Nenna – parte II: early years na ilha

Nenna – parte II: early years na ilha

A obra já foi muito comentada, refletida, festejada, mas não há como nem porque evitar mencioná-la de novo quando se quer falar da trajetória artística de Nenna. Não só porque o Estilingue Gigante representou “a primeira manifestação pública de vanguarda nas artes plásticas do Espírito Santo”, como escreveu o poeta, músico e jornalista Arlindo Castro em artigo na edição de O Diário de 19 de julho de 1970, e “entrou para a crônica da cidade”, como lembrou Setembrino Pelissari, prefeito de Vitória na época, em depoimento em “A pedra que o Estilingue lança”, documentário realizado em 2010 por Ana Murta. Mas é preciso lembrar a obra principalmente porque o Estilingue Gigante diz muito sobre a arte e a estética de seu criador, desde então.

Foi na madrugada do dia 14 de julho de 1970 que Nenna juntou um grupo de amigos,companheiros de ideias, anseios e juventude, para montar a obra numa das castanheiras que então contornavam a Avenida Saturnino de Brito, na Praia do Canto, Vitória. Pela manhã, depois de revestida de gesso e pigmento e acrescida com uma tira longa de plástico vermelho e preto, a árvore havia se transformado num estilingue gigante – arma ou brinquedo imenso para uns ou para outros transeuntes surpreendidos pela intervenção. O Estilingue causou a surpresa esperada na cidade que não contava sequer com uma galeria de arte para o artista expor seu trabalho. Mas isso não foi empecilho para quem iniciava carreira e já enxergava as muitas possibilidades na forma de fazer e expor arte para além das paredes de galerias. Nenna tinha 18 anos.

Na ilha

Para a professora e crítica de arte Almerinda da Silva Lopes, em “A poética de Nenna”, livro ainda inédito em que ela percorre com olhar crítico a trajetória do artista, o Estilingue Gigante foi uma criação respaldada nas práticas conceitualistas e experimentais que instigavam e inspiravam Nenna nos primeiros anos e que estavam em sintonia com o tempo poético e histórico que atravessava a cena artística no mundo e no Brasil. Mas não em Vitória.

No início dos anos 1970, essas ideias eram praticamente desconhecidas na cidade e no estado do Espírito Santo, que possuía uma única escola de artes, o Centro de Artes da Ufes, onde ainda predominava um pensamento que enxergava vanguarda no Surrealismo ao mesmo tempo que ignorava a iconoclastia de Marcel Duchamp, e professores que exigiam cópia exata dos objetos de referência nas aulas de modelagem ou reprodução fiel de paisagens nas aulas de pintura. “Se é para reproduzir, melhor usar uma câmera fotográfica, não é não?”, pensava Nenna.

E ele não fez por menos, usou fotografia e também vídeo, pigmento e plástico, elementos naturais e industriais e a tecnologia de novos meios, todo tipo de material e suporte para fazer a sua arte. Não estava interessado em copiar o que já estava feito e que não exigia desafio nem invenção. Largou a escola e buscou novas fontes de formação e informação e outros interlocutores.

Mergulhou no ambiente da contracultura que, por incrível que pareça, reverberava em Vitória e inspirava uma turma de jovens ansiosos por novas linguagens e manifestações da arte. Jovens que tinham a cabeça feita por Marshall MacLuham, Allen Ginsberg, Glauber Rocha e Jean-Luc Goddard e pelas revistas de arte disponíveis na biblioteca do IBEU, como Arte na América e Art News. “A gente aprendeu muito lendo”, lembrou Luizah Dantas, colega de Nenna no curso do Centro de Artes da Ufes, em depoimento no documentário “A pedra que o Estilingue lança”.

Formação poética

Nesses primeiros anos, enquanto faz a cabeça junto aos amigos daqui – gente com a erudição de Arlindo Castro, com a poesia de Sérgio Régis, com a música dos Mamíferos e o canto de Aprígio Lyrio –, Nenna lê avidamente todo tipo de publicação que pudesse deixá-lo informado sobre a produção artística contemporânea. Viaja constantemente ao Rio de Janeiro, a capital federal da arte brasileira nos anos 60/70, tão perto e tão longe.

É nesse movimento que ele trava contato com a arte de Lígia Clark, Lígia Pape e Hélio Oiticica – com quem iria conviver durante o verão nova-iorquino de 1973 –, com a obra provocativa de Yoko Ono e a Pop Art de Andy Wahol, Robert Rauschenberg e Jasper Jones, criadores com propostas artísticas que seduziam Nenna.

O resultado de tanta pesquisa já se refletia no Estilingue Gigante, que trazia um conceito e uma proposta que iriam permear outros trabalhos de Nenna: a provocação ou convocação da participação ativa do espectador com a obra ou as interações de um com outro, “questão que interessava mais ao artista do que o produto final”, como anotou Almerinda Lopes.

Tradição, arte envolvente

O convite à interação sensível entre obra e espectador é uma das marcas da arte de Nenna, e não só essa. Mas em um único post não é possível dar conta de toda a força criativa do artista, então me apego aqui à marca da interação entre arte e espectador. E faço isso relembrando a mostra Meditações Extravagantes, a última que Nenna realizou no Brasil, em 2012 , antes de sua mudança para a França.

Relembro, especialmente, a sensível e emocionante Tradição, uma das oito obras da mostra. Tradição é uma obra de ambientação que só é percebida e sentida quando penetrada. Ocupou toda uma sala do Museu de Arte do Espírito Santo (Maes) e era vermelha, quente, intensa e surpreendentemente calma e meditativa. Homenagem ao folclorista capixaba Hermógenes Fonseca, a obra foi confeccionada em fitas vermelhas dependuradas em envolta de um enorme tambor de Congo e preenchida por luz e som que remetiam à batida dos tambores, à música do violonista Maurício de Oliveira e às pausas silenciosas de John Cage.

Tradição foi confeccionada como um altar neobarroco e traz, segundo Almerinda Lopes, uma gama de referências culturais, materiais, tempo e memórias. A obra é também homenagem do artista à cultura da terra materna. Penetrá-la é sentir a ousadia e a vibração das cores das festas populares do interior do Espírito Santo “enquanto traço da identidade, afirmação e persistência cultural de um povo”.

Tradição é bela arte.

