Quem me ensinou a nadar

Quem me ensinou a nadar

Por motivos de outras urgências e novas funções que me exigiram por demais, demorei a postar neste blog. Mas retorno e volto ao assunto – os Escritos de Vitória, cuja edição foi retomada recentemente e com tema PRAIAS DE VITÓRIA. Mas como faço deste blog lugar de meus escritos, apesar do lapso, pego o gancho temático como pretexto para contar das minhas primeiras lembranças da praia, do mar e de saber nadar em vitória.

Mas de logo confesso que não me lembro bem de quando eu comecei a nadar. Sendo nascida na ilha, na Praia Comprida, cresci cercada de mar, fato que torna difícil recordar a primeira vez que nadei. As praias sempre me rodearam. Não por outro motivo que os bairros da minha infância tinham nomes de praias. Praia Comprida, Praia do Canto, Praia de Santa Helena, e um pouco mais prá lá, a Praia do Suá, aonde íamos pela manhã comprar peixe fresco para o almoço do sábado.

Havia ainda as praias das ilhas do Frade e do Boi, que alcançávamos a nado, de barco ou de lancha, antes da urbanização que aterrou as praias Comprida, de Santa Helena, do Canto, do Suá e a praia do Barracão, a única delas que não deu nome a bairro.

Nascida ilhéu na cidade sol com o céu sempre azul, a praia era natural pra mim. Era como uma extensão dos nossos quintais, lugar de prazer, mergulho e brincadeiras. E foi assim que eu aprendi a nadar.

Nadador, surfista e marinheiro

Quer dizer, foi mais ou menos assim. Acho que engoli um bocado de água nas primeiras tentativas de me mover na superfície do mar. Mas eu tenho vaga lembrança – faz tempo isso –, na enseada que se formava no final da Praia do Canto, de aprender princípios fundamentais e necessários ao bom nado. Ou pelo menos que evitou mais goles de água no mar ou na piscina. Foi Victinho, meu irmão, quem me ensinou a técnica básica de inspirar fora e aspirar dentro d’água no ritmo das braçadas. Eu devia ter uns seis anos de idade e ele já tinha um barco.

Como muitos de nós que nascemos e nos criamos perto das praias, Victor sempre nadou muito bem. Saber nadar era uma necessidade ou mesmo uma obrigação. Acho que esta foi uma precaução dos nossos pais.  Sendo Vitória uma ilha, o mar era inevitável. Barco, pé de pato, prancha de isopor e vara de bambu eram brinquedos comuns na infância da Praia do Canto de antes do aterro.

Desde cedo Victinho começou a navegar também, desde quando meu pai deu de presente a ele “Feitiço”, um bati tuqui – “pequeno barco monotipo de bolina, podendo ser de madeira ou fibra de vidro (…) recomendado para crianças de 7 a 15 anos, com no máximo 60 kg”. Victor tinha dez anos e era magrinho.

Feitiço era barco pequeno, mas cabiam duas ou três crianças. Podia ser impulsionado a remo ou à vela e era vermelho, ao contrário do barco de Ricardo Barroso, que era amarelo. Sendo crianças em pequenos veleiros, nossa navegação era curta. Lembro que contornávamos a encosta que separava o canto da Praia do Canto da rampa do Iate Club, nosso porto seguro. Fazer esse contorno hoje não é mais possível, a não ser a pé, de bicicleta, skate ou carro. A pequena enseada deu lugar à Avenida Nossa Senhora dos Navegantes, à Praça dos Namorados e ao estacionamento dos sócios e frequentadores do Iate, que se multiplicaram no ritmo dos aterros, e da expansão dos bairros com nomes de praias. Foi nesse ritmo que a cidade incorporou à nossa infância a Praia de Camburi, a praia com ondas, onde Victinho aprendeu a surfar e eu a pegar jacaré. No mar, ele sempre foi o melhor de nós.

Navegar é preciso

Vitória, a pequena e então encharcada Ilha de Santo Antônio do tempo colonial, foi crescendo aterrando praias, canais, mangues, construindo pontes e acrescendo a si outras ilhas – Ilha de Santa Maria, Ilha das Caieiras, ilhas do Príncipe, do Frade e do Boi – que se tornaram bairros da capital. Assim como as praias do Canto, de Santa Helena e do Suá, que continuam sendo nomes de bairros, mas agora sem suas praias, que deram lugar a prédios, ruas e avenidas. A praia do Barracão não era bairro, era só a praia que também sumiu, assim como a Praia Comprida que nem bairro é mais.

Mas Victinho mantém até hoje uma relação estreita com o mar. Na semana passada veio de João Pessoa, na Paraíba, e a 1.959,4 quilômetros de Vitória, comandando a encomenda de um amigo, um veleiro, claro, que barco para ele só se for à vela.

***

A propósito, Victinho não mora mais na Praia do Canto. Mora na Praia da Costa e de frente pro mar, onde costuma nadar diariamente e pescar ocasionalmente. Diz agora que vai comprar um barco, será o terceiro, eu acho, e será um grande desta vez, que é para ele precisamente continuar navegando e até o oceano.

Branca, o Teatro e a sala de estar

Não costumo respeitar cronologias nos textos que tenho publicado neste blog. Em geral, alguma citação ou referência feita no texto anterior é suficiente para puxar o assunto do próximo. E assim será também desta vez, pois o pretexto deste post veio mais uma vez dos “Escritos de Vitória”, coletânea da memória da cidade a que me referi no post passado para relembrar o Sizino e o surgimento do Triângulo das Bermudas.

O motivo agora vem também porque coincidentemente na semana passada tive em mãos mais um dos volumes dos “Escritos…”. E este não pertence a minha mãe, mas foi emprestado pela “amiga e também atriz” Glecy Coutinho, como Branca anotou em dedicatória na página de abertura do artigo que escreveu para o 21º volume da coletânea, cujo tema é “Teatro”, uma arte que minha mãe adotou como ofício em meados dos anos 1970.

Pelas mãos de Paulo

Branca Santos Neves foi uma das personalidades capixabas convidadas a escrever sobre Teatro Capixaba. Seu artigo é mais um depoimento do que um relato histórico ou crítico sobre o teatro feito e criado no Espírito Santo. Não que ela não relate também um pouco da história do nosso teatro, já que as lembranças que anota sobre sua participação na cena teatral do estado são também registros históricos, sobretudo, a partir da década de 1970, quando ela estreou no palco do Teatro Carlos Gomes pelas mãos do “bom” Paulo DePaula, adjetivo que minha mãe atribui ao seu parceiro mais constante de palco e tela. (Quem conhece Paulo sabe que é um adjetivo justo, não só profissional, mas, principalmente, humano).

