As primeiras artes de Luizah Dantas nas paredes da casa de Branca

As primeiras artes de Luizah Dantas nas paredes da casa de Branca

Em posts anteriores, andei lembrando o ano de 1969 por causa dos Mamíferos. As lembranças desse ano me obrigam a fazer uma correção. No primeiro texto que escrevi sobre minha mãe, havia dito que os primeiros sinais de suas mudanças de gosto e interesses tinha a ver com as mudanças na decoração da casa dela e com o pôster de Caetano na parede da sala maior, da época que ele gravou o LP Transa. Mas Transa foi lançado em janeiro de 1972. E agora lembro que as mudanças no interior da casa começaram antes, começaram quando suas paredes foram sendo decoradas com as primeiras pinturas de Luizah Dantas, então uma muito jovem estudante de Artes Plásticas da Ufes. E isso começou em 1969, com certeza.

Sei que era 1969, pois achava curiosa a forma como Luizah anotava o ano da obra ao lado de sua assinatura, no canto inferior direito da tela. Ela desenhava um círculo e puxava uma perna para cima e outra para baixo, formando os números 6 e 9 unidos na mesma volta. Lembro de um quadro em especial, com pessoas em vota de mesa de refeição que, para mim, remetia a “Panis et Circense “ uma música de Caetano e Gil gravada por Os Mutantes, em disco lançado um ano antes, mas que ainda fazia sucesso em 1969.

A praia do Sacre-Couer

Luizah conheceu minha mãe de uma forma parecida de como foi com Marco Antônio Grijó, uma forma que mostra um jeito de Branca de fazer amigos e um pouco da personalidade dela, curiosa, interessada e espontânea. O encontro com Luizah também foi casual e ocorreu em outro ambiente que Branca adorava frequentar, além da loja de disco de Jairo Maia: a praia.

“Conheci Branca em fevereiro de 1969 , lembrou Luizah. “Foi na praia do Colégio Sacre Couer. Ela chegou com vocês [os filhos] e puxou conversa. Era expansiva. Eu falei de um quadro que havia pintado e reproduzi na areia da praia. Ela disse: é meu, quero ele. Foi a primeira pessoa que comprou uma obra minha”.

Branca convidou Luizah para ir à praia novamente no dia seguinte. “’Vamos conversar mais’, ela me disse. E depois me convidou a sua casa. Branca era muito comunicativa. Fiquei louca quando cheguei e vi tantos livros.” Os amigos de minha mãe em geral eram mais novos, às vezes bem mais novos, do que ela. Luizah tinha 18 anos na época e minha mãe já tinha seus quatro filhos.

Noites adentro

Depois da praia, Luizah passou a frequentar a casa. “Nós sentávamos para conversar. Eu, Branca, Victor, Carmélia, Rogério Coimbra, Toninho Rosseti e discutíamos o que estava acontecendo dentro da arte no mundo – no teatro, na música, no cinema. Os beatniks ainda estavam em voga e liam-se poemas de Ginsberg. Branca gostava especialmente de um poema do Ginsberg – The Animals.” Luisah já conhecia Rogério Coimbra da Praia do Canto, onde ambos moravam, dos tempos que pegavam o mesmo ônibus a caminho da escola. Voltou a encontrá-lo na casa de Branca, assim como encontrou também Afonso Abreu, Mário Rui, Marco Antônio Grijó e Marinho Celestino, personagens de textos passados. “Sua mãe deu uma força para Marinho fantástico. Foi ela que levou ele para Paris.”

Marco Antônio Grijó lembra que a casa de Branca era uma das melhores opções na cidade para encontrar movimento interessante e fora do agito juvenil do centro da cidade. “Íamos muito à praia e depois íamos à casa de Branca, que era um lugar sempre em movimento de pessoas amigas falando e fazendo arte. Fora isso, não havia muito que fazer na cidade.”

A impressão de Luizah sobre Vitória daqueles anos é um pouco diferente das impressões de Marco Antônio, que diz não haver muitas opções na cidade. É natural que Marco Antônio tivesse esta impressão, pois vinha de uma experiência de vida paulista, onde tocara na noite paulistana com músicos profissionais que foram base de sua formação musical. Mas para Luizah, que ainda não tinha ganhado mundo como faria mais tarde, Vitória era ótima. “Tinha todos os cinemas funcionando. Juparanã, Odeon, São Luiz, Santa Cecília. E tinha festivais de filmes franceses, filmes alemães etc. Eu ia com sua mãe e depois íamos para o Bar Santos, o Mar e Terra, o Britz Bar.” Nas lembranças de Luizah, havia em Vitória uma boa oferta cultural na cidade e, quando não, sempre havia a casa de Branca.

A casa era como um pólo cultural, por reunir aquelas pessoas e pelas conversas. “Aprendi muita coisa com sua mãe e seu pai. Éramos amigos para caramba. A gente conversava até às quatro horas da manhã. A gente ficava o dia inteiro lá, tomava banho e voltava. Sua mãe sempre tinha um programa para sugerir. ‘Hoje vai passar um filme do Goddard.’ Então íamos a casa e conversamos sobre o cinema do Goddard. Já íamos para o cinema de cabeça feita. Depois do filme íamos conversar sobre o que tínhamos assistido.“

Branca e o cinema

O cinema foi outra das muitas paixões de Branca. Seu envolvimento com a Sétima Arte se deu não só como atriz, mas ainda como a crítica de cinema no jornal O Diário entre as décadas de 1960 e 1970. Mas este é um assunto para post futuro. Para não me alongar aqui, fecho o texto com outras impressões de Luizah Dantas sobre Vitória daquela época na casa de Branca:

“Éramos felizes e não sabíamos. A gente ficava muito à vontade, entre amigos, sem hora de almoço, sem hora de ir embora. Hoje não é assim. É mais tenso e pouco frequentamos as casas uns de outros”.

Branca, Marco Antônio e Jairo Maia, melhor a loja de discos de Vitória

Branca, Marco Antônio e Jairo Maia, melhor a loja de discos de Vitória

Os escritos sobre a saga mamífera vão se encerrando por aqui. Mas antes que o faça, vou pegar carona algumas lembranças dessa saga para voltar a Branca. E vou aproveitar a lembrança de Marco Antônio Grijó, o baterista da banda, que me contou como conheceu minha mãe e passou a frequentar a casa dela no morro do Barro Vermelho.

Em 1967, Vitória contava cerca de 100 mil habitantes e a vida social da cidade, ou pelo menos seu maior movimento, se concentrava no seu hoje centro histórico, sobretudo nos cinemas localizados ao longo da Avenida Jerônimo Monteiro e suas transversais, e nas lojas, bares e lanchonetes da Rua Sete de Setembro e seu entorno. Ali era a região do comércio chic e do lazer da ilha, e onde se reuniam jovens que se divertiam embalados e inspirados pela música, moda e comportamento que vinham pela televisão.  Naquela época, as novidades vinham da TV, que afirmava seu domínio sobre o cotidiano das famílias e os costumes das pessoas, sobretudo daqueles que eram jovens assim como a televisão, que completava pouco mais 20 anos no Brasil.

