Nenna, em transição

Nenna, em transição

Esse post serve para dar notícias de um amigo querido e para lembrar um pouco da trajetória de um artista altamente criativo. A primeira vez que o vi foi na praia de Manguinhos, onde eu estava com minha mãe e uma amiga de infância. Ele chegou com Rosalca, sua namorada então, e os dois se juntaram a nós. Foi a primeira vez que vi um homem de tanga, isso antes de Caetano e Gabeira. Acho que foi em algum fim de semana lá pelo início dos anos 70 e ele já era ousado. Agora ele não mora mais aqui e as conversas têm sido virtuais.

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Nenna mora na França, para onde mudou, casou e se tornou pai de Antoine, seu filho mais novo, nascido há seis meses em Angers, cidade na região do Vale do Loire, onde vive desde 2012 com Magali Rencien, mãe de Antoine. Neste mês de abril e até maio, ele estará cercado pela família. Juranda, sua filha, está em Angers com Clarice, a neta que comemorou quatro anos este mês. Rebecca, a outra filha, está para chegar. Elas vieram conhecer o irmão e tio recém-nascido. Nenna está feliz. “Os dias têm sido bons”, diz ele.

Ser pai nessa fase da vida é uma benção, não só pelo filho “lindo e com saúde”, mas pela segurança que Nenna experimenta hoje. E isso se deve ao encontro com Magali e à mudança para Angers, há cinco anos. Numa retrospectiva da vida, ele recorda que teve a primeira filha aos 20 e poucos anos e a segunda aos 40, mas em momentos incertos da vida difícil do artista que nunca cedeu às concessões fáceis, sejam de ordem éticas ou estéticas. Agora, aos 65 anos, em Angers, ele tem o aconchego, não só familiar e amoroso, mas da cidade e do país que lhe dão a segurança e as condições de trabalho que nem sempre encontrou como artista brasileiro e capixaba, especialmente. “Aqui a atividade artística é reconhecida e apoiada, tem papel importante na vida social. Não é uma atividade marginal. O material para a arte, as muitas publicações, os livros, as conferências, tudo é de primeira qualidade. E ainda temos a segurança cotidiana. Andamos tranquilos.”

Gestação

Esse sentimento de segurança se deve também ao momento do artista. Nenna está tranquilo, calmo e sem pressa. A não ser nos momentos do dia em que cuida de Antoine, ele segue em exercícios diários de pintura, escultura e edição de vídeo em um dos dois ateliers que mantém na cidade, enquanto amadurece o projeto da próxima exposição que pretende exibir daqui a dois anos ou um pouco mais, o tempo que a obra pedir.

Ele não dá muito informação sobre o trabalho, uma vez que ainda está em processo de criação e Nenna não quer se adiantar. “A obra vai mudando desde o momento em que começamos a pensar nela até a produção final.” Mas ele não faz por menos. De certo é que será apresentada em Paris e “não será menor que ‘Meditações Extravagantes, diz, em referência a sua última exposição, que ocupou os espaços do Museu de Arte do Espírito Santo (MAES) e a Galeria Homero Massena, entre abril e julho de 2012, Vitória. O conceito será o mesmo – instalação e ambientação –, mas a estética não. “O momento é outro”. Por isso ele nem cogitou exibir Meditações na França. “Não faz sentido”, diz Nenna. “Obras como ‘Tradição’ têm forte sotaque brasileiro” o que para ele tem a ver com o tempo, o lugar e os interesses que o moviam em outro momento. “Agora estou interessado em outras estéticas.”

A obra e o espaço da obra

O processo de criação para o novo trabalho tem levado Nenna a visitar locais de exposição na capital francesa – que fica a cerca de 300 km de distância de Angers – em busca do espaço que não só abrigue, mas também dialogue com a obra. “O espaço é vital à obra”, diz ele. E isso é evidente na trajetória do artista, desde que Atílio Gomes Ferreira, o nome civil, surpreendeu a cena artística capixaba, em 1970, com o impactante “Estilingue Gigante”, interferência urbana que aproveitou as formas sugestivas de uma das castanheiras da Avenida Saturnino de Brito, Praia do Canto, para criar uma obra provocativa e interativa, marco da arte contemporânea em terras capixabas.

Das galerias de Paris, poucas lhe interessam. A cidade tem 1.200 galerias de arte – uma infinidade para quem se batia, no início da carreira, com a falta quase total de espaços de exposição em Vitória. Mas Nenna não se deslumbra. Diz que a maior parte destas galerias faz parte de um mercado que não o interessa e muitas se dedicam principalmente a esquentar o currículo de artistas estrangeiros e periféricos – “pelo deslumbre de expor em Paris” – o que agrega valor em seus países de origem. E ele prefere espaços com grandes áreas de exposições, como o Palais de Tokyo. A arte de Nenna é ambiciosa, como deve ser a arte.

Respirar-te

Morar na França tem proporcionado a Nenna uma vivência nos ambientes de referência e alta produção artística e um mergulho no berço da cultura e da arte ocidentais. Em Angers, que conta com pouco mais de 170 mil habitantes e quase dois mil anos de história, o Musée de Beaux-Arts, o principal da cidade, tem um acervo de 65 mil obras, incluindo desde objetos arqueológicos, passando pela antiguidade clássica, renascimento, impressionismo, etc. um panorama bastante amplo da história da arte, aí incluindo alguns artistas contemporâneos. “E há muitos jovens artistas aqui trabalhando em ateliers administrados por coletivos em parceria com a prefeitura. A energia é boa”.