Foto de Jorge Sagrilo (2012)

Nenna, em transição

Nenna, em transição

Esse post serve para dar notícias de um amigo querido e para lembrar um pouco da trajetória de um artista altamente criativo. A primeira vez que o vi foi na praia de Manguinhos, onde eu estava com minha mãe e uma amiga de infância. Ele chegou com Rosalca, sua namorada então, e os dois se juntaram a nós. Foi a primeira vez que vi um homem de tanga, isso antes de Caetano e Gabeira. Acho que foi em algum fim de semana lá pelo início dos anos 70 e ele já era ousado. Agora ele não mora mais aqui e as conversas têm sido virtuais.

***

Nenna mora na França, para onde mudou, casou e se tornou pai de Antoine, seu filho mais novo, nascido há seis meses em Angers, cidade na região do Vale do Loire, onde vive desde 2012 com Magali Rencien, mãe de Antoine. Neste mês de abril e até maio, ele estará cercado pela família. Juranda, sua filha, está em Angers com Clarice, a neta que comemorou quatro anos este mês. Rebecca, a outra filha, está para chegar. Elas vieram conhecer o irmão e tio recém-nascido. Nenna está feliz. “Os dias têm sido bons”, diz ele.

Ser pai nessa fase da vida é uma benção, não só pelo filho “lindo e com saúde”, mas pela segurança que Nenna experimenta hoje. E isso se deve ao encontro com Magali e à mudança para Angers, há cinco anos. Numa retrospectiva da vida, ele recorda que teve a primeira filha aos 20 e poucos anos e a segunda aos 40, mas em momentos incertos da vida difícil do artista que nunca cedeu às concessões fáceis, sejam de ordem éticas ou estéticas. Agora, aos 65 anos, em Angers, ele tem o aconchego, não só familiar e amoroso, mas da cidade e do país que lhe dão a segurança e as condições de trabalho que nem sempre encontrou como artista brasileiro e capixaba, especialmente. “Aqui a atividade artística é reconhecida e apoiada, tem papel importante na vida social. Não é uma atividade marginal. O material para a arte, as muitas publicações, os livros, as conferências, tudo é de primeira qualidade. E ainda temos a segurança cotidiana. Andamos tranquilos.”

Gestação

Esse sentimento de segurança se deve também ao momento do artista. Nenna está tranquilo, calmo e sem pressa. A não ser nos momentos do dia em que cuida de Antoine, ele segue em exercícios diários de pintura, escultura e edição de vídeo em um dos dois ateliers que mantém na cidade, enquanto amadurece o projeto da próxima exposição que pretende exibir daqui a dois anos ou um pouco mais, o tempo que a obra pedir.

Ele não dá muito informação sobre o trabalho, uma vez que ainda está em processo de criação e Nenna não quer se adiantar. “A obra vai mudando desde o momento em que começamos a pensar nela até a produção final.” Mas ele não faz por menos. De certo é que será apresentada em Paris e “não será menor que ‘Meditações Extravagantes, diz, em referência a sua última exposição, que ocupou os espaços do Museu de Arte do Espírito Santo (MAES) e a Galeria Homero Massena, entre abril e julho de 2012, Vitória. O conceito será o mesmo – instalação e ambientação –, mas a estética não. “O momento é outro”. Por isso ele nem cogitou exibir Meditações na França. “Não faz sentido”, diz Nenna. “Obras como ‘Tradição’ têm forte sotaque brasileiro” o que para ele tem a ver com o tempo, o lugar e os interesses que o moviam em outro momento. “Agora estou interessado em outras estéticas.”

A obra e o espaço da obra

O processo de criação para o novo trabalho tem levado Nenna a visitar locais de exposição na capital francesa – que fica a cerca de 300 km de distância de Angers – em busca do espaço que não só abrigue, mas também dialogue com a obra. “O espaço é vital à obra”, diz ele. E isso é evidente na trajetória do artista, desde que Atílio Gomes Ferreira, o nome civil, surpreendeu a cena artística capixaba, em 1970, com o impactante “Estilingue Gigante”, interferência urbana que aproveitou as formas sugestivas de uma das castanheiras da Avenida Saturnino de Brito, Praia do Canto, para criar uma obra provocativa e interativa, marco da arte contemporânea em terras capixabas.

Das galerias de Paris, poucas lhe interessam. A cidade tem 1.200 galerias de arte – uma infinidade para quem se batia, no início da carreira, com a falta quase total de espaços de exposição em Vitória. Mas Nenna não se deslumbra. Diz que a maior parte destas galerias faz parte de um mercado que não o interessa e muitas se dedicam principalmente a esquentar o currículo de artistas estrangeiros e periféricos – “pelo deslumbre de expor em Paris” – o que agrega valor em seus países de origem. E ele prefere espaços com grandes áreas de exposições, como o Palais de Tokyo. A arte de Nenna é ambiciosa, como deve ser a arte.

Respirar-te

Morar na França tem proporcionado a Nenna uma vivência nos ambientes de referência e alta produção artística e um mergulho no berço da cultura e da arte ocidentais. Em Angers, que conta com pouco mais de 170 mil habitantes e quase dois mil anos de história, o Musée de Beaux-Arts, o principal da cidade, tem um acervo de 65 mil obras, incluindo desde objetos arqueológicos, passando pela antiguidade clássica, renascimento, impressionismo, etc. um panorama bastante amplo da história da arte, aí incluindo alguns artistas contemporâneos. “E há muitos jovens artistas aqui trabalhando em ateliers administrados por coletivos em parceria com a prefeitura. A energia é boa”.

Estar na Europa permite que ele frequente os circuitos de arte na França e no continente, mantendo-se sempre curioso e crítico em relação à produção artística contemporânea. “Pela primeira vez vivo de fato e não de passagem num ambiente central da produção e circulação artística mundial. Isso significa muito”. Por isso ele não tem pressa agora, está fruindo arte e amor e bebendo os excelentes vinhos do Vale do Loire.  Santé!