É certo que 1967 foi um ano rico para a música popular brasileira e muito disso se deve à televisão. Foi o ano do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, que apresentou para o Brasil “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”, dos pré-tropicalistas e ainda comportados Caetano Veloso e Gilberto Gil, canções que inovaram a MPB e grandes sucessos daquele ano cheio de sucessos musicais. Mas o fato não modificou a cena na Rua Sete, que era frequentada pelas moças e rapazes que amavam os Beatles, Roberto, Erasmo, Renato e seus Blue Caps e aos sábados marcavam ponto na Lanchonete Sete, local da balada da juventude classe média da época. É claro que invariavelmente, aconteciam brigas entre turmas de playboys que queriam marcar território e exibir virilidade para os brotos assustados.

“Vai lá em casa”

Marco Antônio Grijó não se interessava pela música da Jovem Guarda nem por brigas. Recém-chegado de Santos, a cidade em que nasceu filho de mãe de família santista e pai capixaba, Marco, apesar de muito jovem, já era músico experiente que tocara na noite paulista com músicos profissionais mais ligados à Bossa Nova e ao jazz do que às baladas pop rock que dominavam o som das rádios e TVs do país. Em 1967 ele veio viver em Vitória em definitivo, depois de idas e vindas entre as duas cidades, e foi morar com as irmãs de seu pai, na Rua Sete, rua que era endereço também da Jairo Maia Discos, onde Marco Antônio encontrou Branca Santos Neves pela primeira vez.

Jairo Maia, além de radialista de grande audiência, tinha a melhor casa de discos de Vitória e era lá que podiam ser encontrados outros sons e não só a música juvenil que predominava nas rádios e na televisão. Na Jairo Maia, podiam ser encontrados discos de jazz, estilo de pouca audiência na cidade. “Não era comum ver pessoas comprando discos de jazz em Vitória naquela época, muito menos uma mulher. Isso me chamou atenção”, lembra Marco. Trocaram impressões sobre Wynton Kelly Trio, o disco que ela tinha em mãos. Branca tinha pouco mais de trinta anos e quatro filhos. Marco Antônio era um rapaz de vinte e um.

O gosto comum pelo Jazz foi pretexto suficiente para minha mãe fazer o convite que ela sempre fazia quando simpatizava e sentia afinidades com alguém, ainda que tivesse acabado de conhecer: “vai lá em casa”. E Marco Antônio foi naquele mesmo dia, à noite, levado por Afonso Abreu, que já conhecia e frequentava a casa dela.

Casa cheia

Desconfio que esse interesse espontâneo de minha mãe por pessoas que mostravam alguma afinidade de gostos com ela e sua abertura para novas amizades é que manteve nossa casa sempre movimentada e cheia de amigos, um vai e vem de gente de manhã, mais principalmente a partir dos fins de tarde, depois do expediente, e noite adentro.

A Praia do Canto de então, ao contrário do centro, tinha ritmo lento, de pouco comércio, sem agências bancárias e cinemas, com ruas de paralelepípedos. E ficava realmente no canto da cidade, no extremo norte da ilha. Os bairros continentais como Jardim da Penha, Mata da Praia e Jardim Camburi nem sequer existiam. Em Camburi, via-se uma ou outra construção. Era então um areal coberto de mata de restinga e cortado por uma estrada de mão dupla que beirava a praia. A via é hoje a movimentada Avenida Dante Michelini, que engarrafa todos os dias úteis da semana a partir das seis da tarde, a hora do rush.

Mas naquela época, como anotou Álvaro Abreu, no volume 19 da coleção “Escritos de Vitória, o tempo passava mais devagar, “ficava-se tardes inteiras e noite adentro conversando ao som do jazz, nas casas de Rogério Coimbra, de Victor e Branquinha Santos Neves e de Ronaldo Alves, felizes proprietários de modernos equipamentos de som e discos importados”.

Depois da praia

Marco Antônio lembra que não havia muito o que fazer em Vitória, então, a casa de Branca e Victor era sempre uma opção para encontrar novidades e pessoas com os mesmos gostos e afinidades musicais, literárias e cinematográficas. E minha mãe era uma pessoa que gostava muito de conversar. “Sou de família de mulheres. A intimidade com Branca talvez tenha a ver com isso. Ela era uma pessoa com quem trocávamos confidências”, lembra Marco, que se sentiu à vontade naquela casa e passou a frequentá-la. “Nos fins de tarde e nos fins de semana, depois da praia, era para lá que íamos todos.”

***

Marco tem jeito especial de me chamar: “Má”. Sempre gostei. Nas vezes em que cruzo a esquina da Rua Graciano Neves com a Rua Professor Baltazar e escuto “Má”, já sei, é Marco Antônio tomando uma cervejinha no bar do Gegê, que fica ali pertinho de seu apartamento, que é justamente no Edifício Valverde, endereço da galeria de mesmo nome que um dia abrigou a Jairo Maia Discos.

Uma noite mamífera – o epílogo

Uma noite mamífera – o epílogo

Antes de mais nada, peço desculpas pela minha falta. Que coisa feia, intervalar sem maiores explicações. Mas explico breve: questão de tarefas extras e exigentes. Mas volto ao fio da meada, que deixei solto. E nem ia falar do que vou falar aqui, neste post atrasado. Até achei que ia partir para outros assuntos e outras lembranças de Branca. Mas o fato é que na quarta-feira da semana passada, dia 9 de novembro, aconteceu o show da banda Aurora Gordon e o lançamento do livro “Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular”, do professor e escritor Francisco Grijó, no Teatro da Ufes, dois eventos que comemoraram os 50 anos dos Mamíferos. E assim a saga mamífera continua, e por bons motivos, gosto e prazer. O show foi ótimo, com o Aurora Gordon e participação preciosa de André Prando interpretando o repertório dos Mamíferos; o livro é importante para a historiografia da cultura e da arte capixaba e pelo prazer da leitura; e o assunto me é especial. Foi uma noite em que encontrei muita gente, muitos amigos, que fizeram essa história agora comemorada e contada em livro.

Todos esses eventos são parte do Aurora Gordon, que além de nome da banda de música é um projeto maior de memória e preservação, produção e criação artística e é nele que se inserem Francisco Grijó e sua crônica biográfica da saga dos Mamíferos. O livro é dividido em duas partes, além do prólogo e do epílogo com textos e letras de autoria dos personagens retratados no livro. Aliás, mais que personagens, são personalidades que Grijó retrata no perfil e na história de todos que participaram da banda, seja como músicos, seja como autores.

O livro

A primeira parte do livro é dividida em oito capítulos, um para cada participante. Nos títulos dos capítulos, o autor colocou uma qualidade que de certa forma sintetiza a personalidade e o papel de cada um na banda. Afonso Abreu é o líder, Marco Antônio Grijó, o profissional; Mário Ruy, as cordas; Aprígio Lyrio, a voz; Arlindo Castro, a palavra; Paulo Branco, o rock; Rogério Coimbra, a produção; e Sérgio Regis, a letra. São estes enfim, o menino dos Mamíferos como diria Branca. Mas há muitas outras pessoas que passam pelo livro e direta ou indiretamente passaram pela trajetória meteórica da banda, que surgiu em 1966 e findou em 1971. Foi pouco, mas fez barulho danado como o livro mostra.

