Todas as épocas são interessantes. Mas nem todas conheceram alguém como Carmélia

“(…) escreva uma crônica cheia de doçura, se possível, lembrando de alguém que sempre entendeu (com amor e ironia) que esta ilha é uma delícia, porque qualquer lugar do mundo se torna delícia, desde que ele abrigue os amores que a gente tem…”

Muito se falou e se escreveu sobre ela. Até porque não é possível falar da vida boêmia e intelectual de Vitória dos anos 1960 e 1970 sem lembrar Carmélia Maria de Souza. Na verdade, não é possível lembrar Vitória dos anos 1960 e 1970 sem falar de Carmélia, até porque ela mesma comentou muito sobre esta época. De certa forma, Carmélia traduziu o espírito daquela época em Vitória. Ou melhor, Carmélia era o próprio espírito da época – às vezes um espírito santo, às vezes um espírito de porco. Porque ela era assim, contraditória, de brigas e amores.

Tenho uma lembrança infantil dela, pois que frequentou muito a nossa casa no morro do Barro Vermelho. Só mais tarde conheci a cronista sublime que ela foi. Recentemente reli “Vento sul”, obra que reúne o melhor de Carmélia em forma de crônica. E o melhor de Carmélia não é pouca coisa – “pode crer, irmão” –, assim como o pior também não, como ela mesma admite e avisa em alguns de seus textos, como  “Autocrítica”: “sou capaz das coisas mais cruéis, perversas, incríveis. (…) Sou fogo. Graças a Deus, consigo ser ruim”.

O título da coletânea é referência a esta cidade de ventos, a Ventória dos velejadores, que ela amava.  A cidade foi protagonista, cenário e paisagem, quando não saudade, de algumas das crônicas de Carmélia reunidas em “Vento Sul”. A Vitória de seus escritos nos leva ao Britz Bar e ao Mar e Terra, à Rua Duque de Caxias e à Praia do Canto, às tardes e às madrugadas.

Mas nas crônicas de Vento Sul Carmélia fala, sobretudo, sobre ela mesma e nas suas confissões revela um pouco do espírito de sua geração. Talvez ninguém tenha expressado a alma da cidade de 50 anos atrás com tanto lirismo e de forma tão pessoal como fez ela em crônicas. Ou não seriam líricas as crônicas que falam de amores e afetos, do mar, do céu e das estrelas, das noites de lua e violão à beira mar?

Minhas lembranças dela são lembranças de criança, pois que Carmélia morreu em 1974, aos 37 anos, quando eu mal entrava na adolescência. E nos últimos meses de vida ela se afastou lá de casa por motivos que eu esqueci ou não lembrei de perguntar. Mas eu lembro que suas visitas enchiam nossa casa de amigos e gargalhadas, quase sempre provocadas por ela, que era também, claro, muito espirituosa.

Vento sul, crônicas de confessionário

“É natural e humano o pranto, tanto quanto o riso, na geração de onde eu vim e na geração deste tempo que nos foi dado para viver.”

Vento Sul é uma obra póstuma, cujo título foi retirado por Amylton de Almeida de um romance que Carmélia não concluiu – sua maior frustração, “verdadeira crueldade que cometi comigo mesma”. O título serviu então à coletânea de crônicas organizada e editada por Amylton a partir de textos publicados em jornais e revistas por onde ela passou em 17 anos de jornalismo. Na introdução, Amylton compara Carmélia a Gertrude Stein, pois que teria representado para boa parte da intelectualidade boêmia capixaba o mesmo que a poeta e romancista havia representado para os intelectuais e boêmios que se reuniam em torno dela e fizeram de Paris uma festa nos anos 20 do século passado. “Carmélia viveu tudo, intensamente, sempre presente e inevitavelmente à frente de tudo que se tentava fazer para romper com o convencional e o intelectualmente passivo”. Exagero ou não, Carmélia era de fato uma referência daquela época em Vitória. Ou quem sabe a sua mais completa tradução.

Se há semelhança entre Carmélia e Gertrude Stein, como disse Amylton, a mim a semelhança está na lembrança de vê-la sentada na poltrona do escritório quarto de hóspedes da nossa casa – seu lugar cativo –, onde passava noites inteiras sentada com o indefectível copo na mão e cercadas de amigos atraídos pelas suas conversas, sua crítica e seu humor e pelas crônicas que muitas vezes eram esboçadas, senão acabadas, ali naquele momento junto aos que eram da turma. Mas não era só noites que ela passava lá em casa, havia também tardes e houve dias.

Em uma de suas crônicas, ela comenta um tombo que sofreu e na queda levou Milson Henriques, grande amigo, junto. O acidente resultou em um braço quebrado e joelho machucado e foi motivo de uma temporada de Carmélia no escritório quarto de hóspede da nossa casa no Barro Vermelho. Para a gente, as crianças, dizia que tinha água no joelho e precisava de cuidados médicos, ou dos cuidados do meu pai, médico, e por quem ela tinha enorme carinho.

Mas não foram poucas as vezes que ela ali se internou – e na casa de outros de seus amigos queridos. Muitas vezes por dores outras, geralmente dores de amor. Ela era dada a isso. E confessou.

Vento sul, crônicas de amor

“Diga ao meu amor que não deixo nada para ele, a não ser a certeza de que ele esteve presente em todos os sonhos e em todos os dias da minha vida, desde quando o conheci.”

Vento Sul também é feito de sentimentos confessos, da personalidade e das percepções de sua autora. É feito de coisa que ela amava e outras nem tanto: a vida e a morte, os amigos para toda a vida e gente chata, praia e Praia da Costa, manhãs de sol e noites frias, Dindi e Maísa. Para Dindi – que não é e nem nunca foi pessoa encarnada, mas personagem musa imaginada por Tom Jobim na canção que ela amava, sobretudo na voz de Sylvia Telles –, Carmélia dedicou algumas crônicas e a quem escreve como escrevia a muitos de seus amigos – “diga que eu fui sua muito doida amiga mesmo, Dindi”.

Maísa foi aquela que provocou a maior dor de amor de Carmélia, como a cronista confessou sem pudor. Carmélia considerava Maísa a melhor cantora e a pior mulher. E por dois motivos: “O Barquinho”, música de Roberto Menescal e Ronaldo Bóscoli que ela adorava na voz de Maísa; e Zé Costa, uma das paixões de Carmélia. Maísa, a cantora cujos belos verdes olhos mereceram poema de Manuel Bandeira, tomou Zé Costa de Carmélia, assim como haveria de tomar Ronaldo Bóscoli de Nara Leão poucos anos depois. Maísa era dessas. Mas talvez Maísa tenha sido outra das paixões de Carmélia.

Branca e Carmélia

“E a gente diz adeus. Mas sempre haverá vento, pode crer. Pelo menos enquanto a noite – esta pátria querida de todos nós – continuar sendo habitada, não pelos grandes homens, com seu ridículo. Mas pelos companheiros. Com a sua ternura e com o seu perdão.”

Não sei exatamente por que Branca brigou com Carmélia e elas deixaram de se falar. Esse foi um dos maiores arrependimento de minha mãe, que não perdoou a tempo. Carmélia morreu sem que as duas voltassem a se falar. Carmélia até pediu, mas Branca ainda magoada, recusou um último encontro. Acho que não pensou que fosse o último. Chorou com dor, depois. E perdoou.

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