Guanaaní Hostel, hospedagem descolada e barata no Centro de Vitória

Há poucos dias, uma conhecida minha postou no Facebook sua surpresa ao saber que Vitória possui hostels.  Esclareci que há três hostels na cidade, um Jardim da Penha e dois no centro. Hostels, para quem não sabe, é um tipo de hospedagem mais em conta e em geral compartilhada entre turistas e viajantes. Já foi mais conhecido como albergues, mas muitos deram um up-grade e adotaram o nome hostel. E não se trata de nenhum raio gourmetizador de enganar incautos. A nova proposta elevou em muito o nível e o conceito sobre hospedagem barata e descolada que tem atraído não só mochileiros e viajantes sem pressa, mas gente disposta a ter uma estadia mais amigável, divertida e menos previsível na cidade visitada.

Por qual motivo seria então a surpresa da minha conhecida em saber da existência de hostel em Vitória? Seria a surpresa de pensar Vitória e o Espírito Santo como rota dos mochileiros – o que não seria exatamente uma novidade para o estado que fica no caminho entre o Rio de Janeiro e a Bahia? Acontece que os que vêm agora, mochileiros ou não, parecem querer ficar um tempo a mais. E alguns vêm para fazer a festa e produzir novidades, como foi o caso de Carolina Liczbinski, produtora e organizadora do Sunday Sale, evento de criação e diversão que aconteceu no Guanaaní Hostels, no domingo, 16 de agosto (post anterior), e que motivou o comentário da conhecida.

Guanaaní Hostel

O Guanaaní é um dos três hostels de Vitória – os outros são o Onça da Praia, em Jardim da Penha, e o That Hostel, também no centro. Está localizado num dos belos casarões que o centro de Vitória preserva, erguido entre 1924 e 1929 para servir de moradia do coronel Monjardim, que dá nome a rua. O Guanaaní fica no número 49, na subida da Rua Coronel Monjardim e já próximo do Convento de São Francisco. É uma bela construção de dois andares, cinco quartos, que por muito tempo pertenceu ao médico Dório Silva, que a adquiriu do coronel. Depois abrigou consultório dentário e em seguida o Sindicato dos Eletricitários, isso já nos maus momentos do centro, quando o bairro foi perdendo moradores, serviços e movimento, em meados dos anos 1970.

A casa ficou grande para a família de Caio Perim, desde 2006 sua proprietária.  A mãe e a avó decidiram ceder o imóvel para o projeto pessoal de Caio, que se concretizou em fevereiro do ano passado, quando ele e a sócia Mainá Ferreira abriram o hostel. Apesar da adaptação, a casa ainda guarda muito da família de Caio e muitos detalhes da sua decoração original nos tetos, nos pisos e nas paredes, que reforça a atmosfera familiar e despojada do lugar. A família ainda deixou discos, livros e utensílios que podem ser escutados, lidos e utilizados por hóspedes e visitantes. Alguns livros também estão à venda, principalmente de autores capixabas. Os hostes em geral têm essa característica, a relação mais estreita com a cultura e a história da cidade e região de sua localização.

O imóvel é bem espaçoso. Além dos cinco quartos, três salas, varanda, cozinha e banheiros, a casa ocupa um terreno amplo com quintal, que serve aos eventos que o hostel recebe, como o Sunday Sale , a  Mostra do Filme Livre-Extintor Coletivo, ambos realizados neste mês de agosto e que atraíram para o Guanaaní gente da cidade interessada em moda, design, cinema, música e diversão. Os hostels em geral não são apenas lugar de hospedagem, são também lugar socialização e integração ao ambiente da cidade.

Esta ilha é uma delícia

Apesar de comumente se associar hostels a mochileiros, Mainá diz que o perfil dos hóspedes do Guanaaní varia bastante. Muitos são jovens, outro perfil comum atribuído a hóspedes de hostels, que vêm para congressos e seminários realizados na capital e cidades vizinhas.  Ela admite inclusive que são raros mochileiros que buscam Vitória como destino. Estes em geral, estão de passagem para a Bahia ou Rio de Janeiro, depende de onde vêm, do sul ou do norte. A exceção são os de Minas Gerais, que vêm do oeste. Estes vêm de folga ou férias.

