Os alfaiates do centro da cidade e o fim da roupa sob medida

Os alfaiates do centro da cidade e o fim da roupa sob medida

 

Eles contam entre si meia dúzia de profissionais. O mais conhecido, segundo os outros, é Juarez DeMartin, que tem ateliê no décimo andar do Edifício Sarkis, Rua da Alfândega, 22, e que já vestiu sete governadores, assunto que ele não aguenta mais ver mencionado. Nada contra os governadores, mas sim uma profunda desilusão com a profissão e o negócio da alfaiataria, ofício que para ele hoje em dia só tem mais valor que do que o de mecânico de máquina de escrever. “Só eles estão pior que a gente”, diz mal humorado.

Essas impressões nem eram para estar aqui, pois DeMartin se recusou a me dar entrevista. Mas na meia hora que me deu atenção, depois de tentar me colocar para fora de seu ateliê umas três vezes, ele se mostrou eloquente o suficiente para me dar ideia do desânimo que tem experimentado nos últimos anos com a falta de mão de obra competente e a perda da clientela para a impessoalidade do pret a porter, da roupa de loja. Afinal, alfaiataria é uma arte. “Só um alfaiate é capaz de fazer o colarinho certo para pescoço como os de Castelo Branco, João Figueiredo e Marco Maciel”, diz ele se referindo a dois presidentes e um vice-presidente da república de complexões físicas peculiares com a expertise de quem conhece as medidas do poder.

O desgosto de DeMartin é o mesmo de seus colegas José do Egito Flores e Luiz Santini, que também lamentam a perda do bom gosto, do corte perfeito e da paciência do cliente para esperar dez dias, média de tempo necessário ao feitio de um terno na medida certa. Foi o pouco das informações que consegui tirar deles, pois assim como DeMartin, os dois demonstram um imenso desânimo com o ofício e uma impaciência com jornalistas. É compreensível, afinal por que falar de uma profissão que na visão e impressão dos profissionais do centro da cidade está se extinguindo? “Não há mais clientes para a roupa sob medida”, lamenta Santini, que tem ateliê em frente ao de DeMartin, na outra ponta do corredor do décimo andar do Edifício Sarkis e está no ofício desde 1958.

Os alfaiates da Rua Sete – reformas e ajustes

Mas se por um lado há os que se queixam da roupa de loja, é justamente esta que garante a maior parte da clientela de Sebastião Ferreira Lopes e Almir Amorim, alfaiates com ateliês na Rua Sete de Setembro. “Se a roupa é de loja, é quase certo que vai precisar de ajustes, principalmente se a pessoa estiver acima do peso. Comprimentos, frequentemente, também requerem ajustes”, diz Almir, 66 anos, que divide com uma colega costureira ateliê e oficina na Galeria D’Arc quase em frente ao ateliê e oficina de Sebastião, 72, que ocupa uma loja na Galeria Boulevard, do outro lado da rua.

Mas Almir e Sebastião admitem que hoje é raro pedidos para confecção de ternos sob medida, que custam em média mil reais, fora o tecido. A maior demanda é mesmo para serviços de ajuste e reformas. “Um terno de loja pode custar 200 reais e não precisa de tempo de espera para ser adquirido, mas é quase certo que necessitará de ajustes para ficar minimamente adequado”, reforça Sebastião. E é um negócio que parece render bem ou pelo menos razoavelmente.  Almir e Sebastião já foram sócios, tanto que a placa da loja de Sebastião anuncia “Tião e Almir, alfaiates”. Agora cada um tem seu próprio negócio e clientes. E talvez tenham ainda bom futuro. Pelo menos é o que parece para Felipe Augusto, de 23 anos, o mais novo dos 11 filhos de Sebastião e que trabalha com o pai no ateliê oficina da Rua Sete.

