Pausa para balanço e um feliz ano novo

Neste primeiro ano do blog Flânerie o centro de Vitória prevaleceu nos posts publicados, como foi seu propósito e não sem merecimento e muito menos por falta de assunto. O centro é hoje e de novo lugar de muita gente e muito movimento que merecem registro. Bom ver jovens renovando o bairro e fazendo dele um novo centro irradiador de arte, cultura e diversão, um lugar de iniciativas e negócios criativos.

Pois então, estão lá movimentando o bairro e toda a cidade pessoas e empresas que instituíram um corredor criativo na Rua Nestor Gomes, que renovaram a vocação cultural da Rua Sete de Setembro, como os bares da rua e OParque, empresa antenada com as formas inovadoras de trabalho compartilhado. É também nOParque e no Guanaaní Hostels que vêm rolando eventos bacanas que atraem público novo para lugar, assim como tem sido nas casas de festas na região do Parque Gruta da Onça.

Um pouco disso tudo publicamos aqui com a ideia de falar da cidade de Vitória a partir do seu bairro central. Mas não fiz isso sozinha, não sempre. Convidei pessoas talentosas para participar comigo destes passeios pelo centro, como Thaiana Gomes e Syã Fonseca, jovens fotógrafos, que com imagens me ajudaram a retratar o bairro. A ideia é que novos convites sejam aceitos para me fazer companhia aqui neste blog na intenção de ampliar seu foco para assuntos que falam sobre nós capixabas e sobre a cultura daqui e o movimento cultural que produzimos aqui. O centro sempre será nosso assunto, nosso cantinho. Mas não só.

Perfis

A cidade irradia arte, cultura e criatividade em muitos lugares. Por isso, esses passeios estenderam-se para outros espaços e outras pessoas que têm despontado na cena cultural capixaba, como Fabrício Noronha e o Projeto Infinitas. Agora a ideia e falar também de pessoas que há muito estão no cenário cultural da cidade e do estado, como fizemos no último post, publicando um breve perfil de Paulo DePaula e sobre sua contribuição à história do teatro capixaba, post que inaugura a série “Perfis Capixabas”, que terá vez uma vez a cada mês.

E tivemos espaço ainda para assuntos pelos quais não podíamos nos omitir, tamanho sua indignidade. Assim, a tragédia do Rio Doce mereceu registro aqui. E foi bom ver a rede social não deixar o assunto morrer e, mais ainda, pressionar a grande mídia a abrir a pauta e destacar toda a tristeza de agora e a incerteza futura que marcam esta tragédia.

Feliz 2016

Hora agora é de planejar o ano e preparar novas pautas que tenham a cidade e a cultura do estado como foco e motivo.

Antes disso e por isso, faço uma pausa para recarregar baterias num descanso de duas semanas. Na segunda semana de janeiro voltamos à carga.

Um feliz ano novo a todos nós. É o que sempre se deseja e sempre se espera. Espero.

Paulo DePaula, uma história do teatro capixaba em primeira pessoa

Paulo DePaula, uma história do teatro capixaba em primeira pessoa

 

Como todo ano, na véspera do Natal, Paulo DePaula estará à frente de mais uma encenação do “O auto dos reis a procura do rei”, que acontece hoje, a partir das oito horas da noite, na pracinha central da Barra do Jucu, Villa Velha. Será a 15ª edição do Auto que homenageia o nascimento de Jesus Cristo e mais uma vez será encenada por elenco e coral formado por pessoas da comunidade da Barra. O elenco conta com 18 integrantes que aprenderam o ofício de ator nas oficinas que Paulo ministra na sede do Teatro da Barra, a instituição que ele e o filho, Bob de Paula, criaram há 40 anos. O Auto é uma homenagem de Paulo ao Natal e à Barra do Jucu em forma de teatro, arte que é seu ofício e sua paixão. Paulo DePaula é um homem de teatro desde sempre.

