Seculo

 

Os Incontestáveis: uma viagem literária ao interior dos capixabas


21/06/2018 às 11:04

O filme veio antes do livro. “Não é a primeira vez”, diz o escritor Saulo Ribeiro, citando “O homem que amava as mulheres”, de François Truffaut, e “O Invasor”, de Marçal Aquino. Saulo escreveu o roteiro de Os Incontestáveis junto com o cineasta Alexandre Serafini, que dirigiu o filme, premiado no Festival de Cine de La Sirena, no Chile.

Agora, o escritor apresenta o livro de mesmo nome, lançado neste sábado (23), às 18h, na sede da Editora Cousa, que coedita a obra junto com a Patuá. A noite ainda vai contar com show de Salsa Brezinski e Agência de Viagem.

“São obras diferentes com roteiro de ações semelhante”, diz Saulo sobre o produto literário e o fílmico. “Há coisas que há em um e não em outro, mas talvez ambos tenham em comum a rebeldia, o inconformismo, a anarquia e o som pesado. No livro conseguimos dar uma densidade psicológica maior. Além do que livros e filmes possuem linguagens totalmente diferentes”.

Na trama, Belmont e Maurício - ou simplesmente Bel e Mau- são dois irmãos que embarcam num automóvel Opala ano 76 para viagem desde Terra Vermelha, bairro periférico de Vila Velha, em busca de um carro Maverick laranja ano 75 que havia pertencido a seu nada querido e falecido pai, Ramiro. Não há muita razão, nem mesmo os personagens parecem saber o por quê, mas seguem nessa busca pelas estradas capixabas. Mais que uma lembrança do patriarca, parecem buscar um pedaço de seu passado num presente nada promissor. Talvez apenas mais uma estratégia inventada para vencer o tédio de uma vida medíocre. “O livro explora dois irmãos totalmente fora de padrão, disfuncionais, viajando num carro absurdo, em busca de outro carro absurdo”, resume Saulo.

Bel e Mau são caras, digamos, "escrotos". Fanfarrões, preconceituosos, pouco amigáveis. Mau acaba parecendo sujeito razoável perto do irmão, que faz pouca ou nenhuma questão de ser agradável. “Sou egoísta, grosso, invejoso e confesso defeito menor pra esconder os pior, daí a pessoa acha que sou honesto, franco. E faço algumas bondades calculadas. Daí a queda é maior quando descobrem que sou um sujeito péssimo”, diz Bel numa passagem.

O espírito beatnik e o som de Black Sabbath são companhias da viagem. A inspiração de On The Road, de Jack Kerouak, e outros escritores como Bukowiski, Mark Twain e Guimarães Rosa, entre outros, se fazem presentes na literatura do escritor capixaba, num retrato repleto de sarcasmo, non-sense e uma crítica social ora implícita, ora escancarada.

A cada lugar, quando parece que se aproximam de encontrar seu objetivo, o “maveco do velho Ramiro”, descobrem que o carro foi vendido ou repassado para outro dono. E assim a viagem segue para o norte capixaba até a fronteira com Minas Gerais, trazendo ao leitor paisagens, realidades e personagens do Espírito Santo. “É uma novidade porque pela primeira vez escrevo um livro que sai do cenário urbano e vai para o cenário rural”, diz o autor da novela Ponto Morto, das dramaturgias Cárcere e Corpo de delito & Rip e Cal e do livro de contos Diana no Natal.

Os Incontestáveis é uma metáfora possível da busca do capixaba por sua identidade ou da procura de sentido para a vida pelo ser humano. Não sabe bem o por quê da busca, e quando pensa que vai encontrar, vê que precisa ir mais longe. E quando parece chegar perto e visualizar, percebe que não é tão simples assim, para tê-la é preciso mudar as estruturas e arriscar-se mais.

O clímax da obra se dá na chegada dos irmão a Cotaxé, distrito de Ecoporanga, noroeste do Estado, onde ganham novos companheiros. Naquela região, conhecida como Contestado (daí o nome do livro) por ter sido reivindicada tanto pelo Espírito Santo quanto por Minas Gerais, travou-se uma grande rebelião camponesa nos anos 50 liderada por Udelino de Matos, que Saulo Ribeiro conheceu por meio do romance Cotaxé, de Adilson Vilaça. Em Os Incontestáveis, Adilson e outros importantes autores que ajudam a entender o conflito de posseiros contra latifundiários são embutidos em nomes de ruas e personagens, numa espécie de “bibliografia camuflada”.

Nascido em Pedro Canário, Saulo percorreu boa parte da região norte do Estado de moto buscando escrever o livro que tinha título provisório “Três Mil Quilômetros”. Junto com Alexandre Serafini também planejava fazer um filme de ficção ou documentário sobre o Contestado. No meio do processo, decidiu destruir o romance inconcluso e criaram o roteiro para cinema. Entre cinco anos em que vai à região e participa do Seminário de Humanidades de Cotaxé e a produção do filme, o livro foi ganhando a densidade com que se apresenta agora nessa versão definitiva.

“Cotaxé é um símbolo muito forte e um momento histórico pouco conhecido e explorado como processo de identidade”. Reviver a revolta de Cotaxé com toques absurdos e contemporâneos é um convite para pensar ludicamente a história da injustiça e do modelo de desenvolvimento do Espírito Santo.

“Terra rima com guerra”, diz Maurício num diálogo do livro. Se os brutos também amam, os “escrotos” irmãos tem lampejos de lucidez na crítica ao monocultivo do eucalipto, à miséria e violência a que os povos indígenas são submetidos e outros temas que tangem a história capixaba. “Há questões que precisamos olhar com mais calma sobre o Espírito Santo. O mau uso das terras, a marginalização das populações. Questões que precisamos pensar sobre a identidade do ser capixaba, que não dá pra resumir à moqueca e ao congo, embora também sejam importantes”, reflete o escritor.

Além de chegar ao público-alvo primordial, que são os capixabas, a obra também deve circular por outros estados do país por meio do projeto Arte da Palavra do Sesc, no qual Saulo Ribeiro participará de lançamentos e bate-papos na Bahia e em Pernambuco em agosto e outubro respectivamente. O livro também será apresentado em julho durante a Festa Literária de Paraty (Flic), no estado do Rio de Janeiro, onde Cousa, a Patuá e outras editoras independentes estarão na Casa dos Desejos, para participar de forma alternativa do evento.

AGENDA CULTURAL
Lançamento do livro “Os Incontestáveis”, de Saulo Ribeiro + Show com Salsa Brezinski e Agência de Viagem
Quando: Sábado, 23 de junho, 18h
Onde: Cousa Café Bar - Rua Sete de Setembro, 415, Centro de Vitória

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