Nestor Gomes, uma ladeira e muitas e boas ideias

                           “Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, na alma dos poetas, no cérebro das multidões.”                                                                                                                                            (João do Rio)

 

A Rua Nestor Gomes é na verdade uma ladeira. Na verdade, duas ladeiras, uma que sobe da Rua Duque de Caxias até o largo do Palácio e outra que desce dali em direção à Avenida Florentino Avidos, do outro lado. Esta rua-ladeira em forma de arco reúne em si e ao seu redor prédios, monumentos, escadarias e memórias que são testemunho e marca da formação cultural e da história da cidade de Vitória e do estado do Espírito Santo. É lugar, como disse Rafael Gaspar, do Coletivo Expurgação, que conta muito da identidade capixaba.

A rua foi originalmente chamada de Ladeira do Chafariz, numa referência ao chafariz hoje seco da Praça João Clímaco, na parte alta do arco. Era então uma viela estreita que foi urbanizada na época em que o governador que lhe dá nome mandou botar abaixo o casario antigo da cidade alta, atitude que o povo contente considerou uma boa ideia. Daí o novo logradouro adotou o elogio e a ladeira passou a ser conhecida como Ladeira da Boa Ideia. O nome, não o motivo que o originou, talvez possa ser considerado uma premonição ou uma vocação. Ou as duas coisas. Segundo Fernando Tatagiba, nos anos 60 a ladeira, nomeada Rua Nestor Gomes desde o final da década de 20, era ponto de agitação cultural da cidade por conta da Livraria Âncora, local de encontro de escritores e da intelectualidade capixaba da época.

A livraria ainda existe, mas agora é outra e tem outro nome. Chama-se Livrara Cultura Capixaba e é uma das instituições que formam o Corredor Criativo Nestor Gomes, uma iniciativa que vem reafirmar, ou resgatar, a vocação da ladeira como lugar de encontros e agito cultural. A rua é endereço de 17 instituições cujo negócio se insere na economia criativa, setor geralmente associado à produção de bens culturais, mas que envolve ainda moda, tecnologia, internet, arquitetura e design e tudo mais que é gerado pela capacidade humana de imaginar, criar, inventar, inovar. São instituições cujo negócio é gerar boas ideias e fazê-las acontecer.

São 17 instituições que coincidentemente foram se instalando na Nestor Gomes nos últimos dez anos, atraídas pelo baixo custo dos imóveis no centro de Vitória e pela riqueza do patrimônio físico e histórico da rua e seu entorno, que lhe confere uma atmosfera inspiradora. E mais recentemente, o centro tem se tornado lugar de moradia e circulação de um público mais aberto e curioso a novas propostas artísticas e ofertas culturais. Pois é um pouco disso que a Rua Nestor Gomes e as instituições ali presentes vêm oferecendo.  Por ser endereço de instituições criativas, a via tem sido palco e moldura de eventos artísticos e ações culturais como o Ensaio Aberto e o Cine Expurga, do Coletivo Criativo Expurgação (matéria do post anterior), o Beco das Pulgas, do Instituto Quórum, das esquetes teatrais do Teatro Folgazões, exposições com as criações de moda do Atelier King & Tacchetto, eventos que em geral ocorrem simultaneamente como forma de movimentar e trazer o público de volta ao centro histórico.

APL, alternativa ao fomento cultural

A reunião de empresas de um mesmo setor em um mesmo lugar é não só uma coincidência feliz como também condição apropriada para a conformação de um arranjo produtivo local (APL), que é caracterizado, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, por aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais com foco específico de atividade econômica e que atuam de maneira colaborativa e interativa, de forma a favorecer e ampliar a troca de conhecimentos, as formas de acesso ao mercado e a geração de inovações. O Corredor Criativo Nestor Gomes é uma das 27 APLs no âmbito da economia criativa identificadas no país pelos ministérios do Desenvolvimento e da Cultura e o único do estado. O fato é relevante uma vez que o reconhecimento favorece a elaboração de projetos coletivos, a concorrência a editais e seleções públicas, apoio institucional e acesso a linhas específicas de financiamento, o que pode dar maior peso aos projetos gerados no âmbito do Corredor na concorrência em editais públicos e privados de fomento à cultura.

