Branca, o Teatro e a sala de estar

Não costumo respeitar cronologias nos textos que tenho publicado neste blog. Em geral, alguma citação ou referência feita no texto anterior é suficiente para puxar o assunto do próximo. E assim será também desta vez, pois o pretexto deste post veio mais uma vez dos “Escritos de Vitória”, coletânea da memória da cidade a que me referi no post passado para relembrar o Sizino e o surgimento do Triângulo das Bermudas.

O motivo agora vem também porque coincidentemente na semana passada tive em mãos mais um dos volumes dos “Escritos…”. E este não pertence a minha mãe, mas foi emprestado pela “amiga e também atriz” Glecy Coutinho, como Branca anotou em dedicatória na página de abertura do artigo que escreveu para o 21º volume da coletânea, cujo tema é “Teatro”, uma arte que minha mãe adotou como ofício em meados dos anos 1970.

Pelas mãos de Paulo

Branca Santos Neves foi uma das personalidades capixabas convidadas a escrever sobre Teatro Capixaba. Seu artigo é mais um depoimento do que um relato histórico ou crítico sobre o teatro feito e criado no Espírito Santo. Não que ela não relate também um pouco da história do nosso teatro, já que as lembranças que anota sobre sua participação na cena teatral do estado são também registros históricos, sobretudo, a partir da década de 1970, quando ela estreou no palco do Teatro Carlos Gomes pelas mãos do “bom” Paulo DePaula, adjetivo que minha mãe atribui ao seu parceiro mais constante de palco e tela. (Quem conhece Paulo sabe que é um adjetivo justo, não só profissional, mas, principalmente, humano).

Paulo e Branca se conheceram nos final dos anos 1960 e ele já achava que ela estava pronta para o teatro. Minha mãe é de personalidade espontânea e sempre foi interessada em todas as artes. Em meados dos anos 1970 veio o convite para que ela participasse da peça “Anchieta: um depoimento”, de autoria e sob direção de Paulo. A estreia foi em abril de 1976 e nesse ponto minha mãe comete um equívoco em seu artigo, quando informa que a estreia foi em 1968. Talvez esse tenha sido o ano em que ela e Paulo se conheceram, daí a confusão. E o artigo foi escrito em 2002, quando minha mãe começava esquecer detalhes como datas.

Sala das artes

Com “Anchieta…”, minha mãe inaugurou sua carreira de atriz profissional e transformou nossa casa numa extensão do seu ofício. A sala maior virou espaço de ensaios e guarda roupas dos figurinos e adereços dos espetáculos de dança e teatro que ela participou em quase 30 anos de vida artística. Foi então que a casa passou a ser de fato um ponto de referência e de atividades artísticas em Vitória, que atraia, além dos amigos músicos e artistas plásticos, atores, dramaturgos, bailarinos, dançarino e mais e novos amigos.

E assim, mais uma vez, a casa foi mudando aos gostos e aos novos interesses de Branca. Meu pai não se incomodava e para nós, os filhos, era uma festa e um mundo novo que entrava pelas portas da casa até a sala que perdeu sofás, quadros e mesas para dar lugar a espelhos e barras, araras, cabides e baús, aparelhagem de som e luz e espaço livre para ensaios e cenários.

Até o pôster de Caetano teve que ser removido.

2 pensamentos sobre “Branca, o Teatro e a sala de estar

  • 6 de setembro de 2017 em 16:01
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    Eu vi a estréia de ‘Anchieta’ do bom Paulo, com Branca como sempre se destacando com sua presença… Branca sempre :) ! Texto bacana Manu… mais um !

    Responder
  • 12 de setembro de 2017 em 15:16
    Permalink

    Também curti um pouco aquela casa maravilhosa, uma barca de arte governada ao sabor dos ventos de Branquinha… Seus textos, Manuela, são como a lembrança do passado: leves e saborosos <3

    Responder

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