Jace Teodoro e a crônica nossa de cada dia

Jace Teodoro e a crônica nossa de cada dia

Aviso aos navegantes recentes: esse é o segundo texto sobre as memórias de Branca Santos Neves contadas por mim com o auxílio precioso de quem conviveu com ela. Jace, agora.

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Os sintomas da do mal que acomete minha mãe e que a deixa agora sem memória foram surgindo aos poucos. Pequenos esquecimentos que a princípio não pareciam tão diferentes de um jeito avoado que ela sempre teve e que até parecia diverti-la. Mas foi ficando mais constante. Um dia, no palco, deu-se um lapso. O poema “A mulher das cebolas”, de Jace Teodoro, que ela declamava em ato do espetáculo “A palavra que apalavra”, ficou pelo meio.

Sou uma mulher derramando lágrimas ao meio-dia, pra quem não há manhãs nem fins de tarde. Apenas cebolas como guia/ mais couve, ovos estrelados, bife e cabelos de gordura (…)

Jace intercedeu e deu guia. E então Branca falou mais ato e recordou o poema até o fim:

Sou essa mulher de sonhos partidos ao meio/ que não conhece do sexo a virtude. Apenas calcinhas no varal e dois dedos tentando acordar o bico adormecido dos seios.

“A palavra que apalavra” é também o título terceiro livro de Jace, autor das duas obras de títulos idênticos, mas de formas e conteúdos diferentes. Enquanto uma é livro de crônicas recém-lançado, a outra foi um espetáculo que reuniu dança, teatro e música que ele criou e mais uma vez atuou com Branca Santos Neves, em 2000. Um espetáculo que conciliou todos os talentos de Branca e Jace.

Jace foi um dos muitos amigos que frequentou a casa de Branca no Morro do Barro Vermelho.

A palavra que apalavra, o livro

Antes de seguir com as lembranças da parceria (que seguirei em próximo post), faço um parêntese para falar de Jace e do livro dele. Pois que então, além de ator e bailarino, Jace é dado às criações que as palavras possibilitam, sobretudo quando em forma de crônicas. Jace, além de jornalista (também), é um cronista natural, que sabe extrair assunto do cotidiano corriqueiro e versar com leveza, humor e um pouco de pimenta sobre situações aparentemente banais da vida diária e das notícias do dia. Como ele mesmo escreveu: “miudezas cotidianas são atrativos e cardápio deste cronista”. A astúcia, a perspicácia e a delícia dos textos de Jace surpreende até mesmo o tédio dos insensíveis.

A crônica de Jace trata o leitor como um amigo a quem ele conta, comenta e confidencia casos, fatos, notícias e sentimentos. As palavras são coloquiais, fluidas e exatas nas intenções e no espírito do texto.

Já nos títulos, Jace mostra seu estilo. Ele adora dar títulos, acha que são como convite ao texto ou a moldura deles. Alguns são feitos de citações e referências, como “Ando meio desligado”, que conta casos de gente avoada na vida, como a amiga que esqueceu um bob no penteado da noite; ou em “Maria Bethânia, tu és para mim…” para exaltar a rainha cantante que ele assistiu no espetáculo “Bethânia e as palavras” e que tanto admira; “O vento levou” sobre uma viagem alucinada num Transcol no tráfego da Terceira Ponte; ou ainda “Pela estrada afora”, uma crítica aos motoristas apressados dos ônibus rodoviários – “que se acham a última pastilha do freio antes da descida pro inferno de Dante” – e às estradas mal conservadas do país.

Outros títulos introduzem textos sobre estados de ânimo – “Preguiça” – ou de espírito – “Um brinde aos encontros”. Como um bom cronista, Jace Teodoro é um observador atento, sensível e pessoal do comportamento humano e dos fatos da nossa atualidade.

