OPARQUE, coworking como filosofia de trabalho e criação

Equipe

 

 

O casarão de cores vivas no número 493 da Rua Sete de Setembro tem o estilo eclético que marcou a arquitetura do centro da cidade de Vitória nos 1930, época de sua construção. Como tantos outros, foi local de moradia de famílias de muitos filhos e agregados. Foi ali também que as sócias Juliana Colli e Juliana Lisboa encontraram o espaço ideal para sediar o estúdio de designer OParque e os escritórios de mais quatro empresas. Foi ali ainda que elas vislumbraram um bom lugar para abrigar eventos e festas.  OParque é ao mesmo tempo sede da empresa de igual nome e espaço compartilhado para escritórios, galeria, local de eventos e eventualmente de festas concorridas.

A ideia das sócias foi criar um espaço para sediar empresas e estimular a circulação e o encontro de pessoas e profissionais que compartilham interesses afins e que podem ser concretizados em projetos comuns. OParque é um coworking, um modelo de trabalho baseado em processos colaborativos que ocorrem em espaços comuns ou em escritórios compartilhados.

Não se trata de arranjos produtivos ou coletivos criativos. Pelo contrário, no modelo adotado pelo OParque podem estar reunidas pessoas que trabalham não necessariamente em uma mesma empresa, como nos coletivos, ou em áreas de negócios afins, como nos arranjos produtivos. Este modelo pode inclusive reunir profissionais liberais e usuários independentes que buscam estabelecer relacionamentos de negócios, mas que permite e até estimula a oferta e contratação de serviços mútuos. E não é pouco comum que destes relacionamentos ideias sejam amadurecidas e projetos em grupo sejam criados e realizados.

O coworking é um modelo de trabalho que se aplica aos novos negócios que se pautam pela colaboração e formação de redes, que estimula a circulação constante de ideias, propostas e projetos inovadores. Se antes este modelo predominava no espaço virtual da internet, hoje ele tem inspirado a criação de escritórios que compartilham espaços reais de trabalho, criação e exposição.

Design, educação, eventos e arte

O casarão sede oferece a infraestrutura necessária para abrigar escritórios, eventos, galerias e festas. São 15 cômodos distribuídos em três andares e que disponibiliza salas de escritórios, sala de reunião, wi fi, linhas telefônicas, data show, telões, bar, terraço, torre e pomar. “OParque é um lugar de encontro entre criativos e empresários e que atua no eixo design, educação, eventos e arte”, informa Juliana Lisboa. Além do estúdio de design, o casarão abriga também a Ciano Filmes, produtora de conteúdo audiovisual para web e TV; a Pixahc; que tem na casa um hackerspace, local onde seus programadores compartilham ferramentas e discutem ideias e projetos de software e hardware; a Locomotipo, que atua na área de design e artes gráficas; e a Voa galeria virtual e real, que no momento expõe na casa os trabalhos de quatro artistas plásticos que participam do Circuito ArtES – Primeiro Circuito de Artes Visuais do Espírito Santo.

Mas não são apenas as empresas abrigadas ali que podem usufruir da casa. Nada impede que usuários independentes se utilizem do espaço para realizar projetos próprios. Foi assim com o  Stchek Bar (que comentei aqui), evento de iniciativa do designer Vitor Rodrigues em parceria com OParque e com Alex Furtado, da Locomotipo, que reuniu jovens criadores, entre artistas plásticos, ilustradores e designers para um encontro de criação e de troca de ideias e, quem sabe, futuras parceria em projetos.

Encontro com artistas, realizadores e com especialistas nas mais diversas áreas da criação e da economia colaborativa são frequentes. “Convidamos pessoas que podem somar conhecimento e trazer ideias inovadoras para a casa. E pretendemos cada vez mais promover estes encontros, pois são parte da nossa filosofia de compartilhar informação e saberes”, diz Juliana Lisboa. Os eventos podem ter vários formatos, desde feiras, exposições, palestras e workshops a encontros mais informais, na forma de bate papo descontraído. E espaço para isso é o que não falta na casa. Nem para as festas que eventualmente são promovidas ali. O bar, o terraço, a torre no alto da casa e agora o pomar que começa a ser organizado são propícios para reunir gente e animar a festa. Neste fim de semana, por sinal, vai ocorrer na casa o Baile da Bruxa, que convida o público a “juntar todos os credos, tribos e vibes numa conexão cósmico-xamânica e invocar os espíritos ancestrais da dança e da malemolência.”

