Seculo

 

Exuberância e elegância nos versos de Góngora


11/06/2018 às 17:37
Temos em Góngora grande parte do preciosismo imagético que reverbera a escola poética e artística barroca, pois no exagero da metáfora e com o cromatismo povoando as palavras num poema esteticamente intenso, temos um dos grandes escritores aqui do esplendor mais forte no qual viveu a literatura espanhola.
O poeta Góngora, por sua vez, diante de sua época e no contexto social e político de sua nação, agora incluindo a dominância do pensamento religioso, não escapará da influência da ideologia do Concílio de Trento, e sua poesia, quando for tematizar a vida religiosa e sua ideologia, lembrará de certas citações ou ideias bíblicas por excelência, uma vez que o poeta terá na sua produção de versos uma imagética que não estará alienada do que está a sua volta, mesmo com todo o seu formalismo.
 
Quando nós falamos do cromatismo, por exemplo, este carrega as palavras como um lume que vai enriquecer a cepa barroca com todo este incremento estético próprio deste movimento, que nunca se furtou de exibir uma exuberância que vai ao paroxismo de um exercício de fazer versos bonitos e elegantes, e isto define bem tanto o barroquismo como o que veio dele por Góngora, isto é, o gongorismo.
 
POEMAS
 
XLIV : Polifemo, que de sua boca era prodigioso fole, vem aqui no poema emitir seu som, no que temos : “Árbitro de montanha e praia austera,” (...) “A quantas canas agregou a cera/O prodigioso fole de sua boca;/A ninfa ouviu-os, e ser mais quisera/Breve flor,”. Mas a ninfa, já resoluta, quisera antes ser erva humilde, aqui diante do temor de Polifemo, no que vem a coda nos lembrar : “Que, do tronco recém, vide lasciva,/Morta de amor, e de temor não viva.”
 
XLV : Aqui temos o poema que descreve o enlaçamento da ninfa Galateia, e Ácis  aqui, o moço, que logo será partido em pedaços pelo ciclope Polifemo, pelo cortante machado dos ciúmes, no que temos : “Mas – cristalinos pâmpanos seus braços –/O amor a enlaça, se o temor a gruda,/Ao infeliz olmeiro que pedaços/A segure dos ciúmes fará aguda./As cavernas, entanto, e os mais espaços,/Que preveniu aquela avena ruda,/O trovão de sua voz fulminou logo :/Referi-o, Piérides, vos rogo!”. E o que resta mais ao poeta é rogar, eis um último verso de piedade que aqui se derrama, pois.
 
XLVI : A descrição aqui é amorosa, e reúne partes em que a associação é rica, no que temos : ““Ó bela Galateia, mais suave/Que os cravos todos que truncou a aurora;” (...) “Igual em pompa ao pássaro que, grave,/Seu manto azul de tantos olhos doura/Quantas a celestial safira estrelas!/Ó tu, que incluis em duas as mais belas!”. Ao fim, no que temos os olhos, duas estrelas, antes sendo homenageada como bela Galateia, no barroquismo aqui já gongórico e elaborado metaforicamente, demandando forte interpretação.
 
LI : O ciclope filho de Netuno, este Júpiter do mar, aqui Polifemo como filho evoca seu poder para conquistar Galateia, e ele a chama, no que temos : ““Eu sou filho do Júpiter das ondas,/Mesmo pastor; se em teu desdém já aflora/Que o rei das grutas fundas e redondas/Em trono de cristal te abrace nora,/Polifemo te chama, não te escondas;/Que esposo tal admira a praia agora/Qual outro não viu Febo, mais robusto/Do preguiçoso Volga ao Indo adusto.” Aqui o poema descreve o contexto em que se dá o chamado, já diante do Volga, e rumando para o Indo.
 
LVII : A gruta aqui então serve de tábua de salvação a um genovês, no que temos : ““Tábua outra a um genovês foi  minha gruta,/Para a pessoa sua e sua fazenda;” (...) “Luzente paga pela melhor fruta/Que em ervas se recline, em fios penda,/Colmilho do animal foi a que o Ganges/Viu sofrer muros e romper falanges :” Vindo de um naufrágio, o genovês agora que do marfim troca pela melhor fruta, eis o refúgio e a recompensa.
 