Clarice, Nenna e Antoine no atelier do artista. Foto: Juju Alegro

Houve uma vez um verão, um festival e Fábio

Quando lembro nestas memórias a casa de Branca, estou sempre me referindo a casa no morro do Barro Vermelho onde ela morou por mais de 30 anos e só saiu porque o Barro Vermelho não comportou mais casas. Sobram algumas poucas ainda, é verdade, mas estas que resistem estão espremidas entre espigões que deram nova densidade ao bairro e as suas ruas, que hoje engarrafam nas horas tensas dos dias úteis da semana. Mas houve outra casa de Branca, que estendeu para Guarapari o mesmo movimento de amigos e agitação que havia na casa do Barro Vermelho, quando o morro era ainda calmo e sossegado.

Foi no verão de 1971 que meus pais alugaram uma casa em Muquiçaba, bairro então afastado do centro da cidade saúde. Não por coincidência, no mesmo ano e na mesma estação aconteceu o Festival de Verão de Guarapari. E como minha mãe sempre foi atraída por gente e movimento, na rua ou em casa, acredito que o festival foi pretexto para passarmos aquele verão na cidade.

A título de informação, o Festival

Só para registrar, o Festival foi um quê de ousadia e amadorismo, confusão e repressão, mas que entrou para a história do movimento musical do estado, tanto que mereceu registros importantes na historiografia da cultura e arte capixaba. Por isso não vou me estender aqui sobre o evento memorável, apesar dos pesares, mas recomendo aos que tiverem maior interesse pelo Festival, os livros de José Roberto Santos Neves – Rockcrise, a história de uma geração que fez barulho no Espírito Santo – e de Francisco Grijó – Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular –, que contam com riqueza esta saga.

Organizado por Rubinho Gomes e Antônio Alaerte, o Festival de Verão, nosso pequeno, pretensioso e confuso Woodstock, não cumpriu muito do que prometeu. Dos artistas anunciados – alguns sem saber disso – boa parte declinou por prever roubada. E o festival teve mais polícia do que público – afinal era 1971, de tempos sombrios e intolerantes no Brasil – e muita gente levada em cana, inclusive os próprios organizadores e alguns artistas locais.

Mas o festival aconteceu com os artistas que aceitaram participar de graça ou por pouca grana – problema que quase inviabilizou o evento. Entre os artistas de maior evidência no cenário nacional de então, se apresentaram no festival Milton Nascimento, Ivan Lins, Luiz Gonzaga, Novos Baianos, Tayguara e o fatídico Tony Tornado, que fraturou a coluna de uma espectadora ao se jogar do palco, no que seria, proposital ou não, uma performance antecipada da atitude punk e arriscada de se lançar sobre a plateia. “I’m flaying”, disse ele antes de machucar a menina.

Fábiôôôô

Outro artista em evidência que foi convidado e aceitou participar do evento, estava Fábio – que não era padre nem Júnior e nem mesmo Fábio.  Paraguaio de origem, seu nome de batismo é Juan, virou Fábio quando se tornou artista no Brasil em meados da década de 1960. Cabeludo, como eram cabeludos os artistas de então, grande amigo de Tim Maia, Fábio teve sucessos entre o fim da década de 1960 e início dos anos 70. “Stella”, lançada em 1969, foi seu maior êxito e não só pela canção. O trecho inicial, quando o cantor pronuncia em eco o nome que dá título à música, foi adaptado para servir de vinheta sonora às transmissões radiofônicas da Rádio Globo nos jogos de futebol dos times do Rio de Janeiro nos anos 1970 e 1980: FLAMENGÔÔÔÔ; BOTAFOGÔÔÔÔ, VASCÔÔÔÔ; FLUMINENSÊÊÊÊ. E esse talvez tenha sido o maior sucesso dele, pois que Fábio teve pouco tempo de evidência nas paradas de sucesso – foi como um cometa que passou rápido e sem maior relevância na música popular do Brasil.

***

Mas Voltando a Branca, lembro que assim como era comum na casa do morro, que recebeu muitos dos artistas que se apresentaram em Vitória nos anos 1970 – Maria Bethânia, Djavan, Moraes Moreira, por exemplo – a casa de Muquiçaba recebeu alguns dos artistas, locais e nacionais, que se apresentaram no Festival. Fábio foi um deles. Levado por algum amigo que não recordo, lembro que ele passou boa parte da tarde conversando na varanda da casa de Muquiçaba. Depois, seguiu de carona com Branca para o hotel em que se hospedou.

No Gordine que minha mãe dirigia de Muquiçaba para o centro de Guarapari, ele perguntou a ela qual o meu nome da criança sentada no banco de trás do carro. Minha mãe informou e não deu outra: “Manuelââââ”, repetiu Fábio.

Carmélia, um pouco mais dela

Sigo falando um pouco mais sobre Carmélia, porque num post só talvez eu não tenha sido capaz de revela-lá. Mas antecipo, falar de Carmélia é falar de um tempo de Vitória, dos amigos dela e dela própria, a Magnólia. Esses, principalmente, foram os assuntos de suas crônicas. Este é então, meu pretexto para o texto que segue.

Vitória de mais de 40 anos atrás é o tempo e o lugar de Carmélia. Esse foi o cenário de sua vida e de suas crônicas. Era um tempo em Vitória que o pescador levava o cesto de peixes às casas das famílias. Ali mesmo escolhia-se e comprava-se o pescado fresco. Entre o peixe e a mesa do almoço só havia a rede e o pescador. Era uma época que a Praia do Canto ficava mais próxima do mar, em que havia as praias de Santa Helena e do Barracão, depois soterradas pelos muitos aterros que a cidade sofreu. Nesse tempo de Carmélia, as ilhas do Boi e do Frade só eram alcançadas de barco ou a pé na maré baixa, a partir da praia que contornava toda a Avenida Saturnino de Brito, do Iate Clube ao Miramar.

Faz tempo isso. A Avenida Saturnino de Brito, que um dia beirou o mar, é hoje uma via interna da Praia do Canto que nem merece mais o status de avenida. Ficou pequena, secundária, no bairro que cresceu para cima e para os lados, depois dos aterros e dos edifícios. Mas as castanheiras, que Carmélia comemorava (abençoava) em crônicas continuam lá contornando a avenida, inclusive aquela que compôs o “Estilingue” de Nenna (ainda Atílio Gomes), obra de intervenção urbana e marco da Arte Contemporânea na cidade.

