Conexões Infinitas: a cena cultural e criativa que emerge no ES

LAB MUY Fabrício

Fabrício Noronha: conectando pessoas, arte e cultura

No mês de setembro, além do público consumidor habitual, circulou pelos corredores do Shopping Praia da Costa um público que esteve lá com outro propósito. Um público formado por pessoas que não foram às compras, mas subiram direto para o último piso de garagem do shopping. Foi lá que rolou o Estúdio Infinitas, que concebeu um espaço garagem para servir de palco para o som de bandas e artistas que navegam pelos mais diversos estilos musicais, do rap e do funk, do samba e do rock, do pop ao eletrônico. Passaram por lá Silva, André Prando, Fernanda Gonzaga, A Banda Mais Bonita da Cidade, O Terno, Regional da Nair, Bonde do Rolê, rappers e batalha de mc’s. Foram 18 shows que atraíram um público presente de cinco mil pessoas e mais de 900 mil pessoas alcançadas virtualmente.

Mas por que o Infinitas foi parar em um shopping, depois de ter ocupado espaços como a Fábrica de Ideais e a Casa Lab., no centro da cidade, espaços que parecem mais de acordo com o tipo de público que segue as produções Infinitas, um público que não se vê no shopping com frequência? E por que não? Responde Fabricio Noronha, 31 anos, um dos curadores do Estúdio Infinitas. Para ele, o convite do Shopping sinaliza uma abertura da cidade fechada e autossuficiente que caracteriza os shoppings centers, para a cidade aberta onde circulam todas as pessoas, todas as artes, todas as culturas.

Pense em conexões. Este é o sentido. Conectar pessoas, conectar propostas, conectar e realizar os potenciais criativos que se manifestam nos espaços diversos das cidades, em diferentes países, pelo mundo.

Conexões glocais

O convite do Shopping para a curadoria do evento musical não foi à toa. O Infinitas é uma multiplataforma cultural que atua nos diversos campos da comunicação e da produção, circulação e difusão de conteúdos culturais. Rádio, audiovisual, internet, shows e eventos culturais. Tudo ao mesmo tempo.  Pois é esta a marca das produções Infinitas. Enquanto o evento acontece nos espaços reais, transmissões ao vivo são realizadas via internet para um público participante ainda mais amplo.

O modo de fazer revela uma nova concepção da produção cultural que vem acontecendo no estado, no país e no mundo. É uma concepção antenada com as conexões que o tempo atual nos permite. Arte, comunicação e cultura, gente aqui e gente lá, juntos ou separados, mas fundamentalmente conectados em redes. Redes que sempre existiram, mas que agora são  estendidas pelas possibilidades tecnológicas que nos ligam virtualmente. Daí o termo Glocal, que dá sentido ao que pode ser ao mesmo tempo local e global, que ocorre lá fora e é acessado aqui, ou vice-versa. “A ideia é compartilhar conteúdos e fomentar o diálogo entre agentes culturais, além de abrir e adaptar espaço para receber novas propostas artísticas”, resume Fabricio.

O evento do shopping é apenas uma das atividades do Infinitas, projeto do Lab. Muy, produtora que tem como sócios Fabricio, Rimaldo Sá e Vitor Lopes e que atua nas áreas de educação, comunicação, arte e cultura. A criação do Lab. explica a própria gênese do trabalho que marca as novas experiências de produção cultural e o modo de operar de artistas, produtores, fornecedores e patrocinadores, enfim, agentes que vêm fazendo a cena cultural capixaba. O Lab. Muy nasceu da articulação entre grupos de pesquisa na universidade e também junto aos coletivos criativos que surgiram nos primeiros anos do século XXI com uma nova proposta de realização colaborativa e gestão coletiva da produção cultural.

Festivais multiculturais – diálogos possíveis

Enquanto o Estúdio Infinitas no Shopping Praia da Costa focou, sobretudo, sobre shows musicais, os festivais realizados pelo Infinitas estão mais um grande evento ou feira cultural do que para um espaço de exibição. A Casa. Lab Infinitas e a Fábrica. Lab Infinitas, realizados 2013 e 2014, abriram espaço para seminários, laboratório, oficinas, exposições e shows de música e dança. “Não queríamos um festival naquele formato engessado de pouca interação entre quem faz e quem assiste. Queríamos algo múltiplo e aberto às experimentações e que permitisse um diálogo entre diferentes manifestações artísticas da cultura daqui e de fora e destas com o público, real ou virtual. A ideia é abrir o conhecimento e estimular uma reflexão sobre a cultura que fazemos e vivemos.”