Paulo e Branca se conheceram nos final dos anos 1960 e ele já achava que ela estava pronta para o teatro. Minha mãe é de personalidade espontânea e sempre foi interessada em todas as artes. Em meados dos anos 1970 veio o convite para que ela participasse da peça “Anchieta: um depoimento”, de autoria e sob direção de Paulo. A estreia foi em abril de 1976 e nesse ponto minha mãe comete um equívoco em seu artigo, quando informa que a estreia foi em 1968. Talvez esse tenha sido o ano em que ela e Paulo se conheceram, daí a confusão. E o artigo foi escrito em 2002, quando minha mãe começava esquecer detalhes como datas.

Sala das artes

Com “Anchieta…”, minha mãe inaugurou sua carreira de atriz profissional e transformou nossa casa numa extensão do seu ofício. A sala maior virou espaço de ensaios e guarda roupas dos figurinos e adereços dos espetáculos de dança e teatro que ela participou em quase 30 anos de vida artística. Foi então que a casa passou a ser de fato um ponto de referência e de atividades artísticas em Vitória, que atraia, além dos amigos músicos e artistas plásticos, atores, dramaturgos, bailarinos, dançarino e mais e novos amigos.

E assim, mais uma vez, a casa foi mudando aos gostos e aos novos interesses de Branca. Meu pai não se incomodava e para nós, os filhos, era uma festa e um mundo novo que entrava pelas portas da casa até a sala que perdeu sofás, quadros e mesas para dar lugar a espelhos e barras, araras, cabides e baús, aparelhagem de som e luz e espaço livre para ensaios e cenários.

Até o pôster de Caetano teve que ser removido.

Sizino, o pioneiro

Dia desses peguei para reler “Bares, botequins etc.” o oitavo volume dos “Escritos de Vitória”, coletânea de artigos, crônicas e memórias, que foi publicada pela Secretaria Municipal de Cultura ao longo das gestões de Paulo Hartung e de Luiz Paulo Veloso Lucas, quando prefeitos da cidade. Não sei ao certo quantos volumes foram editados e nem quais as temáticas de todos. Os dois volumes que tenho comigo, encontrei na biblioteca da minha mãe, rica em edições capixabas como livros que contam histórias de Vitória, assunto que sempre a interessou, até porque ela viu e viveu muitas.  “Branca, a que realmente viu tudo”, anotou em dedicatória Rogério Coimbra, um dos 20 autores que escreveram em “Vitória de todos os ritmos”, o 19º volume da coletânea.

A vontade de reler “Bares, botequins etc.” provavelmente me veio porque no último texto que publiquei aqui, contei sobre a festa para Angela Ro Ro e me lembrei do Sizino, que é o motivo deste post de agora, pois que está ausente do oitavo volume, o que eu considero uma injustiça e dou prova.

Para comprovar a injustiça e desfazê-la, informo que o Sizino foi o bar e restaurante pioneiro do Triângulo das Bermudas, trecho final da Praia do Canto que veio a se transformar em point da noite da capital a partir dos anos 1980, isto é, a partir do Sizino e seus dois vizinhos, o Din Don Don e o Bilac, estes ainda funcionando e no mesmo endereço, nas esquinas das ruas Joaquim Lírio e João da Cruz. Depois vieram outros que ali se estabeleceram e transformaram definitivamente aquele pedaço final da Praia do Canto em área dedicada quase que exclusivamente ao comércio, ao lazer e à gastronomia.

Mas foi o Sizino, sem dúvida, que começou atrair público para aquele pedaço. Disso tenho certeza, pois eu vi.

Tardes, noites e madrugadas

O Sizino foi o point de quase todas as noites dos meus primeiros fins de semana de bares e noites. Era o lugar dos primeiros encontros – dali combinava-se outras baladas, como a festa para Ro Ro  – ou ficava-se a noite toda e às vezes até a madrugada quase raiando o dia.  As sextas e aos sábados juntava gente para caramba a partir das sete, oito horas da noite, quando começava a engarrafar as ruas próximas.

O nome do bar era o nome do dono, Sizino, pescador e cozinheiro de mão cheia que abriu um restaurante simples para servir boa moqueca, caranguejo graúdo e cerveja gelada. Era também lugar de almoços depois da praia, de onde vínhamos salgados, com os pés ainda sujos de areia e cheios de fome.

Estar no Sizino era quase como estar em casa, à vontade e ao ponto de, já de madrugada, sermos expulsos pelo garçom folgado e íntimo demais. Caçapava, de quem suspeitei como possível pivô do fim da festa da Ro Ro no texto anterior, agia com autoridade de patrão. Não foram poucas às vezes em que tocou para fora os últimos clientes lavando com água, sabão e rodo o chão do bar sob os nossos pés.

Uma caixa de siris

Mas o Sizino foi breve, cresceu mais que a ambição do dono, que resolveu passá-lo à frente, quando a área já era disputada por novos e maiores estabelecimentos que foram mudando a cara do lugar. Mas antes que isso acontecesse, o final da Praia do Canto, e especialmente, os quarteirões finais da Rua Joaquim Lírio, era lugar de residências e do movimento de pescadores (como Sizino e Don Don, este homenageado pelo Di Don Don) que ainda mantêm, no final da rua, uma pequena colônia para receber a acondicionar o produto da pescaria que chega em barcos pelo canal de Camburi. Aquele era o tempo que o pescador levava o pescado fresco à casa do freguês e, às vezes, à mesa do Sizino.

Foi o que aconteceu numa madrugada, com o dia quase raiando, que saímos de lá com uma penca de siris trazidos pelos pescadores que chegavam com os barcos. Como eles sabiam que aquela hora ainda seria possível encontrar o Sizino aberto, foram atrás de primeiros fregueses para ofertar pescado fresco, na esperança de vender algumas dúzias de siris vivos. Ricardo Jarrão, que comandava a mesa em que estávamos, mandou comprar a caixa toda e dali já combinou sem mais cerimônia, que não era necessária: amanhã todos na casa de Branca para desfiá-los e cortá-los ao meio e depois cozê-los e comê-los a carne pura ou em muma. Minha mãe não se opôs, pelo contrário. No dia seguinte, a casa encheu de gente e de siris, que foram desfiados pacientemente no palitinho.

Uma andorinha

A época do Sizino era o tempo em que bastava uma andorinha para fazer verão – ou um bar para reunir todo mundo –, antes que a cidade crescesse e os bares se multiplicassem por ruas e quarteirões que oferecem opções variadas. Do Triângulo das Bermudas na Praia do Canto, à Lama de Jardim da Penha, à Laminha de Jardim Camburi e aos bares nos limites da Mata da Praia com o Bairro República, Vitória cresceu e formou novos circuitos de comida e diversão. E o Sizino foi pioneiro, mesmo que sem intenção, nessa história. Por isso me atrevi a reclamar, ainda que tardiamente, a ausência do Sizino entre os bares lembrados no oitavo volume dos “Escritos de Vitória”.

