual, e hoje sou um ser celeste com carne e palavra, sou o senhor da palavra, dela faço os conceitos, ideias, da palavra tenho o sentido fundante. Mas, ao chegar às dunas, a casa dos meus sonhos ruiu, tudo o que tinha visto naquelas duas noites ao dormir me seria revelado naquele mundo infinito de areia e sol. A visão do horizonte me dá o sentido mais profundo de tudo que contém um espírito livre, a liberdade nos dá a chave da filosofia, a liberdade nos dá a voz da poesia, a vida interior se torna um palácio suntuoso do espírito livre, e eu teria a minha visão definitiva naquele dia, mal sabia que as visões dos meus dois sonhos eram o mais bruto e puro profetismo, tempo que se abre como borboleta que sai do casulo, esse é o sentido ontológico do profetismo, tenho decerto a sensação de fúria ao ver a morte, e a fúria de estar vivo quando a morte tentou lhe tocar, a salvação da alma é a cruzada do abismo, o abismo do sol se revelaria agora, meu corpo perdido na areia. A luta começaria, enfim.
 
Eu caminhei pelas dunas, estava no meio da tarde, uma tarde de sol gigante, calor escaldante, vi os montes de areia, subi num deles, e, de súbito, olhei o horizonte, o sol se transmutando num desenho de um sol inca, de um segundo ao outro o sol foi ficando laranja, depois vermelho, e aí um espírito oculto desenhou um pentagrama dentro do círculo de fogo, este sol inca e vermelho começou a virar o gigante vermelho, uma grande bola de fogo inca e vermelha que, então, com o calor de um inferno de Dante, desceu em vertical do céu em velocidade uniforme até a areia. Seus movimentos eram de um ser consciente, dava para perceber que havia um princípio inteligente dentro daquela bola de fogo vermelha de inspiração inca, eu vi, eu vi com os meus olhos de carne, não era mais um simples sonho numa madrugada em um ônibus de viagem, eu via e não acreditava, talvez pudesse estar sonhando de novo, mas não, eu sentia a minha carne e o meu corpo, eu sabia que, desta vez, era uma visão plenamente consciente, não era mais um jogo simbólico-junguiano de sonhos imagéticos. Eu via, não saberia descrever quão viva foi esta visão, as palavras são insuficientes, eu via, e custava acreditar, pensei que poderia ser o apocalipse, e lembrei do sonho do sol-pentagrama, logo percebi a centelha do profetismo, e então esperei a descida daquele sol furioso para a grande luta.
 
Depois do céu ecoar Not To Touch The Earth, do The Doors, quando aquele sol (um grande animal vermelho) descia, o sol-pentagrama foi em minha direção, se completaria a visão das visões, eu teria uma luta contra aquele bicho esférico e feroz, começa a luta, Miles Davis desce de uma nuvem azul e começa a tocar o seu trompete flutuando sobre aquela cena dantesca, eu via, e já não só via, eu lutava, meu corpo entrava em ebulição de guerra, eu teria que vencer aquele demônio em veste de sol, meu sol tão adorado, agora querendo me devorar. Rolamos na areia, parecia uma dança macabra e pagã, um Vodu em transe, dancei o Sabá, a bruxa ria, os duendes riam, os 77 demônios de meu passado se reuniam para ver aquela batalha sangrenta, não saberia explicar suas fisionomias, eram tétricos, uns vermelhos, outros negros como corvos, uns azuis escuros, flutuavam em volta da duna em que se dava a luta, Miles parecia estar em outro plano, parecia estar me vendo, mas na verdade não sei, eu queria o fim daquela agonia. Pharao’s Dance entra no jogo, surge uma pirâmide de diamante no cume da duna em que eu rolava ferozmente com o sol-pentagrama, consigo enfim pegar a pirâmide e volto ela em direção ao sol furioso, sua própria luz vermelha reflete no diamante da pirâmide, esta luz vai em direção do próprio sol-pentagrama e este derrete e vira sangue, do sangue nasce uma pomba branca anunciando que não haveria apocalipse, que era o tempo da santidade na Terra, e de que eu era um homem livre.
 
EPÍLOGO: CANÇÃO DA SALVAÇÃO
Não virei anjo, eu vi o anjo.
Olhei o mistério com a alma
Em floração.
Eu refiz a canção da salvação,
Uma pomba branca
No meu peito,
Um dia vivido
Como se fosse perfeito.
O sol-pentagrama morreu,
Sua fúria vermelha derreteu.
Eu vejo o eterno
Como o sol verdadeiro,
Eu ouço a liberdade
Em cada vida bondosa,
Sou a alma que canta no céu
Como campo aberto ao coração,
Tenho a visão do espírito em cada ato,
Não surjo do inferno, venho do paraíso,
A Terra é cantada em sua santidade,
Santo virá, o sol virá,
O vinho vence o sepulcro,
A dor exauriu com a fúria infernal,
Estou salvo de minha maldição,
Tenho tempo para ver todas as coisas novas,
As coisas que compõem a natureza
Em seu espetáculo de vida infinita,
Pode-se ouvir os hinos angelicais
Nesta morada do prazer,
Vejo Deus como o sol que tudo vê,
Tenho a alma como reino do céu,
Longe do abismo do inferno
Que me possuiu,
Vou ao segredo, vou ao cerne,
E a vida se torna sagrada,
A vida no fim da estrada.
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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