Um texto perplexo – Rio Doce

“Traga-me um copo d’água, tenho sede. E essa sede pode me matar.”                                   (Anastácia e Dominguinhos)

Faço uma pausa nos assuntos que costumo tratar aqui. Pauso para um lamento, como se fosse um minuto de silêncio. O silêncio futuro da vida ribeirinha que se extinguirá, porque ribeirinhos vivem de rio e não haverá mais o rio. A ganância e a irresponsabilidade estão matando 880 km de vida do rio e condenando – ou o menos transformando drasticamente – a vida de quem vive à beira rio. Não se trata apenas da vida material. É, sobretudo, a vida extinta ou desarrumada. A infelicidade/dificuldade na vida bate à porta dos que ficam. E é também a economia, estúpido.

Pense: o que será da economia das cidades ao longo dos 880 quilômetros de extensão se não houver água limpa para consumo? Cidades que vivem também da agricultura e da pecuária. Sem água não haverá agricultura, nem pecuária. O comércio será afetado, escolas suspenderão aulas, o desemprego ou a falta de renda ameaçará famílias.  Não só nas cidades, mas também nas comunidades ribeirinhas. Se a tragédia que se anuncia e que já afeta Minas Gerais for confirmada também para o Espírito Santo, vai provocar uma calamidade. Alguém tem que pagar por isso e acho que todos já sabemos quem deve. Vamos mexer onde mais dói ao capital, vamos mexer com o lucro da empresa aplicando uma multa digna. Os R$ 250 milhões iniciais anunciados mostram apenas a falta de visão e a covardia do governo federal diante de tamanha devastação, que ainda nem mostrou todo seu tamanho. Mas já se anuncia que não será pequeno.

Do sofá para a TV

Uma outra questão que envolve esta tragédia e que foi motivo de discussão nas redes sociais tem a ver com Paris. Mas creio que houve males entendidos. A discussão sobre que tragédia lamentar – Paris ou Rio Doce – é infrutífera. Não se trata de considerar o luto pessoal de cada um de nós ou dimensionar quem sofre mais. A meu ver a questão é sobre o espaço de cobertura que cada tragédia mereceu. Aí o Rio Doce perdeu. Ou pelo menos começou perdendo.  Tive a impressão de que a indignação e reclamação sobre esta injustiça midiática repercutiram e daí o Rio Doce ganhou mais espaço – ou pelo menos o espaço devido – na cobertura da TV. Pois afinal o descaso, a irresponsabilidade, o desprezo e avareza, a tragédia anunciada e não evitada, o risco certo à vida dos outros não seriam também uma barbárie? O ativismo de sofá tem ao menos a força da repercussão. E isso é de considerar.

O silêncio dos nossos políticos

O silêncio dos nossos parlamentares foi constrangedor, para não dizer comprometido. Deputados calados ou com discursos cheios de indignação, mas vazios de ação. Nenhum deles propôs nada além da cobrança fútil, que parece mais peça de campanha do que preocupação e envolvimento real com a tragédia do Rio Doce que se avizinha das nossas cidades ribeirinhas. Na nossa Assembleia, houve discursos indignados, mas nenhuma ação de fato concreta. Não se viu deputado correndo o Rio Doce para constatar as condições das cidades que vão sofrer com a lama tóxica que desce o rio. Na Câmara Federal, não se viu nenhum de nossos representantes ocupando a tribuna da casa para tratar de questão tão grave. Passaram batidos, até porque sabemos todos que muitos estão financiados pela grana das empresas responsáveis por tamanho desastre.

Também são vazios, e até perversos, os discursos corporativos de responsabilidade social, sustentabilidade ambiental. E ainda instituem prêmios, selos em cima dessa balela. Quanta leviandade. E burrice. Discurso não segura barragem nem evita prejuízo monetário ou de imagem. Discurso não resiste ao fato. E não vale também o discurso de que a responsabilidade das empresas é gerar emprego e recolher impostos. É responsabilidade de uma empresa ser responsável em suas operações e proteger suas instalações e barragens, como as duas que estouraram sobre a cabeça dos vilões (no sentido etimológico da palavra e não na conotação depreciativa, que essa cabe a outros) de Bento Rodrigues, vila que estava lá antes das barragens e que agora já não está, não existe mais. A responsabilidade social e a sustentabilidade ambiental morreram em Bento Rodrigues.

Notícias que assustam cada vez mais

Enquanto escrevo este texto, leio que a Samarco admitiu o risco de rompimento da segunda barragem. Ou seja, esta era de fato uma tragédia anunciada. E pode ficar pior.

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