Uma festa pra Ro Ro que rolou escada abaixo

Uma festa pra Ro Ro que rolou escada abaixo

Acho que já deixei transparecer nessas minhas lembranças de Branca que ela gostava de festas e agitos. E teve muitas festas na nossa casa no Barro Vermelho. Mas se não tinha festa em casa, minha mãe ia a festas em outros lugares e em outras casas. E muitas vezes eu fui com ela, quando ela achou que eu já tinha idade para acompanhá-la. Mais tarde eu tive idade para ir a festas por conta própria, onde quase sempre encontrava com ela, que não perdia quase festa nenhuma em Vitória.

Não sei se esse espírito festeiro de minha mãe tinha a ver com o fato dela ser filha de pais boêmios, frequentadores assíduos do Club Vitória, no Parque Moscoso, onde se encontrava, dançava e se divertia a elite capixaba dos anos 30 e 40 do século passado. Meus avós e seus amigos formavam uma turma de pessoas alegres que gostava de festas, serestas, poemas e madrugadas, enfim, de se divertir. Mais ou menos como gostou Branca, alguns anos depois.

Bom, mas esse é outro tempo, deveras outrora, de que não tenho lembrança nem a quem mais perguntar sobre. Ou quase ninguém mais. Vou contar então de uma festa de que me lembro e onde encontrei minha mãe, que chegou antes. Foi uma festa ótima até terminar de forma escandalosa, o que foi melhor ainda ou, talvez, a melhor parte da festa.

Aconteceu no início dos anos 1980, período em que a MPB vinha revelando muitas vozes femininas, como Marina Lima, Joana, Zizi Possi, Simone e Ângela Ro Ro, que veio dar show no Teatro Carlos Gomes em 1981 e deu o que falar. Porque Ro Ro já nasceu fora do armário e abusada, como provou na ocasião.

Festa nos apês

Acho que a festa aconteceu depois do show, mas não tenho certeza, pode ter sido dias depois. Isso porque me lembro de que estivemos com Ro Ro e sua trupe no Sizino, bar e restaurante pioneiro do que viria a ser o point Triângulo, no quarteirão final da Rua Joaquim Lírio, Praia do Canto. Naquele encontro, estavam todos tranquilos, divertidos e em bom convívio. Por enquanto.

Foi uma festa memorável que aconteceu simultaneamente em dois apartamentos de um prédio de três andares na Rua Agrimensor Adolfo Oliveira, Praia Comprida. Num dos apartamentos, o de baixo, moravam o jornalista J. B. Nery e Ricardo Jarrão, este último um dos responsáveis pela vinda de Ro Ro à Vitória. Na época, Jarrão trabalhava no extinto Departamento de Cultura do Estado (Dec), órgão que bancou o convite e a vinda de Ro Ro para seu primeiro show na cidade.

A festa girava em torno da cantora e servia não só de boas vindas, mas também para dar alguma alegria a Ro Ro, que, me lembrou Jarrão, acabara de romper romance com a também cantora Zizi Possi e estava mal com isso. Espalhada pelos dois apartamentos, a festa atraiu gente para caramba. Praticamente todo mundo que frequentava o Sizino estava lá. Lembro de ver gente pelas salas, cozinhas, nos quartos e nos banheiros dos dois apartamentos. Gente em pé, gente no sofá, nas cadeiras e gente sentada em almofadas pelo chão. Tinha gente até na escada que seria lugar do embate final que acabou com a festa, mas não com o ânimo da gente. Pelo contrário.

Caçapava, o destemido

RoRo veio a Vitória acompanhada de duas amigas que eram a produtora e a iluminadora do show. Uma delas carregava uma boa quantidade de coisas de deixar gente contente e na tomada, coisas que estavam de acordo com o cardápio de baratos da época e que serviram bem à festa, que foi bem dançante. Lembro que em pares ou individualmente, muita gente bailava na sala do apartamento que eu estava, acho que no de cima, aonde moravam Tainha, que depois se tornaria monge budista, Betarello e o arquiteto André Abe.

Mas não sei exatamente o que aconteceu. Foi de repente, o tempo de um xixi. Fui ao banheiro e quando voltei para sala, a festa tinha acabado, ou melhor, tinha descido escada abaixo e já nem era festa mais. Havia se transformado num embate homem a homem entre Ro Ro e Tadeu Lessa, vulgo Patola, aquela altura imobilizado e arroxeado pela “gravata” bem aplicada pela maldita cantora embriagada.  Foi um escarcéu só. Um patamar acima, os convidados se aglomeravam agitados em torcida por Patola, que se encontrava em grande desvantagem.

– Larga ele, Ro Rorosa –, gritava Nahor Bastos, incentivado pelas pessoas em volta.  Minha mãe ria de quase cair da escada. Ela estava adorando aquela confusão toda. Mas antes que se perdessem todas as estribeiras, as amigas de Ro Ro intercederam e desceram com a cantora o resto dos graus que faltavam até portaria do prédio e de lá de volta para hotel onde se hospedaram.    

Versões

Embate encerrado, voltei para dentro do apartamento e encontrei Jarrão sentado, sozinho e injuriado, no sofá da sala quase vazia. Perguntei o motivo da confusão. Jarrão resmungou uma resposta que mal entendi, mas que parecia insinuar que o problema tinha sido entre egos, tipo quem é a estrela aqui. Fiquei em dúvida.

Mas a versão mais difundida conta que a confusão começou pela inconsequência de Caçapava, o garçom do Sizino, que aquela noite largou o serviço para ir à festa e dançar agarradinho com Ângela Ro Ro. E apesar dela só amar mulheres, ele acreditou que era macho suficiente para reverter a preferência da cantora e passou a contar vantagens anatômicas com intenção de possuí-la. Pra quê. O atrevimento acendeu o curto pavio da cantora que, ultrajada, resolveu acabar com a festa do jeito que se esperava dela, escandalosamente.

Agora, porque sobrou para Patola, eu não faço a menor ideia, uma vez que perdi o início da confusão.

Em dúvida, segui para outros lados, já que nos apartamentos pouca gente sobrava. Foi o que fez a maioria dos convidados. Era cedo ainda e estávamos todos embalados e animados pela festa repentinamente acabada. O jeito era continuar e fomos, ou melhor, voltamos mais uma vez para o Sizino, aonde muitas noites amanhecemos.

Bons dias!

Nenna – parte II: early years na ilha

Nenna – parte II: early years na ilha

A obra já foi muito comentada, refletida, festejada, mas não há como nem porque evitar mencioná-la de novo quando se quer falar da trajetória artística de Nenna. Não só porque o Estilingue Gigante representou “a primeira manifestação pública de vanguarda nas artes plásticas do Espírito Santo”, como escreveu o poeta, músico e jornalista Arlindo Castro em artigo na edição de O Diário de 19 de julho de 1970, e “entrou para a crônica da cidade”, como lembrou Setembrino Pelissari, prefeito de Vitória na época, em depoimento em “A pedra que o Estilingue lança”, documentário realizado em 2010 por Ana Murta. Mas é preciso lembrar a obra principalmente porque o Estilingue Gigante diz muito sobre a arte e a estética de seu criador, desde então.

