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Moradores lamentam restrição de visitação à APA da Lagoa Jacuném


01/06/2018 às 19:01
O sentimento de perda é inevitável. Os moradores do bairro Barcelona e adjacências, na Serra, se sentem excluídos da Área de Proteção Ambiental (APA) da Lagoa Jacuném desde que foi modificado o sistema de entrada na APA a partir da portaria local, há pouco mais de um mês.

A mudança ocorreu em função de um Acordo de Cooperação Técnica pactuado entre o município e o governo estadual, por meio da Polícia Militar do Espírito Santo, que transferiu, provisoriamente, a sede do Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) para o imóvel existente dentro da APA.

Sob nova gestão, as visitações foram restringidas a apenas um dia da semana – quartas-feiras, de 8h às 17h – e somente mediante agendamento e com acompanhamento dos agentes de educação ambiental da Polícia.

“Já tentei ir quatro vezes lá e dei de cara com o portão fechado. E a pessoa na guarita não informa o que está acontecendo. Ninguém sabe, até quem mora nas redondezas, não sabe que ainda tem um dia de visitação”, reclama o técnico administrativo Fabricio dos Santos, morador de Barcelona e antigo frequentador da APA.

“Eu saía de casa de manhã pra ver o sol nascer, às vezes ia ver o sol se pôr. Era bom de ir com os amigos pra bater papo, o visual é muito bonito. Agora não tem mais isso, não dá pra chegar na Lagoa aqui por Barcelona”, lamenta.

Município omisso

Um mês após ser implantada a restrição do acesso à APA da Lagoa Jacuném, outra unidade de conservação serrana, a APA Estadual do Mestre Álvaro, teve sua área legalmente protegida drasticamente reduzida, de 3.740 para 2.389 hectares, segundo o PL 99/2018, de autoria do Executivo estadual, aprovado na ultima quarta-feira (30).

As demais unidades do Município são as APAs de Praia Mole (estadual) e as municipais do Morro do Vilante e do Manguezal Sul, além do Parque Natural Municipal de Bicanga. Todas elas, incluindo o Mestre Álvaro, continuam sem sede administrativa, nem qualquer serviço de atendimento ao público, sendo que em pelo menos duas, as APAs estaduais de Mestre Álvaro e Praia Mole, há em torno de R$ 2 milhões em caixa para investimentos em infraestrutura em gestão, paralisados por falta de conselhos gestores atuantes – outra prova do distanciamento entre as unidades e a população – entre outros entraves burocráticos.

'Aqui dentro acontecia de tudo'

No caso de Jacuném, a principal justificativa para o Acordo de Cooperação Técnica é que o município não dispunha de condições de cuidar da APA, colocando em risco a população, exposta a usuários de drogas, bandidos e animais peçonhentos, já que nem a capina era feita pela gestão de Audifax Barcelos (Rede). "Estava abandonado. Muito descaso”, confirma Fabrício. “Aqui dentro acontecia de tudo”, diz o Capitão Fiorim, que integra a equipe de gestão da APA. 



Mas a solução para o abandono de uma unidade de conservação é exatamente restringir drasticamente o acesso da população a ela?

A popularização, em todo o mundo, de técnicas terapêuticas como o “shinrin-yoku”, ou banho de floresta, originário do Japão, indica que não. A orientação dos profissionais de conservação da natureza e de saúde é pela ampliação do acesso da população às suas áreas naturais, para criar/fortalecer o sentimento de pertencimento com as unidades de conservação, favorecendo sua proteção e recuperação, e para proporcionar os significativos benefícios para a saúde decorrentes de pequenas ou médias imersões na natureza.

Vinte e cinco bairros

O Capitão Fiorim reafirma que somente a entrada de Barcelona está com visitação restringida, sendo que os demais acessos – Civit e Condomínio Boulevard Lagoa – mantêm o mesmo funcionamento, com possibilidade de acesso à Lagoa e seus arredores e à horta comunitária.

A APA tem 837 mil m², “incluindo a Lagoa Jacuném e suas margens cobertas por vegetação de Mata Atlântica, que forma o cinturão verde do bairro Barcelona e adjacentes”, informa o setor de comunicação do BPMA.

Em sua extensão, abrange os bairros de Barcelona, Maringá, Mata da Serra, Colina de Laranjeiras, Porto Canoa, Novo Porto Canoa, Serra Dourada I, II e III, Eldorado, Cidade Pomar, Barro Branco, Boulevard Lagoa, Nova Carapina I e II, Civit I e II, Taquara I e II, Nova Carapina I e II, Planície da Serra, Tubarão, Mestre Álvaro e Residencial Monte Verde.

O BPMA informa que o agendamento das visitas, e também do uso do auditório existente na sede da APA e da Polícia Ambiental, pode ser feito por meio do endereço eletrônico eabpma.pm@gmail.com, e mais informações podem ser obtidas no telefone 3636-1650.

“As visitas podem acontecer também em outras datas, desde que a equipe não esteja com agenda externa em eventos de educação ambiental”, ressalva. “Há previsão de ampliação da disponibilidade dos dias dedicados de visitação monitorada, conforme a estrutura da Unidade for aprimorada”, anuncia.

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