E esse talvez seja o caminho para resolver uma das maiores queixas dos produtores capixabas, que não raramente têm seus projetos preteridos em relação aos projetos vindos principalmente do eixo Rio-São Paulo. A política de editais é parte do processo de quem faz cultura no Brasil, pois infelizmente o setor cultural do país, em sua maior parte, não se sustenta sem apoio e suporte institucional e políticas públicas que possam incrementá-lo. E na disputa por apoio e financiamento, o balanço tem sido negativo para o Espírito Santo. “O estado sempre ficou a margem. As grandes empresas que faturam e muito aqui, como Petrobras, Vale, Acelor, têm sede no Rio de Janeiro ou São Paulo e é lá que investem”, lamenta Aline Yasmin, do Instituto Quorum. Segundo ela, mesmo as empresas capixabas dão pouco apoio à cultural local. “Elas preferem bancar projetos de artistas consagrados, que dão retorno comercial e imediato, do que apoiar o desenvolvimento cultural do seu próprio estado”, diz Aline.

Um novo significado no centro

A formação de uma APL criativa pode também estimular o consumo da produção cultural local e abrir o mercado para outras possibilidades de criação artística. Entre os parceiros envolvidos na consolidação da APL Nestor Gomes, estão as secretarias estadual e municipal de cultura, a secretaria de desenvolvimento do estado, Serviço de Apoio a Micro e Pequena Empresa (Sebrae) e Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo (Findes). Para Aline, a participação de entidades como a Findes é importante para que a iniciativa privada entenda o papel da economia criativa no desenvolvimento local, na geração de emprego e renda e para a requalificação e reapropriação do espaço urbano.

No centro de Vitória, apesar do incremento no movimento de pessoas e eventos, ainda se encontram áreas degradadas e abandonadas, propício a ser ocupada pela praga das cracolândias. Corredores e espaços criativos tem sido solução adotada em algumas cidades para recuperação urbana, não apenas pela requalificação de ruas, como também de prédios e bairros inteiros, como vem ocorrendo no centro do Rio de Janeiro e ocorreu em Berlim e outras cidades que enfrentaram a decadência de seus velhos centros. As experiências de arranjos produtivos têm se mostrado como boa solução para dinamizar e dar novos usos e ocupações à áreas decadentes, o que em geral é acompanhada pela recuperação e restauração do patrimônio físico. É outra contribuição que Lorena Louzada, do Expurgação, acredita que a APL Nestor Gomes pode trazer: dar novo significado, ou resignificar, o centro de Vitória.

Conexões globais

A consolidação de uma APL criativa é importante não só para fortalecer as redes de cultura locais, mas pode oferecer oportunidade de cooperação internacional entre iniciativas semelhantes comprometidas em investir na criatividade como uma propulsão para o desenvolvimento urbano sustentável e aumento da influência da cultura no mundo. Projetos como Grito do Rock, realizado pelo Expurgação em parceria com Coletivo Fora do Eixo, e o Espírito Mundo, do Instituto Quórum, que desde 2005 promove intercâmbio entre criativos locais e internacionais, conectam Vitória com a cena cultural independente que emerge em outros cantos do mundo.

A próxima edição do Espírito Mundo vai levar dez artistas capixabas para participar do Festival Espírito Provence, na França, durante o mês de agosto. Além de apresentação de trabalhos próprios, intercâmbio de conhecimento e troca de ideias, experiências como estas podem consolidar Vitória como cidade integrante do circuito cultural independente e incentivar o trabalho, a formação e mesmo a carreira internacional de artistas locais.

Foi numa dessas oportunidades que Yuri Salvador, fotógrafo e cinegrafista do Expurgação, depois de participar da edição 2013 do Espírito Mundo, resolveu ficar na Europa e estudar cinema. Agora corre mundo documentando o drama humano em áreas de conflito. Está no Oriente Médio, provavelmente cobrindo a tragédia síria. Talvez volte logo, talvez fique mais um tempo lá fora. Quem sabe das voltas que o mundo dá?