Mas Mainá diz que recebe também viajantes que estão em busca de novidades, de vivenciar espaços diferentes. Por isso, escolhem não só Vitória (uma cidade pouco conhecida da maioria dos brasileiros), mas ainda seu centro histórico. “Todos ficam impressionados com o patrimônio que temos aqui ao redor.” Foi justamente a atmosfera do centro que surpreenderam Davi Reis, morador da cidade de São Paulo, que veio do sul para conhecer nossa costa. Nem pensava em parar em Vitória, apenas seguir caminho praiano até Itaúnas, percorrendo o litoral e evitando cidades. Mas deu uma pausa no Guanaaní e resolveu ficar um pouco mais. Depois seguiu até o destino traçado e voltou ao hostel com saudade de Vitória e do centro da cidade. Ficou mais uma semana sem pressa de partir. “Vitória foi uma surpresa encantadora, tem muito charme. É ao mesmo tempo cidade e tranquilidade.”

Uma das coisas que surpreendeu Davi foi patrimônio histórico e arquitetônico do centro. Ele é natural de Cananéia, que segundo diz, é a cidade mais antiga do Brasil. Mais do que São Vicente, que leva a fama. Bom, mas esta é outra questão. Não cabe aqui, a não ser para lembrar que Vitória é uma cidade quase tão antiga quanto o Brasil (OU a terceira capital e a sétima ou oitava, depende da fonte, cidade mais antiga do Brasil). E é no centro que está a prova de tanta história e que seduziu Davi. E o Guanaaní está perto de tudo isso.

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Bom esclarecer que Davi não repetiu Carmélia literalmente, que foi quem cunhou a frase “esta ilha é uma delícia”. Mas é com se tivesse. E sem a ironia da Féa, ele foi sincero.

Sunday Sale, celebração cultural e consumo sustentável no centro da cidade

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No domingo, 16, Vitória recebeu a primeira edição do Sunday Sale na cidade, evento que é ao mesmo tempo feira comercial e festa cultural de incentivo e promoção de marcas locais e projetos da economia criativa, além de espaço de exposição de artistas independentes, músicos autorais e oficinas de criação. Foram 28 expositores de roupas, calçados, acessórios, itens de decoração, design, livros, discos e arte plástica, reunidos num dos belos casarões que o centro de Vitória preserva e que desde o ano passado abriga o Guanaaní Hostel. O público que compareceu para prestigiar e consumir moda, arte e cultura, cerca de 400 pessoas, era predominante jovem, como tem sido em eventos que vêm sendo realizado no centro por gente também jovem.

A proposta do Sunday Sale é parecida com o Mercado Mundo Mix, surgido em meados dos anos 1990, e que abriu espaço para exposição e venda de produtos das novas marcas ainda não inseridas no mercado comercial. Mas diferentemente deste, o Sunday Sale quer propor e incentivar o consumo sustentável, além de celebrar arte e cultura. “Não se trata apenas de promover marca, mas criar uma cultura de sustentabilidade. Os produtos aqui expostos têm essa característica”, diz a artista plástica Kamilla Albani, uma das produtoras do evento em Vitória.

Coletivos e independentes

Thais Rodrigues, do Coletivo AIO, por exemplo, encontra muito das matérias primas básica de sua produção no descarte dos moradores de Jardim da Penha, onde mora. Há poucos dias encontrou teclados de computadores. Vão virar porta copos. As luminárias coloridas que expôs no Sunday são feitos de cano de PVC e as almofadas, de sacos de grãos para exportação. Mas Thais vê eventos como Sunday como solução para circulação produtos e de troca e interação entre os expositores. “Novas ideias e parcerias podem surgir nesses encontros”, diz. Ela acredita ainda que o contato direto entre produtor e consumidor é enriquecedor para o primeiro, que pode descobrir tendências de consumo, e para o segundo, que adquire produtos mais em conta, sem intermediários, algumas vezes podendo ser customizados.

Outro aspecto interessante que se pode constatar no evento é quantidade de gente produzindo coletivamente. Mais da metade dos expositores ali presentes faz parte de coletivos criativos, uma nova proposta de produção e gestão compartilhada de negócio. Essa tem sido uma tendência entre produtores e criadores. “Facilitamos nosso negócio e unimos esforços, mesmo que cada um realize produto próprio”, diz o estilista Tiago Manauará. “E a troca de ideias é enriquecedora”, completa Ériko Artur, parceiro de Tiago no Coletivo Manga Rosa, que aliás fazia no Sunday a primeira exposição coletiva de produtos. “Temos feito coisas juntos, mas o Manga Rosa está nascendo hoje e aqui”, informou Tiago, que expunha suas confecções.