Noite de autógrafos, muitos autógrafos

“A palavra que a palavra”, o livro, reúne 41 crônicas publicadas entre 2013 e 2014 no Caderno Dois do jornal A Gazeta. O lançamento aconteceu ontem, no Canto do Vinho, Praia do Canto, e atraiu muita gente, pois Jace é querido, curtido e do balacobaco.

Estive lá, mas não falei com ele. A fila do autógrafo era longa e lenta, já que a Jace não basta a dedicatória, mas também a conversa e a entrevista, os abraços e beijos e fotos, muitas fotos. Então, deixo para pegar a dedicatória para o meu exemplar numa próxima ocasião, afinal precisava voltar para casa para escrever o texto. Mas ao menos pude vê-lo feliz e cercado de amigos e admiradores na noite de lançamento de seu novo livro, que, pelo visto, já é um sucesso desde ontem.

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A propósito, a produção da noite e da obra foi da Caju Produções, a mesma produtora que viabilizou “A palavra que apalavra”, o último espetáculo que Branca e Jace fizeram juntos.

Foto: Léo Alves

Branca e a memória

Branca e a memória

 


Todas as mães são especiais. Branca Santos Neves é especial e não só por ser minha mãe, o que já é suficientemente especial para mim. Mas Branca é especial também porque suas histórias são memória de um tempo interessante em Vitória. O tempo que ela viveu intensamente. E há tempo que guardo a ideia de escrever essas histórias, histórias que ela já não pode me contar, porque ela não fala mais comigo.

Ela não fala com ninguém. Já quase não fala mais. Vive alheia, longe da gente e talvez já não se lembre de si mesma. É o mal que a acomete. Minha mãe sofre de Alzheimer há alguns anos e não lembra mais.

Houve uma época que conversamos sobre eu contar sua história, suas memórias. E começamos a registrar as lembranças da Rua Graciano Neves, onde ela cresceu. A ideia era chegar à casa do morro, mas não chegamos. Agora a memória dela é um fio sem meada. Então vou aproveitar este espaço para contar um pouco sobre Branca e lembrar histórias dela e de pessoas que fizeram parte da crônica da vida da capital de tempos atrás. São histórias de amigos que conviveram com ela e que me ajudam a contar dessas memórias, porque ela já não pode mais.

Vou começar pela casa no morro onde ela morou por mais de 30 anos e onde se tornou a pessoa de quem vou contar. É assim que me lembro dela. E vou começar daí porque acho que ela iria gostar. E porque sinto saudade.

 

A casa dela já não existe mais. Aliás, já quase não existe casa na Praia do Canto. Vitória cresceu e é hoje uma cidade vertical e engarrafada. Mas do tempo que inicio essas histórias, a Praia do Canto era quase só de casas. E era menor. Ainda havia a Praia Comprida que dividia o bairro que é hoje toda a Praia do Canto.

A casa ficava no Barro Vermelho, que naquele tempo demarcava apenas a subida e a parte alta do morro. Foi uma das primeiras casas ali, construída em 1966, toda em tijolos de madeira nobre da mata atlântica – o que atualmente seria considerado um crime.

Mas do tempo que conto, na Rua João Manuel de Carvalho, no alto do morro do Barro Vermelho, só havia três casas, a de Carlos e Ângela Salazar, a de Jônice e Ilsa Tristão e a de Paulo e Ângela Oliveira Santos. E acho que naquela época a rua nem tinha esse nome ainda. Acho que não tinha nome nenhum. Não carecia porque já naquela época, em Vitória valiam mais as referências do que os nomes das ruas. E na Praia do Canto todo mundo se conhecia e sabia onde ficava a casa de cada um. Seja como for, a quarta casa no que veio a ser a Rua João Manuel de Carvalho foi a casa de Victor e Branca Santos Neves, a casa de madeira onde ia quase todo mundo que morava em Vitória e que gostava de fazer música, pintura, teatro e dança. Todo mundo que gostava de conversar sobre política, literatura e cinema e de encontrar quem gostava também. Ia lá todo mundo que gostava de Branca Santos Neves. E foram muitos.