Coletiva mente, ou como fazer arte no centro da capital

O escritório ocupa o segundo andar de um sobrado de dois andares no numero 227 da Rua Nestor Gomes, centro da cidade. Por uma escada estreita se chega ao amplo salão no andar de cima, onde cinco jovens estão trabalhando. O sexto, Rafael Gaspar, é quem me recebe e me apresenta aos demais. São todos muito simpáticos e receptivos, tanto que a primeira pergunta que faço é respondida por todos eles. Um complementa a informação do outro e isso já me dá ideia do espírito e da energia da turma. A mesa cumprida e compartilhada que ocupa o centro do salão, a disposição dos móveis, os quadros, cartazes e desenhos nas paredes informam que o escritório é um local de trabalho coletivo de criação.

Mas ainda não é tudo. No andar superior há também um pequeno ateliê, para quando a criação necessitar de silêncio e concentração, além de cozinha e banheiro. O andar térreo foi adaptado como estúdio de gravação e cineclube, o que indica que o trabalho ali vai da criação à produção artística e à ação cultural. Estes jovens criam, produzem, distribuem e fazem circular bens e serviços criativos.

Estamos na sede do Coletivo Criativo Expurgação, uma empresa que é ao mesmo tempo produtora, agência de criação e espaço de eventos e difusão cultural, formada por profissionais que atuam como designer, videomakers, músicos, fotógrafos, artistas plásticos e visuais, produtores, programadores, roteiristas e comunicólogos, cujas competências percorrem praticamente toda a cadeia produtiva da criação e realização artística, audiovisual e publicitária.  São ao todo nove sócios entusiasmados com o trabalho e com o processo coletivo de criação e produção, de acordo com a filosofia “buzz”, expressão criada pelos economistas ingleses Michael Storper e Anthony Venables para designar “os processos que ocorrem ao mesmo tempo no mesmo lugar, e acabam gerando mais informação, ideias e inspiração”. É uma filosofia de trabalho que predomina em empresas inovadoras que apostam na energia do conjunto como estímulo criativo.

Essa é a gênese do Expurgação, uma ideia que foi tomando forma entre jovens universitários interessados em música, cinema e design, que nos idos de 2002 viviam e conviviam numa casa coletiva no Bairro República, onde havia um estúdio de música. A música levou ao videoclipe, ao cinema, fotografia, artes plásticas e gráficas e à busca constante por linguagens inovadoras para a criação artística.

“Éramos estudantes de curso de Desenho Industrial da Ufes, que estava recém instalado. Como o curso era ainda pouco estruturado, a casa funcionava quase como um laboratório de pesquisa e experimentação”, lembra Alexandre Barcelos, músico, cinegrafista e designer de som. Esse ambiente de colaboração ajudou cada um a descobrir outras vocações e desenvolver novas aptidões criativas com o mesmo espírito coletivo que depois foi levado para o Expurgação, formalmente oficializado em 2007.

A cidade, palco e moldura

O coletivo desenvolve projetos comerciais, como filmes publicitários e institucionais para clientes empresariais, produção musical e videoclipes para artistas e bandas locais, além da prestação de serviços profissionais como forma de dar sustentabilidade à empresa. E é um bom negócio, que garante ao Expurgação uma cartela de 50 clientes e a contratação do trabalho profissional de seus integrantes.

Mas se o trabalho comercial e a prestação de serviços garantem sustentação ao Coletivo, são as produções mais autorais e os eventos culturais e intervenções urbanas que melhor traduzem a marca criativa e produtiva do Expurgação, uma empresa que afinal é formada também por artistas e produtores, que apesar da experiência, são ainda jovens com anseio de criar sua própria obra e buscar um diálogo constante com outros movimentos e artistas na cidade, no país e no mundo que desenvolvam processos inovadores de criação e produção cultural. São muitas as iniciativas do coletivo, sobretudo no campo da música, do audiovisual e da produção de eventos que têm a cidade e a rua como palco e moldura.

O Ensaio Aberto é um exemplo. Todo mês o Expurgação abre as portas de seu estúdio de gravação para a apresentação de bandas e artistas que vêm emergindo da nova cena musical capixaba. Já se apresentaram no evento bandas como Sporro Grosso, The Mudy Brothers, Os Pedrero, A Mesa, Cheap Blues e Babi Jaques; músicos como Fabrício, André Panda, Edson Sagaz e Fespaschoal, que além de músico é produtor no Expurgação. Em março do ano passado, o evento foi realizado dentro da programação do Grito Rock Mundo, idealizado pelo Coletivo Fora do Eixo e que é ao mesmo tempo um festival de música e uma rede de produtores, técnicos de som e músicos interligados na proposta de desenvolver a cadeia produtiva da música através de intercâmbios e da realização de eventos que ajudem a divulgar a obra de jovens artistas.