Fora dos espaços e eventos de exposição, a forma de comercialização dos criadores é a internet.

Além dos expositores e seus produtos, o evento ofereceu ainda corte de cabelo e barba (e  como estão barbudos os jovens hoje em dia), tatuagem, massagem, música ao vivo e nas carrapetas, comidas, bebidas e drinks, porque é assim que se faz a festa.

Carol na estrada

O Sunday Sale é um projeto itinerante, iniciado em pubs de Porto Alegre há pouco mais de um ano. Esta é a sua quarta versão e a primeira em um hostel, tipo de lugar ideal para evento, segundo sua idealizadora Carolina Liczbinski, 21 anos de vida e milhares de quilômetros de estrada. “Os hostels costumam oferecer o espaço ideal para este tipo de feira, que é ao mesmo tempo celebração cultural e consumo sustentável. E isso não só pelo espaço em si, mas também pela própria filosofia deste tipo de estabelecimento, em geral gerido por pessoas abertas à novidade.”

Carol já está de partida. Daqui ela segue rumo ao norte, mais precisamente para a Bahia, onde pretende realizar mais uma edição Sunday Sale. De lá, leva o evento para Belo Horizonte, no dia 20 de setembro, no Samba Room Hostel. Ela escolhe as cidades por gosto e curiosidade. Foi assim que veio dar em Vitória. Quis conhecer a cidade. O motivo? Apenas porque não conhecia. A decisão deixou amigos perplexos, pois veem Vitória, ou melhor, o Espírito Santo, como “aquele fim de mundo”. Vitorinha não merece. Carol concorda e acha que aqui seria um bom lugar para morar, no dia que ela cogitar morar em algum lugar e não em vários, como tem sido desde o dia que jogou para alto carro, apartamento, namorado e cachorro e pôs o pé na estrada. “Viajar é preciso”, acha ela.

Mas não há motivo para preocupações. Enquanto Carol segue Brasil a fora, Kamilla assume a produção do Sunday Sale por aqui. A segunda edição já está garantida. Ocorre daqui a dois meses. Falta apenas marcar a data.

O museu, as flores e a vingança do sapo curucuru

Martini e o museu 2012

Eugênio Martini e o acervo do Museu do Telefone

O centro de Vitória é um lugar de pessoa interessantes. E preocupadas. Eugênio Inácio Martini, 61 anos, mora no centro e está preocupado. Ele se preocupa com a conservação e a segurança no centro. Tem atenção especial com a região da Praça Costa Pereira, pois é ali que mantém seu negócio, o apartamento onde mora e um museu. Para quem não sabe, o centro de Vitória abriga o Museu do Telefone por graça e esforço de Eugênio Martini, que tem como negócio justamente o telefone.

O museu, o apartamento e o negócio ficam abrigados em um mesmo prédio que ele fez erguer na confluência da Praça Costa Pereira com as ruas Dionísio Rosendo e Duque de Caxias. No vértice que une os três logradouros, ele cultiva um canteiro de flores de todas as cores, entre esculturas de garças, sapos, corujas e Branca de Neves, e que frequentemente faz parar os transeuntes ou ao menos lhes retarda os passos. Esta é uma de suas contribuições ao bem estar do lugar, assim como as 50 câmeras de segurança que ele espalhou em todo o entorno da Costa Pereira e que garantem a segurança para a região e para o seu negócio. “Depois que instalei as câmeras, há cinco anos, nunca mais fui assaltado”, afirma ele, que foi vítima de 46 assaltos à mão armada que quase decretaram sua falência pela segunda vez. Mas Martini insiste.