As modas e a Bossa Nova

A referência à obra de Nenna serve de indicativo de que Vitória, apesar de pequena capital do Sudeste, como ainda é hoje, reunia uma gente antenada com as novas propostas e linguagens artísticas que sacudiam a arte naqueles anos 60/70. Aquela era a época também dos Mamíferos, da contracultura, e da geração de 1968 retratada por Zuenir Ventura no livro “1968, a ano que não terminou”, mas vivendo aqueles tempos de Vitória à beira mar. Era uma turma de gente que curtia os beatniks, o cinema autoral francês, psicanálise, o desbunde e a fossa, o estado de ânimo e de alma que dominou a época e a única concessão ou adesão que ela se permitiu fazer às modas daquele tempo. Escreveu crônicas sobre a fossa e suas modalidades.

Mas Carmélia não se impressionava, nem se furtava à crítica ao gosto dos amigos. Tinha um olhar crítico e por vezes entediado para as modas da época, a ponto de se entediar com a conversa em torno do último filme do Goddard, com “a carneirada que compõe o exército tropicalista (…) e a espinafração social em mesa de botequim”. Não era do desbunde nem da revolução, mas sim uma observadora atenta e crítica de seu tempo e de sua geração. Seu gosto e paixão tinham inspiração maior na geração anterior, de Tom Jobim e Antônio Maria, o compositor e cronista da dor de cotovelo de quem ela se considerava viúva. Carmélia era samba canção e bossa nova.

Foi em 1958 que a primeira crônica de Carmélia foi publicada no jornal Sete Dias, um ano antes de João Gilberto lançar “Chega de Saudade”, o Lp símbolo da Bossa Nova, movimento que produziu também Dindi, musa em música de Tom Jobim e amiga imaginária a quem ela se confessava em crônicas. A canção de Tom foi a que ela mais cantou na sua efêmera vida de cantora – sim, ela também foi cantora. O Praia Tênis Clube, na Praia Comprida, e no Iate Club, na Praia do Canto, foram os palcos dela.

Ela por ela

De 1958 até 1974, ano de sua morte, Carmélia seguiu cronista por sete jornais – além de Sete Dias, escreveu também em O Diário, Vida Capixaba, A Tribuna, A Gazeta, O Debate e Jornal da Cidade.  Destes, só dois resistiram ao tempo e à internet. Mas aqueles eram tempos analógicos, em que os jornais eram o meio e privilégio de poucos e onde acontecia, além das notícias de praxe, o debate cultural, a crítica, as intrigas da cidade. Mas eram também, como ainda hoje, o espaço dos cronistas, como Cármelia, que se reconhecia como “cronista do povo”, foi o que ela declarou em autoentrevista publica em O Diário e em “Vento Sul”.

Carmélia não casou, numa época que todas as mulheres casavam. Carmélia era Carmélia para tudo e para todos. “Trágica, hostil, amiga, cínica e debochada”, como a descreveu Amylton de Almeida na introdução de “Vento Sul”, Carmélia era ousada. Não teve filhos, só amigos e alguns amores frustrados.

Todas as épocas são interessantes. Mas nem todas conheceram alguém como Carmélia

Todas as épocas são interessantes. Mas nem todas conheceram alguém como Carmélia

“(…) escreva uma crônica cheia de doçura, se possível, lembrando de alguém que sempre entendeu (com amor e ironia) que esta ilha é uma delícia, porque qualquer lugar do mundo se torna delícia, desde que ele abrigue os amores que a gente tem…”

Muito se falou e se escreveu sobre ela. Até porque não é possível falar da vida boêmia e intelectual de Vitória dos anos 1960 e 1970 sem lembrar Carmélia Maria de Souza. Na verdade, não é possível lembrar Vitória dos anos 1960 e 1970 sem falar de Carmélia, até porque ela mesma comentou muito sobre esta época. De certa forma, Carmélia traduziu o espírito daquela época em Vitória. Ou melhor, Carmélia era o próprio espírito da época – às vezes um espírito santo, às vezes um espírito de porco. Porque ela era assim, contraditória, de brigas e amores.

Tenho uma lembrança infantil dela, pois que frequentou muito a nossa casa no morro do Barro Vermelho. Só mais tarde conheci a cronista sublime que ela foi. Recentemente reli “Vento sul”, obra que reúne o melhor de Carmélia em forma de crônica. E o melhor de Carmélia não é pouca coisa – “pode crer, irmão” –, assim como o pior também não, como ela mesma admite e avisa em alguns de seus textos, como  “Autocrítica”: “sou capaz das coisas mais cruéis, perversas, incríveis. (…) Sou fogo. Graças a Deus, consigo ser ruim”.

O título da coletânea é referência a esta cidade de ventos, a Ventória dos velejadores, que ela amava.  A cidade foi protagonista, cenário e paisagem, quando não saudade, de algumas das crônicas de Carmélia reunidas em “Vento Sul”. A Vitória de seus escritos nos leva ao Britz Bar e ao Mar e Terra, à Rua Duque de Caxias e à Praia do Canto, às tardes e às madrugadas.

Mas nas crônicas de Vento Sul Carmélia fala, sobretudo, sobre ela mesma e nas suas confissões revela um pouco do espírito de sua geração. Talvez ninguém tenha expressado a alma da cidade de 50 anos atrás com tanto lirismo e de forma tão pessoal como fez ela em crônicas. Ou não seriam líricas as crônicas que falam de amores e afetos, do mar, do céu e das estrelas, das noites de lua e violão à beira mar?

Minhas lembranças dela são lembranças de criança, pois que Carmélia morreu em 1974, aos 37 anos, quando eu mal entrava na adolescência. E nos últimos meses de vida ela se afastou lá de casa por motivos que eu esqueci ou não lembrei de perguntar. Mas eu lembro que suas visitas enchiam nossa casa de amigos e gargalhadas, quase sempre provocadas por ela, que era também, claro, muito espirituosa.

Vento sul, crônicas de confessionário

“É natural e humano o pranto, tanto quanto o riso, na geração de onde eu vim e na geração deste tempo que nos foi dado para viver.”