O evento realizado na Fábrica de Ideias, por exemplo, além dos shows de música de artistas como André Prando, Alice Caymmi, Rodrigo Amarante e Guilherme Arantes, serviu de espaço de exibição e reflexão sobre a arte do Passinho, a manifestação cultural que tomou conta das periferias urbanas e é expressão da criatividade em dança, música e desafio poético. Oficinas literárias, exposição de arte e artesanato, culinária, laboratório de linguagem digital e música eletrônica, dão uma pequena mostra do cardápio do que o projeto Infinitas propõe como forma de realizar a produção artística e cultural no estado. Para Fabricio, “não se trata apenas de exibir, mas, sobretudo, refletir sobre cultura contemporânea e compartilhar arte e conhecimento”.

Um mundo sustentável

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Fabrício Noronha na sede do Lab. Muy

Ele acredita que a abertura do Shopping Praia da Costa para um evento realizado por uma iniciativa como o Infinitas mostra sensibilidade de seus diretores para o diálogo com a cidade aberta e uma compreensão de que vivemos em rede, em uma sociedade que é coletiva e diversificada. Para Fabricio, o isolamento apenas contribui para incendiar as polarizações políticas e sociais que temos experimentado hoje no país e nas cidades brasileiras. “Precisamos pensar em formas sustentáveis e harmoniosas de viver e conviver”. Ele acredita que para isso, é preciso estabelecer um diálogo e a troca de conhecimento entre os diferentes atores, sejam culturais, sejam políticos ou sociais.

Para quem quiser mais informações sobre o projeto Infinitas, basta acessar: www.infinitas.art.br. Quem quiser pode ainda acessar o programa diário que o projeto mantém na Rádio 104.7.

Para informações sobre o Lab. Muy, acesse: www.labmuy.cc

Fotos do Fabrício por Syã Fonseca

Viradão Cultural. Foi bonita a festa, de novo.

O Viradão Cultural, festa de aniversário da cidade de Vitória, teve boa repercussão nas redes sociais. Muitos comentários, muitos elogios, algumas queixas. A mídia local cobriu fartamente os eventos da festa. Circulei pelas ruas e não entrevistei ninguém, apenas senti e curti o clima entre todos que lá estavam. E até porque acho que as redes sociais me dariam mais repercussão do evento do que quatro ou cinco pessoas que eu entrevistasse. E nas redes a repercussão foi boa, no geral.

A mim cabe então aqui alguma impressão pessoal do que vi e usufrui. E a melhor impressão e usufruto para mim foi caminhar junto com muita gente pelo centro de Vitória e vê-lo tomado por músicos, atores, artesãos e poetas que fizeram de suas praças, ruas e avenidas palco e moldura para sua arte. A praça, a rua e a avenida são do povo, já disseram outros poetas. Melhor ainda quando elas são também do artista. Então se faz a festa.

E o bom de perceber nesta segunda edição do Viradão é que a festa melhor é feita por nós mesmos, pedestres e criadores capixabas, sem despeito ou desmerecimento aos artistas de fora, que somam. Mas a festa boa, eu acho, foi feita porque quem já vem fazendo festa e oferecendo espaços de criação e arte no centro da cidade. Stael Majestck, samba da Rua Sete, Hip Hop da Escadaria Rosário e Beco Cultural das Pulgas, foi o que eu mais curti, na rua e na rede.

No Beco

Eu, talvez por simpatia ao local e às pessoas que o ocupam e ali circulam, curti muito o Beco Cultural das Pulgas, realizado no corredor antes decadente e feio do quarteirão final da Rua Duque de Caxias. Estava animadíssima a feira, as pessoas e a música… Curti a proposta que é o evento, de tentar realizar em Vitória uma versão própria dos mercados de pulgas como há em tantas cidades. E o quarteirão estava bonito na festa, mostrando um pouco da economia criativa que o Corredor Criativo Nestor Gomes tem produzido na cidade.

No mais, torço para que este evento se torne permanente no calendário cultural da cidade e que cada vez mais aposte e incorpore as iniciativas de grupos e pessoas que fazem do centro palco e moldura da criação e produção cultural capixaba.

A cidade pelos olhos do outro. Syã Fonseca, fotógrafo.

A cidade pelos olhos do outro. Syã Fonseca, fotógrafo.

      “Pode-se dizer que a geometria é para as artes plásticas o que a gramática é para a arte de escrever”.     Apollinaire

Daqui por diante os textos deste blog serão acompanhados por fotografias.