Nota de esclarecimento

Juarez DeMartin é um senhor de 82 anos e 60 de uma alfaiataria de qualidade reconhecida pelos seus pares e clientes. E sua antipatia e mau humor são apenas aparentes e para início de conversa. E ele é também um senhor solidário com colegas, tanto que insistiu para que eu fosse procurar Alvinho, que precisa de uma força depois de enfrentar problemas de saúde. Mas Alvinho já não está mais lá no ateliê do Edifício Alexandre Buaiz, na Avenida Florentino Avidos, que está fechado, pois ele já não tem mais condições de atuar.

José do Egito tem 78 anos e ateliê na Rua Duque de Caxias. Sobre Santini, de 76 anos, já disse tudo que pude saber a não ser que ele nunca precisou de óculos para dar conta de seu ofício.

 

Na foto: Sebastião e o filho Rafael Augusto no ateliê da Rua Sete. 

Regional da Nair e o carnaval que volta a tomar as ruas do centro da cidade

Regional da Nair e o carnaval que volta a tomar as ruas do centro da cidade

 

Para quem passa o carnaval em Vitória, dá a impressão de que a folia só acontece nos balneários vizinhos, como Jacaraípe, Manguinhos, Barra do Jucu, Guarapari. Na capital restam os blocos, a maioria pequenos blocos de amigos de bairro animados por batucadas, bandinhas ou carros de som e cerveja, claro, muita cerveja. Mas acontece que de uns quatro, cinco anos para cá, o grupo musical Regional de Nair tem feito renascer o carnaval de rua de Vitória. E isso acontece de novo no centro da cidade, lugar que foi palco do velho e animado carnaval de rua da capital, que andava há tempos esquecido e desaquecido.

Essa foi a impressão que ficou do domingo, 7 de fevereiro, quando o Regional arrastou um público de quase três mil pessoas ao longo da Avenida Jerônimo Monteiro em direção à Praça Costa Pereira e ao som do samba e das marchinhas de carnaval que fazem o repertório do grupo. No meio do público, grupos de palhaços, centuriões romanos, vikings, piratas, borboletas, enfermeiras, Amys Winehouses, pequenos super-heróis – porque havia crianças também – e noivas, muitas noivas de ambos os sexos e todos os gêneros, cada grupo fazendo a sua festa no meio da festa maior que foi o carnaval do Regional.

A praça é do povo. A avenida e a escadaria também    

Na parada final do itinerário, a Escadaria São Diogo serviu de palco para os músicos enquanto a praça serviu à plateia, formada por um mar de gente colorida e animada que cantou e dançou o repertório do grupo com a disposição que deve ter um folião. A cena era de remeter aos velhos carnavais de mascarados da cidade, que quem tem idade pode lembrar, e que também giravam em torno da Praça Costa Pereira e seu entorno. Bonito de ver também a Escadaria São Diogo, construída para dar acesso pedestre à praça embaixo, como palco do samba, da marcha, do Regional e do carnaval que volta a agitar as ruas do centro da cidade.

Não seria exagero prever que o Regional da Nair pode estar trazendo para a cidade a mesma espontaneidade e o mesmo espírito que serviram de inspiração aos blocos que há cerca de 30 anos fizeram renascer o carnaval de rua da cidade do Rio de Janeiro e que vem ocorrendo agora também na cidade de São Paulo – segundo notícias recentes o carnaval de rua na capital paulista surpreendeu. Não em Salvador e Recife, que estas sempre foram firmes mesmo quando o carnaval de rua foi perdendo a animação na maioria das capitais do país há cerca de 40 anos.

Novos blocos, mais carnaval

E não foi só o samba do Regional da Nair que animou o carnaval no centro. Foi com certeza o que atraiu mais foliões. O grupo encerrou seu show no meio do público, mas deixou muita gente ainda circulando pela Praça Costa Pereira e pela Rua Sete e adjacências em busca de outros blocos e mais carnaval. Porque havia. Nos dias de folia, o centro da cidade foi palco de mais e novos grupos que vem se formando no bairro e dando força para animar o carnaval nas suas ruas. É o caso de blocos como os Amigos da Onça, que estreou este ano e já é promessa para o ano que vem, se depender da saudade que já deixou em quem esteve nas imediações do Parque Gruta da Onça na tarde de terça-feira, 9 de fevereiro.

