Coletiva mente, ou como fazer arte no centro da capital

O escritório ocupa o segundo andar de um sobrado de dois andares no numero 227 da Rua Nestor Gomes, centro da cidade. Por uma escada estreita se chega ao amplo salão no andar de cima, onde cinco jovens estão trabalhando. O sexto, Rafael Gaspar, é quem me recebe e me apresenta aos demais. São todos muito simpáticos e receptivos, tanto que a primeira pergunta que faço é respondida por todos eles. Um complementa a informação do outro e isso já me dá ideia do espírito e da energia da turma. A mesa cumprida e compartilhada que ocupa o centro do salão, a disposição dos móveis, os quadros, cartazes e desenhos nas paredes informam que o escritório é um local de trabalho coletivo de criação.

Mas ainda não é tudo. No andar superior há também um pequeno ateliê, para quando a criação necessitar de silêncio e concentração, além de cozinha e banheiro. O andar térreo foi adaptado como estúdio de gravação e cineclube, o que indica que o trabalho ali vai da criação à produção artística e à ação cultural. Estes jovens criam, produzem, distribuem e fazem circular bens e serviços criativos.

Estamos na sede do Coletivo Criativo Expurgação, uma empresa que é ao mesmo tempo produtora, agência de criação e espaço de eventos e difusão cultural, formada por profissionais que atuam como designer, videomakers, músicos, fotógrafos, artistas plásticos e visuais, produtores, programadores, roteiristas e comunicólogos, cujas competências percorrem praticamente toda a cadeia produtiva da criação e realização artística, audiovisual e publicitária.  São ao todo nove sócios entusiasmados com o trabalho e com o processo coletivo de criação e produção, de acordo com a filosofia “buzz”, expressão criada pelos economistas ingleses Michael Storper e Anthony Venables para designar “os processos que ocorrem ao mesmo tempo no mesmo lugar, e acabam gerando mais informação, ideias e inspiração”. É uma filosofia de trabalho que predomina em empresas inovadoras que apostam na energia do conjunto como estímulo criativo.

Essa é a gênese do Expurgação, uma ideia que foi tomando forma entre jovens universitários interessados em música, cinema e design, que nos idos de 2002 viviam e conviviam numa casa coletiva no Bairro República, onde havia um estúdio de música. A música levou ao videoclipe, ao cinema, fotografia, artes plásticas e gráficas e à busca constante por linguagens inovadoras para a criação artística.

“Éramos estudantes de curso de Desenho Industrial da Ufes, que estava recém instalado. Como o curso era ainda pouco estruturado, a casa funcionava quase como um laboratório de pesquisa e experimentação”, lembra Alexandre Barcelos, músico, cinegrafista e designer de som. Esse ambiente de colaboração ajudou cada um a descobrir outras vocações e desenvolver novas aptidões criativas com o mesmo espírito coletivo que depois foi levado para o Expurgação, formalmente oficializado em 2007.

A cidade, palco e moldura

O coletivo desenvolve projetos comerciais, como filmes publicitários e institucionais para clientes empresariais, produção musical e videoclipes para artistas e bandas locais, além da prestação de serviços profissionais como forma de dar sustentabilidade à empresa. E é um bom negócio, que garante ao Expurgação uma cartela de 50 clientes e a contratação do trabalho profissional de seus integrantes.

Mas se o trabalho comercial e a prestação de serviços garantem sustentação ao Coletivo, são as produções mais autorais e os eventos culturais e intervenções urbanas que melhor traduzem a marca criativa e produtiva do Expurgação, uma empresa que afinal é formada também por artistas e produtores, que apesar da experiência, são ainda jovens com anseio de criar sua própria obra e buscar um diálogo constante com outros movimentos e artistas na cidade, no país e no mundo que desenvolvam processos inovadores de criação e produção cultural. São muitas as iniciativas do coletivo, sobretudo no campo da música, do audiovisual e da produção de eventos que têm a cidade e a rua como palco e moldura.

O Ensaio Aberto é um exemplo. Todo mês o Expurgação abre as portas de seu estúdio de gravação para a apresentação de bandas e artistas que vêm emergindo da nova cena musical capixaba. Já se apresentaram no evento bandas como Sporro Grosso, The Mudy Brothers, Os Pedrero, A Mesa, Cheap Blues e Babi Jaques; músicos como Fabrício, André Panda, Edson Sagaz e Fespaschoal, que além de músico é produtor no Expurgação. Em março do ano passado, o evento foi realizado dentro da programação do Grito Rock Mundo, idealizado pelo Coletivo Fora do Eixo e que é ao mesmo tempo um festival de música e uma rede de produtores, técnicos de som e músicos interligados na proposta de desenvolver a cadeia produtiva da música através de intercâmbios e da realização de eventos que ajudem a divulgar a obra de jovens artistas.

Os eventos realizados pelo Expurgação em geral ocorrem paralelo ou em parceria com outras iniciativas que acontecem no centro da cidade, sobretudo na Rua Nestor Gomes e seu entorno. O Grito do Rock, por exemplo, ocorreu paralelo ao Beco Cultural das Pulgas, iniciativa do Instituto Quórum, que ocupou o quarteirão final da Rua Duque de Caxias com uma feira de produtos culturais, artesanato e performance de músicos e atores capixabas. Nesses eventos, o coletivo realiza também projeção de vídeos de sua própria produção, que são exibidos nos muros e paredes dos edifícios das ruas.

Polo irradiador de arte e cultura

São iniciativas realizadas de forma colaborativa entre as instituições da economia criativa presentes na Nestor Gomes e através do patrocínio obtidos em editais de apoio à cultura e à circulação de bens e produtos culturais. Mas Rafael lamenta a dificuldade que é viver apenas de cultura no Brasil e mais ainda no Espírito Santo. “Nós não temos mercado para o nosso produto cultural, não temos mercado para o cinema capixaba.” Os canais de circulação e exibição se restringem praticamente às mostras da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), mostras universitárias e ao Festival Vitória Cine Vídeo, que ocorre anualmente na cidade. “Mas a frequência é de um público restrito, formado por pessoas que de uma forma ou de outra estão envolvidas neste mercado.”

Lorena Louzada, produtora e administradora do coletivo, acha que é necessário que haja políticas públicas e apoio institucional que sejam voltados à formação de público e de iniciativas públicas que capazes de facilitar a circulação e consumo de bens e produtos artístico e cultural.  “Sentimos falta até de providências simples, como iluminação, limpeza e segurança nos dias de evento. Muitas vezes, somos nós mesmo que temos que providenciar quase tudo.”

Rafael acredita que região central de Vitória é o lugar ideal para ser palco do incremento cultural não só da cidade, mas de todo o Espírito Santo. “O centro de Vitória tem uma atmosfera inspiradora. É rico em patrimônio histórico, artístico e cultural. Este lugar conta muito da identidade capixaba,” diz. Ele acredita que a presença de instituições criativas é um estímulo a mais para tornar o centro um lugar criador e irradiador de arte e cultura não só da cidade, mas de todo o Espírito Santo e em conexão com o Brasil e o mundo, tornando Vitória modelo de cidade criativa.

Iniciativas neste sentido têm mobilizado os integrantes do coletivo. O Expurgação é uma das 17 instituições inseridas no setor da economia criativa que compõem o Corredor Criativo Nestor Gomes, assunto do próximo texto.

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