Para quem quiser saber mais sobre a festa: www.facebook.com/events/1650406368541320/

Informações

Para quiser conhecer mais detalhes sobre a casa e sobre as empresas ali instaladas, seguem links:

OParque(casa): https://www.facebook.com/grupocriativo.oparque/?fref=ts

OParque (estúdio de design): http://oparque.art.br/

Ciano filmes: https://www.facebook.com/cianofilmesvix

Voa: www.voa.art.br

Pixahc: https://www.facebook.com/pixahc

Locomotipo: http://locomotipo.com.br/

O Espírito Santo na ficção de Juliano Salgado, um cineasta

O Espírito Santo na ficção de Juliano Salgado, um cineasta

Dizem que o cinema é uma catarse. Juliano Ribeiro Salgado parece concordar.  Pelo menos é o que se pode inferir quando ele diz que depois de “O Sal da Terra”, a relação conflituosa com seu pai se resolveu. O Sal da Terra, filme que Juliano codirigiu com o cineasta alemão Win Wenders e mereceu prêmios internacionais, além da indicação do Oscar 2015 de melhor documentário, retrata a obra de Sebastião Salgado, pai de Juliano e fotógrafo notável, ainda que, para alguns, controverso. Muitas de suas belas imagens documentaram a questão humana na sua dimensão mais desumana, da fome, da guerra e da destruição ambiental.

Como Juliano já revelou em outras entrevistas, Sebastião foi um pai ausente, o que não é difícil de deduzir sobre alguém que percorreu os quatro cantos do planeta documentando a vida humana em conflito ou em total isolamento. Trabalho que quase sempre exigiu de Sebastião Salgado permanências prolongadas em lugares distantes e longa ausência de casa.

Pai e filho

A obra que afastou pai e filho foi a mesma que os reconciliou, uma reconciliação realizada em formato audiovisual, e não poderia ser de outra forma em se tratando de Sebastião e Juliano Salgado. O Sal da Terra é também o resgate do pai enquadrado pelo olhar do filho, na contemplação de sua obra e na compreensão de seu trabalho. Em entrevista ao site “brasileiros.com.br”, Juliano declarou que sua intenção ao realizar o filme foi reencontrar seu pai. “Eu conhecia as histórias, sabia as reportagens que podiam contar a trajetória do Sebastião. Mas quando eu vi duas horas e meia de entrevista, filmada pelo Wim, foi que entendi o que o Sebastião tinha passado, o quanto ele sofreu e aprendeu naquelas situações todas. Isso mudou minha visão sobre ele.”

Até antes da realização do filme, pai e filho tinham uma relação distante e difícil. “Antes, não conseguíamos ficar cinco minutos sem brigar. Hoje mantemos longas conversas sobre tudo”, diz o filho. “Acho que agora nossas questões estão resolvidas.”

O Espírito Santo

Juliano esteve em Pedra Azul a convite da Galpão Produções especialmente para prestigiar a sessão de abertura do 21º Vitória Cine Vídeo Itinerante e a exibição de O Sal da Terra. Conversamos antes do início da sessão. Ele fala fluentemente o português, mas com um claro acento francês.  Juliano nasceu em 1974, na França, país onde seus pais foram morar em 1969, em pleno recrudescimento do regime militar. Juliano é filho da ditadura, um filho estrangeiro de pais exilados.

O assunto não vem à tona à toa. O projeto ao qual se dedica agora parece de alguma forma tratar da história mal contada do Brasil. E terá como contexto o Espírito Santo. E será uma história de suspense, assim como ficará em suspense esta história. Juliano não quer revelar do que se trata o projeto, afinal ainda é um projeto em elaboração. “Estamos na fase de desenvolver o roteiro, quando muita coisa pode mudar”, justificou. Mas de certo é que será uma história que terá cenário no estado e a algum fato relevante à nossa história.

Algum sinal do que pode vir a ser o enredo do filme está na preocupação que Juliano demonstra com a falta de cuidado do Brasil sobre sua própria história. “Não contamos a história real e isso produz mitos que não se sustentam na realidade. Idealizamos um país tolerante e multirracial, quando na verdade somos um país racista. Não resgatamos ainda o passado da ditadura militar, apenas superficialmente. E isso me preocupa e incomoda”. Essas são indicações do que poderá vir a ser o primeiro longa de ficção de Juliano. Foi o que ele sinalizou. Mas só daqui a três anos mais ou menos (tempo necessário para realizar de um filme em longa metragem) poderemos saber com certeza.