 

A casa do morro era de bom tamanho, com três salas, três quartos, três banheiros, um escritório que também servia de suíte para hóspede – era uma casa hospitaleira, com certeza – cozinha, varanda e um quintal grande, que rodeava a casa toda. No início, não tinha muro. Não era necessário. A Praia do Canto era um bairro calmo e tranquilo, e mais ainda o morro do Barro Vermelho e suas poucas casas – naquela época o Barro Vermelho era um pedaço da Praia do Canto e não um novo bairro, mais abrangente, como é hoje.

Era uma casa decorada de maneira comportada e eficiente, senão austera pelo menos sóbria, de acordo com o que devia ser as casas das famílias tradicionais. Aos poucos foi mudando, acompanhado novos interesses e gostos de Branca. Para mim, um dos primeiros sinais da mudança foi na parede do fundo da sala maior, que ganhou um pôster imenso de Caetano Veloso, da época que ele lançou “Transa”, o disco objeto que ela ouviu, ouviu e ouviu.

Minha mãe gostava tanto de Caetano, que chegou a me assustar.

– Você não sabe o que me aconteceu – disse nervosa e esbaforida ao telefone.

Pensei logo em coisa ruim, tamanha era a sua aflição. E afinal, estávamos no Rio de Janeiro dos anos 80, época em que a cidade já era sinônimo de beleza e violência.

– Encontrei Caetano – disse ela eufórica, quase sufocada.

Depois, mais calma, contou tê-lo encontrado por acaso numa livraria do Leblon. Ficou muda. Caetano percebeu a admiração e a timidez e generosamente puxou uma conversa breve, banal, gentil. Algo sobre livros ou talvez sobre o tempo. Não importa, o fato é que ela sentiu uma emoção imensa e como uma adolescente que às vezes parecia ser, disse que nunca mais lavaria a mão que foi tocada pela mão de Caetano na despedida. O amor [ficou] mais firme do que quando começou.

Branca ouviu todos os discos de Caetano. Só parou de ouvir quando foi deixando de lembrar.

 

A propósito, além de ser minha mãe, Branca Santos Neves foi atriz, bailarina, cronista, curiosa, animada, de muitos amigos e dona de uma casa sempre cheia de gente e movimentos.

 

                                                                                             Continua...

Daqui por diante sigo essas histórias pela minha memória e pela lembrança dos amigos, das pessoas que conviveram com ela e que são também protagonistas das histórias que virão. Histórias de gente interessante em Vitória.

 

 

Novos rumos ou em busca do tempo passado

Neste quase um ano do blog Flânerie foquei a cidade e principalmente o centro da cidade de Vitória. Foram crônicas e reportagens, sobretudo reportagens, que me exigiram tempo que agora não tenho tido mais. Outras tarefas e necessidades mais urgentes estão a me tirar o tempo necessário às apurações e levantamentos necessários às reportagens. Além do mais, os temas de que tratei em muitos post, sobretudo temas culturais, passaram a ser matéria, boa matéria, de outras editorias deste jornal que me acolhe. Mas isso talvez seja mero pretexto meu, pois pretendo continuar conversando – entrevistando? – pessoas. Pessoas que vão me ajudar a contar memórias e histórias de Vitória.

Então, não estou abrindo mão do blog, pois gosto de pesquisa (reportagem) e escrita. O que preciso é conciliar meu tempo com meu gosto. E farei isso mudando o foco do blog, das atualidades da cidade para a memória de quem conta história desta cidade. Uma memória que é também minha (o que me facilita o trabalho), mas não só.

E vou recomeçar retomando uma ideia guardada que é tratar da memória de quem tem história nessa cidade. Vou falar das memórias e dos amigos de Branca Santos Neves, minha mãe. Vou falar dela e com ela falar da cidade de Vitória.

E começo logo mais, no post que segue, flanando por um tempo passado. Um post que é, sobretudo, uma homenagem a elas, Branca e a cidade.