Seculo

 

Rede na varanda


01/08/2012 às 10:18

 

Nossos profundos sentimentos a quem mora em apartamento. Nessas tardes frescas de inverno, as receitas de vida longa e felicidade eterna recomendam uma rede na varanda. Mas não valem varandas de apartamento; estas são debuxos melancólicos de suas irmãs caseiras; são frias e impessoais; e costumam dar para paredes vizinhas, janelas vizinhas, copa, cozinha, sala, quarto e intimidades vizinhas.
 
As mesmas receitas recomendam que homens, mulheres e crianças esparramem seus corpos por toda a extensão de uma rede na varanda. Dos oito aos oitenta a vida hoje não absolve ninguém. Daí a importância de uma rede na varanda. O sofá da sala lhe espera; mas o controle da TV também lhe faz plantão.
 
Se o anjinho sapeca da tentação lhe espicaçar a alma, solicite reforço: provenha-se de um livro, um mp3 player ou um chá de hortelã (quente). E siga para a rede na varanda que vai ficar tudo bem, prometo. Obs.: extraordinariamente a dica vale tanto para quem tem por lar um apê ou uma casa - os momentos mais agudos da vida não permitem discriminações de tal natureza.
 
Isso não é uma apologia à preguiça; é uma elegia à vida. A rede na varanda dá para a rua – isso se você não mora numa dessas fortalezas modernas. Você pode distribuir seu corpo de modo a lhe permitir a observação da vida ao entorno, o vizinho que passa, a folha que cai, o chato do marimbondo que voa cada vez mais perto e ferroada de marimbondo não é legal...
 
Não obstante os marimbondos - que Jah os proteja e a nós não desampare - rede na varanda é um inegável refúgio de vida. Você pode se acomodar com sua querida barriga para cima e desfrutar o céu lá em cima. Tomara ainda que haja urubus; às vezes eles voam em altitudes tão insondáveis que lembram inanimados risquinhos negros fazendo cócegas nos pios pés do Criador.
 
Se a vista dá para oeste, tanto melhor. Se o dia for aberto, você verá a tarde minguando. Quando o sol começa a se esconder atrás das casas, árvores e morros, a borda do horizonte ganha um tom esparsamente branco; parece que o decorrer da tarde não é nada mais que um lento processo de empalidecimento do frágil azul do céu de inverno. Ali o dia cerra os olhos e, como bom filho de Deus, vai dormir.
 
Se o dia estiver nublado - coisa mais natural no inverno - tanto faz que sua varanda contemple o leste ou o oeste. As nuvens são boas amigas. Portanto, meu amigo, minha amiga, se você tem casa e, ainda por cima, uma rede na varanda, nossos cumprimentos. Percalços existem para todos; mas a nós, especialmente, a vida nos será boa e suave.

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