Nota baixa – ambulantes demais, organização de menos

A nota destoante do carnaval de rua do centro da cidade fica por conta do excesso de ambulantes na Praça Costa Pereira e nas ruas do entorno. Todos os dias, camelôs invadiram a praça sem a menor cerimônia ocupando e impedindo calçadas, trechos de rua e apertando o público. Se aumentar a adesão de novos foliões, e a tendência é essa – tomara! –, a praça vai ficar pequena e o risco de desconfortos vai aumentar. Alô prefeitura, basta organizar.

No mais, feliz ano novo.

Fotos: Vânia Nicoli 

Beit Tefilah, a sinagoga que atrai a comunidade judaica para o centro da cidade

Beit Tefilah, a sinagoga que atrai a comunidade judaica para o centro da cidade

 

No centro histórico de Vitória encontram-se igrejas, capelas e conventos, templos religiosos que atestam a prevalência da fé católica na cidade desde o tempo de nossos fundadores. De uns anos para cá, cresceu também, e muito, o número de templos pentecostais ou evangélicos. Na Rua Duque de Caxias, por exemplo, há uma igreja Maranata e uma assembleia de Deus, uma em frente à outra, atraindo gente crente. São quase todos templos voltados à fé cristã, ou assim considerados. Mas se fossemos considerar como Leonardo Gama compreende a sua religião, teríamos mais um templo que também poderia ser considerado cristão. Há dois anos o centro da cidade abriga uma sinagoga, casa que comumente é atribuída ao culto à religião judaica.

Leonardo abre a Bíblia para desfazer a aparente contradição. A justificativa está no Ato dos Apóstolos, 2, v. 6-13, que relata a vinda do Espírito Santo, o Espírito de Deus que se manifesta em todas as línguas e para todos os povos. Isso quer dizer, segundo ele, que à vinda e obra de  Jesus (Yeshua, em hebraico) significou a expansão da fé judaica para o mundo todo e para todas as pessoas. “Cristianismo e judaísmo são uma mesma religião”, conclui. Leonardo e os demais frequentadores da Sinagoga seguem a religião judaica de linha messiânica, isto é, a linha que reconhece em Jesus o Messias e veem nele um seguidor da tradição e fé judaica. “Todo o fundamento da palavra de Cristo está no Torá”, diz ele em referência ao livro sagrado dos judeus e que corresponde ao antigo testamento na Bíblia.

A casa, um sinal

A sinagoga ou Casa de Oração (Beit Tefilah) pertence à Congregação Judaico-Messiânica Rechovot e ocupa o antigo casarão da Ladeira Dom Fernando onde antes funcionava a maternidade Pro Matre, próximo ao Convento de São Francisco, na Cidade Alta. Seu primeiro proprietário foi José Jacob Saad, um libanês de origem judaica, que a fez erguer na primeira metade do século XX. É uma casa imensa, de arquitetura eclética tardia – do tempo em que no centro havia chácaras – e recuperada da ruína e do abandono pela Congregação.  Um bom serviço prestado ao bairro, região onde ainda se veem muitas casas e prédios em abandono e ruína.

Talvez não seja a única sinagoga do estado, é certa na cidade a presença de outras casas voltadas ao culto à religião judaica. Mas possivelmente é a maior e a que atrai um número expressivo de seguidores.Segundo o site da Congregação, seus membros contam 230 pessoas. É um dado surpreendente, visto que o censo do IBGE de 2010 informa que mal chega a 300 o número dos que se declaram judeus na cidade de Vitória. O instituto informa ainda que a fé judaica cresceu 32% entre 2000 e 2010. A julgar pelo número de membros da Casa, entre 2010 e 2015, esse número deve ter aumentado consideravelmente.

