Beit Tefilah, a sinagoga que atrai a comunidade judaica para o centro da cidade

 

No centro histórico de Vitória encontram-se igrejas, capelas e conventos, templos religiosos que atestam a prevalência da fé católica na cidade desde o tempo de nossos fundadores. De uns anos para cá, cresceu também, e muito, o número de templos pentecostais ou evangélicos. Na Rua Duque de Caxias, por exemplo, há uma igreja Maranata e uma assembleia de Deus, uma em frente à outra, atraindo gente crente. São quase todos templos voltados à fé cristã, ou assim considerados. Mas se fossemos considerar como Leonardo Gama compreende a sua religião, teríamos mais um templo que também poderia ser considerado cristão. Há dois anos o centro da cidade abriga uma sinagoga, casa que comumente é atribuída ao culto à religião judaica.

Leonardo abre a Bíblia para desfazer a aparente contradição. A justificativa está no Ato dos Apóstolos, 2, v. 6-13, que relata a vinda do Espírito Santo, o Espírito de Deus que se manifesta em todas as línguas e para todos os povos. Isso quer dizer, segundo ele, que à vinda e obra de  Jesus (Yeshua, em hebraico) significou a expansão da fé judaica para o mundo todo e para todas as pessoas. “Cristianismo e judaísmo são uma mesma religião”, conclui. Leonardo e os demais frequentadores da Sinagoga seguem a religião judaica de linha messiânica, isto é, a linha que reconhece em Jesus o Messias e veem nele um seguidor da tradição e fé judaica. “Todo o fundamento da palavra de Cristo está no Torá”, diz ele em referência ao livro sagrado dos judeus e que corresponde ao antigo testamento na Bíblia.

A casa, um sinal

A sinagoga ou Casa de Oração (Beit Tefilah) pertence à Congregação Judaico-Messiânica Rechovot e ocupa o antigo casarão da Ladeira Dom Fernando onde antes funcionava a maternidade Pro Matre, próximo ao Convento de São Francisco, na Cidade Alta. Seu primeiro proprietário foi José Jacob Saad, um libanês de origem judaica, que a fez erguer na primeira metade do século XX. É uma casa imensa, de arquitetura eclética tardia – do tempo em que no centro havia chácaras – e recuperada da ruína e do abandono pela Congregação.  Um bom serviço prestado ao bairro, região onde ainda se veem muitas casas e prédios em abandono e ruína.

Talvez não seja a única sinagoga do estado, é certa na cidade a presença de outras casas voltadas ao culto à religião judaica. Mas possivelmente é a maior e a que atrai um número expressivo de seguidores.Segundo o site da Congregação, seus membros contam 230 pessoas. É um dado surpreendente, visto que o censo do IBGE de 2010 informa que mal chega a 300 o número dos que se declaram judeus na cidade de Vitória. O instituto informa ainda que a fé judaica cresceu 32% entre 2000 e 2010. A julgar pelo número de membros da Casa, entre 2010 e 2015, esse número deve ter aumentado consideravelmente.

Mas o fato é que a conversão entre a maioria dos membros da Congregação é mesmo recente.  Glauber Fonseca chegou a Casa há dois anos, depois de frequentar as igrejas católica e batista. “O que me atraiu fui o estudo da palavra no contexto histórico bíblico.” Assim como ele, a maioria dos membros da Casa são desde sempre cristãos, mas professavam outra religião, sobretudo católica e pentecostal. A conversão, disseram-me todos com quem conversei, veio por um sinal ou como destino. Glauber, que é guarda municipal, acredita que o sinal veio por meio de uma ocorrência policial que atendeu nas imediações da Casa. Convidado a entrar, não deixou mais de frequentar e trouxe a família, mulher e duas filhas pequenas. A pastora Sandra Mara Oliveira acredita que o fato de a Casa ter sido construída por um judeu foi um sinal, ou destino, para que a sinagoga se instalasse no centro, depois de passar por Bairro República, Jardim da Penha e Ilha de Santa Maria.