Mas os títulos dos capítulos são só uma pista, pois cada capítulo revela um pouco da formação, interesse e histórias acontecidas com e entre seus personagens e vai além. O livro do Grijó lança um olhar revelador de uma época que foi criativa e contestatória em quase todo mundo e aqui em Vitória também. É sobre essa época e seu contexto que o livro passeia numa perspectiva não só local, mas também brasileira, retratando e refletindo de maneira crítica sobre o momento social, político, econômico e ideológico em que os Mamíferos surgem.

Na segunda parte do livro, o contexto da época fica ainda mais revelador quando trata de dois eventos que sacudiram a cena cultural capixaba, os festivais capixabas de MPB e Festival de Verão de Guarapari, este último um mistura de música e desbunde, polícia e repressão, acidentes e desorganização e principalmente, que marcou o fim da banda Mamíferos.

O livro “Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular” foi escrito a partir de dezenas de entrevistas e minuciosa pesquisa documental, que formam um retrato detalhado de uma época e por meio de texto que aproxima o leitor de personagens e de um tempo interessante em Vitória.

Eu, Ronaldo e Chico Lessa

Nesta noite comemorativa tive ainda um privilégio que aconteceu por puro acaso. Foi por coincidência que, ao descer para a cantina do cine Metrópoles, encontrei no caminho Chico Lessa acompanhado de Ronaldo Alves, que chegavam para o evento.  Chico e Ronaldo são os autores da antológica “Cosmorama Total”, canção com que os Mamíferos causaram no II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira (fato contato em detalhes no livro do Grijó) e inauguraram a modernidade na cultura capixaba. A canção não teve registro material e quase se perdeu na memória do próprio autor. Chico me contou que teve que recorrer a Afonso para lembrar a melodia, pelo menos partes dela, e assim recuperar a música.

Mas o que eu queria contar foi que Chico tocou para mim ali mesmo pelo caminho sua versão mais melodiosa de Cosmorama Total, que na noite do II Festival Capixaba de MPB, tinha se transformado num rock pesado na versão mamífera. Então era eu com Ronaldo e Chico numa audição exclusiva e recuperada da música que marcou época e fez história com os Mamíferos. Foi bom à beça, Chico Lessa.

A contracultura na ilha – Mamíferos, parte III

A contracultura na ilha – Mamíferos, parte III

Na época em que os Mamíferos surgiram, o contexto social mundial do lado ocidental estava mais ou menos assim: “Os jovens de hoje parecem querer expressar-se de todas as formas e em todos os setores. Em todo canto a juventude moderna se insurge, presentemente contra o mundo que chamam de ‘quadrado’”. A citação que anuncia a insurgência dos jovens contra o mundo “quadrado”, é um trecho do lead da matéria escrita por Maura Fraga e publicada em edição do jornal O Diário de novembro de 1969. Já de início, Maura constatava (ou acreditava) que “Vitória, como não poderia deixar de ser, também sofre (sic) com este fenômeno: os jovens daqui não são diferentes dos de outros mundos.” E a prova disso era o trio formado por Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó e Mário Ruy Nogueira: “inconformados com a velha regra que a seu ver dominava nosso ambiente, um grupo de jovens criou um conjunto rebelde e que se tornou em pouco tempo motivo para muitas discussões: Os Mamíferos.”

A matéria n’O Diário foi publicada dois meses depois da apresentação dos Mamíferos no II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, quando a banda sacudiu e dividiu o público com a performance em “Cosmorama Total”, composição de Chico Lessa e Ronaldo Alves, interpretada “insanamente” por Aprígio Lyrio, que ocupava o vocal do grupo naquela ocasião, episódio narrado em post anterior.

A Contracultura

O texto de Maura e outros textos dão uma ideia de que controvérsias culturais e comportamentais agitavam o mundo e a ilha nas revolucionárias décadas de 1960 e 1970. E os Mamíferos seria a prova de que a contracultura chegara também a Vitória.

Um parêntese:

Contracultura: substantivo feminino – diz-se da mentalidade dos que rejeitam e questionam valores e práticas da cultura dominante da qual fazem parte (Google).

Inicialmente um movimento filosófico com marco no existencialismo de Jean Paul Sartre, reverberou na arte e no comportamental da Beat Generation, que, por sua vez, resultaria no movimento hippie (Wikipédia).

Esses movimentos contestatórios chegaram ao Brasil dando origem à “Tropicália”, movimento musical que inovou a música popular brasileira, trazendo em suas letras versos irreverentes. Em suas roupas e estilos também havia a influência do estilo hippie (Brasilescola).

De fato, a banda foi formada por garotos que amavam os beatniks, os Rolling Stones, o Jazz, Caetano e Gil, Tom e sustenidos. “Eles foram (…) a grande célula de uma obra musical surrealista, para marcar o absurdo de uma época”, escreveu Sandra Aguiar, em matéria de novembro de 1986, em A Tribuna, que relembrava os 20 anos do surgimento da banda.

O que havia diferente em os Mamíferos era que, enquanto aqui predominavam os chamados “conjuntos de baile” que se contentavam em tocar música padrão “aceitável” e já incorporada ao gosto comum, como samba, boleros e bossa nova, eles traziam uma proposta de um som contemporâneo, autoral, antenado com o que havia de mais experimental e ousado na música aqui e lá fora. “Música de vanguarda”, com se dizia na época, ao som de guitarras distorcidas e “com letras que não eram usuais aos padrões dos letristas da época”, como anotou Willis Machado, no artigo “Os Mamíferos contra o tédio”, na Gazeta de março de 1970.

Era muito para a conservadora Vitória e dividiu muita gente. Nos festivais dos quais participaram, os Mamíferos conseguiam tirar dos jurados o mesmo número de notas dez e zero, como lembrou Afonso na matéria de Sandra. Ou seja, os Mamíferos conseguiram dividir públicos, gostos, críticas e vontades, boas e más. Na mesma matéria, Marco Antônio admite que apesar de todo o barulho em torno do grupo, os Mamíferos queriam apenas “ser bons instrumentistas”, mas “com toda a irreverência” que aquelas décadas inspiravam.

Na ilha, a viola e lua

Sobre a formação musical dos músicos e parceiros dos Mamíferos, deixo que outras publicações que virão, como o livro “Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular”, de Francisco Grijó, contem melhor e com mais detalhe. Não cabe aqui neste post, que é também propósito para introduzir as mudanças na casa de Branca, que agora me lembro melhor, começou antes do pôster de Caetano no fundo da sala maior. Creio que começou em 1969, ano em que o som dos Mamíferos abalou Vitória.

Mas para finalizar este texto e dar um pouco mais do clima da época, reproduzo dois textos que exemplificam a incompreensão e a intolerância de muitos em relação ao som dos Mamíferos, reações que mereceram uma queixa de Afonso. Em artigo em O Diário, intitulado a propósito “As hienas dos festivais” ele desabafava: “estou falando aos fariseus coisa muito séria e moderna, ela toca e corrói os tímpanos dos que ouvem somente as velhas liras (…) Músicos, poetas, vocês pararam numa tremenda acomodação, eu não, eu sou eterno pesquisador acossado, sempre, por uma nova sede. (…) Hoje estou muito farto dessa viola, dessa lua, dessas concessões tão irrisórias.”

Com carinho e solidariedade, Carmélia Maria de Souza consola Afonso da melhor forma que ela poderia fazer, escrevendo uma crônica para ele.

