Seculo

 

Rádio Capixaba – o motivo


08/07/2018 às 10:34
Jairo Maia adquiriu a Rádio Capixaba equivocadamente, segundo ele próprio. Ele pensou que faturando X mensalmente, fazendo três horas de programa, poderia faturar por dia XX tendo uma rádio só dele.
 
E o tempo veio provar que ele estava errado. Ele tinha sua rádio, mas continuava com seu horário de três horas. Faturava no seu horário mais o restante da programação. Quer dizer, a programação da Capixaba não tinha retorno financeiro, a não ser o horário dele. Assim foi também em todas as rádios que passou, inclusive na Gazeta.
 
Jairo era um bom radialista e bom dono de rádio. Na sua gestão fomos a dois congressos da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) e tivemos um curso com o mentor de Hélio Ribeiro, de São Paulo.
 
A rádio tinha seus craques. Guilherme Amorim, Izaias Marques, Esmael Bezerra, Venceslau Gomes, Pedro Vidigal, Tião Silva, Sebastião Zata, José Carlos Siqueira, Luis Carlos Vanzeler, José Henrique Pinto, Ângelo Ribeiro. Eu gostava de lidar com esses profissionais. Eram muito bons.
 
Foi na Capixaba que eu fazia um programa de versões (com base em Hélio Ribeiro), diariamente, entre 18 e 19hs. Foi nessa época que as versões apareceram. Este programa marcou uma geração.
 
Roberto Carlos
 
Toda a vez que RC vinha fazer show no Estado enaltecia Jairo Maia no palco. Jairo sempre tentava fazer uma entrevista com o escorregadio Roberto. Em duas entrevistas, eu fui junto com Jairo. Uma em Cachoeiro e outra em Vitória, no Hotel Cannes.
 
Nessa, Esmael Bezerra foi como operador do imenso gravador que havíamos levado, pois Jairo queria que Roberto gravasse umas vinhetas para a rádio e tinha de ser com qualidade de som. Jairo resolveu mudar o estilo de programação. Tirou todos os apresentadores e começou a rodar somente sucesso, entremeados com vinhetas. A rádio ganhou até um slogan “Musicalíssima”, nome que JM queria que RC gravasse. 
 
Os quatro trancados na suíte do hotel. A gravação demorou por dois motivos, com culpa do enigmático Roberto. Uma porque sua moeda de estimação caiu no chão e fomos achá-la debaixo do armário, após muito procurar. Não gravaria se não a achasse. A outra porque ele, Roberto, grava e ouve mais de três vezes a mesma coisa. Já devia ser o tal do TOC. Por mais que explicássemos o tom de voz, Roberto não acertou. Para mim foi de propósito. Mas jogamos no ar assim mesmo!
 
Ainda a Rádio Capixaba
 
Rita Lee – No auge, Rita Lee veio a Vitória e foi ate a rádio ser entrevistada. Ela viu as ruínas da Cúria Diocesana que tem ali e quis ir ver de perto. Levei-a até essas ruínas (fundos da rádio) e ela ficou maravilhada. Quis até bater foto. Gente muito boa, a Rita Lee.
 
Hélio Ribeiro – Em um Congresso da Abert, em Brasília, encontramos com o mito Hélio Ribeiro. Conversamos muito e temos uma foto que aparece ele, eu, Jairo, meu tio Jose Américo e Idalécio Carone; esses dois estavam pela Rádio Cachoeiro ZYL-9.
 
O rádio
 
Lembro-me que sentávamos na portaria da rádio (era uma espécie de convento), de frente para a rua onde se via o cruzamento da Gama Rosa com a Dom Fernando e a Caramuru, Cidade Alta, e ficávamos ouvindo o programa de Hélio Ribeiro na Rádio Bandeirantes, através de um potente aparelho “transglobe”, ao lado de Guilherme Amorim. 
 
