Seculo

 

Cultura capixaba perde um de seus baluartes


10/07/2018 às 17:55
Texto: Enio Ardohain
Fotos: Ratão Diniz
A cultura capixaba perdeu nessa segunda-feira (9) um de seus baluartes. Hamilton de Oliveira dos Santos, o Miltinho, brincava há duas décadas no Ticumbi de São Benedito e, desde a passagem de finado Júlio, assumiu a segunda voz na guia, puxando o cordão de congos, ombro a ombro com Mestre Tertolino Balbino.
“Quando Júlio faleceu eu estava internado em Linhares e só soube do ocorrido quando voltei pra Conceição da Barra”, lembra Terto. O mestre do Baile de Congo de São Benedito chamou uma reunião do grupo e decidiu que, dali por diante, Miltinho seria seu par à frente do baile. “Ataíde, irmão de Júlio, queria brincar comigo na guia, mas escolhi Miltinho por causa da voz”, explica.
Quem ouviu a dupla cantando nas muitas manhãs de primeiro de janeiro em frente à Igreja de São Benedito entende bem a escolha de Terto. Dono de uma voz afinadíssima e uma memória privilegiada, Miltinho cantava e bailava em perfeita harmonia com o Mestre, seguindo os versos e entoando as sílabas poéticas com o trinir de um rouxinol. Mas ele não se limitava ao cordão de congos. 
Brincante de alma libertária, adorava um furdunço e estava sempre pronto pra uma seresta, um Samba de São Benedito ou um Forró de Sapezeiro. “Era meu parceiro no forró”, lembra Berto Florentino, mestre atual do Ticumbi, com quem revezava sanfonas e pandeiros em noites de Ensaio-Geral.
Para ele, sanfona era a de oito baixos. Sentia-se mais confortável com ela mas, se precisasse, tocava também o acordeom, com seus 120 baixos. “Quando a gente precisava, estando disponível, Miltinho vinha socorrer a gente na sanfona”, conta Nilo Barbosa, mestre do Reis de Boi. Sistemático com suas coisas, Miltinho tinha dois pandeiros: um para as serestas e forrós de sapezeiro, o outro apenas para São Benedito.
Amigo atencioso, tratava a todos por “meu santo” ou “minha santa”, sempre preocupado com o bem-estar do próximo. “Tá bem de saúde, meu santo?” Perguntava sempre ao primeiro encontro.
Foi bem a saúde que lhe faltou. Dias depois de completar 81 anos, em 15 de junho, Miltinho foi levado ao hospital, em Colatina, para tratar uma dor abdominal e não conseguiu vencer as complicações da moléstia. Ele deixa viúva dona Leocádia Almeida Santos e os filhos Marinete, Ivanete, Ozimar, Lucimar e Nilton.
Para os amantes da cultura capixaba, fica uma imensa tristeza, a saudade e o vazio de um sorriso menino e brincalhão, que vinha sempre acompanhado do bordão “debreia”, que ele dizia amiúde com os mais diversos significados. O cordão do céu ganha mais um brincante para os festejos de São Benedito.

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