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Feu Rosa se prepara para um dos maiores festivais de graffiti do Brasil


11/07/2018 às 10:42

Foto: Paradise

Os muros cheios de arte voltaram a ser brancos. Desta vez não foi mais uma ação desastrada do prefeito paulistano João Dória ou da Prefeitura da Serra. Mas a preparação de um novo ciclo em Feu Rosa. Na próxima semana os muros receberão novas pinturas. Há três anos, o bairro serrano se enche de arte e artistas para a realização do Origraffes - Original Graffiti do Espírito Santo, um festival de graffiti e hip hop que já entrou no calendário nacional de eventos da cena. Com início na próxima segunda-feira (16), o evento segue até o domingo (22), tendo como auge o final de semana, repleto de atividades. 

Neste ano serão 140 artistas colorindo o bairro num raio de 250 metros da Praça Central de Feu Rosa. “Como são muitas pessoas, o Festival se reserva ao direito de realizar uma curadoria. Este ano foram mais de 450 inscrições de todo país. Mas sempre aparecem pessoas que não estão na lista, somando e potencializando o festival, pois entendemos que o graffiti não se restringe a um nome em uma lista e sim no intercâmbio, na amizade, no poder de ressocialização e transformação que a linguagem oferece”, explica Starley Bonfim, idealizador e produtor do festival.

São artistas de 15 estados do Brasil que estarão presentes. Para Starley, isso diz muito sobre o Espírito Santo: “Acredito que a iniciativa mostra a autonomia e poder de articulação nacional que o cenário cultural capixaba tem. Pessoas de todas as regiões do Brasil se deslocam para um município com lamentáveis índices de violência em um bairro estigmatizado por estes dados, na intenção de desmistificar alguns estereótipos, além de atingir a comunidade de uma forma muito impactante, movimentando o comércio local”. 

O Origraffes vai além da pintura dos murais coletivos. Haverá palestras e workshops, que buscam fortalecer a formação dos agentes culturais e da comunidade, além de batalha de MCs, batalha de break, slam, shows, DJs. “O Festival tem um grande impacto no sentido cultural para Feu Rosa, pois ajuda a desmistificar o que a mídia convencional às vezes tenta enfatizar sobre bairros populares e periféricos. A violência sempre é o carro-chefe de várias noticiários, como se apenas isso existisse na comunidade, deixando de lado muitas vezes as potencialidades culturais, artísticas e esportivas que movimentam o bairro”, analisa Starley, que é morador de Feu Rosa, local que possui tradição na cena da cultura urbana.

É justamente o trabalho de anos no local que permite a articulação de um evento deste porte no bairro, por meio de parcerias concretizadas no território. “Querendo ou não os participantes estão sob nossa ‘tutela’ nesses três dias. Conhecendo a área fica mais confortável lidar com tantas pessoas reunidas em um mesmo local, além do alojamento ser bem próximo do evento”, diz Starley.

Ele explica que para realizar o mesmo trabalho em outros territórios precisaria de uma construção de vários meses, que embora não seja impossível, não há condições e equipamentos para arcar com algo itinerante no momento. “Mas acredito que o evento sirva para projetar e estimular iniciativas similares em outras localidades”.

O festival nasceu na verdade de maneira despretensiosa a partir do coletivo FG Crew, do qual Starley faz parte, com a sobra de materiais em spray de projetos anteriores. “Após um momento de reflexão, cheguei à conclusão que essas latas poderiam potencializar algo bem maior. Inicialmente a ideia era botar uma caixa de som na rua, fazer um churrasco e chamar os amigos para pintar. Em seguida socializei a ideia com o coletivo e geral abraçou”.

Foi o pontapé para que o encontro virasse festival, incorporando outros elementos da cultura hip hop, como o break dance, o MC, o DJ, além de exibição de documentários. Outro ponto de destaque é o fato das atividades ajudarem na movimentação cultural da Serra, já que Vitória tem sido o principal eixo aglutinador das iniciativas culturais em geral, mesmo aquelas ligadas às juventudes periféricas.

Starley diz que às vezes ainda se assusta ao parar para pensar na dimensão do que estão fazendo, mas considera que ainda se trate de um projeto embrionário. “O Origraffes se legitima como um evento relevante no cenário nacional, mas ainda há muito a ser feito. No momento considero a iniciativa como algo se mantém do esforço coletivo e quanto mais pessoas partilharem da nossa força, mais o evento irá se consolidar, crescer e agregar outras linguagens e quem sabe até se deslocar para outros municípios somando com o repertório cultural existente, com muito respeito, pedindo licença, ‘tirando o chinelo e limpando o pé no tapete’, se instituindo de vez como ‘Original Graffiti Espírito Santo’”, conclui, se referindo ao nome que deu origem à sigla do evento.

Dizem que um muro em banco representa um povo mudo. Mas em Feu Rosa, as paredes costumam gritar.

AGENDA CULTURAL
Festival Origraffes - Original Graffiti Espírito Santo
Onde: Praça Central do bairro Feu Rosa - Serra/ES
Quando: 16 a 22 de julho
Mais informações: https://www.facebook.com/origraffes 

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