A cidade por uns fios, Vitória. A cidade por Thaiana Gomes, fotógrafa

A cidade por uns fios, Vitória. A cidade por Thaiana Gomes, fotógrafa

 

A paisagem é mais do que um estilo de pensar e escrever, é uma forma de viver à deriva,                 entre o  banal  e  o sublime,  a materialidade  do  cotidiano  e a  leveza  do devaneio.                            (Denilson Lopes)

Vitória é uma cidade de nome próprio feminino, assim como são femininos próprios os nomes das cidades invisíveis de Ítalo Calvino. Se Vitória fosse uma das cidades de Calvino, talvez pudesse ser descrita (à semelhança da Ercília do autor) como a cidade dos fios. Ao menos no seu centro histórico, Vitória é uma cidade de muitos fios. Ali, é difícil olhar a paisagem sem enquadrá-los.

Daí me veio a ideia de deliberadamente enquadrar os fios sobre o centro de Vitória por meio de um pequeno ensaio em imagem, como uma crônica visual. Convidei Thaiana Gomes para produzi-lo. Convidei Thaiana porque conheço seu interesse particular pelo registro da geometria urbana, pelas linhas horizontais que cortam e se misturam, em ruído, contraste ou harmonia, à cidade vertical. Sei também de seu interesse pela paisagem passageira, a paisagem móvel vista de passagem no trânsito da cidade que se mostra fugaz.

Fragmentos e movimento   

Conheci Thaiana enquanto estive professora do curso de Comunicação da Ufes. Thaiana foi minha aluna e gosta de fotografia. Mas ela reluta em se considerar fotógrafa. Acha que ainda tem muita estrada pela frente. É provável, afinal tem apenas 24 anos. Mas isso talvez seja apenas timidez. Thaiana tem olhos de observação e a sensibilidade necessárias para captar o instante decisivo que organiza as formas com precisão e harmonia e revelam a boa imagem fotográfica.

Seu trabalho de final de curso deu-se justamente sobre a fotografia da cidade em movimento, fragmentos da paisagem urbana vista do ônibus, na viagem diária de quem atravessa o centro em direção a outros bairros. Seu olhar é passageiro, assim como são passagens os fios do centro da cidade. E não apenas por serem linhas, elementos que sugerem condução e continuidade, mas porque de fato, e ao contrário dos fios da Ercília de Calvino, os fios em Vitória têm função. São condutores por onde trafegam energia e comunicações e sugerem ou supõem a vida que pulsa ao redor, pela cidade. São também retratos da desordem e poluição urbana.

Do celular

Para captar a cidade em seu movimento e condução, Thaiana opta pela câmera do celular, do dispositivo móvel que hoje todos nós temos em mãos. Assim como em seu trabalho de final de curso, as imagens produzidas para este ensaio são uma leitura “de um deslocamento de percepções da cidade, paisagens, e, fundamentalmente, dos monumentos concretos da urbanidade, em imagens duras em alto contraste”. Seu desejo foi, enfim, poetizar a cidade.

 

 

   

Um texto perplexo – Rio Doce

“Traga-me um copo d’água, tenho sede. E essa sede pode me matar.”                                   (Anastácia e Dominguinhos)

Faço uma pausa nos assuntos que costumo tratar aqui. Pauso para um lamento, como se fosse um minuto de silêncio. O silêncio futuro da vida ribeirinha que se extinguirá, porque ribeirinhos vivem de rio e não haverá mais o rio. A ganância e a irresponsabilidade estão matando 880 km de vida do rio e condenando – ou o menos transformando drasticamente – a vida de quem vive à beira rio. Não se trata apenas da vida material. É, sobretudo, a vida extinta ou desarrumada. A infelicidade/dificuldade na vida bate à porta dos que ficam. E é também a economia, estúpido.

Pense: o que será da economia das cidades ao longo dos 880 quilômetros de extensão se não houver água limpa para consumo? Cidades que vivem também da agricultura e da pecuária. Sem água não haverá agricultura, nem pecuária. O comércio será afetado, escolas suspenderão aulas, o desemprego ou a falta de renda ameaçará famílias.  Não só nas cidades, mas também nas comunidades ribeirinhas. Se a tragédia que se anuncia e que já afeta Minas Gerais for confirmada também para o Espírito Santo, vai provocar uma calamidade. Alguém tem que pagar por isso e acho que todos já sabemos quem deve. Vamos mexer onde mais dói ao capital, vamos mexer com o lucro da empresa aplicando uma multa digna. Os R$ 250 milhões iniciais anunciados mostram apenas a falta de visão e a covardia do governo federal diante de tamanha devastação, que ainda nem mostrou todo seu tamanho. Mas já se anuncia que não será pequeno.