O telefone, o museu e o obelisco

Natural de Santa Catarina, ele chegou a Vitória em meados da década de 1980, vindo de duas enchentes que arruinaram o negócio que mantinha na sua cidade natal. Sem destino e com o futuro incerto, veio dar aqui. Um dia sentou-se num banco da Praça Costa Pereira e decidiu ficar. Acha que foi atraído pela visão do porto, que para ele assemelha Vitória a Itajaí, a cidade natal. Mas é mais provável que tenha sido atraído por oportunidades que seu espírito empreendedor não deixou escapar. Recomeçou negociando carros até passar para ramo da telefonia. Soube lidar com a precariedade dos serviços do antigo sistema Telebrás e refez a vida negociando aparelhos e linhas.

De negócio bem sucedido, o telefone virou uma coleção. De tanto negociar, Martini foi acumulando aparelhos e vislumbrou nesse acúmulo a ideia do museu. Para concretizá-lo, passou a buscar peças raras com colecionadores e antiquários de todo o Brasil. Adquiriu desde exemplares dos primeiros aparelhos forjados em ferro e madeira, aos aparelhos de design arrojado dos anos 1950 e 1970, mesas de PBX, orelhões, catálogo de códigos telegráficos e os “tijolões” que inauguraram a era dos celulares. A peça mais antiga, uma verdadeira relíquia, ele encontrou em um antiquário aqui mesmo em Vitória. Uma máquina de cinema 35 mm, de 1905, com a marca dos lendários irmãos Pathé, pioneiros no desenvolvimento da indústria cinematográfica mundial. Martini acredita que esta é a máquina que pertenceu ao antigo Teatro Melpomene, que existiu na então Praça da Independência, atual Costa Pereira, e que foi o primeiro local da capital a possuir sala de cinema.

Mas o museu não é a única homenagem de Martini ao negócio que fez dele um empresário bem sucedido. Na calçada em frente à loja, ele mandou colocar um obelisco em cujo topo repousa uma réplica de um aparelho telefônico dos anos 1940, obra do escultor grego-capixaba Iannis Zavoudakis. Pelo obelisco, Martini comprou uma briga com a Prefeitura. Há três anos, a administração da cidade mandou retirar a homenagem por entender que esta ocupa logradouro público e prejudica a acessibilidade e circulação de pedestres. Ele reclamou que era injusto e deu provas. Na época, fez circular um panfleto – intitulado apropriadamente “O Obelisco” – com fotos de balizas, postes e buracos nas calçadas que ele afirma causar mais transtorno aos pedestres do que o obelisco do telefone, que se mantém, por ganho de causa, no mesmo lugar. Martini resiste.

Um altruísta

A iniciativa de manter o canteiro e instalar as câmeras é parte da sua filosofia, sua crença e sua maneira de ser. Martini se define como um ser humano preocupado com a sociedade à sua volta. “Eu e meu território” é seu lema. Mas há também uma razão particular para todo esse cuidado. O canteiro de flores ajuda não só na valorização do espaço público, mas também serve de auxílio espiritual. “Quando me ocupo do jardim, estou cuidando de mim. Sinto-me bem.”

E para preservar o espaço e dar mais segurança à região, Martini está providenciando a instalação de câmeras de reconhecimento que possam identificar a aparência dos gatunos, coisa que as atuais câmeras não são capazes. Estas registram apenas a ação, como aquela que vitimou a pequena escultura de sapo, roubada do canteiro de flores na calada da noite. Foi uma ação mal sucedida, pois o sapo, apesar de pequeno, é uma peça pesada e acabou por levar a ladra de bicicleta ao chão. Tudo registrado. Para quem quiser conferir o registro, e a determinação de Martini, basta buscar no Youtube o vídeo “A vingança do sapo Curucuru”. Ah sim, a pequena escultura foi recuperada por uma alma boa que a encontrou jogada na rua e a repôs de volta ao canteiro. Lá está.

No centro de vitória, contam-se 1.742 degraus. Creio eu.

“Pensa na escada do poema                                                                                                                                                                    Que tu comigo                                                                                                                                                                                           Vem descendo agora.”                                                                                                                                                                              (Mário Quintana)

 

Entre as mais emblemáticas marcas da paisagem e arquitetura do centro de Vitória estão suas 22 escadarias, monumentos da cidade que nasceu alta, de acordo com a estratégia dos nossos colonizadores, de fundar cidades em sítios elevados para melhor defesa da terra conquistada. As escadarias surgiram com o desenvolvimento de Vitória, que cresceu para baixo, e serviram para dar acesso pedestre às novas ruas, avenidas e esplanadas que tomaram lugar do mar, de mangues, canais e alagados que contornavam o sítio antigo. O centro de Vitória pousa sobre morros, colinas e aterros.

