Nota sobre 23 títulos e um evento

Ontem, no Palácio Anchieta, um público de mais de mil pessoas prestigiou a noite de lançamento dos livros dos autores capixabas contemplados pelos editais da Secretaria de Cultura do Estado, modalidade autor estreante, edição 2014 e 2015.

Mas este post, que será breve, trata mais da cerimônia do que dos livros e seus autores, que estes são 23 e não caberiam no tamanho adequado (ou recomendado) de um texto para blog. Mas como este é um bom assunto, alguns deles – livro e autor – poderão ser comparecer aqui nesta tela futuramente.

A nota ruim

Então, a cerimônia.

Dados os pronunciamentos de praxe das autoridades, o público de mais de mil pessoas foi demasiado, uma vez que a ideia era que cada um autografasse os exemplares de seus livros. Uma ideia até simpática, mas que se mostrou se não impraticável, pelo menos nada eficiente. Ficou nítido o incômodo e a tensão dos autores com tanta gente em volta das mesas ávidas por um exemplar e uma dedicatória. Faltou livro, faltou um pouco mais de organização.

Nem todos ali presentes conseguiram obter os exemplares. Eu até dei sorte. Consegui exemplares de dez títulos lançados ou relançados na noite, sem contar “Chorume”, que por antecipação já havia recebido das mãos do autor, Tiago Zanoli. Melhor seria ter mantido a logística das cerimônias anteriores de distribuir kits em sacolas com um exemplar de cada título. Quem se interessasse que buscasse depois o autor e a dedicatória.

A nota boa

A nota boa da noite foi ver um público de fato interessado e descontraído circulando pelo Salão São Tiago para prestigiar a nova literatura capixaba – aliás, a nova e a mais antiga, já que foram lançadas novas edições de livros de Fernando Tatagiba, Amylton de Almeida e Deny Gomes, autores reconhecidos das letras capixabas.

E a nota ainda melhor é saber que aqui na terra capixaba temos autores fazendo boa literatura, autores que merecem ser lidos.

Homenagem a Sérgio Sampaio reafirma a Rua Gama Rosa como de novo point da balada noturna da capital

A Rua Gama Rosa tomou forma a partir da década de 1920, quando casas e sobrados foram construídas ao longo de sua via para dar moradia aos funcionários públicos. Muitos anos depois, quando o centro se tornou o principal eixo comercial da cidade, passou a ser endereço de boas lojas e boutiques. A partir da década de 1980, as lojas foram fechando e a rua foi tomada por sede de sindicatos e viu fechar o lendário Britz Bar, quando o comércio e o próprio bairro decaíam. Mas atualmente, a rua tem estado movimentada e experimenta uma nova vibe desde que, há cerca de quatro anos, novos bares ali se instalaram. Casa de Bamba, Doca 183 e Grapino Rango Bar, as três casas vêm fazendo da Gama Rosa um novo point, ou de novo point, de balada noturna da capital.

Na noite de ontem, por exemplo, as casas compartilharam público que foi prestigiar os músicos que se apresentaram simultaneamente nas três como parte do X Festival Sérgio Sampaio. Na homenagem ao cantor e compositor capixaba, o movimento da rua fez lembrar os tempos do Britz, que ficava na esquina da Gama Rosa com a Rua Treze de Maio, cerca de 100 metros depois do epicentro atual, mais no meio da rua, literalmente. Ontem, as calçadas ficaram apertadas para tanta gente circulando, papeando e curtindo novas versões da música do “velho bandido” e a noite de terça-feira. Sobrou gente até para a Sorveteria Mammi’s, que não fazia parte do pool do evento, mas aproveitou bem o movimento da rua. Estava cheia.

Uma rua pedestre

Não é a primeira vez que as casas da Gama Rosa compartilham evento e público. Tem sido assim desde quando ocorreu ali, no ano passado, o Projeto Sonzêra, com apresentação e exibição de vídeos de músicos que fazem a cena atual da produção musical capixaba; tem sido assim no carnaval, quando a rua serve de passarela aos novos blocos que surgem no centro da cidade; foi assim quando a Gama Rosa fez parte da programação do Festival Reconecta, ocorrido na primeira semana de março, como o evento “Não pare de dançar”; é assim na festa de fim de ano que as casas da rua promovem conjuntamente.

Tanta festa e tanta gente reunida sinalizam a vocação baladeira que as três casas imprimiram à rua e pode sugerir que a Gama Rosa é mais pedestre que dos automóveis. Pelos menos à noite. Muitos dos que estiveram lá ontem vieram do Sesc Glória, onde rolaram seminários para discutir a obra e o legado de Sampaio. Mas outros nem estiveram lá, foram direto para a Gama Rosa.