LVIII : Recompensa esta um arco gentil e uma aljava brunhida, no que temos : ““Arco, digo, gentil, brunhida aljava,/Obras ambas de artífice brioso,/E de rei de Malaca a deus de Java/Alto dom, tal me disse o hóspede aquoso.” (...) “Convicta a mãe, imita o filho airoso :/Serás a um tempo nestes horizontes/Vênus do mar, Cupido destes montes.”” E ao fim Vênus imita seu filho, do arco se fazendo como Cupido.
 
LIX : A voz de Polifemo é interrompida, no que temos : “Sua horrenda voz, não sua íntima dor,/Cabras aqui lhe interromperam,” (...) “A Baco ousaram atacar as plantas./Mas o pâmpano ao ver fero o pastor” (...) “Despediu ele, e tanta pedra a funda,/Que voz e pedras varam a hera funda.”. E então Polifemo ao ver pisoteado o pâmpano mais tenro, deu muitos brados, e sua funda lançou tantas pedras que rompeu o muro de heras atrás do qual estavam Ácis e Galateia.
 
LX : Agora os amantes assustados com a voz e as pedras de Polifemo, se separam dos abraços mais suaves, no que temos : “Dos nós, com tudo isso, mais suaves,/Os doces dois amantes desatados,/Por duros seixos, por espinhos graves/Solicitam o mar com pés alados;/Tal, redimindo de importunas aves/Incauto lavrador os seus semeados,/De lebres cópia dirimiu amiga/Que vário sexo uniu e um sulco abriga.” Os amantes procuram com pés alados o mar, e permanecem apartados entre si, também agora, um casal de lebres.
 
LXI : A fugitiva ninfa vê o feroz brutamontes correr para o mar, no que temos : “Vendo, o fero brutaz, com passo mudo/Correr ao mar a fugitiva neve” (...) “E o rapaz vendo, antigas faias, rudo,/Agita, quantas cioso trovão deve :/Tal, antes de que a opaca nuvem rompa,/Do raio avisa a fulminante trompa.” Ao fim, o trovão com sua fulminante trompa dá o aviso da queda.
 
LXII : Polifemo arranca violentamente a ponta maior da elevada rocha, no que temos : “Com violência arrancou ele infinita/A maior ponta de elevada roca,/Que ao jovem, sobre quem a precipita,/Urna é muita, pirâmide não pouca./Com lágrimas a ninfa solicita/As deidades do mar, que Ácis invoca :/Concorrem todas, e o penhasco duro/O sangue que espremeu, cristal foi puro.”. Lançada a rocha contra Ácis, enfim com lágrimas a ninfa apela às deidades do mar pelo seu amado.
 
LXIII : Os membros do moço estão aqui esmagados pela rocha fatal, no que temos :  “Opressos tristemente os membros moços/Da fatal rocha vinda de mãos feias,/Os pés dos grandes vegetais mais grossos/Calçou o líquido aljôfar de suas veias.” (...) “A Dóris chega, que, com pranto pio,/Saudou-o genro, conclamou-o rio.”. Então, Dóris chama o moço de genro, esta que era mãe de Galateia, e lhe aclama como deus-rio.
 
POEMAS
 
XLIV
 
Árbitro de montanha e praia austera,
 
Alento deu, no píncaro da roca,
 
A quantas canas agregou a cera
 
O prodigioso fole de sua boca;
 
A ninfa ouviu-os, e ser mais quisera
 
Breve flor, erva humilde, terra pouca,
 
Que, do tronco recém, vide lasciva,
 
Morta de amor, e de temor não viva.
 
 
 
XLV
 
Mas – cristalinos pâmpanos seus braços –
 
O amor a enlaça, se o temor a gruda,
 
Ao infeliz olmeiro que pedaços
 
A segure dos ciúmes fará aguda.
 