Nessa descida ao progresso, as primeiras escadarias foram surgindo para substituir ladeiras inseguras, que ganharam degraus e corrimões, e fortes, que perderam sentido em função dos aterros que afastaram a cidadela do mar. Outras foram construídas para servir de atalho e poupar o tempo e o fôlego de quem vem e de quem vai de cima para baixo, de ruas abaixo para ruas acima. Considerando apenas o bairro centro e não toda a região central, estas escadarias contam 1.742 degraus. Informo que os degraus foram contados pé ante pé. Caso alguém conteste o número, acredito que será por pouca diferença, pois por muitas vezes desci e subi a mesma escada por critério e certificação. Iniciei e finalizei as contagens na primeira e na última dobra de joelho, para cima ou para baixo. Informo também que só considerei as escadarias que dão passagem de um lugar a outro ou são endereço. Por este critério, foi excluída a escadaria do Convento do Carmo.

AS ESCADARIAS DA CIDADE ALTA, ENCANTO E DESOLAÇÃO            

A Cidade Alta é área que concentra o maior número, e talvez as mais bonitas, das escadarias do centro. São ao todo dez que contornam o sítio histórico, desde a Escadaria Doutor Luiz Castellar da Silva, nas costas do Convento de São Francisco, até a Escadaria São Diogo, na Praça Costa Pereira. São ao todo 503 degraus ali.

Entre as mais bonitas está a Escadaria Barbara Lindenberg, mais conhecida como escadaria do palácio por estar localizada aos pés do Palácio Anchieta, sede do poder executivo estadual e uma das edificações mais antigas da cidade, marco do nosso passado colonial. A escadaria foi construída em 1883  no lugar onde havia antes a Ladeira Padre Inácio. É uma bela construção, ornada por seis belas esculturas em estilo neoclássico onde se contam 56 degraus intervalados por quatro ordens de degraus e quatro planos calçados. Possui uma fonte artificial em sua base, na Avenida Jerônimo Monteiro. Larga e imponente, está bem conservada, com pintura nova, provavelmente devido à localização em frente ao palácio do governo, mas possivelmente também pelo fato da homenageada ser descendente e ascendente de importantes famílias do Espírito Santo, ao contrário de sua vizinha Maria Ortiz, a 150 metros de distância, e que se encontra em estado desolador.

A mais íngreme das escadarias da Cidade Alta, e talvez a mais famosa entre todas, está rachada, borrada e penetrada por matos e moitas, que lhe dão aspecto de uma velha cortesã abandonada por antigos amantes. A jovem e heroica moça que lhe dá nome não merecia tal descaso ou qualquer dúvida à sua honra e memória. Nem o bairro merece o desleixo. A Escadaria Maria Ortiz tem estilo eclético e planos sacadas em formato de meia lua que servem de mirante, praça de estar e admirá-la, pois apesar do descuido, é bela. Construída em 1924 no que era antes a Ladeira do Pelourinho, ela desce da Cidade Alta até confluência das ruas Nestor Gomes e Duque de Caxias, 72 degraus abaixo. E é uma pena vê-la tão mal conservada na paisagem da cidade que deve à homenageada a resistência ao invasor holandês.

Nos 150 metros que separam a Bárbara Lindenberg da Maria Ortiz existem outras duas escadarias. A partir da Bárbara Lindenberg, descendo a Nestor Gomes em direção a Duque de Caxias, encontra-se a Escadaria João Clímaco, na parte da baixa da praça de mesmo nome. Também é uma bonita escadaria no mesmo estilo eclético das anteriores. Conta 30 degraus e possui uma fonte hoje seca.

Na lateral da Praça João Clímaco, a partir da Rua Pedro Palácio, na parte alta, está a Escadaria da  Misericórdia, que atravessa a Nestor Gomes e vai dar no quarteirão final da Duque de Caxias. Entre a praça e a Nestor Gomes, contam-se 49 degraus. E entre esta e a Duque de Caxias, 46 degraus, totalizando 95 degraus. É uma escadaria modesta, feita apenas de degraus, assim como uma escadaria pequena não nomeada, que se situa no quarteirão inferior da Rua Cerqueira Lima, entre a Duque de Caxias e a Avenida Jerônimo Monteiro, 16 degraus para baixo. Está a poucos metros depois da Maria Ortiz e pode passar despercebida aos mais apressados.