Foi na madrugada do dia 14 de julho de 1970 que Nenna juntou um grupo de amigos,companheiros de ideias, anseios e juventude, para montar a obra numa das castanheiras que então contornavam a Avenida Saturnino de Brito, na Praia do Canto, Vitória. Pela manhã, depois de revestida de gesso e pigmento e acrescida com uma tira longa de plástico vermelho e preto, a árvore havia se transformado num estilingue gigante – arma ou brinquedo imenso para uns ou para outros transeuntes surpreendidos pela intervenção. O Estilingue causou a surpresa esperada na cidade que não contava sequer com uma galeria de arte para o artista expor seu trabalho. Mas isso não foi empecilho para quem iniciava carreira e já enxergava as muitas possibilidades na forma de fazer e expor arte para além das paredes de galerias. Nenna tinha 18 anos.

Na ilha

Para a professora e crítica de arte Almerinda da Silva Lopes, em “A poética de Nenna”, livro ainda inédito em que ela percorre com olhar crítico a trajetória do artista, o Estilingue Gigante foi uma criação respaldada nas práticas conceitualistas e experimentais que instigavam e inspiravam Nenna nos primeiros anos e que estavam em sintonia com o tempo poético e histórico que atravessava a cena artística no mundo e no Brasil. Mas não em Vitória.

No início dos anos 1970, essas ideias eram praticamente desconhecidas na cidade e no estado do Espírito Santo, que possuía uma única escola de artes, o Centro de Artes da Ufes, onde ainda predominava um pensamento que enxergava vanguarda no Surrealismo ao mesmo tempo que ignorava a iconoclastia de Marcel Duchamp, e professores que exigiam cópia exata dos objetos de referência nas aulas de modelagem ou reprodução fiel de paisagens nas aulas de pintura. “Se é para reproduzir, melhor usar uma câmera fotográfica, não é não?”, pensava Nenna.

E ele não fez por menos, usou fotografia e também vídeo, pigmento e plástico, elementos naturais e industriais e a tecnologia de novos meios, todo tipo de material e suporte para fazer a sua arte. Não estava interessado em copiar o que já estava feito e que não exigia desafio nem invenção. Largou a escola e buscou novas fontes de formação e informação e outros interlocutores.

Mergulhou no ambiente da contracultura que, por incrível que pareça, reverberava em Vitória e inspirava uma turma de jovens ansiosos por novas linguagens e manifestações da arte. Jovens que tinham a cabeça feita por Marshall MacLuham, Allen Ginsberg, Glauber Rocha e Jean-Luc Goddard e pelas revistas de arte disponíveis na biblioteca do IBEU, como Arte na América e Art News. “A gente aprendeu muito lendo”, lembrou Luizah Dantas, colega de Nenna no curso do Centro de Artes da Ufes, em depoimento no documentário “A pedra que o Estilingue lança”.

Formação poética

Nesses primeiros anos, enquanto faz a cabeça junto aos amigos daqui – gente com a erudição de Arlindo Castro, com a poesia de Sérgio Régis, com a música dos Mamíferos e o canto de Aprígio Lyrio –, Nenna lê avidamente todo tipo de publicação que pudesse deixá-lo informado sobre a produção artística contemporânea. Viaja constantemente ao Rio de Janeiro, a capital federal da arte brasileira nos anos 60/70, tão perto e tão longe.

É nesse movimento que ele trava contato com a arte de Lígia Clark, Lígia Pape e Hélio Oiticica – com quem iria conviver durante o verão nova-iorquino de 1973 –, com a obra provocativa de Yoko Ono e a Pop Art de Andy Wahol, Robert Rauschenberg e Jasper Jones, criadores com propostas artísticas que seduziam Nenna.

O resultado de tanta pesquisa já se refletia no Estilingue Gigante, que trazia um conceito e uma proposta que iriam permear outros trabalhos de Nenna: a provocação ou convocação da participação ativa do espectador com a obra ou as interações de um com outro, “questão que interessava mais ao artista do que o produto final”, como anotou Almerinda Lopes.

Tradição, arte envolvente

O convite à interação sensível entre obra e espectador é uma das marcas da arte de Nenna, e não só essa. Mas em um único post não é possível dar conta de toda a força criativa do artista, então me apego aqui à marca da interação entre arte e espectador. E faço isso relembrando a mostra Meditações Extravagantes, a última que Nenna realizou no Brasil, em 2012 , antes de sua mudança para a França.

Relembro, especialmente, a sensível e emocionante Tradição, uma das oito obras da mostra. Tradição é uma obra de ambientação que só é percebida e sentida quando penetrada. Ocupou toda uma sala do Museu de Arte do Espírito Santo (Maes) e era vermelha, quente, intensa e surpreendentemente calma e meditativa. Homenagem ao folclorista capixaba Hermógenes Fonseca, a obra foi confeccionada em fitas vermelhas dependuradas em volta de um enorme tambor de Congo e preenchida por luz e som que remetiam à batida dos tambores, à música do violonista Maurício de Oliveira e às pausas silenciosas de John Cage.

Tradição foi confeccionada como um altar neobarroco e traz, segundo Almerinda Lopes, uma gama de referências culturais, materiais, tempo e memórias. A obra é também homenagem do artista à cultura da terra materna. Penetrá-la é sentir a ousadia e a vibração das cores das festas populares do interior do Espírito Santo “enquanto traço da identidade, afirmação e persistência cultural de um povo”.

Tradição é bela arte.

Foto de Jorge Sagrilo (2012)

Nenna, em transição

Nenna, em transição

Esse post serve para dar notícias de um amigo querido e para lembrar um pouco da trajetória de um artista altamente criativo. A primeira vez que o vi foi na praia de Manguinhos, onde eu estava com minha mãe e uma amiga de infância. Ele chegou com Rosalca, sua namorada então, e os dois se juntaram a nós. Foi a primeira vez que vi um homem de tanga, isso antes de Caetano e Gabeira. Acho que foi em algum fim de semana lá pelo início dos anos 70 e ele já era ousado. Agora ele não mora mais aqui e as conversas têm sido virtuais.

***

Nenna mora na França, para onde mudou, casou e se tornou pai de Antoine, seu filho mais novo, nascido há seis meses em Angers, cidade na região do Vale do Loire, onde vive desde 2012 com Magali Rencien, mãe de Antoine. Neste mês de abril e até maio, ele estará cercado pela família. Juranda, sua filha, está em Angers com Clarice, a neta que comemorou quatro anos este mês. Rebecca, a outra filha, está para chegar. Elas vieram conhecer o irmão e tio recém-nascido. Nenna está feliz. “Os dias têm sido bons”, diz ele.

