O museu, as flores e a vingança do sapo curucuru

Martini e o museu 2012

Eugênio Martini e o acervo do Museu do Telefone

O centro de Vitória é um lugar de pessoa interessantes. E preocupadas. Eugênio Inácio Martini, 61 anos, mora no centro e está preocupado. Ele se preocupa com a conservação e a segurança no centro. Tem atenção especial com a região da Praça Costa Pereira, pois é ali que mantém seu negócio, o apartamento onde mora e um museu. Para quem não sabe, o centro de Vitória abriga o Museu do Telefone por graça e esforço de Eugênio Martini, que tem como negócio justamente o telefone.

O museu, o apartamento e o negócio ficam abrigados em um mesmo prédio que ele fez erguer na confluência da Praça Costa Pereira com as ruas Dionísio Rosendo e Duque de Caxias. No vértice que une os três logradouros, ele cultiva um canteiro de flores de todas as cores, entre esculturas de garças, sapos, corujas e Branca de Neves, e que frequentemente faz parar os transeuntes ou ao menos lhes retarda os passos. Esta é uma de suas contribuições ao bem estar do lugar, assim como as 50 câmeras de segurança que ele espalhou em todo o entorno da Costa Pereira e que garantem a segurança para a região e para o seu negócio. “Depois que instalei as câmeras, há cinco anos, nunca mais fui assaltado”, afirma ele, que foi vítima de 46 assaltos à mão armada que quase decretaram sua falência pela segunda vez. Mas Martini insiste.

O telefone, o museu e o obelisco

Natural de Santa Catarina, ele chegou a Vitória em meados da década de 1980, vindo de duas enchentes que arruinaram o negócio que mantinha na sua cidade natal. Sem destino e com o futuro incerto, veio dar aqui. Um dia sentou-se num banco da Praça Costa Pereira e decidiu ficar. Acha que foi atraído pela visão do porto, que para ele assemelha Vitória a Itajaí, a cidade natal. Mas é mais provável que tenha sido atraído por oportunidades que seu espírito empreendedor não deixou escapar. Recomeçou negociando carros até passar para ramo da telefonia. Soube lidar com a precariedade dos serviços do antigo sistema Telebrás e refez a vida negociando aparelhos e linhas.

De negócio bem sucedido, o telefone virou uma coleção. De tanto negociar, Martini foi acumulando aparelhos e vislumbrou nesse acúmulo a ideia do museu. Para concretizá-lo, passou a buscar peças raras com colecionadores e antiquários de todo o Brasil. Adquiriu desde exemplares dos primeiros aparelhos forjados em ferro e madeira, aos aparelhos de design arrojado dos anos 1950 e 1970, mesas de PBX, orelhões, catálogo de códigos telegráficos e os “tijolões” que inauguraram a era dos celulares. A peça mais antiga, uma verdadeira relíquia, ele encontrou em um antiquário aqui mesmo em Vitória. Uma máquina de cinema 35 mm, de 1905, com a marca dos lendários irmãos Pathé, pioneiros no desenvolvimento da indústria cinematográfica mundial. Martini acredita que esta é a máquina que pertenceu ao antigo Teatro Melpomene, que existiu na então Praça da Independência, atual Costa Pereira, e que foi o primeiro local da capital a possuir sala de cinema.

Mas o museu não é a única homenagem de Martini ao negócio que fez dele um empresário bem sucedido. Na calçada em frente à loja, ele mandou colocar um obelisco em cujo topo repousa uma réplica de um aparelho telefônico dos anos 1940, obra do escultor grego-capixaba Iannis Zavoudakis. Pelo obelisco, Martini comprou uma briga com a Prefeitura. Há três anos, a administração da cidade mandou retirar a homenagem por entender que esta ocupa logradouro público e prejudica a acessibilidade e circulação de pedestres. Ele reclamou que era injusto e deu provas. Na época, fez circular um panfleto – intitulado apropriadamente “O Obelisco” – com fotos de balizas, postes e buracos nas calçadas que ele afirma causar mais transtorno aos pedestres do que o obelisco do telefone, que se mantém, por ganho de causa, no mesmo lugar. Martini resiste.

Um altruísta

A iniciativa de manter o canteiro e instalar as câmeras é parte da sua filosofia, sua crença e sua maneira de ser. Martini se define como um ser humano preocupado com a sociedade à sua volta. “Eu e meu território” é seu lema. Mas há também uma razão particular para todo esse cuidado. O canteiro de flores ajuda não só na valorização do espaço público, mas também serve de auxílio espiritual. “Quando me ocupo do jardim, estou cuidando de mim. Sinto-me bem.”

E para preservar o espaço e dar mais segurança à região, Martini está providenciando a instalação de câmeras de reconhecimento que possam identificar a aparência dos gatunos, coisa que as atuais câmeras não são capazes. Estas registram apenas a ação, como aquela que vitimou a pequena escultura de sapo, roubada do canteiro de flores na calada da noite. Foi uma ação mal sucedida, pois o sapo, apesar de pequeno, é uma peça pesada e acabou por levar a ladra de bicicleta ao chão. Tudo registrado. Para quem quiser conferir o registro, e a determinação de Martini, basta buscar no Youtube o vídeo “A vingança do sapo Curucuru”. Ah sim, a pequena escultura foi recuperada por uma alma boa que a encontrou jogada na rua e a repôs de volta ao canteiro. Lá está.

3 pensamentos sobre “O museu, as flores e a vingança do sapo curucuru

  • 11 de agosto de 2015 em 18:23
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    creio que devia ter uma estátua do Sr. Martini na praça Costa Pereira. Parabéns pela matéria

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  • 13 de agosto de 2015 em 16:54
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    A cada novo artigo, uma pérola de uma joia que é centro da cidade. Muito legal!

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  • 28 de março de 2017 em 18:43
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    Um grande entusiasta da memória da telefonia Brasileira. Parabéns pela iniciativa.

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