Seguindo para os lados da Catedral Metropolitana, vamos encontrar mais três belas escadarias, todas em estilo eclético e com planos calçada que dividem seus degraus em patamares. Mas infelizmente todas três encontram-se nas mesmas condições da Maria Ortiz, pichadas, descascadas e com mato brotando de suas rachaduras. São elas, a Dionísio Rosendo, com 38 degraus, que desce ou sobre ladeando o Casarão Cerqueira Lima; a pequena e escondida Escadaria da Catedral, que fica justamente atrás desta e conta 25 degraus; e mais abaixo, a maior e mais larga das três, a São Diogo, que desce 54 degraus da Rua Erothildes Rosendo até a Praça Costa Pereira. A Escadaria São Diogo um dia fez vizinhança ao forte de mesmo nome, demolido quando não havia mais serventia nem espaço para tamanha inutilidade na cidade que crescia.

Nas imediações do Parque Moscoso

A Escadaria Carlos Messina me deixou uma dúvida: ela conta 51 ou 111 degraus? Isso porque sua parte mais visível e imponente sobe da Rua General Osório à Rua Francisco Araújo, contando 51 degraus. A questão é que logo acima surge outra mais estreita, feiosa e não nomeada que vai da Francisco Araújo até a Rua Comandante Duarte Carneiro. São mais 16 degraus. E acima desta, da Rua Comandante Duarte Carneiro até a Rua São Gonçalo, onde está a Igreja de mesmo santo, há outra também não nomeada que conta 44 degraus. Então, a dúvida. O certo é quem quiser alcançar a Igreja de São Gonçalo a partir da Rua General Osório terá que galgar 111 degraus.

Sem atrativos ornamentais, a Escadaria Doutor Luiz Castellar da Silva serve de atalho para quem está próximo ao Convento de São Francisco e quer chegar rápido e a pé à Rua Doutor Joaquim Côrtes, atrás do Hospital Estadual Central (antigo Hospital São José). Para alcança-la, basta seguir a Rua Soldado Abílio dos Santos, atrás do Convento, que finda nela. Conta 66 degraus.

Para alcançar a Piedade

Seguindo pelo outro lado do Convento, pela Rua Frei Antônio dos Mártires, se chega a segunda mais longa das escadarias do bairro. Com 135 metros e 174 degraus, a Escadaria da Piedade desce da Frei Antônio dos Mártires, atravessa as ruas Aristides Navarro e Padre Nóbrega e chega à Rua Sete. Ela é tão antiga quanto a Maria Ortiz, mas de aspecto mais modesto. O motivo talvez seja o caso de estar localizada à margem do sítio histórico e longe dos palácios de governo, área de arquitetura mais imponente.

Da Rua Sete, seguindo para a Rua Graciano Neves, podemos alcançar a Escadaria Ranulpho Gianordoli, com 44 degraus, que dá acesso ao bairro da Piedade, vizinho ao centro.  Ali perto, pela Rua Coronel Monjardim, na lateral do Convento do Carmo, se chega a Escadaria Serrat, que mais parece uma vila de casas bonitas do que uma passagem pública, até porque dela não se vai a outro lugar. No final há um muro que interrompe o trajeto. São 62 degraus muito agradáveis.

AS ESCADARIAS DA CAPIXABA

As escadarias não estão apenas na Cidade Alta, pois não é só ali que o centro é alto. É também alto nas áreas limites aos bairros da Fonte Grande e da Piedade e nos acessos ao Morro da Capixaba, que pode ser acessado pela Ladeira São Bento. É uma das mais bonitas áreas do centro de Vitória, de ruas aprazíveis que podem ser alcançadas por oito escadarias distribuídas na parte alta e ao redor da área. O acesso pode se dar também pela Rua Graciano Neves a partir da Escadaria Acyr Guimarães, que sobe 49 degraus até a Rua Antônio Aguirre. Está entre aqueles de estilo eclético, com sacadas e patamares que dão intervalo aos degraus e fôlego aos transeuntes, apesar de ser uma escadaria relativamente pequena, de 49 degraus. Se voltarmos e seguirmos para a Rua do Rosário, vamos dar na escadaria e na igreja de mesmo nome. Ladeada por casas e lojas, a escadaria é palco do agito do movimento Hip Hop no centro de Vitória, em função da loja Espaço Hip Hop, que tem endereço ali, e da Festa de São Benedito, quando os devotos descem seus 93 degraus em procissão.