“Afonso, meu irmão:

É verdade que o tempo, que era bom, foi passando.

Mas é verdade também que a nossa viola continuou. É a mesma viola que ontem chorava canções baixinho nas nossas serestas de beira de praia embalando as nossas conversas e os nossos silêncios das noites de verão, banhados pela luz das estrelas ou da lua cheia que eram sempre imensas sobre nós.

E eu juro a você, do alto do meu perdão, que as estrelas se multiplicaram no céu da madrugada. Embora os sonhos, alguns sonhos, se tenham desmanchado e se continuado no sopro violento das hienas dos festivais.

Mas há o nosso tempo, companheiro. Sempre haverá, na vida e em nós, UM tempo. E basta.

 

Impossível falar de Vitória dos anos 1960 e 1970 sem lembrar Carmélia M. de Souza.

Uma noite no Livepub com Afonso Abreu e amigos, muitos amigos

Uma noite no Livepub com Afonso Abreu e amigos, muitos amigos

No dia 14 de setembro, quarta-feira da semana passada, revi e ouvi o trio original dos Mamíferos tocando juntos outra vez.  Fui assistir Afonso Abreu e convidados no show comemorativo “Afonso Abreu – 70 anos”, ideia que segundo ele, “foi sacanagem do Murilo”, seu filho e produtor. “Quem gosta de comemorar 70 anos? E depois eu só faço aniversário no dia 18”, informou. Afonso estava de ótimo humor, cercado de amigos e atrasado.

– Como sempre –, disse Marco Antônio Grijó, o que sempre chega cedo. “Compromisso é compromisso”. Mas ele deve estar acostumado, afinal são 50 anos fazendo música e dividindo palcos com Afonso.

E depois de muitos anos, revi Mário Ruy, que sempre foi magro e continua. Fácil reconhecê-lo, apesar de tanto tempo. “Bom tempo”, foi o que ele me disse e não se referia apenas ao tempo decorrido, mas sim ao tempo do início. Mário Ruy foi um dos amigos convidados para tocar com Afonso naquela noite. Outro que se apresentou com Afonso foi Gabriel Grossi, um dos maiores representantes da harmônica e que integra o “Hamilton de Holanda Quinteto”, além de Marco Antônio e Pedro de Alcântara. Os dois últimos formam com o anfitrião o conjunto Afonso Abreu e Trio, que toca com frequência mensal no Livepub, dentro o projeto LiverJazz.

Mas rever Afonso, Marco Antônio e Mário Ruy, o trio original de “Os Mamíferos”, tocando juntos mais uma vez foi motivo a mais para ir ao Livepub. Estão todos bem, reconhecíveis nas aparências e nos humores, e tocando ótima música desde sempre.

Sobre acrescidos ou outros amigos

Entre os que estiveram naquela noite no Livepub para assistir Afonso e amigos, revi Paulo Branco, também depois de anos, e ainda Álvaro Abreu, o irmão, este visto e revisto.  Mas não vi Rogério Coimbra. “Deve estar no Rio,” me disse Afonso, que emendou: “ele sempre diz que está no Rio quando tem show meu”. O humor de Afonso é delicioso.

Encontrei também com Marcos Moraes, irmão de Zé Renato, que foi casado com Zilá que também casou com Chico Lessa. Era um mundo pequeno, esta ilha. Lembrei da Zilá porque foi a primeira noiva, que eu soube, que chegou na igreja numa motocicleta. Mas não me lembro em qual casamento, com Chico ou com Zé Renato.

Paulo Branco, Zé Renato, Rogério Coimbra e Chico Lessa estão entre os compositores, instrumentistas e poetas que orbitaram e contribuíram com a história e com o repertório dos Mamíferos, quando não, foram acrescidos à banda e estenderam para mais de três o trio original, que naquela noite, tocou junto “Malandro”, composição de Afonso e Mário Ruy. São todos amigos de longa data. Grandes amigos, afinal o nível das amizades pode ser medido pelo tamanho das implicâncias.

Próximos capítulos – um livro

Contar desses encontros serve de pretexto para recordar um pouco mais da banda, que foi formada quando os três contavam 20 anos em 1966. Fazendo as contas, comemoram-se este ano 50 anos do surgimento do grupo e 70 de cada um. E as efemérides não vão passar em branco. Em novembro, o projeto Aurora Gordon lança o livro “Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular”, de Francisco Grijó, que conta em detalhes e a partir de memórias e depoimentos de seus principais personagens e daqueles que de uma forma ou de outra estiveram envolvidos nessas histórias, a trajetória do grupo que sacudiu a cena musical de Vitória dos anos 1960 e 1970. São histórias de pessoas interessantes que fizeram parte da crônica cultural capixaba no contexto da contracultura, tendo a ilha como cenário.

De minha parte, conto mais em próximo post e através de texto que remontam ao início dessas histórias. São textos jornalísticos que ajudam a recuperar memórias e climas de outras épocas e revelam um pouco sobre cultura e comportamento na Vitória de 50 nos atrás. O pretexto é comemorar essas trajetórias. Afinal, são 70 anos.

Foto: Miro Soares

1969, o homem pisa na lua e os Mamíferos acontecem em Vitória

1969, o homem pisa na lua e os Mamíferos acontecem em Vitória

Uma última, talvez, lembrança de Marinho Celestino me leva aos Mamíferos e ao ano de 1969 em Vitória. Nessa época, Marinho era ainda um cabeleireiro, o melhor da cidade apenas, mas já companheiro das ousadias. Tanto que foi ele quem produziu o figurino e o make-up dos Mamíferos, quando o grupo se apresentou na finalíssima do II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, realizado entre agosto e setembro de 69, no Ginásio do Sesc, Parque Moscoso. Foi ideia de Marinho “colocar peruca em Marco Antonio Grijó e criar o penteado de Afonso Abreu, além de dar as dicas de como Mário Ruy deveria se vestir,” como lembrou Francisco Grijó em comentário em post que publiquei aqui.

Para quem não conheceu os Mamíferos e muito menos ouviu falar do episódio narrado acima, vale citar matéria publicada em novembro de 2011 pelo jornal O Estado de São Paulo, a título de introdução: “(…) anos antes de Alice Cooper, de David Bowie, na cena musical de Vitória, Espírito Santo, a partir de 1966, um (…) grupo assombrava as plateias com uma performance psicodélica, os rostos pintados, maquiagem pesada e a atuação insana e performática de um cantor andrógino (Aprígio Lyrio). Era Os Mamíferos, garotos fãs de Allen Ginsberg e do movimento beat americano, de Aldous Huxley e Marshall McLuhan.”

Segundo o Estadão, essa é “uma história nunca contada porque [os Mamíferos] não alcançaram o estrelato.” Não é bem assim. A história dos Mamíferos pode ter sido pouco ou nem contada em outras plagas para além do Espírito Santo, mas aqui há bom registro e testemunho sobre o grupo musical que surgiu em Vitória em 1966 e agitou a cena local até meados dos anos 1970.

