Vitória no centro: muita bunda e pouco busto

Vitória no centro: muita bunda e pouco busto

Na praça arborizada, eles mantêm o olhar firme. São cinco pares de olhos petrificados em rostos cujos semblantes expressam orgulho e autoridade e parecem mirar a eternidade. Nenhum deles encara o observador na praça. Têm os olhos elevados pelo pedestal e as vistas distantes que miram para além da praça, como contemplando um futuro que não viram.   São vultos de personalidades capixabas entronizados em bustos de bronze como forma de homenagem. Têm todos a mesma altura, mas não se sabe se a mesma estatura histórica. Quem sabe? As pessoas na praça simplesmente os ignoram.

Aliás, quem seria capaz de dizer de quem são aqueles bustos de perfis severos que contornam a Praça Costa Pereira, no centro da cidade? Pois para quem nunca prestou atenção, lá estão homenageados em pedra e bronze cinco homens que ajudaram a forjar a cidade de Vitória e o estado do Espírito Santo. Cinco governadores (ou presidentes da então província) que em seu tempo comandaram o poder político e os destinos de estado, da cidade e os contornos do próprio centro da capital, que guarda testemunho, em forma de arquitetura e urbanismo, da passagem de cada um deles.  Os cinco bustos personificam Afonso Cláudio, Muniz Freire, Jerônimo Monteiro, Florentino Avidos e aquele que dá nome ao logradouro, José Fernandes da Costa Pereira Júnior, que quando governou a província, ainda no tempo do império, mandou aterrar a enseada onde é hoje a praça.

A Praça Costa Pereira, a propósito, é o local no centro histórico de Vitória que concentra o maior número de monumentos em forma de escultura que homenageiam nossos vultos. Fora dali, há poucos bustos, pois apesar de histórico, o centro não é de muitas homenagens. Mesmo na cidade alta, lugar de muita história e dos palacetes que sediam ou já sediaram o poder no estado, há apenas um homenageado. Domingos José Martins, o revolucionário, tem busto exibido em frente à sede do Instituto dos Advogados do Espírito Santo, próximo ao Palácio Anchieta. Mais abaixo, na Praça Ubaldo Ramalhete Maia, entre as Ruas Sete de Setembro e Treze de Maio, há dois bustos que lembram o interventor federal que dá nome à praça e outro em homenagem a um forasteiro, o médico paulista Euryclides de Jesus Zerbini, reconhecido por ter realizado o quinto transplante de coração do mundo, o primeiro do Brasil.

De corpo inteiro

Doutor Zerbini é uma das poucas figuras que não têm relação direta com a história do estado, mas que mereceram ser lembrados no centro histórico. Os outros são o Papa Pio XII, com monumento na praça que fica em frente à agência central do Banco do Brasil, e Getúlio Vargas, na praça de mesmo nome, na Avenida Beira Mar. Apenas esses dois ganharam homenagem de corpo inteiro. Aos demais coube apenas um corpo estranho, formado por cabeças que mostram rostos austeros, ombros que sugerem ternos de bom valor e um pedestal alto que substitui o corpo ausente de pessoas já falecidas, pois claro, busto em praça só merece quem já morreu.

Em partes

Nada austeros em comparação aos bustos de nossos vultos, mas talvez mais estranhos, são os corpos dos manequins expostos nas vitrines e nas calçadas das muitas lojas de roupas da Avenida Jerônimo Monteiro e das ruas Sete de Setembro e Treze de Maio. São corpos esquartejados, que nem sempre têm rostos e exibem apenas a parte do corpo em que se veste o produto à venda. São troncos sem membros que vestem camisas, quadris e pernas que vestem calças, pés que calçam meias e bundas só de calcinhas. São como monumentos efêmeros que mudam de roupa ao sabor das modas e das estações e que são olhados e tocados por gente interessada pelos preços mais em conta do comércio do centro da cidade.

São corpos estranhos que não homenageiam alguém em especial, mas quem se importa?

Bundas

Manequins na Avenida Jerônimo Monteiro

III FLIC: resistência e insistência na promoção da arte e da cultura do Espírito Santo

III FLIC: resistência e insistência na promoção da arte e da cultura do Espírito Santo

O post da semana está sendo publicado com um atraso proposital, para dar tempo de acompanhar a abertura da III Feira Capixaba do Livro que começou ontem, quarta-feira, 10 de maio, e segue até domingo, 15, na Fábrica de Ideias, em Jucutuquara. Com programação diversa, o objetivo da Feira é aproximar autores e leitores e formar público para a literatura de uma maneira geral, e para a literatura produzida no Espírito Santo, em particular. O cardápio é vasto como é propósito de uma feira. Mas o primeiro dia serviu para dar uma ideia dos dilemas e desafios que envolvem a produção literária no Espírito Santo. Serviu também para uma constatação: a necessidade de afirmar a cultura do capixaba não só no país, mas no próprio estado. “Precisamos fazer o nosso lugar, senão não existiremos” como colocou Rogério Borges, secretário de Cultura da Ufes, na primeira mesa de debates da Feira, sobre a necessidade de apoiar iniciativas que incentivem a difusão e o reconhecimento da expressão cultural do Espírito Santo, aqui e acolá.