A primeira vez que ele pisou num palco contava quatro anos de idade. Está com 83. Fazendo as contas, são 80 anos de palco. É uma longa história que merece ser contada, pois é parte importante da história e memória do teatro capixaba. Porque além de dramaturgo, ator, diretor, produtor, Paulo é também poeta, escritor, tradutor, professor e um estudioso da história do Espírito Santo e das tradições da cultura popular brasileira e capixaba, temas que foram motivo e propósito das muitas peças que escreveu e encenou. Ele é um profundo conhecedor do teatro capixaba desde os tempos do padre José de Anchieta, o precursor.

Mas Paulo DePaula é também um amigo querido. Foi pelas mãos dele que minha mãe, Branca Santos Neves, virou atriz. A estreia dela aconteceu em 23 de abril de 1976, no Teatro Carlos Gomes, com “Anchieta: um depoimento”, escrita e dirigida por Paulo. Foi a primeira vez que a vi no palco de um teatro. E não seria a última vez que assistiria minha mãe no palco sob direção de Paulo de Paula. Mas essa história não cabe aqui. Não ainda. Nem todas as histórias caberão aqui. Nem tudo sobre ele caberá aqui. Paulo é muito, mas meu espaço é pouco. Então, lamentavelmente em resumo, falo um pouco sobre ele, e especialmente sobre ele e o Teatro da Barra.

Teatro, formação e cultura popular

“O Auto dos Reis a Procura do Rei” é um teatro de inspiração anchietiana, que incorpora manifestações populares, como faz Paulo com o Congo e a Folia de Reis da Barra do Jucu. É um teatro de rua, ou para ser encenado em espaço aberto, como é da tradição dos autos de fé. Na encenação de hoje, os palcos são a Praça Pedro Valadares e a Igreja Nossa Senhora da Glória, no centro da Barra, e contam com a participação do grupo Folias de Reis da Barra e com Banda de Congo Mirim Tambores de Jacaranema, além o coral Canta Barra, também formado por pessoas da comunidade e sob regência de Inarley Carletti.

Fui assistir a um ensaio do Auto, mas não acompanhei o grupo até o local de exibição. Não fui à praça. Paulo me ligou mais tarde lamentando, ou melhor, penso eu, reclamando a minha ausência. Ele é assim, exigente e rigoroso com o que lhe diz respeito. Diz para mim sobre os aspectos que acha necessário serem considerados neste perfil.  Ele dirige nossa conversa com o mesmo rigor com que dirige seus atores. No ensaio, Paulo faz o elenco repetir a cena de Herodes e Herodine até que sinta que todos tenham o domínio e o sentido do texto. Diz ele que “texto não é para ser decorado, mas compreendido”. Isso garante a segurança do ator que pode improvisar outra palavra que mantenha o sentido do texto quando a palavra original lhe fugir à memória.

O Teatro da Barra se caracteriza exatamente pela busca de fontes capixabas para enredo das próprias peças, em maior parte escritas por Paulo e o filho Bob, já falecido.  Destes estudos e pesquisa nasceram peças como, “Um homem chamado Domingos”, “A Sereia de Meaípe” “O Auto de Pedro Palácio”, que se apresenta até hoje, depois de ampliada por Marcos Ortiz, e a já citada “Anchieta: um depoimento”, a primeira peça a incorporar elementos da nossa cultura popular e que inaugura o grupo Teatro da Barra, formado inicialmente por Branca, Bob, Luiz Tadeu Teixeira, Joelson Fernandes, Alcione Dias.

Do teatro universitário ao Teatro da Barra

Paulo é também e então um formador. Desde o início de sua longa trajetória sempre trabalhou com a formação de atores. Na década de 1960, como professor no Departamento de Letras da Ufes, ele participou da criação do Teatro Universitário Capixaba (TUC). Na década de 1980, como diretor de Artes Cênicas da Ufes, esteve à frente do Núcleo Integrado de Atividades Cênicas (NIAC) do Centro de Artes formando novos atores e encenando peças de autores consagrados como Maria Clara Machado, Shakespeare, Tennesse Willians, Fernando Arrabal, Ariano Suassuna e Julio Matas.