Os eventos realizados pelo Expurgação em geral ocorrem paralelo ou em parceria com outras iniciativas que acontecem no centro da cidade, sobretudo na Rua Nestor Gomes e seu entorno. O Grito do Rock, por exemplo, ocorreu paralelo ao Beco Cultural das Pulgas, iniciativa do Instituto Quórum, que ocupou o quarteirão final da Rua Duque de Caxias com uma feira de produtos culturais, artesanato e performance de músicos e atores capixabas. Nesses eventos, o coletivo realiza também projeção de vídeos de sua própria produção, que são exibidos nos muros e paredes dos edifícios das ruas.

Polo irradiador de arte e cultura

São iniciativas realizadas de forma colaborativa entre as instituições da economia criativa presentes na Nestor Gomes e através do patrocínio obtidos em editais de apoio à cultura e à circulação de bens e produtos culturais. Mas Rafael lamenta a dificuldade que é viver apenas de cultura no Brasil e mais ainda no Espírito Santo. “Nós não temos mercado para o nosso produto cultural, não temos mercado para o cinema capixaba.” Os canais de circulação e exibição se restringem praticamente às mostras da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), mostras universitárias e ao Festival Vitória Cine Vídeo, que ocorre anualmente na cidade. “Mas a frequência é de um público restrito, formado por pessoas que de uma forma ou de outra estão envolvidas neste mercado.”

Lorena Louzada, produtora e administradora do coletivo, acha que é necessário que haja políticas públicas e apoio institucional que sejam voltados à formação de público e de iniciativas públicas que capazes de facilitar a circulação e consumo de bens e produtos artístico e cultural.  “Sentimos falta até de providências simples, como iluminação, limpeza e segurança nos dias de evento. Muitas vezes, somos nós mesmo que temos que providenciar quase tudo.”

Rafael acredita que região central de Vitória é o lugar ideal para ser palco do incremento cultural não só da cidade, mas de todo o Espírito Santo. “O centro de Vitória tem uma atmosfera inspiradora. É rico em patrimônio histórico, artístico e cultural. Este lugar conta muito da identidade capixaba,” diz. Ele acredita que a presença de instituições criativas é um estímulo a mais para tornar o centro um lugar criador e irradiador de arte e cultura não só da cidade, mas de todo o Espírito Santo e em conexão com o Brasil e o mundo, tornando Vitória modelo de cidade criativa.

Iniciativas neste sentido têm mobilizado os integrantes do coletivo. O Expurgação é uma das 17 instituições inseridas no setor da economia criativa que compõem o Corredor Criativo Nestor Gomes, assunto do próximo texto.

O centro por seus moradores. Alguns moradores.

O centro por seus moradores. Alguns moradores.

      “São as pessoas, não os decretos ou o planejamento dos gabinetes, que com seus gestos e interações emprestam sua alma aos lugares.”                                                                                                                                                                    (Rosiska Darcy de Oliveira)

 

Na região central de Vitória moram pouco mais de 20 mil pessoas. Quase metade habita a parte que é denominada exatamente “centro” – o espaço que começa depois da curva do Saldanha e vai até os limites do Parque Moscoso, se estende entre o porto e os morros da Piedade e da Fonte Grande e se estreita até as imediações da Ilha do Príncipe, depois de contornar a Vila Rubim. De seus quase dez mil habitantes, 879 moram sozinhos, 8.244 moram com parentes ou formam um casal e 658 moram com outros. A população do centro pouco cresceu nos últimos dez anos, segundo o IBGE.

Apesar do pequeno incremento populacional, o bairro vem ganhando nova fisionomia. Ou pelo menos se veem novas fisionomias circulando por suas ruas. É o que se percebe aos sábados pela manhã na feira livre da Rua Sete de Setembro. Novos moradores se misturam aos mais antigos e o movimento na rua se estende até mais tarde, para além da xepa. A feira movimenta a rua, que movimenta os bares da rua, que movimentam ainda mais a rua. Muitos apreciam o movimento, mas outros nem tanto. Já choveram ovos na Rua Sete.