Esta foi a principal questão colocada no primeiro dia do evento. E não é uma questão pequena, pois diz respeito à própria realização da Feira, que persiste numa terceira edição pela insistência, dedicação e idealismo de suas organizadoras, Regina Menezes, Esther Abreu e Suzi Nunes, que com pouco apoio e sem nenhum patrocínio, conseguem de novo atrair e reunir atores importantes no cenário cultural e literário capixaba com a disposição de debater, palestrar, bater papo, expor obras e entreter com literatura e arte o público que comparecer à Fábrica de ideias neste fim de semana.

Não é pouca coisa num país que lê pouco, num estado pouco expressivo no cenário nacional e sem o interesse e a atração de patrocínio público e privado, mesmo com o evento tendo sido aprovado na Lei Rouanet e apto para captação recursos. Não é pouco coisa num país deficiente em educação e de baixo consumo cultural. “Em nosso estado há uma vasta produção não só literária, mas artística de uma maneira geral, mas que é pouco conhecida pelo próprio capixaba”, diz Regina, que acredita que o papel da Feira é justamente dar visibilidade à literatura e arte produzida em todo o estado do Espírito Santo, além de debater o papel dos agentes na promoção da cultura capixaba.

Entraves e desafios da comercialização

Uma das questões mais urgente diz respeito à comercialização de obras de autores do estado. Como boa parte da literatura aqui produzida é publicada via incentivo fiscal ou apoio de órgãos governamentais, cria-se uma dificuldade de comercialização de livros por livrarias, já que estas não podem emitir nota fiscal, uma vez que a edição das obras é isenta de impostos. “Este é um problema que estamos levando à secretaria estadual de Fazenda e à Assembleia Legislativa, de forma que possamos pensar uma solução a este entrave e assim possibilitar colocar nossos livros à disposição de um público mais amplo” e não só aquele que frequenta bibliotecas públicas, o destino final da maioria da literatura produzida aqui, informa Regina.

E boa literatura e bons autores é o que não tem faltado no estado. Desde que foram lançados em 2009, os editais da Secretaria de Estado da Cultura permitiram a edição de 99 obras de autores novos ou reeditados, como informou o subsecretário de cultura do estado, José Roberto Santos Neves.

Outro desafio é sensibilizar as prefeituras municipais para apoiar a ampliar a participação de autores locais. Para dar conta do propósito, as organizadoras percorreram mais de vinte municípios capixabas promovendo uma prévia local da Flic, de forma a atrair público e autores locais para o evento principal que ocorre agora na Fábrica de Ideais. Nestas andanças pelo estado, bancada pelas próprias organizadoras, sobressai, sobretudo, o apoio das academias de letras municipais que não só acolhem o evento localmente, mas participam efetivamente da programação em Vitória. Este ano, por exemplo, participam da Feira as academias de letras de Vitória, Vila Velha, Castelo, Marataízes, São Mateus, São José do Calçado, Iúna e Aracruz.

“Nosso trabalho é um trabalho de formiguinha, porque acreditamos que fazemos boa literatura no Espírito Santo”, diz Regina, que assim como os demais participantes, estão na Flic por questão e vontade própria, isto é, voluntariamente.

Novos apoios

Apesar das dificuldades apontadas, algumas instituições do estado mostram interesse em apoiar a permanência do evento no calendário cultural do estado. A participação de representantes de órgãos de governo do estado e dos municípios tem apontado neste sentido. Segundo Regina, o Banestes e o Sicoob já manifestaram interesse em apoiar a próxima edição, que pode ocorrer no campus da Ufes em Goiabeiras, segundo Rogério Borges. “Podemos oferecer toda uma infraestrutura para receber a Feira, que poderá usufruir dos auditórios, teatro, cinema e salas que a universidade dispõe”.

Vale informar que a terceira edição da Flic é uma realização da Academia Espiritosantense de Letras, Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Feminina Espirtosantense de Letras, com apoio da Prefeitura Municipal de Vitória.