A lembrança do II Festival talvez seja uma das passagens mais folclórica deles e vêm a propósito, porque os Mamíferos estariam comemorando 50 anos este ano. Não é pouco coisa e é uma bela história na memória cultural capixaba e vai muito além das caras pintadas. Como registrou José Roberto Santos Neves no livro “Rockcrise – a história de uma geração que fez barulho no Espírito Santo”, os Mamíferos foi o primeiro grupo a construir de fato uma produção autoral em terras capixabas, “que se preocupou em reverberar a contracultura no Estado a partir de letras poéticas e provocativas, visual ousado e uma base sonora ampla, em sintonia com a diversidade da Era de Aquários”.

 

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Mário Ruy, os Mamíferos e Aprígio Lyrio. Fotos: Antônio Sessa Netto. Acervo: Milson Henriques

 

Frenesi total

Os Mamíferos se constituiu com mais frequência como um trio formado por Afonso Abreu no contrabaixo, Mário Ruy na guitarra e Marco Antônio Grijó na bateria, mas durante certo período acrescido de Aprígio Lyrio nos vocais. Foi com esta formação em quarteto que eles se apresentaram no II Festival Capixaba de MPB, produzidíssimos por Marinho Celestino, para delírio da plateia e para marcar a história da música no Espírito Santo.

“’Os Mamíferos’ arrancaram as maiores gargalhadas. Com uma letra inteligente (…) arrancaram muitos aplausos para a música ‘Cosmorama Total’. O público não se aguentou quando os mais diferentes sons eram produzidos pelo conjunto, enquanto um homem e uma mulher dançavam freneticamente ao ritmo. O Festival foi uma festa completa onde o público viu de tudo: desde as mais lentas e poéticas melodias ao frenesi total do Cosmorama”. Esse é o parágrafo de abertura da cobertura de Willis Machado da final do Festival, publicada em 16 de setembro de 69, em A Gazeta, e nela dá para sentir o impacto causado pela apresentação dos Mamíferos.

Contracultura

Naquele II Festival Capixaba de MPB, os Mamíferos causaram e não só pelo visual ousado. Bebiam de tudo que explodia em sete mil cores no Brasil e no mundo na década das revoluções políticas, sociais, culturais, sexuais, musicais. Contemporâneos de Os Mutantes, uma das bandas mais criativas surgidas na música brasileira em todos os tempos, os Mamíferos tinham como marca a inventividade e a irreverência, além do visual psicodélico típico dos que comungavam no movimento tropicalista de Caetano Veloso e Gilberto Gil, seus principais expoentes. Não que os Mamíferos fossem do movimento. Bebiam de muitas e outras fontes. Mas viviam e produziam em Vitória, cidade fora do eixo principal da produção cultural do Brasil e do planeta. O que acontecia em Vitória não ia além das divisas do Espírito Santo. Ficava por aqui mesmo.  E às vezes ficava mal.

A ousadia daquela apresentação não foi bem aceita por todos. Eram os anos 60, que apesar de toda a revolução que marcou a época, ainda eram tempos conservadores e ainda mais na pequena Vitória, onde cabelos compridos, roupas coloridas e música visceral eram quase subversão e requisitos para a má fama. Na matéria do Estadão, Afonso Abreu lembra que o II Festival “era um festival de almofadinhas. Todo mundo de smoking (…) Olhando das coxias, a gente teve a ideia de derrubar tudo.” Mas teve quem não reagiu bem.

Por causa da apresentação do grupo na finalíssima, teve quem vaiou e quem xingou o grupo de bicha e maconheiro, ou algo assim. Teve jornalista que esqueceu a música e trocou o nome do grupo para Os Herbívoros. Que maldade. Isso irritou Afonso e Marco Antônio, rapazes de boas famílias que só queriam fazer música em Vitória.

Os Mamíferos, a casa e o cachorro

O grupo Mamíferos foi formado por músicos talentosos e em comemoração aos 50 anos e porque merecem, terão novos registros aqui, sobretudo da boa música que fizeram e fazem até hoje e que revela, acho eu, um pouco da alma da ilha. Mas aproveito e lembro que eles frequentaram muito a nossa casa e eram muito amigos de Branca, minha mãe, motivo dessas memórias. Ela gostava de todos. E provavelmente muito das mudanças de gosto e interesses dela tenha a ver com a amizade com os meninos, como minha mãe se referia ao trio e aos acrescidos. São historias que tratarei mais à frente. Mas a título de ilustração, conto um caso.

Os Mamíferos eram tão íntimos e amigos da casa do morro que mereceram carinhos e cuidados especiais, dos mais inusitados até, como os de Duque, o cachorro que por mais tempo guardou a casa. Duque, o cachorro da família que latiu, rosnou e abanou o rabo para muitas das históricas que conto aqui, era um vira lata peludo e íntimo dos íntimos da casa – agia como um leão de chácara que selecionava pelo abanar do rabo ou pelo rosnar do focinho quem tinha acesso livre à casa e quem ainda não tinha. E que ninguém teimasse, porque o bicho era bravo.

Mas era fiel aos amigos, como os meninos dos Mamíferos. Duque gostava tanto deles que chegou a escoltar, já de madrugada, Marco Antônio e Afonso do Barro Vermelho até o horto de Maruípe, cerca de cinco quilômetros da casa do morro, a casa dele.

– Acho que tem um cachorro seguindo a gente – disse Marco Antônio para Afonso, que dirigia o fusca azul.

– É o Duque! – reconheceram e ficaram preocupados. Pararam o carro e insistiram com Duque que voltasse para casa. Perderam o cachorro de vista e assim que Afonso chegou em casa, ligou pra nossa casa. Minha irmã atendeu.

– Bia, o Duque está aí? – perguntou Afonso, preocupado.

– Sim, está dormindo na varanda – respondeu Bianca.

Acho que Duque deve ter ficado preocupado também. Se pudesse falar, teria ligado para a mãe de Afonso e para as tias de Marco Antônio e perguntado se eles já tinham chegado também. Não era um cão de raça nobre, mas tinha seus critérios e valores. Adorava os amigos. Só os amigos.

Duque foi enterrado aos 14 anos, e com tristeza, no quintal que hoje é a área de lazer do condomínio que ocupa o lugar onde um dia foi a casa dele.

 

Cosmorama Total

Aos interessados, a letra de “Cosmorama Total”, que junto com o ritmo, causou na apresentação dos Mamíferos, em setembro de 1969. Chico Lessa e Ronaldo Alves são os autores. Tropicalismo puro.

COSMORÂMA TOTAL

PONTOS

TELEPONTOS

E OS CONTOS DE RÉIS

TELAS

AS JANELAS

MILHÕES DE FIÉIS

 

ESTÁ NA MODA SINHÁ

ESTÁ NA MODA SINHÁ

 

PROGRAMADA A MEMÓRIA

O CICLO SE COMPLETA

EMULSÃO DE HISTÓRIA

NOS CONDULTOS DE CRISTAIS

O CÍRCULO SE FECHA:

  • MILHÕES DE ANIMAIS

JOGUE TÔDA DOR

NUM COMPUTADOR

SAIA DA RODA SINHÁ

SAIA DA RODA SINHÁ

 

SEM GRAVITAÇÃO

SOMOS DOIS SÊRES HUMANOS

PELO ESPAÇO

OCEANOS

SEM PLANOS

MERIDIANOS

NUM ABRAÇO SIDERAL

NUM ABRAÇO SIDERAL

JOGANDO O MESMO JÔGO

COM BOLAS DE FOGO

EM COSMORÂMA TOTAL

Esperando Godot ou a vez que Marinho Celestino ousou no teatro e Amylton de Almeida não perdoou

Esperando Godot ou a vez que Marinho Celestino ousou no teatro e Amylton de Almeida não perdoou

Como disse em post anterior, Marinho Celestino viveu na Europa de onde vinha frequentemente cheio de novidades. Quando voltou em definitivo para o Brasil, trouxe propostas que pareciam bastante ousadas, que ele acreditava revolucionárias. Estava mesmo cheio de ideias depois de dez anos de experiência europeia. Ousado sempre foi, pois afinal, quem nasceu mulato e viado em Vitória de mais de 50 anos atrás e não teve a menor vergonha disso é antes de tudo um forte, um corajoso.