Ser pai nessa fase da vida é uma benção, não só pelo filho “lindo e com saúde”, mas pela segurança que Nenna experimenta hoje. E isso se deve ao encontro com Magali e à mudança para Angers, há cinco anos. Numa retrospectiva da vida, ele recorda que teve a primeira filha aos 20 e poucos anos e a segunda aos 40, mas em momentos incertos da vida difícil do artista que nunca cedeu às concessões fáceis, sejam de ordem éticas ou estéticas. Agora, aos 65 anos, em Angers, ele tem o aconchego, não só familiar e amoroso, mas da cidade e do país que lhe dão a segurança e as condições de trabalho que nem sempre encontrou como artista brasileiro e capixaba, especialmente. “Aqui a atividade artística é reconhecida e apoiada, tem papel importante na vida social. Não é uma atividade marginal. O material para a arte, as muitas publicações, os livros, as conferências, tudo é de primeira qualidade. E ainda temos a segurança cotidiana. Andamos tranquilos.”

Gestação

Esse sentimento de segurança se deve também ao momento do artista. Nenna está tranquilo, calmo e sem pressa. A não ser nos momentos do dia em que cuida de Antoine, ele segue em exercícios diários de pintura, escultura e edição de vídeo em um dos dois ateliers que mantém na cidade, enquanto amadurece o projeto da próxima exposição que pretende exibir daqui a dois anos ou um pouco mais, o tempo que a obra pedir.

Ele não dá muito informação sobre o trabalho, uma vez que ainda está em processo de criação e Nenna não quer se adiantar. “A obra vai mudando desde o momento em que começamos a pensar nela até a produção final.” Mas ele não faz por menos. De certo é que será apresentada em Paris e “não será menor que ‘Meditações Extravagantes, diz, em referência a sua última exposição, que ocupou os espaços do Museu de Arte do Espírito Santo (MAES) e a Galeria Homero Massena, entre abril e julho de 2012, Vitória. O conceito será o mesmo – instalação e ambientação –, mas a estética não. “O momento é outro”. Por isso ele nem cogitou exibir Meditações na França. “Não faz sentido”, diz Nenna. “Obras como ‘Tradição’ têm forte sotaque brasileiro” o que para ele tem a ver com o tempo, o lugar e os interesses que o moviam em outro momento. “Agora estou interessado em outras estéticas.”

A obra e o espaço da obra

O processo de criação para o novo trabalho tem levado Nenna a visitar locais de exposição na capital francesa – que fica a cerca de 300 km de distância de Angers – em busca do espaço que não só abrigue, mas também dialogue com a obra. “O espaço é vital à obra”, diz ele. E isso é evidente na trajetória do artista, desde que Atílio Gomes Ferreira, o nome civil, surpreendeu a cena artística capixaba, em 1970, com o impactante “Estilingue Gigante”, interferência urbana que aproveitou as formas sugestivas de uma das castanheiras da Avenida Saturnino de Brito, Praia do Canto, para criar uma obra provocativa e interativa, marco da arte contemporânea em terras capixabas.

Das galerias de Paris, poucas lhe interessam. A cidade tem 1.200 galerias de arte – uma infinidade para quem se batia, no início da carreira, com a falta quase total de espaços de exposição em Vitória. Mas Nenna não se deslumbra. Diz que a maior parte destas galerias faz parte de um mercado que não o interessa e muitas se dedicam principalmente a esquentar o currículo de artistas estrangeiros e periféricos – “pelo deslumbre de expor em Paris” – o que agrega valor em seus países de origem. E ele prefere espaços com grandes áreas de exposições, como o Palais de Tokyo. A arte de Nenna é ambiciosa, como deve ser a arte.

Respirar-te

Morar na França tem proporcionado a Nenna uma vivência nos ambientes de referência e alta produção artística e um mergulho no berço da cultura e da arte ocidentais. Em Angers, que conta com pouco mais de 170 mil habitantes e quase dois mil anos de história, o Musée de Beaux-Arts, o principal da cidade, tem um acervo de 65 mil obras, incluindo desde objetos arqueológicos, passando pela antiguidade clássica, renascimento, impressionismo, etc. um panorama bastante amplo da história da arte, aí incluindo alguns artistas contemporâneos. “E há muitos jovens artistas aqui trabalhando em ateliers administrados por coletivos em parceria com a prefeitura. A energia é boa”.

Estar na Europa permite que ele frequente os circuitos de arte na França e no continente, mantendo-se sempre curioso e crítico em relação à produção artística contemporânea. “Pela primeira vez vivo de fato e não de passagem num ambiente central da produção e circulação artística mundial. Isso significa muito”. Por isso ele não tem pressa agora, está fruindo arte e amor e bebendo os excelentes vinhos do Vale do Loire.  Santé!

Clarice, Nenna e Antoine no atelier do artista. Foto: Juju Alegro

Houve uma vez um verão, um festival e Fábiôôô

Quando lembro nestas memórias a casa de Branca, estou sempre me referindo a casa no morro do Barro Vermelho onde ela morou por mais de 30 anos e só saiu porque o Barro Vermelho não comportou mais casas. Sobram algumas poucas ainda, é verdade, mas estas que resistem estão espremidas entre espigões que deram nova densidade ao bairro e as suas ruas, que hoje engarrafam nas horas tensas dos dias úteis da semana. Mas houve outra casa de Branca, que estendeu para Guarapari o mesmo movimento de amigos e agitação que havia na casa do Barro Vermelho, quando o morro era ainda calmo e sossegado.

Foi no verão de 1971 que meus pais alugaram uma casa em Muquiçaba, bairro então afastado do centro da cidade saúde. Não por coincidência, no mesmo ano e na mesma estação aconteceu o Festival de Verão de Guarapari. E como minha mãe sempre foi atraída por gente e movimento, na rua ou em casa, acredito que o festival foi pretexto para passarmos aquele verão na cidade.

A título de informação, o Festival

Só para registrar, o Festival foi um quê de ousadia e amadorismo, confusão e repressão, mas que entrou para a história do movimento musical do estado, tanto que mereceu registros importantes na historiografia da cultura e arte capixaba. Por isso não vou me estender aqui sobre o evento memorável, apesar dos pesares, mas recomendo aos que tiverem maior interesse pelo Festival, os livros de José Roberto Santos Neves – Rockcrise, a história de uma geração que fez barulho no Espírito Santo – e de Francisco Grijó – Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular –, que contam com riqueza esta saga.

Organizado por Rubinho Gomes e Antônio Alaerte, o Festival de Verão, nosso pequeno, pretensioso e confuso Woodstock, não cumpriu muito do que prometeu. Dos artistas anunciados – alguns sem saber disso – boa parte declinou por prever roubada. E o festival teve mais polícia do que público – afinal era 1971, de tempos sombrios e intolerantes no Brasil – e muita gente levada em cana, inclusive os próprios organizadores e alguns artistas locais.

