Seculo

 

Sangue que jorra da Piedade


12/06/2018 às 19:40
O Morro da Piedade, no Centro de Vitória, voltou ao noticiário nesse último final de semana. Mas não foi a bateria da “Mais querida”, a Escola de Samba Unidos da Piedade, que chamou a atenção para o berço do samba na Capital. E sim, mais uma vez, a violência que tem alterado a rotina da comunidade, com o homicídio de mais um jovem no último domingo (10). Desde o início deste ano, foram quatro assassinatos, que têm trazido um clima de terror e feito com que os moradores abandonem suas casas em função do medo. Segundo algumas estimativas, cerca de 50 famílias já deixaram o bairro este ano. 
 
O último crime tem características semelhantes a dos anteriores. Grupos de homens fortemente armados, alguns trajando toca ninja, invadem o bairro pela parte alta e efetuam centenas de disparos; muitos acabam indo em direção às residências. Foi assim que o jovem Lucas Teixeira Verli, de 19 anos, que jantava na varanda de sua casa, foi atingido com vários tiros, inclusive no rosto. Eram pouco mais das 20h de uma segunda-feira, 28 de maio. Antes disso, no dia 25 de março, dois jovens sem qualquer envolvimento com o tráfico ou passagem pela polícia foram alvejados, causando grande comoção, os irmãos Damião, 22 anos, e Ruan Reis, 19. Dessa última vez, os criminosos tinham um alvo, Walace de Jesus Santana, 26 anos, cravejado com mais de 40 disparos. 
 
O sangue jorrado na Piedade acaba escorrendo para a sede administrativa do governo do Estado, que, por ironia do destino, fica a poucos metros da comunidade, no pé do morro. Desde o duplo homicídio dos dois irmãos, em março, representantes do governo do Estado e da prefeitura alegam que estão atuando na região, o que é contestado por lideranças e integrantes de movimentos sociais. Eles sequer foram recebidos pelo governador Paulo Hartung e pelo prefeito de Vitória Luciano Rezende (PPS) para discutir melhorias para o bairro, incluindo, além da segurança, questões de infraestrutura e investimentos em áreas sociais, além de uma política efetiva para tratar questões como o racismo e o extermínio da população periférica. 
 
Conforme apontou o Atlas da Violência 2018, os negros capixabas têm quase cinco chances a mais de morrer assassinados do que os brancos, amarelos e indígenas. E, ao longo dos anos, essa matança vem crescendo. Justificar as mortes desses jovens ao envolvimento com o tráfico é sempre a saída mais fácil. Culpar a comunidade, que, segundo as autoridades, não colabora com denúncias, também. 
 
Mas, até quando o tráfico é a causa dos homicídios, fica evidente que a atual política de “segurança” não surte efeito para conter a venda de entorpecentes, que tem nos bairros periféricos o seu varejo, aliciando crianças e adolescentes sem oportunidades. Ao contrário, contribui ainda mais para criminalizar os bairros, estigmatizando seus moradores. Se a repressão, como se tem visto, não tem resolvido o problema, muito mais valeria a prevenção e programas sociais efetivos - que hoje só têm servido de vitrine à gestão estadual -, pois é evidente que as populações periféricas carecem de alternativas econômicas, culturais e educacionais eficientes.  
 
Como bem disse o presidente da União de Negros e Negas pela Igualdade (Uninegro), Welington Barros, a política de segurança pública do Estado precisa ser revista, uma vez, que apesar da redução dos índices gerais, continua a dizimar uma parcela da população capixaba, os negros. E o pior: de forma naturalizada. Poucos são, na verdade, os que se levantam em defesa dos que parecem “mais matáveis”. 
 
Na Assembleia Legislativa, apenas o pronunciamento de Sergio Majeski (PSB), durante a sessão ordinária dessa segunda-feira (11), denunciou o descaso com a Piedade. O deputado pediu solução ao governo do Estado para amenizar o sofrimento dos moradores. “Cadê o programa Ocupação Social do vice-governador? O que é esse programa, se há quase 10 metros do Palácio não se soluciona o medo e o caos que as pessoas estão passando?”.
 
São questões ainda sem respostas.

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