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Operação Melman: sindicatos que representam enfermeiros reclamam de criminalização


06/06/2018 às 12:27
Entidades que representam as categorias de auxiliar, técnico e enfermeiros reclamam que os 61 trabalhadores afastados do hospital Dório Silva, na Serra, acusados de desvio e furto de medicamentos e material hospitalar, estão sendo criminalizados antes de apresentarem suas defesas. A operação da Delegacia Especializada de Crimes contra a Administração Pública (Decap) está sendo chamada Melman, como referência à girafa viciada em medicamentos do filme Madagascar. 
 
Para o diretor de Comunicação do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde no Estado (Sindsaúde-ES), Valdecir Gomes Nascimento, nem todos os 61 trabalhadores afastados podem estar, de fato, envolvidos na fraude. Apesar disso, o secretário de Estado da Saúde, Ricardo de Oliveira, convocou uma coletiva de imprensa para anunciar o afastamento dos profissionais – efetivos e temporários – reforçando a culpabilidade de todos, antes mesmo de os processos administrativos serem instaurados e sem que os trabalhadores apresentassem suas defesas. 
 
A Delegacia Especializada de Crimes contra a Administração Pública (Decap) cumpriu, na última segunda-feira (4), 36 mandados de busca e apreensão nas residências de funcionários do Hospital Estadual Dório Silva, na Serra. Na ação foram apreendidos medicamentos e material hospitalar que eram furtados da unidade. Foi realizada também uma vistoria nos armários do hospital que eram usados pelos funcionários. Nesta ação, foram encontrados mais materiais e identificados outros envolvidos, que vão responder pelo crime de peculato.
 
“Sabemos que tem gente desviando os materiais, mas dizer que todos os profissionais são bandidos e criminosos e até mesmo traficantes é um ato até irresponsável do governo do Estado. Por exemplo, é hábito guardar os medicamentos nos armários, o que ocorre por vários fatores. Numa CTI, ocorre de sobrar o medicamento quando um paciente tem alta ou quando vai a óbito e, na correria, muitas vezes esse medicamento excedente é guardado no armário, antes de ser devolvido à farmácia. Não somos contra a investigação e os culpados devem ser responsabilizados, mas somos contra criminalizar todas as categorias”, explicou Valdecir. 
 
Quem defende o mesmo ponto de vista é a presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado (Sindienfermeiros-ES), Andressa Barcellos. Para ela, a situação é lamentável, mas também tem pré-condenação dos profissionais. “O Estado convoca a imprensa, faz um estardalhaço, um sensacionalismo de um caso que ainda está sendo investigado. E que, teoricamente, está sob sigilo. Isso tudo leva a um pré-julgamento da sociedade. E se entre os 61 profissionais tiver gente inocente? O estrago já está feito, porque no meio profissional se conhece quem são essas pessoas”, explicou Andressa, que também se preocupa com a continuidade dos serviços que são prestados no Dório Silva. “A gente fica até pensando se não existem outros interesses por trás disso, como a transferência de serviços, como ocorreu com a transferência da UTI Neonatal”. 
 
Denúncia
O secretário de Estado da Saúde, Ricardo de Oliveira, explicou que o desvio dos medicamentos foi descoberto a partir de uma denúncia anônima feita no dia 18 de abril à Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), que montou uma comissão para apurar o caso. No dia 16 de maio, com um relatório em mãos, a Sesa comunicou a Polícia Civil, que iniciou a investigação. Estão entre os investigados enfermeiros e técnicos em enfermagem efetivos e contratados.
 
“Já abrimos processo administrativo contra todos os envolvidos, identificados e tomamos as providências para que os funcionários envolvidos nesse esquema de irregularidades sejam afastados imediatamente do Hospital Dório Silva. Estamos também agilizando a convocação de outros profissionais cadastrados em banco de reserva para ocupar esses postos de trabalho”, disse Oliveira, na coletiva.
 
Segundo a delegada Michele Meira, titular da Decap, com alguns envolvidos foram encontrados medicamentos psicotrópicos, que estão na lista de substâncias da Portaria 344 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Essa portaria trata de substâncias controladas e delimita o que é droga. Por isso, aqueles que subtraíram e desviaram esses medicamentos, especificamente, também responderão por tráfico de drogas”, explicou a delegada. Ela frisou, ainda, que "o próximo passo será ir até o hospital e listar esses medicamentos, que são fracionados e possuem embalagens de identificação da unidade. Iremos conferir lote por lote, além de interrogar os envolvidos", esclareceu.

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