Mas o festival aconteceu com os artistas que aceitaram participar de graça ou por pouca grana – problema que quase inviabilizou o evento. Entre os artistas de maior evidência no cenário nacional de então, se apresentaram no festival Milton Nascimento, Ivan Lins, Luiz Gonzaga, Novos Baianos, Tayguara e o fatídico Tony Tornado, que fraturou a coluna de uma espectadora ao se jogar do palco, no que seria, proposital ou não, uma performance antecipada da atitude punk e arriscada de se lançar sobre a plateia. “I’m flaying”, disse ele antes de machucar a menina.

Fábio

Outro artista em evidência que foi convidado e aceitou participar do evento, estava Fábio – que não era padre nem Júnior e nem mesmo Fábio.  Paraguaio de origem, seu nome de batismo é Juan, virou Fábio quando se tornou artista no Brasil em meados da década de 1960. Cabeludo, como eram cabeludos os artistas de então, grande amigo de Tim Maia, Fábio teve sucessos entre o fim da década de 1960 e início dos anos 70. “Stella”, lançada em 1969, foi seu maior êxito e não só pela canção. O trecho inicial, quando o cantor pronuncia em eco o nome que dá título à música, foi adaptado para servir de vinheta sonora às transmissões radiofônicas da Rádio Globo nos jogos de futebol dos times do Rio de Janeiro nos anos 1970 e 1980: FLAMENGÔÔÔÔ; BOTAFOGÔÔÔÔ, VASCÔÔÔÔ; FLUMINENSÊÊÊÊ. E esse talvez tenha sido o maior sucesso dele, pois que Fábio teve pouco tempo de evidência nas paradas de sucesso – foi como um cometa que passou rápido e sem maior relevância na música popular do Brasil.

***

Mas Voltando a Branca, lembro que assim como era comum na casa do morro, que recebeu muitos dos artistas que se apresentaram em Vitória nos anos 1970 – Maria Bethânia, Djavan, Moraes Moreira, por exemplo – a casa de Muquiçaba recebeu alguns dos artistas, locais e nacionais, que se apresentaram no Festival. Fábio foi um deles. Levado por algum amigo que não recordo, lembro que ele passou boa parte da tarde conversando na varanda da casa de Muquiçaba. Depois, seguiu de carona com Branca para o hotel em que se hospedou.

No Gordine que minha mãe dirigia de Muquiçaba para o centro de Guarapari, ele perguntou a ela qual o meu nome da criança sentada no banco de trás do carro. Minha mãe informou e não deu outra: “Manuelââââ”, repetiu Fábio.

Carmélia, um pouco mais dela

Sigo falando um pouco mais sobre Carmélia, porque num post só talvez eu não tenha sido capaz de revela-lá. Mas antecipo, falar de Carmélia é falar de um tempo de Vitória, dos amigos dela e dela própria, a Magnólia. Esses, principalmente, foram os assuntos de suas crônicas. Este é então, meu pretexto para o texto que segue.

Vitória de mais de 40 anos atrás é o tempo e o lugar de Carmélia. Esse foi o cenário de sua vida e de suas crônicas. Era um tempo em Vitória que o pescador levava o cesto de peixes às casas das famílias. Ali mesmo escolhia-se e comprava-se o pescado fresco. Entre o peixe e a mesa do almoço só havia a rede e o pescador. Era uma época que a Praia do Canto ficava mais próxima do mar, em que havia as praias de Santa Helena e do Barracão, depois soterradas pelos muitos aterros que a cidade sofreu. Nesse tempo de Carmélia, as ilhas do Boi e do Frade só eram alcançadas de barco ou a pé na maré baixa, a partir da praia que contornava toda a Avenida Saturnino de Brito, do Iate Clube ao Miramar.

Faz tempo isso. A Avenida Saturnino de Brito, que um dia beirou o mar, é hoje uma via interna da Praia do Canto que nem merece mais o status de avenida. Ficou pequena, secundária, no bairro que cresceu para cima e para os lados, depois dos aterros e dos edifícios. Mas as castanheiras, que Carmélia comemorava (abençoava) em crônicas continuam lá contornando a avenida, inclusive aquela que compôs o “Estilingue” de Nenna (ainda Atílio Gomes), obra de intervenção urbana e marco da Arte Contemporânea na cidade.

As modas e a Bossa Nova

A referência à obra de Nenna serve de indicativo de que Vitória, apesar de pequena capital do Sudeste, como ainda é hoje, reunia uma gente antenada com as novas propostas e linguagens artísticas que sacudiam a arte naqueles anos 60/70. Aquela era a época também dos Mamíferos, da contracultura, e da geração de 1968 retratada por Zuenir Ventura no livro “1968, a ano que não terminou”, mas vivendo aqueles tempos de Vitória à beira mar. Era uma turma de gente que curtia os beatniks, o cinema autoral francês, psicanálise, o desbunde e a fossa, o estado de ânimo e de alma que dominou a época e a única concessão ou adesão que ela se permitiu fazer às modas daquele tempo. Escreveu crônicas sobre a fossa e suas modalidades.

Mas Carmélia não se impressionava, nem se furtava à crítica ao gosto dos amigos. Tinha um olhar crítico e por vezes entediado para as modas da época, a ponto de se entediar com a conversa em torno do último filme do Goddard, com “a carneirada que compõe o exército tropicalista (…) e a espinafração social em mesa de botequim”. Não era do desbunde nem da revolução, mas sim uma observadora atenta e crítica de seu tempo e de sua geração. Seu gosto e paixão tinham inspiração maior na geração anterior, de Tom Jobim e Antônio Maria, o compositor e cronista da dor de cotovelo de quem ela se considerava viúva. Carmélia era samba canção e bossa nova.

Foi em 1958 que a primeira crônica de Carmélia foi publicada no jornal Sete Dias, um ano antes de João Gilberto lançar “Chega de Saudade”, o Lp símbolo da Bossa Nova, movimento que produziu também Dindi, musa em música de Tom Jobim e amiga imaginária a quem ela se confessava em crônicas. A canção de Tom foi a que ela mais cantou na sua efêmera vida de cantora – sim, ela também foi cantora. O Praia Tênis Clube, na Praia Comprida, e no Iate Club, na Praia do Canto, foram os palcos dela.

Ela por ela

De 1958 até 1974, ano de sua morte, Carmélia seguiu cronista por sete jornais – além de Sete Dias, escreveu também em O Diário, Vida Capixaba, A Tribuna, A Gazeta, O Debate e Jornal da Cidade.  Destes, só dois resistiram ao tempo e à internet. Mas aqueles eram tempos analógicos, em que os jornais eram o meio e privilégio de poucos e onde acontecia, além das notícias de praxe, o debate cultural, a crítica, as intrigas da cidade. Mas eram também, como ainda hoje, o espaço dos cronistas, como Cármelia, que se reconhecia como “cronista do povo”, foi o que ela declarou em autoentrevista publica em O Diário e em “Vento Sul”.