No seu retorno a Vitória, Marinho veio com a proposta de realizar um “projeto ambicioso de teatro popular que [exigia] um espaço totalmente anticonvencional”, como contou em entrevista a Tinoco dos Anjos, publicada na primeira página do Caderno Dois de A Gazeta de 7 de fevereiro de 1981. “Marinho espera, com esse trabalho, oferecer uma nova abertura para os próprios grupos artísticos locais, mas seu maior objetivo é atingir o operariado”, anotou Tinoco.

E ele escolheu para esse projeto “Esperando Godot” de Samuel Beckett, uma obra complexa de uma arte tão pouco popular como é o teatro no Brasil, e que iria estrear dali a pouco mais de um mês. O espaço anticonvencional foi concretizado num improvisado Teatro do Mercado da Capixaba, prédio já naquela época decadente do centro da cidade, cujo pátio central recebeu arquibancadas de madeira que formavam uma arena coberta com lona de circo e palco em três planos com plataforma móvel, além de uma montanha de terra de cinco metros de altura, projeto cênico executado por Luizah Dantas. Era um cenário que impressionava. Para Marinho, era também um espaço adequado para um público “que tem medo de sentar no veludo”, numa referência às poltronas do Teatro Carlos Gomes.

“Pérolas aos porcos”

Talvez a ousadia maior de Marinho tenha sido conseguir que o espetáculo seguisse depois realizando sessões especiais para os operários da Antarctica, da Pepsi Cola, Escelsa e Larica, algumas das empresas que compraram pacotes de ingressos que distribuíram entre seus empregados. Não se sabe se Marinho pretendia fazer a revolução nas fábricas. Talvez apenas pretendesse levar teatro “para o operariado através do patronato”, como afirmou na entrevista a Tinoco. “Esta é uma forma de fazer com que a classe menos favorecida tenha acesso também à cultura. Para que o operariado, no seu período de lazer, não se limite à praia, ao futebol e à televisão à noite,” disse.

Era uma proposta não só ousada, mas também inédita. Na época, ainda não havia as leis de incentivo cultural e era pouco comum o patrocínio empresarial para projetos culturais, ainda mais de teatro, que dependia de verba pública, e ainda mais no Espírito Santo, onde público quase nunca pagou custos de produção e cachê de ator. Marinho conseguiu mover mundos e fundos, públicos e privados, para viabilizar a produção e pagar os atores, inclusive pelos exaustivos ensaios. Mas muita gente duvidou dele.

“Quem é esse cara que acha que o povão vai entender Godot, que tem um texto pesado mesmo para a gente”, foi um dos comentários não creditados anotados por Victor Martins em matéria de página inteira no Caderno Dois de A Gazeta do dia da estreia, 12 de março de 1981. Para Marinho, Godot era o texto certo, pois que trata da “relação mestre-escravo, dominante-dominador (sic)”.  Na matéria, Victor parecia já adivinhar a polêmica que viria depois. “O frisson – além de algumas pontadas de inveja – que esta versão de 81 de Godot consegue disseminar aqui e ali seriam prenúncios do êxito de uma montagem reconhecidamente pretensiosa,” escreveu Victor.

A crítica

A estreia no dia 12 de março lotou o Teatro do Mercado da Capixaba. O elenco era formado por Anginha Buaiz (mensageiro), Laura Lustosa (Lucky), Milson Henriques (Pozzo), Bob DePaula (Estragon) e Branca Santos Neves (Vladimir), além de Selmo Rocha, Hélio Gama e Balduino El Africano, que formavam o cortejo.  A produção foi de Marinho e Antônio Alaerte. Mas a peça, que tinha duração de mais de três horas. foi mal recebida pela crítica local que se dividiu quanto ao desempenho do elenco. E teve quem não perdoou nada, sobretudo não perdoou a Marinho. Afinal, quem era “aquele cabeleireiro bicha que veio de Paris com ideia de montar Beckett para o operariado?”, segundo outro comentário anotado por Victor Martins.

Dois dias depois da estreia, 14 de março, foi publicada na primeira página do Caderno Dois a crítica de Amylton de Almeida para Esperando Godot na versão de Marinho Celestino. Vinha com o seguinte título: “Enfim, o teatro desastre nas travessuras de um cabeleireiro”. Isso não ia dar certo.

No seu texto, Amylton não deixava pedra sobre pedra. Sua crítica desferiu sarcasmo para todos os lados. Ele começou ferino escrevendo que “o cabeleireiro Marinho Celestino, após cinco anos de Paris, sofre com a aflitiva certeza de que sua volta à terra o obrigará a comer pão em vez de brioche. (…) Ele pretende sacudir todo o marasmo que sempre foi do teatro capixaba (…) para realizar um espetáculo revolucionário destinado a divertir o operariado capixaba em local compatível, com muito calor e cadeiras desconfortáveis.”

Entre os atores, nenhum foi elogiado. Sobre a minha mãe, Amylton a descreveu “como uma mulher mal informada, que jamais soube da existência de Cacilda Becker e Lilian Lemmertz”, em referência a duas das maiores intérpretes de Godot no teatro nacional. E continuou: “parece ser uma mulher séria e provavelmente até inteligente para se entregar a um ridículo espalhafatoso (…) O seu ridículo é muito mais aflitivo exatamente porque contido e dolorosamente consciente. Branquinha Santos Neves deve se achar a pior atriz do mundo”. Ufa!

Não sobrou nem mesmo para o autor. Samuel Beckett foi taxado por Amylton como “o obscuro e mal humorado empregado de James Joyce”, que seguindo o exemplo de seu patrão, conseguiu cometer o mesmo pecado do autor de Ulisses. Como disse Virgínia Woolf a respeito de romance de Joyce e devidamente reproduzida por Amylton: “Nenhuma obra-prima tem o direito de ser tão chata”. Não sobrou nem para Godot.

Bem, sobre a qualidade da obra de Beckett não ouso opinar, mas lembro que a crítica de Amylton enfureceu Marinho, que transtornado exigiu espaço para réplica, que A Gazeta não concedeu. O motivo eu não sei. Só sei que Amylton voltou à carga e no dia 18 de março, na seção agenda cultural, afirmou que a encenação era “indigna do nome teatro”. E insistiu na agenda cultural do dia 27: “Enquanto Branquinha Santos Neves e Bob DePaula imitam Renato Aragão e Dedé Santana, sem intenção de divertir o público, Milson Henriques intencionalmente caricatura seu personagem, conferindo-lhe tiques de Zé Bonitinho.” Ia dar merda, quase deu.