Mão de obra local

A ideia de filmar no Espírito Santo deve-se ainda ao fato de o estado ser pouco conhecido no restante do país. “Amigos de São Paulo com quem conversei nada sabem sobre o estado. E há história aqui.” Juliano faz questão que a equipe técnica do longa seja formada no estado. “Queremos trabalhar com mão de obra capixaba. Por isso, vamos formar técnicos daqui para participar desta produção”, adianta ele.

No mais, aguardemos.

21º Vitória Cine Vídeo Itinerante – levando cinema da serra ao mar

21º Vitória Cine Vídeo Itinerante – levando cinema da serra ao mar

A convite da Galpão Produções, estive no fim de semana em Pedra Azul para acompanhar a primeira? sessão 21º Vitória Cine Vídeo Itinerante, que teve um sabor especial, a exibição do documentário “O sal da terra” e a presença de seu codiretor, Juliano Ribeiro Salgado, filho do personagem tema do filme, o fotógrafo Sebastião Salgado. O convite simpático me permitiu fugir por algumas horas do calor inclemente da planície praiana e a oportunidade de bater um papo com Juliano, que entre outros assuntos, informou sobre o projeto de rodar um longa metragem de ficção no e sobre o Espírito Santo com equipe técnica formada aqui.

Mas antes da entrevista (que será publicada no post seguinte), vale informar sobre o Festival Itinerante, pois afinal este foi o motivo do convite.  Depois de passar por Domingos Martins e Marataízes no fim de semana, as próximas sessões ocorrerão em Cariacica (quarta-feira, 21, na Praça Central de Campo Grande), na Vila de Itaúnas (sexta-feira, 23, em frente à Igreja de São Sebastião) e em Manguinhos (sábado, 24, na pracinha da Vila). A programação para estas sessões vai privilegiar a exibição de filmes de curta metragem da produção brasileira recente.

Mercado curto

As sessões se iniciam às 19 horas e são abertas ao público, como não poderia deixar de ser, em se tratando de uma iniciativa que busca justamente a formação de plateia e a difusão para um público mais amplo da produção brasileira em curta metragem. Os filmes de curta metragem têm pouca penetração no mercado comercial do audiovisual do país. Se o mercado não se interessa, cabe aos festivais colocar essa produção em circulação. “Hoje, são os festivais e a internet o espaço de exibição para o curta. É nesse sentido que o Vitória Cine Vídeo Itinerante atua, de formar público para o cinema nacional e em especial, o cinema de curta metragem”, diz Larissa Delbone, diretora executiva da Galpão Produções. Por isso também, a opção da praça pública como local de exibição, acessível a quem quiser e a quem estiver por lá.

As localidades de exibição também são pensadas para atender a um publico que não tem acesso fácil a salas de cinema. Em Pedra Azul, onde não há cinema, cerca de 250 pessoas prestigiaram a sessão especial de O Sal da Terra, que abriu a itinerância do Festival numa homenagem especial a um dos mais prestigiados fotógrafos da atualidade. Agora o Festival segue com a exibição de cinco filmes de curta metragem recém-produzidos. Boa sessão!

Programação das próximas sessões

Se Não… (Ficção / 16 minutos / Amazonas / 2015 / Classificação Livre), de Moacyr Freitas. Sinopse: Zé Ninguém é o velho do saco, que vive no imaginário das crianças daquela cidadezinha do interior. João, Juca, Guilherme e Marquinhos, em suas brincadeiras do cotidiano, estão sempre às voltas com o tal Zé Ninguém e, na casa da arvore, esse é o assunto que domina a roda de conversa. Um dia, o sumiço do robô de Guilherme, faz com que ele acuse João de ter pegado o robô, pois João o cobiçava. Mas João se limitava a falar que foi o velho do saco. Passado alguns anos os colegas se separaram, mas Guilherme ainda tem aquela duvida se foi o João ou não, quem pegou o tal robô. Já como médico, Guilherme é chamado para atender a uma urgência, e ao se deparar com o corpo de um desconhecido, ele passa a reviver todas as suas lembranças de infância. Link para fotos: http://migre.me/rGlG3

A Culpa é do Neymar (Ficção / 10 minutos / Rio de Janeiro / 2015 / Classificação Livre), de João Ademar. Sinopse:  o curta, que se passa no ano de 2011, apresenta a história de Jair, um botafoguense fanático que entra em delírio ao descobrir que Túlio, seu único filho, influenciado pela Neymarmania, passou a torcer pelo Santos. Nesse contexto, Sandra, sua esposa, buscará todas as alternativas para trazer o marido à razão e restaurar a paz familiar. Link para fotos: http://migre.me/rGlwP