A vocação de formador em atividades cênicas continuou com o Teatro da Barra. Tem sido assim desde o princípio quando estudantes que participaram das iniciativas de Paulo na universidade foram convidados a participar de algumas montagens do grupo. De lá para cá, o Teatro tem ofertado oficinas abertas a todos interessados em arte cênica e que abrangem desde estudos de textos de peças, preparação vocal e corporal, exercício de esquetes e jograis. São duas oficinas por ano com duração de quatro meses cada.

Acervo memória do teatro capixaba

Paulo é ainda guardião de um acervo precioso que contém notícias, reportagens, crítica e comentário da cena teatral capixaba desde a década de 1960. São documentos que registram momentos, ideias, pensamentos e posições, enfim o contexto cultural capixaba desde a década de 1960. São livros manuscritos, fotografias, recortes de jornais, páginas de revistas que registram momentos do nosso teatro e a história daqueles que fizeram e fazem o teatro capixaba. Há raridades, documentos e informações difíceis de serem encontradas em bibliotecas ou arquivos públicos. O acervo foi todo catalogado e está disponível para consulta pública.

auto dos reis 3

Cena do Auto dos reis à procura do rei, 2014. Foto Rodrigo Gavini, Acervo Teatro da Barra

Enfim, Paulo DePaula é homem de muitas facetas, todas ligadas à arte e especialmente ao teatro. Pena que não deu para contar toda sua trajetória aqui. Tive que deixar muita coisa de lado e privilegiar o Teatro da Barra. Espero que ele goste.

Mostra de Cinema e Audiovisual da Ufes exibe a produção de novos e futuros realizadores capixabas

Mostra de Cinema e Audiovisual da Ufes exibe a produção de novos e futuros realizadores capixabas

 

Hoje às sete e meia da noite, no Centro Cultural Sesc Glória, será lançado o livro “Plano Geral: panorama histórico do cinema no Espírito Santo”. Esta informação e dica servem para introduzir outro evento, um assunto da semana passada, mas que ainda vale registro aqui, pois trata justamente da produção audiovisual capixaba. O assunto é a 6ª edição da mostra Próximos Olhares. Vale o registro, ainda que tardio, pelo fato desta ter sido a última edição da Mostra, segundo o anúncio feito na abertura do evento, no dia 2 de dezembro, no Cine Metrópoles. Então, um post para registrar o evento que por seis semestres exibiu a produção dos alunos dos cursos de Cinema e Audiovisual e de Música da Ufes. Desde 2013, o evento mostrou para a comunidade academia e para o público geral os primeiros trabalhos em nível profissional daqueles que são ou serão os novos realizadores do audiovisual capixaba.

No balanço geral, foram exibidas 72 produções que envolveram cerca de 180 alunos na realização de filmes nos mais diversos formatos, como videoclipes, ficção e documentário em curta metragem e pôs em prática o conhecimento adquirido em sala de aula e nos laboratórios da universidade sobre linguagem, técnica, poética, estética, teoria e prática do cinema e audiovisual. A mostra serviu também para dar conhecimento público daquilo que os cursos oferecem para a formação de seus alunos. “A realização de filmes para o evento colocou o aluno em contato com todas as fases de produção audiovisual e exigiu que ele pusesse em prática o conhecimento adquirido nos conteúdos dos cursos”, explica Gabriela Alves, professora do curso de Cinema e Audiovisual e supervisora da Próximos Olhares.

Da sala de aula à sala de cinema

A mostra veio justamente para colocar a produção dos alunos para fora das salas de aula. “Filmes são feitos para serem exibidos”, diz Klaus’Berg Bragança, professor de Cinema e Audiovisual e coordenador da mostra junto com Marcus Neves, professor do curso de Música. Klaus diz que o objetivo da mostra Próximos Olhares foi colocar os filmes em circulação – “filmes são feitos para públicos” – e mostrar que é possível realizar bons produtos com poucos recursos.

De fato, baixos custos e poucos recursos não inviabilizam a produção e nem impossibilitam boas realizações. Filmes feitos para a Próximos Olhares foram exibidos e premiados em outras mostras e festivais de cinema aqui e pelo país a fora, como o Festival de Vitória, a Mostra Produção Independente da ABD&C, o FECIN, o Cine MuBe, a Mostra Universitária de Curtas LGBT e a Mostra de Audiovisual Universitário da América Latina na UFMT.