Convidei Syã Fonseca para ilustrar com imagens os motivos desse blog. Digo motivos e não textos, pois não é intenção que ele se veja compelido ao mero registro de fatos, paisagens ou pessoas que relato. Pretendo dele a sensibilidade de um flâneur com uma câmera na mão que me acompanhe por algum motivo que seja meu e dele. Enfim, convidei Syã para um encontro entre texto e imagem, um encontro de olhares sensíveis.

Andei com ele pelo centro de Vitória para que nós dois dividíssemos impressões sobre as paisagens e imagens que o centro, meu motivo, oferece. Os olhos de Syã admiram a arquitetura, mas procuram por pessoas e sombras, os motivos dele.  Ele gosta de pessoas na paisagem e do contraste entre o preto e o branco. É isso o que ele vê nas cidades que captura.

Syã Fonseca tem 25 anos e é fotógrafo.

Trajetória

A ligação de Syã com o mundo das imagens começou bem cedo. Dos 12 aos 16 anos, acompanhou (e assistiu) o pai, o artista plástico e cinegrafista Tião Fonseca, nos registros da cultura popular do Espírito Santo. Aos 16 anos, ingressou no Século Diário como arquivista. Foi cuidando e colocando ordem aos arquivos do jornal que despertou nele a vontade de investir na fotografia, a qual ainda não se dedicava integralmente. Nos arquivos, livros e negativos do Século teve uma fonte de informação. E na cobertura de uma matéria teve a oportunidade de colocar o desejo em prática. “Precisavam de um fotógrafo de imediato para cobrir matéria policial. Foi minha primeira pauta.”

A partir daí colocou a fotografia como seu fazer profissional. Gosta da liberdade que a construção da imagem fotográfica permite. “É imagem que nos fazemos sozinho. Eu e a máquina.” Na foto ele busca o “instante decisivo”, o momento em que o artista capta o mundo em flagrante, como comentou o romancista irlandês John Banville a respeito da arte do mestre Henri Cartier-Bresson, uma referência para os fotógrafos amantes dos flagrantes e do momento em que tudo se encaixa. Uma fotografia “é (…) uma organização precisa de formas”, escreveu o mestre. A forma é a força condutora da imagem fotográfica.

A cidade, a rua e a luz

Syã tem preferência por fotografar ao ar livre, sem a produção de estúdios. Gosta de captar o acaso das pessoas nas ruas. Gosta de pessoas na paisagem. Ou a vida diante da paisagem. Acha que as pessoas fazem a rua. Em 90% das fotos que faz inclui pessoas. Ele prefere fotografar nas primeiras horas do dia, quando a luz da manhã espalha a sombra perpendicular que permite maior expressividade na cena captada. “No meio do dia perdemos a sombra. Tudo fica reto,” explica ele, que gosta de fotografar em preto e branco justamente para melhor explorar o contraste entre luz e sombra.

São Paulo, a cidade concreta, a cidade de muita gente, serviu aos primeiros ensaios urbanos de Syã. Espero agora que o centro de Vitória o inspire na captura de luz, sombra, textura e pessoas que ajudem a revelar a alma, o encanto, e também os desencantos, do bairro central da nossa capital.

Seja bem vindo, Syã.

That Hostel, porque Grant se apaixonou por Vitória e por Paula

“Já dei várias entrevistas para a imprensa daqui. Amanhã mesmo vão exibir uma que dei para a TV. Acho que é porque deve ser raro encontrar um nova-iorquino morando em Vitória.” Pois é, deve ser isso. Afinal, o que todos perguntam é por que um jovem viajante americano, que já percorreu quatro continentes e conheceu diversos países e lugares, escolheu Vitória para morar, uma cidade que em geral está fora da rota turística, principalmente do turista estrangeiro e ainda mais de Nova York. Se ao menos fosse um argentino. A resposta é simples e talvez até óbvia: Grant Lingel, 32 anos, se apaixonou por Vitória e por Paula, sua companheira há três anos. Pelas duas, resolveu se fixar.

Grant é um viajante do tipo curioso que gosta de conhecer lugares, pessoas e jeito de viver que possam surpreendê-lo. É isso que o faz viajar. Prefere seguir por rotas alternativas, conhecendo países em geral ignorados pelo turismo massivo e mais previsível. Jordânia, Quênia, Tanzânia, Moçambique, Portugal, México, Guatemala e Brasil. Chegou à imprevisível Vitória em janeiro de 2012 com planos de ficar por dois dias e seguir caminho até Itacaré, na Bahia, destino comum daqueles quem vêm de São Paulo, a primeira cidade brasileira que ele conheceu. A parada em Vitória foi por curiosidade e descanso. Então viu o sorriso de Paula numa noite de samba na Estação Porto e não chegou a Itacaré.