A constatação vem a propósito. Na edição de domingo do jornal “A Tribuna”, arquitetos e urbanistas discutiram e sugeriram novos usos para ruas do centro da cidade. A Gama Rosa foi apontada como uma rua com vocação para o lazer e a vida noturna. Foi sugerido mesmo que a rua seja fechada para o tráfego de veículos e seja destinada apenas ao tráfego pedestre. Uma rua de lazer 24 horas, como em Curitiba. Uma boa ideia para requalificar a rua e incrementar negócios e a economia do centro da cidade, estimulando novos investidores e empreendedores. Afinal, o centro tem se mostrado receptivo a eventos e iniciativas que unem cultura, lazer, diversão, como a Virada Cultural, o Dia do Samba e o carnaval que renasce em suas ruas.

Seria também uma forma de reconhecer e apoiar o esforço de empreendedores individuais que apostaram no bairro e vem incrementando o lugar de maneira muito mais eficaz que os mil projetos feitos e nunca realizados de revitalização do centro da cidade.

Fica a dica.

Gama Rosa

CHORUME, primeiro romance de Tiago Zanoli. Para ler e cheirar.

CHORUME, primeiro romance de Tiago Zanoli. Para ler e cheirar.

 

Ele é fotógrafo e jornalista, apesar de dizer que desta última atividade já estar recuperado. Tiago Zanoli tem 37 anos e é escritor. Também. Na verdade, ser escritor foi o que desejou desde sempre. Desejo realizado na forma do romance novela “Chorume”, seu primeiro livro, lançado recentemente e que ele distribuiu a amigos e interessados na noite de ontem, na calçada do Grapino Rango Bar, na Rua Gama Rosa, centro.

“É um livro para cheirar”, diz o autor. E é o que o título e a capa sugerem, mas tem a ver também com a vida do personagem, “um cara escroto”, como Tiago o definiu na dedicatória que escreveu no meu exemplar, movido a pó, álcool, sexo e contravenção e que narra sua saga em primeira pessoa. É uma saga vertiginosa de um personagem sem nome, mas cheio de ação, desejo e vacilo, como pode ser sentido já nas primeiras páginas do primeiro capítulo, intitulado “cheirações de narizinho”, a propósito. Mais eu não conto e nem posso, pois ainda não terminei de ler o meu exemplar.

O processo de criação

A inspiração para o primeiro romance veio exatamente do rastro de cheiro deixado pela passagem do caminhão de lixo. Veio de um episódio que ele levou para o livro e para o personagem. Veio de uma manhã em que Tiago foi despertado pelo suor do lixo [que] escorreu e se entranhou na rua, deixando no ar, por horas, seu desagradável perfume. “A palavra chorume ficou em minha cabeça e foi a partir dela que criei história e personagens”, diz. É assim que Tiago cria, a partir das vivências da rua, dos bares, dos bêbados, “da conversa com o flanelinha que te fila um cigarro”. A rua é o seu motivo e inspiração. A rua e a contravenção.

A princípio o livro teria a forma de contos. Mas por sugestão do amigo e escritor Saulo Ribeiro, que achou que a história caberia melhor como novela e não dispersa em contos, transformou-se em um romance de 110 páginas. As dicas de Marcelino Freire dadas durante oficina literária na Ufes, também ajudaram Tiago a lapidar o texto do romance. E as leituras de autores como Reinaldo Moraes, autor de “Pornopopéia”, e Lourenço Mutarelli, que escreveu “O cheiro do ralo”, o inspiraram. Henry Miller e Rubem Fonseca também. E Reinaldo Santos Neves, que ele entrevistou quando repórter do 2º Caderno de A Gazeta e que considera um dos maiores autores brasileiro.

Em obra: novos projetos, novas escrituras

A criação de Chorume foi possível depois que o projeto do livro foi aprovado em edital da Secretaria de Estado da Cultura (Secult-ES) de 2014. Dos mil exemplares impressos, 600 serão distribuídos em bibliotecas públicas e em bibliotecas de escolas públicas do estado. Outros 200 serão distribuídos em evento da Secult, a ser realizado ainda este mês provavelmente, e outros 200 estão sendo distribuídos pelo próprio autor, como ocorreu na noite de ontem.

Atualmente Tiago Zanoli está ocupado em escreve um roteiro para filme de longa metragem com o cineasta Edson Ferreira, diretor de “Entreturnos”. Será mais um projeto seu contemplado por edital da Secult. E faz anotações para um livro de contos e um romance. A alma e o perfil dos personagens estão sendo organizados em pastas, onde ele guarda ideias e inspirações. Alguns sobreviverão, outros não. É assim que ele cria.