Programação

Para que estiver interessado, segue link com a programação completa da III Feira Literária Capixaba:

http://media.wix.com/ugd/2d94ae_eaa1b00d4ce14a6a9b2d1335aa5242e6.pdf

Mudando de ares porque Vitória também é mar

Mudando de ares porque Vitória também é mar

 

Dois amigos conversam na sede da Escola Náutica Capixaba. É segunda-feira, dois de maio, e o céu e o mar estão claros, azuis. Sopra uma brisa leve de vento sul e faz um dia lindo. Enquanto esperam a hora de entrar no mar, comentam a decisão da Ufes de aderir ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu) como forma de acesso aos seus cursos. Um deles comenta que a decisão poderá aumentar em muito a cobiça por uma vaga na nossa única universidade pública por estudantes de outros estados. Ele explica a razão: “quem não gostaria de viver em Vitória?” Pode até ser, e possivelmente é, que muitas pessoas, moradoras ou forasteiras, tenham dúvidas quanto às virtudes de viver ou estar na cidade. Mas pergunte a um velejador e ele provavelmente dirá: “quem não gostaria?”

Vitória situa-se a 20°19’09’ de latitude sul e a 40°20’50’ de longitude oeste no hemisfério sul, entre a linha do Equador e o Trópico de Capricórnio, tendo a leste o oceano Atlântico. Por ser a maior parte ilha, Vitória é contornada por mar. Sua posição na terra, sua geografia, o recorte de seu relevo conferem à cidade uma fama justa. Vitória é uma cidade de bons ventos.

Ventória, a cidade dos ventos

A qualidade do vento em Vitória é assim explicada por um dos mais destacados velejadores capixabas. Segundo Ricardo Conde, bicampeão mundial de Windsurf, esporte que exige grande conhecimento de causa, os ventos em Vitória sopram, sobretudo, nos quadrantes Nordeste e Sul, sendo o primeiro predominante. Conde descreve assim as características de nossos ventos:

“Pela manhã, o vento sopra mais ao norte e vai girando até por volta das 11 horas, quando praticamente para por 20 a 30 minutos e aí encaixa no quadrante nordeste e sopra com força.” Ele informa que nordeste é mais forte no período de janeiro e fevereiro (média de 12 a 20 nós) e principalmente em agosto e setembro ( média de 17 a 25 nós com dias que podem alcançar 30 nós). Quanto ao vento sul, Conde explica que por não ser um vento térmico, pode soprar a qualquer hora do dia. “Geralmente dura três dias e pode variar de uma brisa suave a ventos de até 25 nós. É um vento constante e mais frio.”

“É raro o dia que não venta em Vitória”, completa Edmar Zouain Campos, que está à frente da Escola Náutica Capixaba, que tem sede na enseada da Curva da Jurema, de frente para a Ilha do Frade.

Camburi

As características de nossos ventos fazem da cidade um bom lugar para a prática de várias modalidades de esportes do mar. As brisas suaves são propicias às práticas menos radicais, como caiaques e stand up. A curva da Jurema é lugar ideal para essas práticas, pois em geral apresenta um mar liso, de pouca ondulação.

Mas Camburi, nossa praia continental, é a melhor raia do estado, concordam Conde e Edmar. “Principalmente pela formação em enseada, Camburi permite a montagem de várias raias, seja no vento nordeste, seja no vento sul. A raia tem características específicas sem muita interferência de marés, fazendo com que prevaleça a técnica dos velejadores”, diz Conde. “Camburi agrada a gregos e troianos, pois o vento ali é constante e a raia livre, sem tráfego de embarcações,” diz Edmar. “É propícia tanto aos esportes de vela, como o windsurf, kitesurf e regata, quanto às modalidades de canoagem, como a canoa havaiana.”

Velejar e remar

Edmar explica ainda que os bons ventos fazem do Espírito Santo um celeiro de campeões em diversas modalidades náuticas e de vela. Perguntei o nome de alguns e ele citou vários, como o próprio Conde, Leonardo Venturini, Carlos de Castiglione, Regina Destefani, Renato Araújo, Ricardo Leitão. “Tem muita gente velejando e remando em nossas praias e competindo em mares além.”, diz. E no estado todo tem espaços que oferecem essas práticas não só por esporte, mas também como lazer. Na Escola Náutica Capixaba, por exemplo, é possível alugar caiaques, stand up, barcos à vela, canoas. O preço do aluguel varia de 30 reais, por 40 minutos no mar, a 40 reais, por uma hora. A Escola promove ainda a remada da lua cheia e a remada para ver o sol nascer, que reúne aqueles que gostam de estar no mar à noite ou nas primeiras horas do dia. Afinal, em Vitória, os ventos sempre sopram a favor.

Ao fim da entrevista, Edmar gentilmente me convidou para voltar no dia seguinte para um passeio de caiaque. Pena que na manhã de terça-feira o vento sul entrou forte e fechou o tempo. Mas não esqueci o convite. Aguardo apenas uma brisa suave.

Serviço

Escola Náutica Capixaba (agendamentos):

Página no Facebook: https://www.facebook.com/EscolaNauticaCapixaba/?fref=ts

Telefone de contato: 9998 33604