Vento Sul é uma obra póstuma, cujo título foi retirado por Amylton de Almeida de um romance que Carmélia não concluiu – sua maior frustração, “verdadeira crueldade que cometi comigo mesma”. O título serviu então à coletânea de crônicas organizada e editada por Amylton a partir de textos publicados em jornais e revistas por onde ela passou em 17 anos de jornalismo. Na introdução, Amylton compara Carmélia a Gertrude Stein, pois que teria representado para boa parte da intelectualidade boêmia capixaba o mesmo que a poeta e romancista havia representado para os intelectuais e boêmios que se reuniam em torno dela e fizeram de Paris uma festa nos anos 20 do século passado. “Carmélia viveu tudo, intensamente, sempre presente e inevitavelmente à frente de tudo que se tentava fazer para romper com o convencional e o intelectualmente passivo”. Exagero ou não, Carmélia era de fato uma referência daquela época em Vitória. Ou quem sabe a sua mais completa tradução.

Se há semelhança entre Carmélia e Gertrude Stein, como disse Amylton, a mim a semelhança está na lembrança de vê-la sentada na poltrona do escritório quarto de hóspedes da nossa casa – seu lugar cativo –, onde passava noites inteiras sentada com o indefectível copo na mão e cercadas de amigos atraídos pelas suas conversas, sua crítica e seu humor e pelas crônicas que muitas vezes eram esboçadas, senão acabadas, ali naquele momento junto aos que eram da turma. Mas não era só noites que ela passava lá em casa, havia também tardes e houve dias.

Em uma de suas crônicas, ela comenta um tombo que sofreu e na queda levou Milson Henriques, grande amigo, junto. O acidente resultou em um braço quebrado e joelho machucado e foi motivo de uma temporada de Carmélia no escritório quarto de hóspede da nossa casa no Barro Vermelho. Para a gente, as crianças, dizia que tinha água no joelho e precisava de cuidados médicos, ou dos cuidados do meu pai, médico, e por quem ela tinha enorme carinho.

Mas não foram poucas as vezes que ela ali se internou – e na casa de outros de seus amigos queridos. Muitas vezes por dores outras, geralmente dores de amor. Ela era dada a isso. E confessou.

Vento sul, crônicas de amor

“Diga ao meu amor que não deixo nada para ele, a não ser a certeza de que ele esteve presente em todos os sonhos e em todos os dias da minha vida, desde quando o conheci.”

Vento Sul também é feito de sentimentos confessos, da personalidade e das percepções de sua autora. É feito de coisa que ela amava e outras nem tanto: a vida e a morte, os amigos para toda a vida e gente chata, praia e Praia da Costa, manhãs de sol e noites frias, Dindi e Maísa. Para Dindi – que não é e nem nunca foi pessoa encarnada, mas personagem musa imaginada por Tom Jobim na canção que ela amava, sobretudo na voz de Sylvia Telles –, Carmélia dedicou algumas crônicas e a quem escreve como escrevia a muitos de seus amigos – “diga que eu fui sua muito doida amiga mesmo, Dindi”.

Maísa foi aquela que provocou a maior dor de amor de Carmélia, como a cronista confessou sem pudor. Carmélia considerava Maísa a melhor cantora e a pior mulher. E por dois motivos: “O Barquinho”, música de Roberto Menescal e Ronaldo Bóscoli que ela adorava na voz de Maísa; e Zé Costa, uma das paixões de Carmélia. Maísa, a cantora cujos belos verdes olhos mereceram poema de Manuel Bandeira, tomou Zé Costa de Carmélia, assim como haveria de tomar Ronaldo Bóscoli de Nara Leão poucos anos depois. Maísa era dessas. Mas talvez Maísa tenha sido outra das paixões de Carmélia.

Branca e Carmélia

“E a gente diz adeus. Mas sempre haverá vento, pode crer. Pelo menos enquanto a noite – esta pátria querida de todos nós – continuar sendo habitada, não pelos grandes homens, com seu ridículo. Mas pelos companheiros. Com a sua ternura e com o seu perdão.”

Não sei exatamente por que Branca brigou com Carmélia e elas deixaram de se falar. Esse foi um dos maiores arrependimento de minha mãe, que não perdoou a tempo. Carmélia morreu sem que as duas voltassem a se falar. Carmélia até pediu, mas Branca ainda magoada, recusou um último encontro. Acho que não pensou que fosse o último. Chorou com dor, depois. E perdoou.

As primeiras artes de Luizah Dantas nas paredes da casa de Branca

As primeiras artes de Luizah Dantas nas paredes da casa de Branca

Em posts anteriores, andei lembrando o ano de 1969 por causa dos Mamíferos. As lembranças desse ano me obrigam a fazer uma correção. No primeiro texto que escrevi sobre minha mãe, havia dito que os primeiros sinais de suas mudanças de gosto e interesses tinha a ver com as mudanças na decoração da casa dela e com o pôster de Caetano na parede da sala maior, da época que ele gravou o LP Transa. Mas Transa foi lançado em janeiro de 1972. E agora lembro que as mudanças no interior da casa começaram antes, começaram quando suas paredes foram sendo decoradas com as primeiras pinturas de Luizah Dantas, então uma muito jovem estudante de Artes Plásticas da Ufes. E isso começou em 1969, com certeza.

Sei que era 1969, pois achava curiosa a forma como Luizah anotava o ano da obra ao lado de sua assinatura, no canto inferior direito da tela. Ela desenhava um círculo e puxava uma perna para cima e outra para baixo, formando os números 6 e 9 unidos na mesma volta. Lembro de um quadro em especial, com pessoas em vota de mesa de refeição que, para mim, remetia a “Panis et Circense “ uma música de Caetano e Gil gravada por Os Mutantes, em disco lançado um ano antes, mas que ainda fazia sucesso em 1969.

A praia do Sacre-Couer

Luizah conheceu minha mãe de uma forma parecida de como foi com Marco Antônio Grijó, uma forma que mostra um jeito de Branca de fazer amigos e um pouco da personalidade dela, curiosa, interessada e espontânea. O encontro com Luizah também foi casual e ocorreu em outro ambiente que Branca adorava frequentar, além da loja de disco de Jairo Maia: a praia.

“Conheci Branca em fevereiro de 1969 , lembrou Luizah. “Foi na praia do Colégio Sacre Couer. Ela chegou com vocês [os filhos] e puxou conversa. Era expansiva. Eu falei de um quadro que havia pintado e reproduzi na areia da praia. Ela disse: é meu, quero ele. Foi a primeira pessoa que comprou uma obra minha”.

