Seculo

 

Pintando na África do Sul


08/07/2018 às 08:45

Uma viagem leva a outra, um contato traz novos contatos, e as portas se abrem. Assim, a artista capixaba Karen Valentim (KRN) chegou com sua arte na África do Sul, após contatos feito por amigos mexicanos que conheceu em intercâmbios artísticos pelo Projeto Latinta, que traz artistas urbanos de outros lugares para pintar na Grande Vitória.

Em viagem ao país africano, a conexão inicial de Karen foi com Bongo Khwelo, criador do projeto Ghetto Art Gallery, em Kayamandi, na periferia da cidade de Cape Town. "Comecei as atividades com as crianças na escola, que falam xhosa, que é a língua delas. A partir da troca, da vivência, a gente vai ampliando essa conexão, a língua fica em último lugar".

A primeira pintura que Karen fez, sempre rodeada do interesse das crianças, faz parte do projeto "Day of Youth", que busca combater a violência contra os jovens, algo que infelizmente aproxima os países, pois também muito comum no Brasil. Dois artistas locais irão complementar, inserindo também seus trabalhos.

Buscando artistas pela internet, Karen conseguiu outro contato, Juma Mkwela, do Township Art Tours, em que leva artistas para conhecer e pintar em Dunoon, uma favela também próxima a Cape Town. "Fui super bem recepcionada, pintei dois painéis, tive uma boa vivência com os moradores. Esse lugar deu muita saudade de casa", conta a artista, que é moradora de Vila Velha. A pessoa quando vai também permanece, quando volta também fica. E assim, além das artes nos muros, ela deixou outras lembrancinhas, como a customização dos tênis dos moradores com spray e pinturas de telas que deixou na casa para os anfitriões que a receberam.

Seu contato tem sido não apenas com sul-africanos, mas também de pessoas de outros países de África que vivem no país. Na observação da artista, as marcas do apartheid e da segregação ainda parecem muito vivas. “Estou tendo contato com pessoas que trabalham a questão da negritude e percebo ainda um forte contexto de racismo, muito forte mesmo. Parece que é a escravidão nos dias atuais. É interessante ir trocando ideias também a respeito da diáspora”.

As temáticas racial e da ancestralidade são justamente umas das principais marcas do trabalho de Karen, que desenvolve o projeto Afroameríndia, pintando figuras de mulheres negras e indígenas nas ruas e espaços culturais do Espírito Santo e outros lugares.

"Desde que eu comecei a vivenciar e a me jogar nesse mundo das artes urbanas, busquei explorar um pouco mais a respeito da minha ancestralidade, principalmente minha ancestralidade relacionada com o povo indígena, porque há uma conexão muito forte na minha família, mas tínhamos muitas informações desconexas. A gente não tem muito dessa referência em nosso dia a dia, nas escolas. A partir disso comecei a abordar a questão indígena e afroameríndia a partir de mim, de dentro pra fora".

Karen entende as viagens como uma oportunidade muito grande de conhecer pessoas de outros países, especialmente artistas, povos tradicionais, e outros contatos que permitem maior exploração do potencial artístico tanto em termos conceituais como técnicos. Além do México e África do Sul, também já pintou no Peru e El Salvador e em diversos estados brasileiros, principalmente os das regiões Norte e Nordeste, onde enxerga uma cultura riquíssima mais pouco divulgada no país.

"Estou sempre buscando me conectar com fontes e lugares que estão trabalhando também com o tema do feminino, com grupos que venham fazendo trabalhos relacionados com arte urbana dentro da mesma linha que a gente trabalha no Latinta, dialogando entre o centro e as comunidades, mas trazendo a arte para dentro das comunidades".

Conheça mais do trabalho de Karen no Instagram da artista.

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