Pessoas estão na rua

O ator, diretor e consultor José Luiz Gobbi aprecia o movimento, tanto que pode eventualmente ser encontrado num dos bares da rua, desfrutando a manhã de sábado com amigos em volta da mesa. É o quintal de sua casa, ou do espaçoso apartamento no Edifício Jeanne D’Arc, na Rua Sete, que divide com seus três cachorros de raças variadas e porte pequeno. O apartamento é herança da família. Gobbi é filho da Rua Sete, onde nasceu e se criou, depois ganhou mundo e outros endereços até retornar ao bairro e à mesma rua, há 30 anos.  Testemunha ocular da decadência e abandono da região, ele acredita que o incremento ao movimento de pessoas no bairro deveu-se aos bares, à feira, à roda de samba da Piedade e ao coletivo musical Regional da Nair, que atraíram público novo para o centro e trouxeram seus moradores de volta às ruas.

“Até cinco anos atrás, mais ou menos, isso aqui era um deserto. Agora parece uma nova Lapa (uma referência ao bairro carioca que virou sinônimo de música e entretenimento), revitalizado pela vontade de comerciantes e frequentadores. É um movimento espontâneo de pessoas e empreendedores”, diz ele.

Pessoas se aborrecem

Kátia Soares do Carmo também pode ser encontrada na Rua Sete. Invariavelmente, de segunda a sábado, ela está à frente de sua loja de decorações, a Empório D’Arc, localizado na Galeria D’Arc, no térreo do Edifício Jeanne D’Arc, e que já foi um dos endereços mais chiques do comércio capixaba. Morando há 37 anos no centro, ela diz que não sentiu a decadência do lugar. Reconhece que as boas marcas deixaram o bairro, na época em que Vitória se expandia para a zona norte e em direção ao continente. Mas diz que não sentiu impacto na loja. “Meus clientes se mantém até hoje, ou pelo menos os filhos daqueles que já faleceram.” As lojas do centro têm essa particularidade, a confiança e a fidelidade dos clientes mais antigos.

Mas Kátia admite que há mais gente circulando na Rua Sete. Diz que desde que a feira foi instalada, quatro anos atrás, há um movimento maior, principalmente nos bares. Ela não acha ruim. Acha até que a rua ficou mais alegre. Mas reclama. Reclama do barulho, da sujeira, da desordem, das mesas nas calçadas e dos palavrões desferidos pelos frequentadores. Reclama, e muito, da prefeitura, que para ela não faz p0rr@#* nenhuma pela qualidade de vida do bairro. “Eles não conseguem controlar essa bagunça do sábado. Pintaram umas faixas nas calçadas e colocaram dois ombrelones na rua e acham que isso é o suficiente para conter os frequentadores”, diz ela, referindo-se ao projeto Rua Viva que a administração municipal impôs aos sábados e domingos da Rua Sete e adjacências.

O problema da desordem na rua aborrece Kátia, sobretudo por causa da família. Moram com ela o marido, a filha, a netinha de três anos e o irmão, que é cadeirante. E a família gosta de passear e frequentar as ruas do centro. Por isso, a queixa aos sábados. Mas apesar disso, Kátia reconhece no centro seu lugar e seu conforto. “Aqui as pessoas são solidárias. Tenho uma relação de confiança com vizinhança. Andar nas ruas é como andar em casa. Não trocaria isso aqui por nenhum outro bairro, mesmo que tivesse condições financeiras.”

Pessoas são amáveis

A amabilidade das pessoas foi uma das primeiras impressões do casal Gabriela Alves e Marcus Neves assim que se mudou para o centro, em janeiro deste ano, vindo de Itapõa, Vila Velha. “Aqui, as pessoas olham nos olhos quando falam com você. É um olhar genuíno, espontâneo, de acolhimento, que faz com que a gente se sinta parte do lugar,” diz Gabriela. Para ela, no centro as pessoas vivem e convivem no espaço comum da rua e não isoladas nos espaços domésticos, voltadas para si mesmas e conectadas apenas virtualmente por redes sociais e em seus smartphones.