Carmélia não casou, numa época que todas as mulheres casavam. Carmélia era Carmélia para tudo e para todos. “Trágica, hostil, amiga, cínica e debochada”, como a descreveu Amylton de Almeida na introdução de “Vento Sul”, Carmélia era ousada. Não teve filhos, só amigos e alguns amores frustrados.

Todas as épocas são interessantes. Mas nem todas conheceram alguém como Carmélia

Todas as épocas são interessantes. Mas nem todas conheceram alguém como Carmélia

“(…) escreva uma crônica cheia de doçura, se possível, lembrando de alguém que sempre entendeu (com amor e ironia) que esta ilha é uma delícia, porque qualquer lugar do mundo se torna delícia, desde que ele abrigue os amores que a gente tem…”

Muito se falou e se escreveu sobre ela. Até porque não é possível falar da vida boêmia e intelectual de Vitória dos anos 1960 e 1970 sem lembrar Carmélia Maria de Souza. Na verdade, não é possível lembrar Vitória dos anos 1960 e 1970 sem falar de Carmélia, até porque ela mesma comentou muito sobre esta época. De certa forma, Carmélia traduziu o espírito daquela época em Vitória. Ou melhor, Carmélia era o próprio espírito da época – às vezes um espírito santo, às vezes um espírito de porco. Porque ela era assim, contraditória, de brigas e amores.

Tenho uma lembrança infantil dela, pois que frequentou muito a nossa casa no morro do Barro Vermelho. Só mais tarde conheci a cronista sublime que ela foi. Recentemente reli “Vento sul”, obra que reúne o melhor de Carmélia em forma de crônica. E o melhor de Carmélia não é pouca coisa – “pode crer, irmão” –, assim como o pior também não, como ela mesma admite e avisa em alguns de seus textos, como  “Autocrítica”: “sou capaz das coisas mais cruéis, perversas, incríveis. (…) Sou fogo. Graças a Deus, consigo ser ruim”.

O título da coletânea é referência a esta cidade de ventos, a Ventória dos velejadores, que ela amava.  A cidade foi protagonista, cenário e paisagem, quando não saudade, de algumas das crônicas de Carmélia reunidas em “Vento Sul”. A Vitória de seus escritos nos leva ao Britz Bar e ao Mar e Terra, à Rua Duque de Caxias e à Praia do Canto, às tardes e às madrugadas.

Mas nas crônicas de Vento Sul Carmélia fala, sobretudo, sobre ela mesma e nas suas confissões revela um pouco do espírito de sua geração. Talvez ninguém tenha expressado a alma da cidade de 50 anos atrás com tanto lirismo e de forma tão pessoal como fez ela em crônicas. Ou não seriam líricas as crônicas que falam de amores e afetos, do mar, do céu e das estrelas, das noites de lua e violão à beira mar?

Minhas lembranças dela são lembranças de criança, pois que Carmélia morreu em 1974, aos 37 anos, quando eu mal entrava na adolescência. E nos últimos meses de vida ela se afastou lá de casa por motivos que eu esqueci ou não lembrei de perguntar. Mas eu lembro que suas visitas enchiam nossa casa de amigos e gargalhadas, quase sempre provocadas por ela, que era também, claro, muito espirituosa.

Vento sul, crônicas de confessionário

“É natural e humano o pranto, tanto quanto o riso, na geração de onde eu vim e na geração deste tempo que nos foi dado para viver.”

Vento Sul é uma obra póstuma, cujo título foi retirado por Amylton de Almeida de um romance que Carmélia não concluiu – sua maior frustração, “verdadeira crueldade que cometi comigo mesma”. O título serviu então à coletânea de crônicas organizada e editada por Amylton a partir de textos publicados em jornais e revistas por onde ela passou em 17 anos de jornalismo. Na introdução, Amylton compara Carmélia a Gertrude Stein, pois que teria representado para boa parte da intelectualidade boêmia capixaba o mesmo que a poeta e romancista havia representado para os intelectuais e boêmios que se reuniam em torno dela e fizeram de Paris uma festa nos anos 20 do século passado. “Carmélia viveu tudo, intensamente, sempre presente e inevitavelmente à frente de tudo que se tentava fazer para romper com o convencional e o intelectualmente passivo”. Exagero ou não, Carmélia era de fato uma referência daquela época em Vitória. Ou quem sabe a sua mais completa tradução.

Se há semelhança entre Carmélia e Gertrude Stein, como disse Amylton, a mim a semelhança está na lembrança de vê-la sentada na poltrona do escritório quarto de hóspedes da nossa casa – seu lugar cativo –, onde passava noites inteiras sentada com o indefectível copo na mão e cercadas de amigos atraídos pelas suas conversas, sua crítica e seu humor e pelas crônicas que muitas vezes eram esboçadas, senão acabadas, ali naquele momento junto aos que eram da turma. Mas não era só noites que ela passava lá em casa, havia também tardes e houve dias.

Em uma de suas crônicas, ela comenta um tombo que sofreu e na queda levou Milson Henriques, grande amigo, junto. O acidente resultou em um braço quebrado e joelho machucado e foi motivo de uma temporada de Carmélia no escritório quarto de hóspede da nossa casa no Barro Vermelho. Para a gente, as crianças, dizia que tinha água no joelho e precisava de cuidados médicos, ou dos cuidados do meu pai, médico, e por quem ela tinha enorme carinho.

Mas não foram poucas as vezes que ela ali se internou – e na casa de outros de seus amigos queridos. Muitas vezes por dores outras, geralmente dores de amor. Ela era dada a isso. E confessou.

Vento sul, crônicas de amor

“Diga ao meu amor que não deixo nada para ele, a não ser a certeza de que ele esteve presente em todos os sonhos e em todos os dias da minha vida, desde quando o conheci.”

Vento Sul também é feito de sentimentos confessos, da personalidade e das percepções de sua autora. É feito de coisa que ela amava e outras nem tanto: a vida e a morte, os amigos para toda a vida e gente chata, praia e Praia da Costa, manhãs de sol e noites frias, Dindi e Maísa. Para Dindi – que não é e nem nunca foi pessoa encarnada, mas personagem musa imaginada por Tom Jobim na canção que ela amava, sobretudo na voz de Sylvia Telles –, Carmélia dedicou algumas crônicas e a quem escreve como escrevia a muitos de seus amigos – “diga que eu fui sua muito doida amiga mesmo, Dindi”.

Maísa foi aquela que provocou a maior dor de amor de Carmélia, como a cronista confessou sem pudor. Carmélia considerava Maísa a melhor cantora e a pior mulher. E por dois motivos: “O Barquinho”, música de Roberto Menescal e Ronaldo Bóscoli que ela adorava na voz de Maísa; e Zé Costa, uma das paixões de Carmélia. Maísa, a cantora cujos belos verdes olhos mereceram poema de Manuel Bandeira, tomou Zé Costa de Carmélia, assim como haveria de tomar Ronaldo Bóscoli de Nara Leão poucos anos depois. Maísa era dessas. Mas talvez Maísa tenha sido outra das paixões de Carmélia.