“A mostra é o nosso primeiro teste com a tela de cinema. Saber que nossos trabalhos seriam exibidos em público e não se restringiriam às exigências das disciplinas foi um importante motivador em todo processo de concepção e produção do filme” diz Aline Lopes, diretora de “Reduto”, uma das três produções em curta metragem de ficção exibidas na sessão “Projeção” na 6ª Mostra. As outras duas foram “Guaiamu”, de Victor Neves, e “Um possível blues”, de Láisa Freitas.

Outro objetivo importante da mostra, que é uma ação do programa de extensão universitária vinculado ao Departamento de Comunicação Social (DepCom) e ao Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM), foi integrar as produções dos dois cursos. Tanto que as três produções exibidas na sessão “Projeção” foram realizadas por alunos do curso de Cinema e Audiovisual em parceria com o Grupo de Experimentação Sonora, (GEXS) projeto de extensão vinculado ao curso de Música.

Além dos três curtas, a 6ª edição da Próximos Olhares exibiu também, na sessão “Curto e Grosso”, 11 filmes de até quatro minutos narrados e montados em imagens fotográficas.

The end

Vale lembrar que a Próximos Olhares não pretendeu ser uma mostra competitiva, mas ser, sobretudo, de exibição da produção acadêmica em Cinema e Audiovisual. Mas os esforços para realizar a mostra têm sido demasiados, assim como a exigência de disponibilidade e dedicação dos envolvidos. Outras questões de cunho institucional inviabilizam a realização de mostras futuras, que de qualquer jeito deixa um saldo positivo para os cursos de Cinema e Audiovisual e de Música e para a própria universidade, pela oportunidade de dar resposta à sociedade daquilo que é produzido em seus cursos e em seus campi. Vai deixar saudade.

 

Foto: cena de “Reduto”, de Aline Lopes

Dia do Samba: ‘tava apertadinho, mas ‘tava bom

 

Assim como o Viradão Cultural, festa que comemorou em setembro o aniversário da cidade de Vitória, o Dia do Samba encheu de gente as ruas do centro da capital no último domingo, 29 de novembro. Mas ao contrário do Viradão, mais abrangente, o evento que comemorou uma das mais expressivas criações da cultura popular brasileira ficou concentrado no já tradicional corredor do samba que se forma nos fins de semana ao longo da Rua Sete de Setembro e seu entorno.

O palco maior desta vez foi montado na Praça Ubaldo Ramalhete que já estava cheia antes da apresentação do Regional da Nair, que fez encher ainda mais a praça. É sempre assim, quando toca o Regional junta muita gente. Tem até quem atribua ao conjunto a razão do novo movimento da Rua Sete. Bom, senão a principal razão, pelo menos um delas. Pois com certeza a rua tem sido movida a samba, do Regional, da Piedade, de Papo Furado e nos botecos ao longo da rua e nas ruas adjacentes. Bar do Nei, Bar do Bimbo, Bar do Gegê, Bar da Zilda. Bares frequentados por muita gente que não é ruim da cabeça nem doente do pé. Então, é justo que sejam prestigiados para receber as atrações desta terceira edição do evento na cidade.

Apertados, mas felizes

Mas o aperto com certeza veio daí. A Praça Ubaldo Ramalhete ficou pequena para tanta gente e tanto ambulante ao seu redor. Difícil alcançar a praça e as calçadas sem se espremer entre caixas de isopor, carrinhos de pipoca, barracas de churros, de churrasquinho, acarajé, cachorro quente e muito mais da gastronomia pedestre que toma conta da rua quando não há ordem e nem organização no passeio público. Dá para melhorar, prefeitura. No ano passado, apesar da chuva, a Praça Costa Pereira estava mais confortável, mas este ano a praça foi descartada como um dos palcos do evento.

Mas foi bom. Apesar de algum desconforto, não houve confusão. E tinha gente de todo tipo e de todas as tribos perambulando pelas ruas do centro ao som do samba bom. Ruas em festa. E este é um cenário sempre bem vindo. Tomara que este evento, assim como o Viradão, permaneça no calendário cultural da cidade que tem o centro como palco.