Professores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Gabriela e Marcus decidiram que já era hora de evitar a Terceira Ponte e o transtorno diário de quem mora em Vila Velha e trabalha em Vitória. O apartamento de 150 metros quadrados na Rua Pereira Pinto e com uma vista de quase 360 graus do centro foi definitivo na escolha do novo endereço. O preço também ajudou. Em Jardim da Penha, um apartamento deste tamanho custaria no mínimo o dobro.

Outro fator que pesou na decisão do casal foi a proximidade com espaços de arte e cultura, como o Teatro Carlos Gomes, a Casa Porto das Artes Plásticas, o Sesc Glória, que fazem do centro um lugar de oferta e programação cultural intensa. O Sesc Glória, inclusive já foi palco dos concertos de caixas eletrônicas de Marcus, professor da Faculdade de Música da Ufes.

Mas não são apenas os espaços oficiais que oferecem programação cultural. O centro é também lugar de moradia e circulação de quem produz arte e cultura na capital. A presença da Escola Técnica Municipal de Teatro, Dança e Música (Fafi) e da Escola de Música do Espírito Santo (Fames) explica parte da atração do centro para este tipo de público e talvez explique também a cena cultural que vem emergindo no bairro e repercutindo em toda cidade. Uma cena que vem sendo criada pelo mesmo espírito coletivo que cativou Marcus e Gabriela.

Pessoas formam coletivos

É um público Lado B, como define Lori Regattieri. São em sua maioria jovens de estilo despojado que vêm criando e consumindo música, cinema, arte visual, moda e entretenimento de maneira alternativa à produção e à oferta padronizada e massiva da indústria cultural. O modo de produção é coletivo e às vezes também a maneira de viver. Lori, que faz mestrado em Comunicação na Ufes, mora coletivamente, como ela diz, com a artista plástica e educadora Kamilla Albani e a fotógrafa Caroline Vargas, todas na casa dos 20 anos. “Temos na sala do apartamento que alugamos na Rua Gama Rosa, no início deste ano, um espaço comum de troca de ideias e criação. Não ficamos isoladas em nossos quartos, como nas repúblicas”, diz.

São jovens com este espírito que se unem de forma independente para promover eventos, festas, produzir e consumir arte e cultura. Viver e se divertir. Na noite de 17 de junho, uma quarta-feira, era este público que predominava entre aqueles que lotaram os bares da Rua Gama Rosa, onde acontecia a segunda edição do Projeto Sonzêra, com shows e exibição de vídeos de artistas que vêm fazendo a cena atual da produção musical capixaba.

Enquanto converso com Lori e Kamilla, numa mesa no Bar do Bimbo, Rua Sete, amigos delas passam por lá. Um para convidá-las para o ensaio da bateria da Piedade, que ocorreria naquela noite. Outros dois se chegam, vindos de uma sessão do Cine Erótico, localizado na Avenida República, na região do Parque Moscoso. Voltam animados e já puxam cadeiras e juntam-se as nós. Outro passa e cumprimenta a todos efusivamente. Parece uma noite de véspera de fim de semana, tal a animação dos amigos. Mas é ainda terça-feira. São pessoas como este entusiasmo e disposição que vêm dando nova fisionomia às ruas do bairro e que estão lá em busca de moradia acessível e do desejo de produzir e consumir arte, cultura e entretenimento no espaço acolhedor do centro de Vitória.

Próxima postagem: Expurgação, coletivo e criativo

Noites vazias, uma impressão inicial

“Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades…”
(Italo Calvino)

 

Por volta das seis horas da tarde, a maioria das lojas ao longo da Avenida Jerônimo Monteiro estão baixando as portas. Isso indica que o movimento no centro de Vitória vai diminuir. Comerciários, bancários, empregados de escritório – e também aqueles que foram às compras de artigos mais em conta – vão lotando os pontos de ônibus depois de mais um dia de trabalho da jornada semanal. O trânsito se intensifica.

É nessa hora também que as barracas dos camelôs nas travessas entre a Jerônimo Monteiro e a Avenida Princesa Isabel vão sendo desarmadas. Ainda faltarão os supermercados e as lojas maiores, que fecham um pouco mais tarde, por volta das oito da noite. E vão ficar ainda uns poucos ambulantes nas ruelas que dão para a Rua Duque de Caxias, e outros na Praça Costa Pereira. Mas a maioria das pessoas que ali circula diariamente está indo embora. É o centro de Vitória cerrando as portas do expediente.