As cavernas, entanto, e os mais espaços,
 
Que preveniu aquela avena ruda,
 
O trovão de sua voz fulminou logo :
 
Referi-o, Piérides, vos rogo!
 
 
XLVI
 
“Ó bela Galateia, mais suave
 
Que os cravos todos que truncou a aurora;
 
Branca mais do que as penas daquela ave
 
Que doce morre e que nas águas mora;
 
Igual em pompa ao pássaro que, grave,
 
Seu manto azul de tantos olhos doura
 
Quantas a celestial safira estrelas!
 
Ó tu, que incluis em duas as mais belas!
 
 
LI
 
“Eu sou filho do Júpiter das ondas,
 
Mesmo pastor; se em teu desdém já aflora
 
Que o rei das grutas fundas e redondas
 
Em trono de cristal te abrace nora,
 
Polifemo te chama, não te escondas;
 
Que esposo tal admira a praia agora
 
Qual outro não viu Febo, mais robusto
 
Do preguiçoso Volga ao Indo adusto.
 
 
VII
 
“Tábua outra a um genovês foi minha gruta,
 
Para a pessoa sua e sua fazenda;
 
Uma revigorada, a outra enxuta,
 
Relação do naufrágio fez-me horrenda.
 
Luzente paga pela melhor fruta
 
Que em ervas se recline, em fios penda,
 
Colmilho do animal foi a que o Ganges
 
Viu sofrer muros e romper falanges :
 
 
LVIII
 
“Arco, digo, gentil, brunhida aljava,
 
Obras ambas de artífice brioso,
 
E de rei de Malaca a deus de Java
 
Alto dom, tal me disse o hóspede aquoso.
 
Com este a mão, com aquela o ombro agrava;
 
Convicta a mãe, imita o filho airoso :
 
Serás a um tempo nestes horizontes
 
Vênus do mar, Cupido destes montes.”
 
 
LIX
 
Sua horrenda voz, não sua íntima dor,
 
Cabras aqui lhe interromperam, quantas,
 
Vagas o pé, sacrílegas o corno,
 
A Baco ousaram atacar as plantas.
 
Mas o pâmpano ao ver fero o pastor
 
Conculcado mais tenro, vozes tantas
 
Despediu ele, e tanta pedra a funda,
 
Que voz e pedras varam a hera funda.
 
 
LX
 
Dos nós, com tudo isso, mais suaves,
 
Os doces dois amantes desatados,
 
Por duros seixos, por espinhos graves
 
Solicitam o mar com pés alados;
 
Tal, redimindo de importunas aves
 
Incauto lavrador os seus semeados,
 
De lebres cópia dirimiu amiga
 
Que vário sexo uniu e um sulco abriga.
 
 
LXI
 
Vendo, o fero brutaz, com passo mudo
 
Correr ao mar a fugitiva neve
 
(Que, a vista igual, o líbico desnudo
 
Registra o campo de sua adarga breve),
 
E o rapaz vendo, antigas faias, rudo,
 
Agita, quantas cioso trovão deve :
 
Tal, antes de que a opaca nuvem rompa,
 
Do raio avisa a fulminante trompa.
 
 
LXII
 
Com violência arrancou ele infinita
 
A maior ponta de elevada roca,
 
Que ao jovem, sobre quem a precipita,
 
Urna é muita, pirâmide não pouca.
 
Com lágrimas a ninfa solicita
 
As deidades do mar, que Ácis invoca :
 
Concorrem todas, e o penhasco duro
 
O sangue que espremeu, cristal foi puro.
 
 
LXIII
 
Opressos tristemente os membros moços
 
Da fatal rocha vinda de mãos feias,
 
Os pés dos grandes vegetais mais grossos
 
Calçou o líquido aljôfar de suas veias.
 
Corrente prata enfim seus brancos ossos,
 
Lambendo flores e argentando areias,
 
A Dóris chega, que, com pranto pio,
 
Saudou-o genro, conclamou-o rio.
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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