Origem judaica, vocação comercial

Como se vê, a origem judaica não é necessária para tornar-se membro da Congregação. Há entre seus membros pessoas de outras origens religiosas e étnicas. Mas alguns buscaram e descobriram raízes judias em suas genealogias. Em geral, a busca leva a descoberta de um cristão novo, judeus forçosamente convertidos ao cristianismo por imposição da inquisição portuguesa no tempo dos descobrimentos. É o caso de Rafael Victor Almeida Pereira, membro da Congregação há quatro anos, que descobriu no bisavô a origem cristã nova dos Pereira. Alguns historiadores afirmam que Pereira, Oliveira, Nogueira e Da Silva (sim, Da Silva também) são sobrenomes que atestam a ascendência judaica de muitos de nós. Se for assim, somos então muitos. “De cada quatro indivíduos mandados para povoar e formar colônias no Brasil, três eram cristão novos”, contabiliza Rafael.

A presença da sinagoga no centro tem feito com que se forme uma comunidade judaica no bairro. É caso de Rafael e Leonardo que se tornaram moradores do centro há quatro e dois anos respectivamente. Eles se mudaram para o bairro para ficarem mais próximos da Casa e dos negócios. Rafael, que mora na Rua Sete de Setembro, é proprietário do Zayin Café, que ocupa uma loja de dois andares discreta e aconchegante na galeria do edifício Antares, Rua Graciano Neves, 99. A cafeteria foi aberta há cinco meses e serve além de cafés quentes e gelados, chás, sucos, saladas, tortas e quiches, cardápio típico nos bons cafés da cidade. O cardápio não segue a culinária judaica tradicional, mas não serve presunto nem derivados de carne suína em geral. E no período da Páscoa, e de acordo com a tradição e preceitos judaicos (Levítico 11, na Bíblia), os alimentos servidos não levam fermento.

Leonardo, que é médico, mudou-se para um apartamento nas imediações do Viaduto Caramuru, próximo a Casa, e abriu há um ano, junto com a mãe e uma das irmãs, a loja “Tenda de Abrãao”, também na galeria do edifício Antares, mas no lado que dá para a Rua Sete. A loja, além de comercializar artigos judaicos e bíblicos, possui uma livraria voltada às tradições de sua fé e religião.

Tradições guardadas

Assim como os demais membros da Congregação, Rafael e Leonardo seguem e guardam as tradições judaicas. Nem a loja nem a cafeteria abrem aos sábados, em obediência ao sabbath, período de recesso do trabalho que é observado a partir do por do sol da sexta-feira até o por do sol do sábado. É um período de estudos e orações na Casa.

E foi em respeito às tradições e a história da fé judaica que no sábado chuvoso, 23 de janeiro, a Casa celebrou o “Ano Novo das Árvores”, evento que alude à estação dos frutos em Israel. A comemoração ocorreu na Praça Getúlio Vargas, em frente à Avenida Beira Mar, que ganhou uma nova árvore, uma paineira rosa plantada pelos membros da Congregação. Mais um presente da Casa para o centro da cidade.

8 pensamentos sobre “Beit Tefilah, a sinagoga que atrai a comunidade judaica para o centro da cidade

  • 5 de novembro de 2016 em 18:50
    Permalink

    Shalom ,sou Brasileira morro em Israel a 15 anos ,estou indo passar ferias em Vitoria da Conquista ,gostaria de saber sobre a Beit tifilah.Estarei ai em Dezembro ,gostaria de saber um pouco sobre o feriado de chanuka

    Responder
    • 18 de novembro de 2016 em 13:04
      Permalink

      A Beit Tifilah fica em Vitória do Espírito Santo e não em Vitória da Conquista. Se um dia passar pela Vitória do Espírito Santo, terei prazer em informá-la sobre a Beit.

      Responder
      • 19 de novembro de 2016 em 19:53
        Permalink

        Sorry nem prestei atencao direito .obrigodo ,chag chanuka samech .Que tenha um bom ferriado de chanuka !!

        Responder
  • 10 de março de 2017 em 23:25
    Permalink

    Me considero monoteísta, creio somente no Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Gostaria de saber se eu poderia frequentar a sinagoga e se são adoradores do messias de Roma. Eu ainda aguardo o verdadeiro Messias. Shalom

    Responder
  • 18 de maio de 2017 em 08:32
    Permalink

    Gostei muito do que li aqui no seu site.Estou estudando o assunto,Mas quero agradecer por que seu texto foi muito valido. Obrigado :)

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>