Às seis horas da tarde em outros bairros de Vitória, o expediente também está no fim. Mas ao contrário do centro, pessoas ainda estarão pelas ruas. Bares, cinemas, shoppings, eventos de toda espécie, garantem o movimento seguinte. Na verdade, muitos dos nossos bairros nem sequer conheceram momentos mais luminosos do que os atuais. São ainda novos ou vêm crescendo junto com a cidade. No centro de Vitória, o fim do expediente apaga a noite e esvazia ruas e avenidas. E quase não haverá trânsito.

                                                                                                      ***
O esvaziamento dos centros urbanos é um fenômeno comum a outras capitais brasileiras e a outras cidades no mundo. A expansão urbana dirigiu a ocupação para os novos bairros, que criaram suas próprias ofertas materiais e simbólicas. Não necessitam mais do centro. São Paulo e Rio de Janeiro, Recife e Salvador, Berlim, Madri e Barcelona testemunharam em algum momento a decadência dos seus centros originais, que perderam o brilho e a relevância passada. Foi-se o tempo, como bem percebeu Beatriz Sarlo, no livro “Cenas da vida pós-moderna” em que “ia-se ao ‘centro’, partindo dos bairros, como se fosse uma atividade especial, de feriado, como programa noturno, para as compras ou, simplesmente, para ver e estar no centro”. Os velhos centros são agora espaços de vida diurna, ocupados por uma população flutuante, com hora certa de chegar e partir. Lugares de bate ponto.

                                                                                                        ***
Só que não…

… Não mais.

No centro de Vitória moram pessoas interessantes. São moradores antigos ou recentes que ajudam a entender porque o centro é um lugar tão atraente para viver e estar. De novo.

Na próxima postagem: o centro por seus moradores.

Flânerie ou a arte de passear pelas ruas. Vitória

 

“Flânerie é o ato de deliberadamente e descompromissadamente vagar pelo espaço urbano, em busca de detalhes escondidos ou imperceptíveis aos olhos mais apressados”.

(Charles Baudelaire)

 

Alguns indicam que quem primeiro cunhou e deu uso ao termo flânerie foi o poeta Baudelaire, que teve nas ruas e nos habitantes de Paris a inspiração para sua poesia. Foi também nas ruas de Paris que o filósofo judeu alemão Walter Benjamin refletiu sobre a modernidade que imprimia novos contornos à paisagem da cidade. O repórter e cronista carioca João do Rio fez do ato seu método e reportou a alma encantadora das ruas do Rio de Janeiro do tempo da Belle Époque.

Flânerie é, pois então, o ato de passear por ruas e paisagens com olhos atentos e perceber neste passeio o tempo e o lugar em que se vive. O termo vem a propósito. Acredito que ele serve perfeitamente às intenções deste blog, porque à maneira do flâneur, mas com os olhos de jornalista, pretendo reportar fatos, acontecimentos, movimentos e pessoas que exprimem a alma das cidades e dos lugares na cidade. Cidades serão tema e inspiração para crônicas, notas, notícias e reportagens. Passado e presente, memória e atualidade.

Como o flâneur, não farei isso de maneira apressada. Quero ter o tempo necessário ao apuro da reportagem, gênero que certamente será o mais frequente neste espaço.  O compromisso é que a atualização seja feita uma vez por semana, como uma coluna semanal. Mas é claro que nada impede atualizações pontuais, a mercê de agendas e acontecimentos interessantes que venham a surgir neste meio tempo.

***

Os primeiros passos serão dados pelas ruas da minha cidade, Vitória. Mais precisamente, vou começar pelo centro da cidade. Começo por ali, pois é lugar que guarda história e memória da cidade, mas, sobretudo, porque há ali pessoas interessantes e novos movimentos acontecendo. O centro velho vem ganhando novos ares e preservando histórias. O antigo e o novo, tradição e modernidade. E é que vou mostrar nas próximas postagens, que serão publicadas toda terça-feira, a começar amanhã.

Convido os leitores a me acompanhar nestes passeios. Bem vindos.