Branca convidou Luizah para ir à praia novamente no dia seguinte. “’Vamos conversar mais’, ela me disse. E depois me convidou a sua casa. Branca era muito comunicativa. Fiquei louca quando cheguei e vi tantos livros.” Os amigos de minha mãe em geral eram mais novos, às vezes bem mais novos, do que ela. Luizah tinha 18 anos na época e minha mãe já tinha seus quatro filhos.

Noites adentro

Depois da praia, Luizah passou a frequentar a casa. “Nós sentávamos para conversar. Eu, Branca, Victor, Carmélia, Rogério Coimbra, Toninho Rosseti e discutíamos o que estava acontecendo dentro da arte no mundo – no teatro, na música, no cinema. Os beatniks ainda estavam em voga e liam-se poemas de Ginsberg. Branca gostava especialmente de um poema do Ginsberg – The Animals.” Luisah já conhecia Rogério Coimbra da Praia do Canto, onde ambos moravam, dos tempos que pegavam o mesmo ônibus a caminho da escola. Voltou a encontrá-lo na casa de Branca, assim como encontrou também Afonso Abreu, Mário Rui, Marco Antônio Grijó e Marinho Celestino, personagens de textos passados. “Sua mãe deu uma força para Marinho fantástico. Foi ela que levou ele para Paris.”

Marco Antônio Grijó lembra que a casa de Branca era uma das melhores opções na cidade para encontrar movimento interessante e fora do agito juvenil do centro da cidade. “Íamos muito à praia e depois íamos à casa de Branca, que era um lugar sempre em movimento de pessoas amigas falando e fazendo arte. Fora isso, não havia muito que fazer na cidade.”

A impressão de Luizah sobre Vitória daqueles anos é um pouco diferente das impressões de Marco Antônio, que diz não haver muitas opções na cidade. É natural que Marco Antônio tivesse esta impressão, pois vinha de uma experiência de vida paulista, onde tocara na noite paulistana com músicos profissionais que foram base de sua formação musical. Mas para Luizah, que ainda não tinha ganhado mundo como faria mais tarde, Vitória era ótima. “Tinha todos os cinemas funcionando. Juparanã, Odeon, São Luiz, Santa Cecília. E tinha festivais de filmes franceses, filmes alemães etc. Eu ia com sua mãe e depois íamos para o Bar Santos, o Mar e Terra, o Britz Bar.” Nas lembranças de Luizah, havia em Vitória uma boa oferta cultural na cidade e, quando não, sempre havia a casa de Branca.

A casa era como um pólo cultural, por reunir aquelas pessoas e pelas conversas. “Aprendi muita coisa com sua mãe e seu pai. Éramos amigos para caramba. A gente conversava até às quatro horas da manhã. A gente ficava o dia inteiro lá, tomava banho e voltava. Sua mãe sempre tinha um programa para sugerir. ‘Hoje vai passar um filme do Goddard.’ Então íamos a casa e conversamos sobre o cinema do Goddard. Já íamos para o cinema de cabeça feita. Depois do filme íamos conversar sobre o que tínhamos assistido.“

Branca e o cinema

O cinema foi outra das muitas paixões de Branca. Seu envolvimento com a Sétima Arte se deu não só como atriz, mas ainda como a crítica de cinema no jornal O Diário entre as décadas de 1960 e 1970. Mas este é um assunto para post futuro. Para não me alongar aqui, fecho o texto com outras impressões de Luizah Dantas sobre Vitória daquela época na casa de Branca:

“Éramos felizes e não sabíamos. A gente ficava muito à vontade, entre amigos, sem hora de almoço, sem hora de ir embora. Hoje não é assim. É mais tenso e pouco frequentamos as casas uns de outros”.

Branca, Marco Antônio e Jairo Maia, a melhor loja de discos de Vitória

Branca, Marco Antônio e Jairo Maia, a melhor loja de discos de Vitória

Os escritos sobre a saga mamífera vão se encerrando por aqui. Mas antes que o faça, vou pegar carona em algumas lembranças dessa saga para voltar a Branca. E vou aproveitar a lembrança de Marco Antônio Grijó, o baterista da banda, que me contou como conheceu minha mãe e passou a frequentar a casa dela no morro do Barro Vermelho.

Em 1967, Vitória contava cerca de 100 mil habitantes e a vida social da cidade, ou pelo menos seu maior movimento, se concentrava no seu hoje centro histórico, sobretudo nos cinemas localizados ao longo da Avenida Jerônimo Monteiro e suas transversais, e nas lojas, bares e lanchonetes da Rua Sete de Setembro e seu entorno. Ali era a região do comércio chic e do lazer da ilha, e onde se reuniam jovens que se divertiam embalados e inspirados pela música, moda e comportamento que vinham pela televisão.  Naquela época, as novidades vinham da TV, que afirmava seu domínio sobre o cotidiano das famílias e os costumes das pessoas, sobretudo daqueles que eram jovens assim como a televisão, que completava pouco mais 20 anos no Brasil.

É certo que 1967 foi um ano rico para a música popular brasileira e muito disso se deve à televisão. Foi o ano do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, que apresentou para o Brasil “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”, dos pré-tropicalistas e ainda comportados Caetano Veloso e Gilberto Gil, canções que inovaram a MPB e grandes sucessos daquele ano cheio de sucessos musicais. Mas o fato não modificou a cena na Rua Sete, que era frequentada pelas moças e rapazes que amavam os Beatles, Roberto, Erasmo, Renato e seus Blue Caps e aos sábados marcavam ponto na Lanchonete Sete, local da balada da juventude classe média da época. É claro que invariavelmente, aconteciam brigas entre turmas de playboys que queriam marcar território e exibir virilidade para os brotos assustados.

“Vai lá em casa”

Marco Antônio Grijó não se interessava pela música da Jovem Guarda nem por brigas. Recém-chegado de Santos, a cidade em que nasceu filho de mãe de família santista e pai capixaba, Marco, apesar de muito jovem, já era músico experiente que tocara na noite paulista com músicos profissionais mais ligados à Bossa Nova e ao jazz do que às baladas pop rock que dominavam o som das rádios e TVs do país. Em 1967 ele veio viver em Vitória em definitivo, depois de idas e vindas entre as duas cidades, e foi morar com as irmãs de seu pai, na Rua Sete, rua que era endereço também da Jairo Maia Discos, onde Marco Antônio encontrou Branca Santos Neves pela primeira vez.