Marinho Celestino x Amylton de Almeida, o embate

Noite de chuva, evento na Galeria Homero Massena, centro da cidade, Marinho entrando, Amylton saindo. Podia dar em tapa na cara, quadros voando ou briga na calçada, mas deu apenas em dedo na cara, batida no peito e num insulto que definia, segundo Marinho, a diferença entre ele e Amylton.  Rogério Medeiros, que acompanhava Marinho, é quem conta:

“Vi Amylton saindo e alertei Marinho: ‘é a sua oportunidade’. Ele partiu grande para cima do Amylton, que mais baixo, se encolheu.” Marien Calixte tentou apaziguar, mas Rogério insistiu: “vai deixar por isso mesmo?” Marinho mais puto ainda, bateu no peito, botou o dedo na cara de Amylton e cuspindo, esbravejou mil insultos que encerram a seguinte sentença: “eu sou viado, mas você não passa de uma bicha”.

Rogério conta que não entendeu o insulto e na volta, no carro, perguntou a Marinho que negócio era aquele de viado e bicha. Marinho explicou: “bicha tem problema com o pai, com a mãe, com o mundo, consigo mesma. Dá a bunda com desgosto, complexo e culpa. Eu sou viado, dou a bunda porque gosto”. Baixa o pano.

A temporada

Toda a crítica capixaba da época foi unânime em considerar a incursão de Marinho Celestino no teatro como amadorística. Quanto aos atores, houve elogios. Minha mãe, inclusive, teve seu desempenho considerado positivamente como surpreendente na crítica de Toninho Neves para A Tribuna.

E a temporada cumpriu seu objetivo. Esteve por três meses em cartaz no Teatro do Mercado da Capixaba e recebeu também o público operário que esperava. Depois disso, Marinho não teve novas experiências com o teatro. Minha mãe seguiu.

Marinho Celestino, uma lembrança entre muitas

Como venho contando, minha mãe foi atriz. Estreou no teatro pelas mãos de Paulo DePaula em “Anchieta: um depoimento”, em abril de 1976, no Teatro Carlos Gomes. Depois vieram experiências com outros parceiros de palco e arte. Um desses parceiros, talvez o mais inusitado, foi Marinho Celestino, que viveu na França por uns bons anos e voltou de lá cheio de ideias.  Uma das ideias foi fazer teatro em Vitória. Não se sabe se ele fez teatro na França – cinema sim, que ele provou –, mas ousou encenar Samuel Beckett no então improvisado Teatro do Mercado da Capixaba, no início dos anos 1980. “Esperando Godot” teve em seu elenco Bob de Paula, Milson Henriques, Laura Lustosa, Ângela Buaiz e Branca Santos Neves, sob direção de Marinho Celestino.

Mas antes de tratar dessa experiência, vou apresentar Marinho, ou ao menos contar alguma das muitas lembranças que tenho dele, pois histórias, muitas histórias, foi o que ele deixou na memória de quem o conheceu.

Marinho Celestino, Marinho festivo, Marinho trambiqueiro, Marinho “pé de pato”

Marinho era uma figura em todos os sentidos. Fisicamente, sua presença chamava atenção. Mulato alto, corpulento e bicha, costumava vestir-se com batas e calças pantalonas (traje típico da época) apertadérrimas até a altura do joelho que pareciam prestes a arrebentar naquelas coxas grossas. Dono de uma das bundas mais insinuantes da cidade, Marinho tinha um salão de beleza badaladíssimo nas décadas de 1960 e 1970 e era a festa em pessoa. Feminino, extrovertido e falante, cortou o cabelo de muitos. Pediu empréstimo que nunca pagou – minha mãe se queixou muito – e foi morar em Paris, na época que muitos brasileiros se exilaram na Europa por opressão ou por vontade própria (chegamos atrasados para os anos 20, mas fizemos, nos anos 70, de Paris a nossa festa). De lá mandou e trouxe novidades e muitas histórias – algumas possivelmente verídicas e outras provavelmente exageradas.

Porque ele era exagerado. Exagerava o nome da minha mãe quando encontrava com ela – “Branquiiiiiinnnhhhaaa”.  Isso antes dos dissabores. E depois também, acho. Marinho era pé de pato e cara de pau. E incrivelmente sedutor. Envolvente, de fato. Perdoável também. Minha mãe perdoou.

Onde andarás?

Enquanto morou na Europa, Marinho veio ao Brasil com frequência anual. Numa dessas vindas levou um rapaz bonito, argentino, de nome Rodolfo, para dormir lá em casa. Minha mãe providenciou uma cama para os dois. No dia seguinte Marinho foi embora e Rodolfo ficou com a gente. Gostou de todos nós e nós dele também. Contou ter deixado a Argentina por causa de seus cabelos cumpridos, que para a ditadura militar e paranóica que vitimou também nossos vizinhos, era sinal de subversão. Depois continuou mochileiro em direção ao Nordeste com intenção de chegar ao México. De Olinda, mandou notícias. Estava bem e com saudades. Voltou à Vitória um ano depois e foi direto lá pra casa, acolhida certa. Matou nossas saudades, contou histórias de viagem, viveu uma paixão. E foi embora mais uma vez. Notícias nunca mais. Por onde andará Rodolfo?

Ah, sim, Rodolfo teve sucesso: alcançou o México com o polegar estendido.

 

Rodolfo, Bia e Tango na varanda

Na varanda da casa do morro, Rodolfo, Bianca minha irmã e Tango, o cachorro que coincidentemente já tinha este nome antes de Rodolfo chegar. Prenúncio de boas vindas. Foto: Flavinho Santos (o menino de Pasolini, como dizia Marinho)

A foto e outras histórias de Marinho ficam para o próximo post.

Dois em cena – Branca Santos Neves e Jace Teodoro

Dois em cena – Branca Santos Neves e Jace Teodoro

Jace Teodoro conheceu Branca Santos Neves por causa de uma música de Billie Hollyday. Ele me contou: “um dia entrei no salão de ensaios da Academia de Karla Ferreira, onde fazia aulas de dança, cantarolando ‘You’ve changed’ e uma voz vinda do fundo do salão me acompanhou. Era Branca.”

Minha mãe se apresentava assim, puxando conversa, chegando (ou cantando) junto. Sempre alerta, sempre interessada. “Branca me apresentou a muitas pessoas interessantes. Eu vinha do Rio de Janeiro depois de 16 anos morando lá e sem conhecer quase ninguém em Vitória. Ela era uma pessoa aglutinadora e foi generosa comigo.” Depois do primeiro encontro, tornaram-se inseparáveis, trabalhando e badalando pela cidade.

Dois espetáculos

Eu encontrei Jace em vésperas de lançamento de seu terceiro livro de crônicas, “A palavra que apalavra”, título também do último espetáculo que ele criou e encenou com a minha mãe. O espetáculo em que ela começou a esquecer palavras.