Subindo a Ladeira São Bento em direção ao Morro da Capixaba, chegaremos a outras três escadarias, todas elas podendo ser alcançadas pela Rua Pereira Pinto. A primeira está localizada exatamente na esquina da São Bento com a Pereira Pinto e sobe desta até à aprazível Rua Coronel Alziro Vianna, 87 degraus acima. É a Escadaria Santo Pinto, que guarda alguma graça, sobretudo na parte de cima, onde os degraus se dividem em pavimentos paralelos protegidos por corrimões ornamentados e ladeados de casas antigas de varandas espaçosas. A vista para o centro é de admirar. Cem metros adiante está a Escadaria São Judas Tadeu, que tem duas etapas. Da Pereira Pinto, podemos subir ou descê-la. Se subirmos, serão 92 degraus até à Coronel Alziro Vianna. Descendo, serão 59 até à Antônio Aguirre. Na primeira opção, ela é ampla e dividida por um corrimão de metal sem maiores enfeites. Descendo, se estreita apertada. São 151 degraus ao todo.

Nos limites da Fonte Grande

Se seguirmos para o lado oposto da Coronel Alziro Vianna, na direção ao bairro Fonte Grande, vamos encontrar a Escadaria Francisco de Paula Andrade. Segundo moradores com que quem me informei, eu estaria no bairro Fonte Grande e não mais no centro. Mas pelo mapa da Prefeitura, o limite entre os bairros centro e Fonte Grande é a Rua Nestor Lima. Assim sendo, considerei a escadaria Francisco de Paula Andrade, com 78 degraus, como estando no centro. Ela liga justamente a Coronel Alziro Vianna à Nestor Lima, no limite.

Voltando para os lados da Capixaba e seguindo até o final da Pereira Pinto, chegamos a mais longa escadaria do centro de Vitória. A Escadaria Lourival Ferreira Lamego tem ao todo 273 degraus que descem de um beco sem nome já no Morro da Capixaba e chega a Pereira Pinto, por 130 degraus. Dali, segue 143 degraus abaixo até a Rua Wilson Freitas. É uma escadaria íngreme e estreita, mas de seu alto avista-se toda a cidade baixa, parte de Cariacica e Vila Velha. É uma bela vista. Seguindo pela Rua Wilson Freitas alcançamos mais duas escadarias, Djanira Lemos e Nicolau de Abreu. A primeira desce 28 degraus até a Avenida Jerônimo Monteiro, em frente ao Mercado da Capixaba. Seu aspecto é de cortar o coração. Tão graciosa com suas pequenas sacadas e uma fonte em forma de cabeça de fauno datada de 1925, está pichada, rachada e cheia de mato. Mal se identificam as cores da última pintura. Alguns metros adiante, a Nicolau de Abreu, faz a ligação da Wilson Freitas, na parte mais alta da rua, a Jerônimo Monteiro por 85 degraus.

NA GRUTA DA ONÇA. O LABRINTO, DO LABIRINTO, DO LABIRINTO.

A Cristovão Colombo é uma confusa escadaria, meio escada e meio rampa, que sobe da Rua Barão de Monjardim até penetrar o Parque Gruta da Onça e se desdobrar à direita e à esquerda em outros degraus que sobem, descem ou contornam as pedras e a mata do parque. É um emaranhado de caminhos em degraus e aclives que torna difícil saber por onde seguiu a escadaria. Difícil contar sem se perder do nome e da direção. Então, deixo estar.

Finalizando este tour, chegamos a Escadaria Marcílio Dias, próxima aos limites do centro com o bairro Forte de São João. São 55 degraus que sobem da Barão de Monjardim para as casas localizadas nas franjas do Parque Gruta da Onça.

Ufa!

Essas são as escadarias que meus olhos e meu fôlego conseguiram alcançar. Talvez haja outras. Escadarias menores, mais discretas, escondidas nas encostas do centro. Quem sabe?