Estar na Europa permite que ele frequente os circuitos de arte na França e no continente, mantendo-se sempre curioso e crítico em relação à produção artística contemporânea. “Pela primeira vez vivo de fato e não de passagem num ambiente central da produção e circulação artística mundial. Isso significa muito”. Por isso ele não tem pressa agora, está fruindo arte e amor e bebendo os excelentes vinhos do Vale do Loire.  Santé!

Clarice, Nenna e Antoine no atelier do artista. Foto: Juju Alegro

Houve uma vez um verão, um festival e Fábio

Quando lembro nestas memórias a casa de Branca, estou sempre me referindo a casa no morro do Barro Vermelho onde ela morou por mais de 30 anos e só saiu porque o Barro Vermelho não comportou mais casas. Sobram algumas poucas ainda, é verdade, mas estas que resistem estão espremidas entre espigões que deram nova densidade ao bairro e as suas ruas, que hoje engarrafam nas horas tensas dos dias úteis da semana. Mas houve outra casa de Branca, que estendeu para Guarapari o mesmo movimento de amigos e agitação que havia na casa do Barro Vermelho, quando o morro era ainda calmo e sossegado.

Foi no verão de 1971 que meus pais alugaram uma casa em Muquiçaba, bairro então afastado do centro da cidade saúde. Não por coincidência, no mesmo ano e na mesma estação aconteceu o Festival de Verão de Guarapari. E como minha mãe sempre foi atraída por gente e movimento, na rua ou em casa, acredito que o festival foi pretexto para passarmos aquele verão na cidade.

A título de informação, o Festival

Só para registrar, o Festival foi um quê de ousadia e amadorismo, confusão e repressão, mas que entrou para a história do movimento musical do estado, tanto que mereceu registros importantes na historiografia da cultura e arte capixaba. Por isso não vou me estender aqui sobre o evento memorável, apesar dos pesares, mas recomendo aos que tiverem maior interesse pelo Festival, os livros de José Roberto Santos Neves – Rockcrise, a história de uma geração que fez barulho no Espírito Santo – e de Francisco Grijó – Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular –, que contam com riqueza esta saga.

Organizado por Rubinho Gomes e Antônio Alaerte, o Festival de Verão, nosso pequeno, pretensioso e confuso Woodstock, não cumpriu muito do que prometeu. Dos artistas anunciados – alguns sem saber disso – boa parte declinou por prever roubada. E o festival teve mais polícia do que público – afinal era 1971, de tempos sombrios e intolerantes no Brasil – e muita gente levada em cana, inclusive os próprios organizadores e alguns artistas locais.

Mas o festival aconteceu com os artistas que aceitaram participar de graça ou por pouca grana – problema que quase inviabilizou o evento. Entre os artistas de maior evidência no cenário nacional de então, se apresentaram no festival Milton Nascimento, Ivan Lins, Luiz Gonzaga, Novos Baianos, Tayguara e o fatídico Tony Tornado, que fraturou a coluna de uma espectadora ao se jogar do palco, no que seria, proposital ou não, uma performance antecipada da atitude punk e arriscada de se lançar sobre a plateia. “I’m flaying”, disse ele antes de machucar a menina.

Fábiôôôô

Outro artista em evidência que foi convidado e aceitou participar do evento, estava Fábio – que não era padre nem Júnior e nem mesmo Fábio.  Paraguaio de origem, seu nome de batismo é Juan, virou Fábio quando se tornou artista no Brasil em meados da década de 1960. Cabeludo, como eram cabeludos os artistas de então, grande amigo de Tim Maia, Fábio teve sucessos entre o fim da década de 1960 e início dos anos 70. “Stella”, lançada em 1969, foi seu maior êxito e não só pela canção. O trecho inicial, quando o cantor pronuncia em eco o nome que dá título à música, foi adaptado para servir de vinheta sonora às transmissões radiofônicas da Rádio Globo nos jogos de futebol dos times do Rio de Janeiro nos anos 1970 e 1980: FLAMENGÔÔÔÔ; BOTAFOGÔÔÔÔ, VASCÔÔÔÔ; FLUMINENSÊÊÊÊ. E esse talvez tenha sido o maior sucesso dele, pois que Fábio teve pouco tempo de evidência nas paradas de sucesso – foi como um cometa que passou rápido e sem maior relevância na música popular do Brasil.

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Mas Voltando a Branca, lembro que assim como era comum na casa do morro, que recebeu muitos dos artistas que se apresentaram em Vitória nos anos 1970 – Maria Bethânia, Djavan, Moraes Moreira, por exemplo – a casa de Muquiçaba recebeu alguns dos artistas, locais e nacionais, que se apresentaram no Festival. Fábio foi um deles. Levado por algum amigo que não recordo, lembro que ele passou boa parte da tarde conversando na varanda da casa de Muquiçaba. Depois, seguiu de carona com Branca para o hotel em que se hospedou.

No Gordine que minha mãe dirigia de Muquiçaba para o centro de Guarapari, ele perguntou a ela qual o meu nome da criança sentada no banco de trás do carro. Minha mãe informou e não deu outra: “Manuelââââ”, repetiu Fábio.