Jairo Maia, além de radialista de grande audiência, tinha a melhor casa de discos de Vitória e era lá que podiam ser encontrados outros sons e não só a música juvenil que predominava nas rádios e na televisão. Na Jairo Maia, podiam ser encontrados discos de jazz, estilo de pouca audiência na cidade. “Não era comum ver pessoas comprando discos de jazz em Vitória naquela época, muito menos uma mulher. Isso me chamou atenção”, lembra Marco. Trocaram impressões sobre Wynton Kelly Trio, o disco que ela tinha em mãos. Branca tinha pouco mais de trinta anos e quatro filhos. Marco Antônio era um rapaz de vinte e um.

O gosto comum pelo Jazz foi pretexto suficiente para minha mãe fazer o convite que ela sempre fazia quando simpatizava e sentia afinidades com alguém, ainda que tivesse acabado de conhecer: “vai lá em casa”. E Marco Antônio foi naquele mesmo dia, à noite, levado por Afonso Abreu, que já conhecia e frequentava a casa dela.

Casa cheia

Desconfio que esse interesse espontâneo de minha mãe por pessoas que mostravam alguma afinidade de gostos com ela e sua abertura para novas amizades é que manteve nossa casa sempre movimentada e cheia de amigos, um vai e vem de gente de manhã, mais principalmente a partir dos fins de tarde, depois do expediente, e noite adentro.

A Praia do Canto de então, ao contrário do centro, tinha ritmo lento, de pouco comércio, sem agências bancárias e cinemas, com ruas de paralelepípedos. E ficava realmente no canto da cidade, no extremo norte da ilha. Os bairros continentais como Jardim da Penha, Mata da Praia e Jardim Camburi nem sequer existiam. Em Camburi, via-se uma ou outra construção. Era então um areal coberto de mata de restinga e cortado por uma estrada estreita que beirava a praia. A via é hoje a movimentada Avenida Dante Michelini, que engarrafa todos os dias úteis da semana a partir das seis da tarde, a hora do rush.

Mas naquela época, como anotou Álvaro Abreu, no volume 19 da coleção “Escritos de Vitória, o tempo passava mais devagar, “ficava-se tardes inteiras e noite adentro conversando ao som do jazz, nas casas de Rogério Coimbra, de Victor e Branquinha Santos Neves e de Ronaldo Alves, felizes proprietários de modernos equipamentos de som e discos importados”.

Depois da praia

Marco Antônio lembra que não havia muito o que fazer em Vitória, então, a casa de Branca e Victor era sempre uma opção para encontrar novidades e pessoas com os mesmos gostos e afinidades musicais, literárias e cinematográficas. E minha mãe era uma pessoa que gostava muito de conversar. “Sou de família de mulheres. A intimidade com Branca talvez tenha a ver com isso. Ela era uma pessoa com quem trocávamos confidências”, lembra Marco, que se sentiu à vontade naquela casa e passou a frequentá-la. “Nos fins de tarde e nos fins de semana, depois da praia, era para lá que íamos todos.”

***

Marco tem jeito especial de me chamar: “Má”. Sempre gostei. Nas vezes em que cruzo a esquina da Rua Graciano Neves com a Rua Professor Baltazar e escuto “Má”, já sei, é Marco Antônio tomando uma cervejinha no bar do Gegê, que fica ali pertinho de seu apartamento, que é justamente no Edifício Valverde, endereço da galeria de mesmo nome que um dia abrigou a Jairo Maia Discos.

Uma noite mamífera – o epílogo

Uma noite mamífera – o epílogo

Antes de mais nada, peço desculpas pela minha falta. Que coisa feia, intervalar sem maiores explicações. Mas explico breve: questão de tarefas extras e exigentes. Mas volto ao fio da meada, que deixei solto. E nem ia falar do que vou falar aqui, neste post atrasado. Até achei que ia partir para outros assuntos e outras lembranças de Branca. Mas o fato é que na quarta-feira da semana passada, dia 9 de novembro, aconteceu o show da banda Aurora Gordon e o lançamento do livro “Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular”, do professor e escritor Francisco Grijó, no Teatro da Ufes, dois eventos que comemoraram os 50 anos dos Mamíferos. E assim a saga mamífera continua, e por bons motivos, gosto e prazer. O show foi ótimo, com o Aurora Gordon e participação preciosa de André Prando interpretando o repertório dos Mamíferos; o livro é importante para a historiografia da cultura e da arte capixaba e pelo prazer da leitura; e o assunto me é especial. Foi uma noite em que encontrei muita gente, muitos amigos, que fizeram essa história agora comemorada e contada em livro.

Todos esses eventos são parte do Aurora Gordon, que além de nome da banda de música é um projeto maior de memória e preservação, produção e criação artística e é nele que se inserem Francisco Grijó e sua crônica biográfica da saga dos Mamíferos. O livro é dividido em duas partes, além do prólogo e do epílogo com textos e letras de autoria dos personagens retratados no livro. Aliás, mais que personagens, são personalidades que Grijó retrata no perfil e na história de todos que participaram da banda, seja como músicos, seja como autores.

O livro

A primeira parte do livro é dividida em oito capítulos, um para cada participante. Nos títulos dos capítulos, o autor colocou uma qualidade que de certa forma sintetiza a personalidade e o papel de cada um na banda. Afonso Abreu é o líder, Marco Antônio Grijó, o profissional; Mário Ruy, as cordas; Aprígio Lyrio, a voz; Arlindo Castro, a palavra; Paulo Branco, o rock; Rogério Coimbra, a produção; e Sérgio Regis, a letra. São estes enfim, o menino dos Mamíferos como diria Branca. Mas há muitas outras pessoas que passam pelo livro e direta ou indiretamente passaram pela trajetória meteórica da banda, que surgiu em 1966 e findou em 1971. Foi pouco, mas fez um barulho danado como o livro mostra.

Mas os títulos dos capítulos são só uma pista, pois cada capítulo revela um pouco da formação, interesse e histórias acontecidas com e entre seus personagens e vai além. O livro do Grijó lança um olhar revelador de uma época que foi criativa e contestatória em quase todo mundo e aqui em Vitória também. É sobre essa época e seu contexto que o livro passeia numa perspectiva não só local, mas também brasileira, retratando e refletindo de maneira crítica sobre o momento social, político, econômico e ideológico em que os Mamíferos surgem.