“Fizemos dois espetáculos juntos”, lembra Jace. O primeiro foi “Enquanto uns cegos, outros olhos”, em meados da década de 1990, e que também reunia teatro, música, dança e poemas, como não poderia deixar de ser. As palavras estão em Jace desde muito cedo, ainda nas salas de aula onde ele já gostava de ler em voz alta seus exercícios de redações. “Palavra tem a ver com ritmo, respiração, pontuação”. Ele contou que o processo de criação dos espetáculos que fez com Branca era também um processo coletivo e acontecia durante os ensaios. “Em ‘A palavra que apalavra’ eu tinha uma ideia do que seria o espetáculo, que foi sendo criado com os jogos de palavras que eu Branca fazíamos durante os ensaios e pelo ritmo e melodia que vinham do acordeom do Mirano. Foi um ‘working in progress.’” “A palavra…” contava ainda com as participações de Duda Padovan e Paulo Sodré e teve direção de Erlon Paschoal.

Os dois espetáculos passaram pelos teatros Sesi, Carlos Gomes e o Galpão, que hoje funciona como cerimonial para festas e comemorações.

Últimos palcos

A princípio, Jace se mostrou reticente com meu convite para falar de Branca e mencionar o início do processo de esquecimento. Mas entendeu que a proposta é como uma homenagem à história e as memórias dela. Então ele recordou a casa do Barro Vermelho e a sala estúdio que ela adaptou para aulas de postura corporal e onde ocorreram ensaios dos espetáculos. A mesma sala ampla e um tanto austera que foi mudando e mostrando os novos interesses de Branca – no início o pôster de Caetano no tempo da Tropicália e depois e até a venda da casa, transformada em sala estúdio e que serviu aos primeiros ensaios de “Enquanto uns cegos…”

“Branca era uma atriz entusiasmada, que se punha à disposição das criações artísticas, e uma pessoa corajosa. Lembro que pensei uma cena de seio desnudo para ‘A palavra…’, mas fiquei com receio sobre ela aceitar, afinal poderia parecer escandaloso para uma mulher de 60 anos. Que nada, ela topou na hora e tirou a blusa ali mesmo. Levei um susto.” O problema para ela é que “A palavra…” era um espetáculo de muito texto, marcação e coreografia. E Branca começou a demonstrar dificuldade de memorizar. “Tivemos que diminuir a participação dela para não sobrecarregá-la, mas mantive a cena solo do seio desnudo, quando o palco era todo dela”, lembra Jace.

A cena do esquecimento do poema em “A palavra que apalavra”, que mencionei no post anterior foi um dos primeiros sintomas do mal que foi afastando minha mãe dos palcos. Ela ainda faria alguns trabalhos com Paulo de Paula, que a introduziu ao palco em meados da década de 1970, e que foi seu parceiro mais constante – como ator ou como diretor. Aos poucos ela foi deixando os palcos e as câmeras.

 

Jace Teodoro e a crônica nossa de cada dia

Jace Teodoro e a crônica nossa de cada dia

Aviso aos navegantes recentes: esse é o segundo texto sobre as memórias de Branca Santos Neves contadas por mim com o auxílio precioso de quem conviveu com ela. Jace, agora.

***

Os sintomas da do mal que acomete minha mãe e que a deixa agora sem memória foram surgindo aos poucos. Pequenos esquecimentos que a princípio não pareciam tão diferentes de um jeito avoado que ela sempre teve e que até parecia diverti-la. Mas foi ficando mais constante. Um dia, no palco, deu-se um lapso. O poema “A mulher das cebolas”, de Jace Teodoro, que ela declamava em ato do espetáculo “A palavra que apalavra”, ficou pelo meio.

Sou uma mulher derramando lágrimas ao meio-dia, pra quem não há manhãs nem fins de tarde. Apenas cebolas como guia/ mais couve, ovos estrelados, bife e cabelos de gordura (…)

Jace intercedeu e deu guia. E então Branca falou mais ato e recordou o poema até o fim:

Sou essa mulher de sonhos partidos ao meio/ que não conhece do sexo a virtude. Apenas calcinhas no varal e dois dedos tentando acordar o bico adormecido dos seios.

“A palavra que apalavra” é também o título terceiro livro de Jace, autor das duas obras de títulos idênticos, mas de formas e conteúdos diferentes. Enquanto uma é livro de crônicas recém-lançado, a outra foi um espetáculo que reuniu dança, teatro e música que ele criou e mais uma vez atuou com Branca Santos Neves, em 2000. Um espetáculo que conciliou todos os talentos de Branca e Jace.

Jace foi um dos muitos amigos que frequentou a casa de Branca no Morro do Barro Vermelho.

A palavra que apalavra, o livro

Antes de seguir com as lembranças da parceria (que seguirei em próximo post), faço um parêntese para falar de Jace e do livro dele. Pois que então, além de ator e bailarino, Jace é dado às criações que as palavras possibilitam, sobretudo quando em forma de crônicas. Jace, além de jornalista (também), é um cronista natural, que sabe extrair assunto do cotidiano corriqueiro e versar com leveza, humor e um pouco de pimenta sobre situações aparentemente banais da vida diária e das notícias do dia. Como ele mesmo escreveu: “miudezas cotidianas são atrativos e cardápio deste cronista”. A astúcia, a perspicácia e a delícia dos textos de Jace surpreende até mesmo o tédio dos insensíveis.

A crônica de Jace trata o leitor como um amigo a quem ele conta, comenta e confidencia casos, fatos, notícias e sentimentos. As palavras são coloquiais, fluidas e exatas nas intenções e no espírito do texto.

Já nos títulos, Jace mostra seu estilo. Ele adora dar títulos, acha que são como convite ao texto ou a moldura deles. Alguns são feitos de citações e referências, como “Ando meio desligado”, que conta casos de gente avoada na vida, como a amiga que esqueceu um bob no penteado da noite; ou em “Maria Bethânia, tu és para mim…” para exaltar a rainha cantante que ele assistiu no espetáculo “Bethânia e as palavras” e que tanto admira; “O vento levou” sobre uma viagem alucinada num Transcol no tráfego da Terceira Ponte; ou ainda “Pela estrada afora”, uma crítica aos motoristas apressados dos ônibus rodoviários – “que se acham a última pastilha do freio antes da descida pro inferno de Dante” – e às estradas mal conservadas do país.

Outros títulos introduzem textos sobre estados de ânimo – “Preguiça” – ou de espírito – “Um brinde aos encontros”. Como um bom cronista, Jace Teodoro é um observador atento, sensível e pessoal do comportamento humano e dos fatos da nossa atualidade.

Noite de autógrafos, muitos autógrafos

“A palavra que a palavra”, o livro, reúne 41 crônicas publicadas entre 2013 e 2014 no Caderno Dois do jornal A Gazeta. O lançamento aconteceu ontem, no Canto do Vinho, Praia do Canto, e atraiu muita gente, pois Jace é querido, curtido e do balacobaco.

Estive lá, mas não falei com ele. A fila do autógrafo era longa e lenta, já que a Jace não basta a dedicatória, mas também a conversa e a entrevista, os abraços e beijos e fotos, muitas fotos. Então, deixo para pegar a dedicatória para o meu exemplar numa próxima ocasião, afinal precisava voltar para casa para escrever o texto. Mas ao menos pude vê-lo feliz e cercado de amigos e admiradores na noite de lançamento de seu novo livro, que, pelo visto, já é um sucesso desde ontem.

***

A propósito, a produção da noite e da obra foi da Caju Produções, a mesma produtora que viabilizou “A palavra que apalavra”, o último espetáculo que Branca e Jace fizeram juntos.

Foto: Léo Alves