Grant 2             Grant That      Grant

 

That Hostel, lotação esgotada

Mas chegou até Itaúnas, onde, com Paula, abriu seu primeiro hostel, um negócio que conciliou trabalho e jeito de levar a vida como gosta, encontrando e se relacionando com pessoas de diferentes lugares e procedências. Ainda como um viajante, mas que agora prefere receber o mundo em sua casa. E há muitos viajantes brasileiros e estrangeiros passando e ficando por algum tempo em Vitória, garante Grant, que deixou Itaúnas e voltou à capital, onde há quatro meses abriu, sempre com Paula, o That Hostel, que funciona num sobrado de três andares na Rua Nestor Gomes, 235, centro. “Agora mesmo temos um casal da França, um espanhol, um português e um americano hospedados aqui.”

Muitos dos hóspedes do That Hostel são viajantes como Paula e Grant, de perfil mochileiro e sem maiores exigências. Os hostels oferecem hospedagem para um público em geral jovem e disposto a dividir acomodações. Além de mochileiros e viajantes sem pressa, eventos como congressos e encontros estudantis ou torneios esportivos têm incrementado o turismo jovem. Agora em setembro, por exemplo, a cidade sedia dois eventos estudantis, na Ufes e na Escola de Música do Estado (Fames), que já garantiram a lotação do That Hostel nas duas primeiras semanas do mês. “Tenho recusado hóspedes por falta de capacidade de acomodação.”

Os hostels em geral têm pequeno número de leitos, pois é comum que sejam instalados em casas ou prédios pequenos. E em Vitória só existem três que muitas vezes não dão vazão à procura por uma hospedagem mais de acordo com o perfil deste público, de gasto mais em conta. Para Grant, a rede de hospedagem da cidade falha por visar um turismo mais “golden tour”, desperdiçando a oportunidade de receber mais visitantes e reter viajantes que passam com destino à Bahia e ao Nordeste ou ao Rio de Janeiro e São Paulo. Grant aponta ainda para a dificuldade de um turista estrangeiro obter informações sobre Vitória e o Espírito Santo. “Não há muita informação em inglês para o turista”, exemplifica. É por causa desta carência que ele construiu o site do hostel todo em inglês com informações sobre o centro da cidade e sugestões de passeio no Espírito Santo.

O That Hostel tem capacidade para 17 hóspedes, além da área de camping, que fica no terraço do último andar e pode abrigar mais seis pessoas. O baixo número de leitos e as acomodações coletivas garantem um espírito de comunidade na casa, um traço comum aos hostels. Mas talvez a facilidade de Paula e Grant de lidar com pessoas de diferentes origens e costumes, as boas acomodações e a localização explique o That Hostel ser considerado o segundo melhor hostel do Brasil, de acordo com avaliação no Booking, o mais conhecido e acessado site para reserva de hospedagem pelo mundo.

Porto cidade

Sobre a boa localização do That Hostel, Grant não tem dúvida. “Vitória e o Espírito Santo são lindos. É perto de tudo. Tem mar, montanha. Mesmo aqui na cidade, acho belo o parque da Fonte Grande, com a natureza envolvendo a cidade,” diz. Viver no centro foi uma escolha. Ele se encanta com a paisagem que avista do terraço do hostel. Chama minha atenção para um navio que desliza lentamente entre os prédios altos que enquadram a visão que dali se tem do porto. Um navio que atravessa prédios, coisas que só se veem em Vitória. “É uma cidade linda, pequena e cheia de história. Percorre-se todo o centro a pé e isso fascina os turistas e viajantes que se hospedam no bairro. Os bares são outra atração”.

Sobre deixar Vitória e colocar o pé na estrada para ganhar mundo novamente, Grant decreta: “não penso em sair daqui tão cedo”.

 

Serviço

That Hostel – Rua Nestor Gomes, 235 – Centro, Vitória – (27) 3019-7019                    

Quarto misto com oito camas: R$ 35,00 por pessoa  /  Quarto feminino com seis camas: R$ 35,00   /  Quarto privado: R$ 70,00 para uma pessoa; R$ 90,00 para duas pessoas ou R$ 120,00 para três pessoas   /   Área de camping – R$ 20,00 por pessoa

Café da manhã incluído

Site para reservas: http://www.thathostelvitoria.com/

Fotos

As fotos do Grant  foram feitas por Syã Fonseca, um fotógrafo que gosta de pessoas na paisagem. Ele será minha companhia em próximos passos. Será um prazer em tê-lo aqui, Syã.