À Festa. À Guerra (Ficção / 17 minutos / Rio de Janeiro / 2015 / Classificação Livre), de Humberto Carrão Sinoti. Sinopse: um prefeito de uma cidade que está passando por muitas greves e manifestações assume uma estratégia para atrair investimentos: encomendar de uma escola de samba do carnaval do Rio de Janeiro um desfile que fale de sua cidade. O que ele não sabia e agora parece intuir é que o carnaval não é somente festa e alegria. Link para fotos: http://migre.me/rGlza

Até a China (Animação / 15 minutos / Rio de Janeiro / 2015 / Classificação Livre), de Marcelo Marão. Sinopse: Fui pra China só com bagagem de mão. Na China os motociclistas usam casaco ao contrário e os restaurantes servem cabeças de peixe, lagostins e enguias. A funcionária do evento estuda cinema e gosta de filmes de Kung Fu. Comprei pés de galinha embalados a vácuo. Link para fotos: http://migre.me/rGlBi

Insular (Documentário / 16 minutos / Espírito Santo / 2015 / Classificação Livre), de Tati W. Franklin. Sinopse: “Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo.” (John Donne). Curta-metragem que convida o espectador a imergir o olhar no modo de vida de uma família que mora em uma ilha. É um filme de significado livre, cabe ao espectador preenchê-lo e permitir a experiência do contato com esse universo. Link para fotos: http://migre.me/rGlE8

Sketch Bar: na mesa fazendo arte

Sketch Bar: na mesa fazendo arte

Lugar bom de falar e fazer arte é numa mesa de bar. Falar de arte numa mesa de bar, por que não? Afinal, as mesas de bar convidam ao encontro, ao bate papo e à troca de ideias.  E fazer arte também, pois guardanapos e toalhas de papel das mesas de bar já serviram de suporte para poemas e desenhos. Senão a obra acabada, pelo menos um esboço, uma ideia, uma inspiração anotada entre copos e garrafas.  Foi o que pensou o designer Vitor Fernandes, 26 anos, quando convidou “uns 20 amigos mais ou menos” para desenhar e bater papo na mesa de um bar em Jardim da Penha, em janeiro do ano passado. Do encontro inicial surgiu o Sketch Bar, evento em formato “mesa de bar” cuja segunda edição reuniu mais de cem jovens criadores, entre ilustradores, designers, artistas plásticos, no dia 7 de outubro, no casarão sede de OParque,  centro da cidade.

A ideia é a seguinte: em torno de uma mesa larga – uma bancada – artistas se reúnem não só para criar, mas sobretudo, conhecer uns aos outros, trocar ideias, experiências e até quem sabe, parcerias para trabalhos futuros. “O que interessa é o network, o movimento e o encontro entre aqueles que fazem arte. É para construir relações e quebrar o isolamento e a timidez do artista” explica Vitor, que organizou e promoveu o evento em parceria com OParque e o ilustrador Alex Furtado, 24.

Vitor diz que o evento tem atraído também roteiristas interessados em encontrar ilustradores para suas histórias.

Quanto às criações desenhadas sobre o papel na mesa, Vitor esclarece que nada é guardado. “Não temos preocupação em guardar o papel ilustrado.” Depois de feito e exibido sobre a mesa, tudo e descartado como são descartadas as toalhas de papel dos bares. “A ideia é o encontro e não a obra em si”, diz ele. “Quem quiser guardar alguma lembrança da obra, pode fotografa-la”.

A ideia agora dos criadores do evento é expandi-lo para fortalecer o network de artistas, designers e ilustradores. “Em breve devemos organizar o primeiro Ilustra ES, que pretende ampliar o encontro com palestras e seminários em torno da criação artística e mercado de arte do estado e do país.”

 

Foto: Syã Fonseca

 

Folias de Reis, um cartão de memória em formas, cores e movimentos

Folias de Reis, um cartão de memória em formas, cores e movimentos

A ideia inicial era que ele me acompanhasse pelo centro. Mas como impedir o encantamento do fotógrafo quando ele se depara com as cores, as formas e movimentos da festa? Como impedir o olhar sensível que quer capturar o instante que tudo se harmoniza no enquadro preciso da tela? Não há por que.

Syã Fonseca esteve em Muqui para o Encontro Nacional de Folias de Reis, que aconteceu no último fim de semana de setembro. Ele trouxe de lá um pouco da memória em imagens de uma das mais tradicionais festas da nossa cultura popular, brasileira e capixaba com certeza.

Aqui, então, um pouco do que Syã viu e registrou em Muqui.