Quem me ensinou a nadar

Quem me ensinou a nadar

Por motivos de outras urgências e novas funções que me exigiram por demais, demorei a postar neste blog. Mas retorno e volto ao assunto – os Escritos de Vitória, cuja edição foi retomada recentemente e com tema PRAIAS DE VITÓRIA. Mas como faço deste blog lugar de meus escritos, apesar do lapso, pego o gancho temático como pretexto para contar das minhas primeiras lembranças da praia, do mar e de saber nadar em vitória.

Mas de logo confesso que não me lembro bem de quando eu comecei a nadar. Sendo nascida na ilha, na Praia Comprida, cresci rodeada de mar, fato que torna difícil recordar a primeira vez que nadei. As praias sempre me rodearam. Não por outro motivo que os nomes dos bairros da minha infância tinham nomes de praias. Praia Comprida, Praia do Canto, Praia de Santa Helena, e um pouco mais prá lá, a Praia do Suá, aonde íamos pela manhã comprar peixe fresco para o almoço do sábado.

Havia ainda as praias das ilhas do Frade e do Boi, que alcançávamos a nado, de barco ou de lancha, antes da urbanização que aterrou as praias Comprida, de Santa Helena, do Canto, do Suá e a praia do Barracão, a única delas que não deu nome a bairro.

Nascida ilhéu na cidade sol com o céu sempre azul, a praia era natural pra mim. Era como uma extensão dos nossos quintais, lugar de prazer, mergulho e brincadeiras. E foi assim que eu aprendi a nadar.

Nadador, surfista e marinheiro

Quer dizer, foi mais ou menos assim. Acho que engoli um bocado de água nas primeiras tentativas de me mover na superfície do mar. Mas eu tenho vaga lembrança – faz tempo isso –, na enseada que se formava no final da Praia do Canto, de aprender princípios fundamentais e necessários ao bom nado. Ou pelo menos que evitou mais goles de água no mar ou na piscina. Foi Victinho, meu irmão, quem me ensinou a técnica básica de inspirar fora e aspirar dentro d’água no ritmo das braçadas. Eu devia ter uns seis anos de idade e ele já tinha um barco.

Como muitos de nós que nascemos e nos criamos perto das praias, Victor sempre nadou muito bem. Saber nadar era uma necessidade ou mesmo uma obrigação. Acho que esta foi uma precaução dos nossos pais.  Sendo Vitória uma ilha, o mar era inevitável. Barco, pé de pato, prancha de isopor e vara de bambu eram brinquedos comuns na infância da Praia do Canto de antes do aterro.

Desde cedo Victinho começou a navegar também, desde quando meu pai deu de presente a ele “Feitiço”, um bati buti – “pequeno barco monotipo de bolina, podendo ser de madeira ou fibra de vidro (…) recomendado para crianças de 7 a 15 anos, com no máximo 60 kg”. Victor tinha dez anos e era magrinho.

Feitiço era barco pequeno, mas cabia duas ou três crianças. Podia ser impulsionado a remo ou à vela e era vermelho, ao contrário do barco de Ricardo Barroso, que era amarelo. Sendo crianças em pequenos veleiros, nossa navegação era curta. Lembro que contornávamos a encosta que separava o canto da Praia do Canto e a rampa do Iate Club, nosso porto seguro. Fazer esse contorno hoje não é mais possível, a não ser a pé, de bicicleta, skate ou carro. A pequena enseada deu lugar à Avenida Nossa Senhora dos Navegantes, à Praça dos Namorados e ao estacionamento dos sócios e frequentadores do Iate, que se multiplicaram no ritmo dos aterros, e da expansão dos bairros com nomes de praias. Foi nesse ritmo que a cidade incorporou à nossa infância a Praia de Camburi, a praia com ondas, onde Victinho aprendeu a surfar e eu a pegar jacaré. No mar, ele sempre foi o melhor de nós.

Navegar é preciso

Vitória, a pequena e então encharcada de Ilha de Santo Antônio do tempo colonial, foi crescendo aterrando praias, canais, mangues, construindo pontes e acrescendo a si outras ilhas – Ilha de Santa Maria, Ilha das Caieiras, ilhas do Príncipe, do Frade e do Boi – que se tornaram bairros da capital. Assim como as praias do Canto, de Santa Helena e do Suá, que continuam sendo nomes de bairros, mas agora sem suas praias, que deram lugar a prédios, ruas e avenidas. A praia do Barracão não era bairro, era só a praia que também sumiu, assim como a Praia Comprida que nem bairro é mais.

Mas Victinho mantém até hoje uma relação estreita com o mar. Na semana passada veio de João Pessoa, na Paraíba, e a 1.959,4 quilômetros de Vitória, comandando a encomenda de um amigo, um veleiro, claro, que barco para ele só se for à vela.

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A propósito, Victinho não mora mais na Praia do Canto. Mora na Praia da Costa e de frente pro mar, onde costuma nadar diariamente e pescar ocasionalmente. Diz agora que vai comprar um barco, será o terceiro, eu acho, e será um grande desta vez, que é para ele precisamente continuar navegando e até o oceano.