Mas o fato é que a conversão entre a maioria dos membros da Congregação é mesmo recente.  Glauber Fonseca chegou a Casa há dois anos, depois de frequentar as igrejas católica e batista. “O que me atraiu fui o estudo da palavra no contexto histórico bíblico.” Assim como ele, a maioria dos membros da Casa são desde sempre cristãos, mas professavam outra religião, sobretudo católica e pentecostal. A conversão, disseram-me todos com quem conversei, veio por um sinal ou como destino. Glauber, que é guarda municipal, acredita que o sinal veio por meio de uma ocorrência policial que atendeu nas imediações da Casa. Convidado a entrar, não deixou mais de frequentar e trouxe a família, mulher e duas filhas pequenas. A pastora Sandra Mara Oliveira acredita que o fato de a Casa ter sido construída por um judeu foi um sinal, ou destino, para que a sinagoga se instalasse no centro, depois de passar por Bairro República, Jardim da Penha e Ilha de Santa Maria.

Origem judaica, vocação comercial

Como se vê, a origem judaica não é necessária para tornar-se membro da Congregação. Há entre seus membros pessoas de outras origens religiosas e étnicas. Mas alguns buscaram e descobriram raízes judias em suas genealogias. Em geral, a busca leva a descoberta de um cristão novo, judeus forçosamente convertidos ao cristianismo por imposição da inquisição portuguesa no tempo dos descobrimentos. É o caso de Rafael Victor Almeida Pereira, membro da Congregação há quatro anos, que descobriu no bisavô a origem cristã nova dos Pereira. Alguns historiadores afirmam que Pereira, Oliveira, Nogueira e Da Silva (sim, Da Silva também) são sobrenomes que atestam a ascendência judaica de muitos de nós. Se for assim, somos então muitos. “De cada quatro indivíduos mandados para povoar e formar colônias no Brasil, três eram cristão novos”, contabiliza Rafael.

A presença da sinagoga no centro tem feito com que se forme uma comunidade judaica no bairro. É caso de Rafael e Leonardo que se tornaram moradores do centro há quatro e dois anos respectivamente. Eles se mudaram para o bairro para ficarem mais próximos da Casa e dos negócios. Rafael, que mora na Rua Sete de Setembro, é proprietário do Zayin Café, que ocupa uma loja de dois andares discreta e aconchegante na galeria do edifício Antares, Rua Graciano Neves, 99. A cafeteria foi aberta há cinco meses e serve além de cafés quentes e gelados, chás, sucos, saladas, tortas e quiches, cardápio típico nos bons cafés da cidade. O cardápio não segue a culinária judaica tradicional, mas não serve presunto nem derivados de carne suína em geral. E no período da Páscoa, e de acordo com a tradição e preceitos judaicos (Levítico 11, na Bíblia), os alimentos servidos não levam fermento.

Leonardo, que é médico, mudou-se para um apartamento nas imediações do Viaduto Caramuru, próximo a Casa, e abriu há um ano, junto com a mãe e uma das irmãs, a loja “Tenda de Abrãao”, também na galeria do edifício Antares, mas no lado que dá para a Rua Sete. A loja, além de comercializar artigos judaicos e bíblicos, possui uma livraria voltada às tradições de sua fé e religião.

Tradições guardadas

Assim como os demais membros da Congregação, Rafael e Leonardo seguem e guardam as tradições judaicas. Nem a loja nem a cafeteria abrem aos sábados, em obediência ao sabbath, período de recesso do trabalho que é observado a partir do por do sol da sexta-feira até o por do sol do sábado. É um período de estudos e orações na Casa.

E foi em respeito às tradições e a história da fé judaica que no sábado chuvoso, 23 de janeiro, a Casa celebrou o “Ano Novo das Árvores”, evento que alude à estação dos frutos em Israel. A comemoração ocorreu na Praça Getúlio Vargas, em frente à Avenida Beira Mar, que ganhou uma nova árvore, uma paineira rosa plantada pelos membros da Congregação. Mais um presente da Casa para o centro da cidade.