Ângelo Ribeiro – Ângelo aparecia para transmitir alguns jogos de futebol através da Capixaba. Anjão (como o chamamos) sempre foi inquieto. Todos sabiam que era maquinista da Vale do Rio Doce.  Essa história muitos conhecem: uma vez, escalado para uma viagem de trem e com um jogo para transmitir que ele mesmo havia vendido o patrocínio, Ângelo fez acontecer o inusitado. A linha passava ao lado do campo onde teria o jogo. O que fez Ângelo Ribeiro? Veio conduzindo o trem e quando chegou rente ao muro do estádio, parou o comboio (de minério) e transmitiu o jogo de cima da locomotiva. Os equipamentos já estavam no campo. Foi tudo bem, tudo certo!
 
Foi ele que “lançou” gente como o Jarzinho (Jair Oliveira), que depois veio a ser um baluarte na crônica esportiva capixaba. Também Adílson Caldas, um bom repórter esportivo de campo.
 
Aylor Barbosa – Baseado na Rádio Globo e seu famoso carro de externa no Rio (na época), Jairo Maia quis colocar um carro nas ruas. Nenhuma emissora praticava esse serviço aqui em Vitória.
 
Para tal, entrou em contato no Rio com o radialista Aylor Barbosa, que fazia esse trabalho na Tupi. Aylor aceitou vir para Vitória, se hospedando no Hotel Minister, no Parque Moscoso. 
 
Um dia, Pedro Vidigal instalava um rádio transmissor numa Kombi velha da própria rádio. Até Jairo Maia comprar um fusca, era esse o carro de externa da Capixaba. Eu, vendo o símbolo da antiga rádio ostentado na porta da Kombi, atinei logo para o nome desse trabalho. Nas portas tinha desenhado uma águia de asas abertas.
 
Baseado nessa águia, que do alto tudo vê, à distância que for, batizamos Aylor como o Águia da Colina. E pegou.
 
Mais uma vez, Hélio Ribeiro inspirava a gente. Lá ele tinha o helicóptero da Bandeirantes com o repórter voador Fraz Neto. Lembro-me bem.
 
Rui Monte – o repórter vivo, muito vivo
 
Ele tinha acabado de chegar do Rio, e a dupla Jairo Maia e Jefferson Dalla deu uma oportunidade a ele como repórter esportivo. Dei logo um horário para ele com o nome de Fatos Esportivos, programa na parte da programação noturna da Capixaba.  
 
Sempre chorão, um dia Rui Monte aparece na sala dizendo que precisava de roupas novas. Eu, sabendo que João Havelange, recém-empossado presidente da Fifa, estaria em Vitória, disse ao Rui Monte que se ele trouxesse uma entrevista com João Havelange, daria as roupas. 
 
Rui foi para o aeroporto, e mesmo debaixo de chuva ficou esperando o jatinho do homem. Ninguém da imprensa, só ele. Assim que a aeronave parou, Rui correu e entrou no avião, mas foi barrado, lógico, mas por sorte, João Havelange estava sentado logo na frente e viu tudo, talvez compadecido de Rui Monte estar todo molhado e com o gravador nas mãos, ordenou ao pessoal que deixasse Rui entrar. Rui fez a entrevista com exclusividade.
 
No dia seguinte aparece ele na rádio com o gravador e a entrevista. Colocamos no ar e eu o apelidei do Repórter vivo, muito vivo, sendo que carregou esse slogan por muito tempo. Bom profissional o Rui Monte! 
 
Dom João Batista da Mota e Albuquerque
 
Já sob o comando de Jairo Maia, a rádio continuava nas dependências da Cúria na Cidade Alta. Dom João, já quase aposentado, fazia ainda a Ave Maria das 18 horas na rádio. Sempre simpático e brincando com a gente. Uma vez ele descobriu que eu fazia aniversário naquele dia e disse que poderia emprestar sua capela particular para eu agradecer a vida. Fui e todo ano fiz a mesma coisa até ele morrer. Lembro muito de Dom João, com aqueles cabelos brancos, feições bem feitas e uma simpatia de fé. Mais uma vez fui um privilegiado.
 
 
   SIMPLIFICAÇÃO: Este é o mote.                                                                                                             
Faça simples.                                                                                           
    
                                                                                                                                                                    Peter Drucker
 

No próximo sábado, no capítulo seis:  Fase Escelsa e Rádio Capixaba de Hugo Borges.

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