Uma festa pra Ro Ro que rolou escada abaixo

Uma festa pra Ro Ro que rolou escada abaixo

Acho que já deixei transparecer nessas minhas lembranças de Branca que ela gostava de festas e agitos. E teve muitas festas na nossa casa no Barro Vermelho. Mas se não tinha festa em casa, minha mãe ia a festas em outros lugares e em outras casas. E muitas vezes eu fui com ela, quando ela achou que eu já tinha idade para acompanhá-la. Mais tarde eu tive idade para ir a festas por conta própria, onde quase sempre encontrava com ela, que não perdia quase festa nenhuma em Vitória.

Não sei se esse espírito festeiro de minha mãe tinha a ver com o fato dela ser filha de pais boêmios, frequentadores assíduos do Club Vitória, no Parque Moscoso, onde se encontrava, dançava e se divertia a elite capixaba dos anos 30 e 40 do século passado. Meus avós e seus amigos formavam uma turma de pessoas alegres que gostava de festas, serestas, poemas e madrugadas, enfim, de se divertir. Mais ou menos como gostou Branca, alguns anos depois.

Bom, mas esse é outro tempo, deveras outrora, de que não tenho lembrança nem a quem mais perguntar sobre. Ou quase ninguém mais. Vou contar então de uma festa de que me lembro e onde encontrei minha mãe, que chegou antes. Foi uma festa ótima até terminar de forma escandalosa, o que foi melhor ainda ou, talvez, a melhor parte da festa.

Aconteceu no início dos anos 1980, período em que a MPB vinha revelando muitas vozes femininas, como Marina Lima, Joana, Zizi Possi, Simone e Ângela Ro Ro, que veio dar show no Teatro Carlos Gomes em 1981 e deu o que falar. Porque Ro Ro já nasceu fora do armário e abusada, como provou na ocasião.

Festa nos apês

Acho que a festa aconteceu depois do show, mas não tenho certeza, pode ter sido dias depois. Isso porque me lembro de que estivemos com Ro Ro e sua trupe no Sizino, bar e restaurante pioneiro do que viria a ser o point Triângulo, no quarteirão final da Rua Joaquim Lírio, Praia do Canto. Naquele encontro, estavam todos tranquilos, divertidos e em bom convívio. Por enquanto.

Foi uma festa memorável que aconteceu simultaneamente em dois apartamentos de um prédio de três andares na Rua Agrimensor Adolfo Oliveira, Praia Comprida. Num dos apartamentos, o de baixo, moravam o jornalista J. B. Nery e Ricardo Jarrão, este último um dos responsáveis pela vinda de Ro Ro à Vitória. Na época, Jarrão trabalhava no extinto Departamento de Cultura do Estado (Dec), órgão que bancou o convite e a vinda de Ro Ro para seu primeiro show na cidade.

A festa girava em torno da cantora e servia não só de boas vindas, mas também para dar alguma alegria a Ro Ro, que, me lembrou Jarrão, acabara de romper romance com a também cantora Zizi Possi e estava mal com isso. Espalhada pelos dois apartamentos, a festa atraiu gente para caramba. Praticamente todo mundo que frequentava o Sizino estava lá. Lembro de ver gente pelas salas, cozinhas, nos quartos e nos banheiros dos dois apartamentos. Gente em pé, gente no sofá, nas cadeiras e gente sentada em almofadas pelo chão. Tinha gente até na escada que seria lugar do embate final que acabou com a festa, mas não com o ânimo da gente. Pelo contrário.

Caçapava, o destemido

RoRo veio a Vitória acompanhada de duas amigas que eram a produtora e a iluminadora do show. Uma delas carregava uma boa quantidade de coisas de deixar gente contente e na tomada, coisas que estavam de acordo com o cardápio de baratos da época e que serviram bem à festa, que foi bem dançante. Lembro que em pares ou individualmente, muita gente bailava na sala do apartamento que eu estava, acho que no de cima, aonde moravam Tainha, que depois se tornaria monge budista, Betarello e o arquiteto André Abe.

Mas não sei exatamente o que aconteceu. Foi de repente, o tempo de um xixi. Fui ao banheiro e quando voltei para sala, a festa tinha acabado, ou melhor, tinha descido escada abaixo e já nem era festa mais. Havia se transformado num embate homem a homem entre Ro Ro e Tadeu Lessa, vulgo Patola, aquela altura imobilizado e arroxeado pela “gravata” bem aplicada pela maldita cantora embriagada.  Foi um escarcéu só. Um patamar acima, os convidados se aglomeravam agitados em torcida por Patola, que se encontrava em grande desvantagem.

– Larga ele, Ro Rorosa –, gritava Nahor Bastos, incentivado pelas pessoas em volta.  Minha mãe ria de quase cair da escada. Ela estava adorando aquela confusão toda. Mas antes que se perdessem todas as estribeiras, as amigas de Ro Ro intercederam e desceram com a cantora o resto dos graus que faltavam até portaria do prédio e de lá de volta para hotel onde se hospedaram.    

Versões

Embate encerrado, voltei para dentro do apartamento e encontrei Jarrão sentado, sozinho e injuriado, no sofá da sala quase vazia. Perguntei o motivo da confusão. Jarrão resmungou uma resposta que mal entendi, mas que parecia insinuar que o problema tinha sido entre egos, tipo quem é a estrela aqui. Fiquei em dúvida.

Mas a versão mais difundida conta que a confusão começou pela inconsequência de Caçapava, o garçom do Sizino, que aquela noite largou o serviço para ir à festa e dançar agarradinho com Ângela Ro Ro. E apesar dela só amar mulheres, ele acreditou que era macho suficiente para reverter a preferência da cantora e passou a contar vantagens anatômicas com intenção de possuí-la. Pra quê. O atrevimento acendeu o curto pavio da cantora que, ultrajada, resolveu acabar com a festa do jeito que se esperava dela, escandalosamente.

Agora, porque sobrou para Patola, eu não faço a menor ideia, uma vez que perdi o início da confusão.

Em dúvida, segui para outros lados, já que nos apartamentos pouca gente sobrava. Foi o que fez a maioria dos convidados. Era cedo ainda e estávamos todos embalados e animados pela festa repentinamente acabada. O jeito era continuar e fomos, ou melhor, voltamos mais uma vez para o Sizino, aonde muitas noites amanhecemos.

Bons dias!