Do sofá para a TV

Uma outra questão que envolve esta tragédia e que foi motivo de discussão nas redes sociais tem a ver com Paris. Mas creio que houve males entendidos. A discussão sobre que tragédia lamentar – Paris ou Rio Doce – é infrutífera. Não se trata de considerar o luto pessoal de cada um de nós ou dimensionar quem sofre mais. A meu ver a questão é sobre o espaço de cobertura que cada tragédia mereceu. Aí o Rio Doce perdeu. Ou pelo menos começou perdendo.  Tive a impressão de que a indignação e reclamação sobre esta injustiça midiática repercutiram e daí o Rio Doce ganhou mais espaço – ou pelo menos o espaço devido – na cobertura da TV. Pois afinal o descaso, a irresponsabilidade, o desprezo e avareza, a tragédia anunciada e não evitada, o risco certo à vida dos outros não seriam também uma barbárie? O ativismo de sofá tem ao menos a força da repercussão. E isso é de considerar.

O silêncio dos nossos políticos

O silêncio dos nossos parlamentares foi constrangedor, para não dizer comprometido. Deputados calados ou com discursos cheios de indignação, mas vazios de ação. Nenhum deles propôs nada além da cobrança fútil, que parece mais peça de campanha do que preocupação e envolvimento real com a tragédia do Rio Doce que se avizinha das nossas cidades ribeirinhas. Na nossa Assembleia, houve discursos indignados, mas nenhuma ação de fato concreta. Não se viu deputado correndo o Rio Doce para constatar as condições das cidades que vão sofrer com a lama tóxica que desce o rio. Na Câmara Federal, não se viu nenhum de nossos representantes ocupando a tribuna da casa para tratar de questão tão grave. Passaram batidos, até porque sabemos todos que muitos estão financiados pela grana das empresas responsáveis por tamanho desastre.

Também são vazios, e até perversos, os discursos corporativos de responsabilidade social, sustentabilidade ambiental. E ainda instituem prêmios, selos em cima dessa balela. Quanta leviandade. E burrice. Discurso não segura barragem nem evita prejuízo monetário ou de imagem. Discurso não resiste ao fato. E não vale também o discurso de que a responsabilidade das empresas é gerar emprego e recolher impostos. É responsabilidade de uma empresa ser responsável em suas operações e proteger suas instalações e barragens, como as duas que estouraram sobre a cabeça dos vilões (no sentido etimológico da palavra e não na conotação depreciativa, que essa cabe a outros) de Bento Rodrigues, vila que estava lá antes das barragens e que agora já não está, não existe mais. A responsabilidade social e a sustentabilidade ambiental morreram em Bento Rodrigues.

Notícias que assustam cada vez mais

Enquanto escrevo este texto, leio que a Samarco admitiu o risco de rompimento da segunda barragem. Ou seja, esta era de fato uma tragédia anunciada. E pode ficar pior.

Sunday Sale, 2ª edição: mais comida, mais diversão e arte no centro da cidade

Sunday Sale, 2ª edição: mais comida, mais diversão e arte no centro da cidade

 

Bom ver quando a segunda edição de uma boa ideia vem ainda melhor. Bom ver boas ideias sendo executada com entusiasmo por suas produtoras e curtida por uma galera ainda maior e mais animada. Assim foi a segunda edição do Sunday Sale em Vitória que lotou os espaços do Guananaaí Hostel, no centro da cidade, no último domingo, com exposição e comercialização de produtos de marcas locais, oficina criativa, pocket show, exposição de arte, performances, gastronomia e bar.

E melhor ainda é saber que o Sunday Sale se torna agora permanente no calendário cultural e entra para a agenda de eventos da cidade. A ideia é realiza-lo de dois em dois meses, segundo a idealizadora do evento, Carolina Liczbinski. Nada mais justo. Estava bom de ver tanta gente jovem e bonita circulando pelos aposentos do Guananaaí e pelo quintal lateral do casarão que abriga o hostel. A não ser pelos andares de cima, onde ficam os quartos dos hóspedes, cada canto da casa tinha um expositor, um bar, um drink e música, muita música curtida por uma gente descontraídos em suas sandálias de dedo ou rasteirinhas. Nada de afetação, o público que frequenta o centro não é dado a isso.

Segundo a produtora e curadora do evento em Vitória, Kamilla Albani, a proposta do Sunday é divertir e agradar a muitos gostos e dar espaço para produtos e iniciativas criativas. Da produção artesanal de vestuário, papelaria, customização de roupas e bicicletas, gastronomia vegana e vegetariana e à bebida artesanal e à música autoral. Enfim, a proposta do evento parece mais próxima de um público mais ligado ao consumo de produtos e dietas alternativas e com espaço para receber a produção autoral de artistas locais e outros que vieram especialmente para o evento, como o caso do grupo Dr. Swing, formado por músicos sul americanos que tocam nas ruas e bares do Rio de Janeiro. Dos locais, André Prando e a dupla Júlia Papel e Isadora Dalvi deram o tom do som do evento.

Noite adentro

O Sunday Sale é, enfim, um evento que parece ter encontrado um público perfeito em Vitória. Pelo menos foi a impressão que deixou para mim. E desta vez ainda mais forte, pois se na primeira edição, realizada em agosto e registrada aqui neste blog, o público aderiu com força, desta vez ainda mais, principalmente no fim da tarde e início da noite, quando o fluxo de gente só aumentava. Então que seja bem vinda a próxima edição, que deve ocorrer em janeiro.

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Melhor que palavras, imagens que dão um pouco do clima do que foi a segunda edição do Sunday Sale em Vitória.