Branca e Carmélia

“E a gente diz adeus. Mas sempre haverá vento, pode crer. Pelo menos enquanto a noite – esta pátria querida de todos nós – continuar sendo habitada, não pelos grandes homens, com seu ridículo. Mas pelos companheiros. Com a sua ternura e com o seu perdão.”

Não sei exatamente por que Branca brigou com Carmélia e elas deixaram de se falar. Esse foi um dos maiores arrependimento de minha mãe, que não perdoou a tempo. Carmélia morreu sem que as duas voltassem a se falar. Carmélia até pediu, mas Branca ainda magoada, recusou um último encontro. Acho que não pensou que fosse o último. Chorou com dor, depois. E perdoou.

As primeiras artes de Luizah Dantas nas paredes da casa de Branca

As primeiras artes de Luizah Dantas nas paredes da casa de Branca

Em posts anteriores, andei lembrando o ano de 1969 por causa dos Mamíferos. As lembranças desse ano me obrigam a fazer uma correção. No primeiro texto que escrevi sobre minha mãe, havia dito que os primeiros sinais de suas mudanças de gosto e interesses tinha a ver com as mudanças na decoração da casa dela e com o pôster de Caetano na parede da sala maior, da época que ele gravou o LP Transa. Mas Transa foi lançado em janeiro de 1972. E agora lembro que as mudanças no interior da casa começaram antes, começaram quando suas paredes foram sendo decoradas com as primeiras pinturas de Luizah Dantas, então uma muito jovem estudante de Artes Plásticas da Ufes. E isso começou em 1969, com certeza.

Sei que era 1969, pois achava curiosa a forma como Luizah anotava o ano da obra ao lado de sua assinatura, no canto inferior direito da tela. Ela desenhava um círculo e puxava uma perna para cima e outra para baixo, formando os números 6 e 9 unidos na mesma volta. Lembro de um quadro em especial, com pessoas em vota de mesa de refeição que, para mim, remetia a “Panis et Circense “ uma música de Caetano e Gil gravada por Os Mutantes, em disco lançado um ano antes, mas que ainda fazia sucesso em 1969.

A praia do Sacre-Couer

Luizah conheceu minha mãe de uma forma parecida de como foi com Marco Antônio Grijó, uma forma que mostra um jeito de Branca de fazer amigos e um pouco da personalidade dela, curiosa, interessada e espontânea. O encontro com Luizah também foi casual e ocorreu em outro ambiente que Branca adorava frequentar, além da loja de disco de Jairo Maia: a praia.

“Conheci Branca em fevereiro de 1969 , lembrou Luizah. “Foi na praia do Colégio Sacre Couer. Ela chegou com vocês [os filhos] e puxou conversa. Era expansiva. Eu falei de um quadro que havia pintado e reproduzi na areia da praia. Ela disse: é meu, quero ele. Foi a primeira pessoa que comprou uma obra minha”.

Branca convidou Luizah para ir à praia novamente no dia seguinte. “’Vamos conversar mais’, ela me disse. E depois me convidou a sua casa. Branca era muito comunicativa. Fiquei louca quando cheguei e vi tantos livros.” Os amigos de minha mãe em geral eram mais novos, às vezes bem mais novos, do que ela. Luizah tinha 18 anos na época e minha mãe já tinha seus quatro filhos.

Noites adentro

Depois da praia, Luizah passou a frequentar a casa. “Nós sentávamos para conversar. Eu, Branca, Victor, Carmélia, Rogério Coimbra, Toninho Rosseti e discutíamos o que estava acontecendo dentro da arte no mundo – no teatro, na música, no cinema. Os beatniks ainda estavam em voga e liam-se poemas de Ginsberg. Branca gostava especialmente de um poema do Ginsberg – The Animals.” Luisah já conhecia Rogério Coimbra da Praia do Canto, onde ambos moravam, dos tempos que pegavam o mesmo ônibus a caminho da escola. Voltou a encontrá-lo na casa de Branca, assim como encontrou também Afonso Abreu, Mário Rui, Marco Antônio Grijó e Marinho Celestino, personagens de textos passados. “Sua mãe deu uma força para Marinho fantástico. Foi ela que levou ele para Paris.”

Marco Antônio Grijó lembra que a casa de Branca era uma das melhores opções na cidade para encontrar movimento interessante e fora do agito juvenil do centro da cidade. “Íamos muito à praia e depois íamos à casa de Branca, que era um lugar sempre em movimento de pessoas amigas falando e fazendo arte. Fora isso, não havia muito que fazer na cidade.”

A impressão de Luizah sobre Vitória daqueles anos é um pouco diferente das impressões de Marco Antônio, que diz não haver muitas opções na cidade. É natural que Marco Antônio tivesse esta impressão, pois vinha de uma experiência de vida paulista, onde tocara na noite paulistana com músicos profissionais que foram base de sua formação musical. Mas para Luizah, que ainda não tinha ganhado mundo como faria mais tarde, Vitória era ótima. “Tinha todos os cinemas funcionando. Juparanã, Odeon, São Luiz, Santa Cecília. E tinha festivais de filmes franceses, filmes alemães etc. Eu ia com sua mãe e depois íamos para o Bar Santos, o Mar e Terra, o Britz Bar.” Nas lembranças de Luizah, havia em Vitória uma boa oferta cultural na cidade e, quando não, sempre havia a casa de Branca.

A casa era como um pólo cultural, por reunir aquelas pessoas e pelas conversas. “Aprendi muita coisa com sua mãe e seu pai. Éramos amigos para caramba. A gente conversava até às quatro horas da manhã. A gente ficava o dia inteiro lá, tomava banho e voltava. Sua mãe sempre tinha um programa para sugerir. ‘Hoje vai passar um filme do Goddard.’ Então íamos a casa e conversamos sobre o cinema do Goddard. Já íamos para o cinema de cabeça feita. Depois do filme íamos conversar sobre o que tínhamos assistido.“

Branca e o cinema

O cinema foi outra das muitas paixões de Branca. Seu envolvimento com a Sétima Arte se deu não só como atriz, mas ainda como a crítica de cinema no jornal O Diário entre as décadas de 1960 e 1970. Mas este é um assunto para post futuro. Para não me alongar aqui, fecho o texto com outras impressões de Luizah Dantas sobre Vitória daquela época na casa de Branca:

“Éramos felizes e não sabíamos. A gente ficava muito à vontade, entre amigos, sem hora de almoço, sem hora de ir embora. Hoje não é assim. É mais tenso e pouco frequentamos as casas uns de outros”.