Na segunda parte do livro, o contexto da época fica ainda mais revelador quando trata de dois eventos que sacudiram a cena cultural capixaba, os festivais capixabas de MPB e Festival de Verão de Guarapari, este último um mistura de música e desbunde, polícia e repressão, acidentes e desorganização e principalmente, que marcou o fim da banda Mamíferos.

O livro “Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular” foi escrito a partir de dezenas de entrevistas e minuciosa pesquisa documental, que formam um retrato detalhado de uma época e por meio de texto que aproxima o leitor de personagens e de um tempo interessante em Vitória.

Eu, Ronaldo e Chico Lessa

Nesta noite comemorativa tive ainda um privilégio que aconteceu por puro acaso. Foi por coincidência que, ao descer para a cantina do cine Metrópoles, encontrei no caminho Chico Lessa acompanhado de Ronaldo Alves, que chegavam para o evento.  Chico e Ronaldo são os autores da antológica “Cosmorama Total”, canção com que os Mamíferos causaram no II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira (fato contato em detalhes no livro do Grijó) e inauguraram a modernidade na cultura capixaba. A canção não teve registro material e quase se perdeu na memória do próprio autor. Chico me contou que teve que recorrer a Afonso para lembrar a melodia, pelo menos partes dela, e assim recuperar a música.

Mas o que eu queria contar foi que Chico tocou para mim ali mesmo pelo caminho sua versão mais melodiosa de Cosmorama Total, que na noite do II Festival Capixaba de MPB, tinha se transformado num rock pesado na versão mamífera. Então era eu com Ronaldo e Chico numa audição exclusiva e recuperada da música que marcou época e fez história com os Mamíferos. Foi bom à beça, Chico Lessa.

A contracultura na ilha – Mamíferos, parte III

A contracultura na ilha – Mamíferos, parte III

Na época em que os Mamíferos surgiram, o contexto social mundial do lado ocidental estava mais ou menos assim: “Os jovens de hoje parecem querer expressar-se de todas as formas e em todos os setores. Em todo canto a juventude moderna se insurge, presentemente contra o mundo que chamam de ‘quadrado’”. A citação que anuncia a insurgência dos jovens contra o mundo “quadrado”, é um trecho do lead da matéria escrita por Maura Fraga e publicada em edição do jornal O Diário de novembro de 1969. Já de início, Maura constatava (ou acreditava) que “Vitória, como não poderia deixar de ser, também sofre (sic) com este fenômeno: os jovens daqui não são diferentes dos de outros mundos.” E a prova disso era o trio formado por Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó e Mário Ruy Nogueira: “inconformados com a velha regra que a seu ver dominava nosso ambiente, um grupo de jovens criou um conjunto rebelde e que se tornou em pouco tempo motivo para muitas discussões: Os Mamíferos.”

A matéria n’O Diário foi publicada dois meses depois da apresentação dos Mamíferos no II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, quando a banda sacudiu e dividiu o público com a performance em “Cosmorama Total”, composição de Chico Lessa e Ronaldo Alves, interpretada “insanamente” por Aprígio Lyrio, que ocupava o vocal do grupo naquela ocasião, episódio narrado em post anterior.

A Contracultura

O texto de Maura e outros textos dão uma ideia de que controvérsias culturais e comportamentais agitavam o mundo e a ilha nas revolucionárias décadas de 1960 e 1970. E os Mamíferos seria a prova de que a contracultura chegara também a Vitória.

Um parêntese:

Contracultura: substantivo feminino – diz-se da mentalidade dos que rejeitam e questionam valores e práticas da cultura dominante da qual fazem parte (Google).

Inicialmente um movimento filosófico com marco no existencialismo de Jean Paul Sartre, reverberou na arte e no comportamental da Beat Generation, que, por sua vez, resultaria no movimento hippie (Wikipédia).

Esses movimentos contestatórios chegaram ao Brasil dando origem à “Tropicália”, movimento musical que inovou a música popular brasileira, trazendo em suas letras versos irreverentes. Em suas roupas e estilos também havia a influência do estilo hippie (Brasilescola).

De fato, a banda foi formada por garotos que amavam os beatniks, os Rolling Stones, o Jazz, Caetano e Gil, Tom e sustenidos. “Eles foram (…) a grande célula de uma obra musical surrealista, para marcar o absurdo de uma época”, escreveu Sandra Aguiar, em matéria de novembro de 1986, em A Tribuna, que relembrava os 20 anos do surgimento da banda.

O que havia diferente em os Mamíferos era que, enquanto aqui predominavam os chamados “conjuntos de baile” que se contentavam em tocar música padrão “aceitável” e já incorporada ao gosto comum, como samba, boleros e bossa nova, eles traziam uma proposta de um som contemporâneo, autoral, antenado com o que havia de mais experimental e ousado na música aqui e lá fora. “Música de vanguarda”, com se dizia na época, ao som de guitarras distorcidas e “com letras que não eram usuais aos padrões dos letristas da época”, como anotou Willis Machado, no artigo “Os Mamíferos contra o tédio”, na Gazeta de março de 1970.

Era muito para a conservadora Vitória e dividiu muita gente. Nos festivais dos quais participaram, os Mamíferos conseguiam tirar dos jurados o mesmo número de notas dez e zero, como lembrou Afonso na matéria de Sandra. Ou seja, os Mamíferos conseguiram dividir públicos, gostos, críticas e vontades, boas e más. Na mesma matéria, Marco Antônio admite que apesar de todo o barulho em torno do grupo, os Mamíferos queriam apenas “ser bons instrumentistas”, mas “com toda a irreverência” que aquelas décadas inspiravam.

Na ilha, a viola e lua

Sobre a formação musical dos músicos e parceiros dos Mamíferos, deixo que outras publicações que virão, como o livro “Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular”, de Francisco Grijó, contem melhor e com mais detalhe. Não cabe aqui neste post, que é também propósito para introduzir as mudanças na casa de Branca, que agora me lembro melhor, começou antes do pôster de Caetano no fundo da sala maior. Creio que começou em 1969, ano em que o som dos Mamíferos abalou Vitória.

Mas para finalizar este texto e dar um pouco mais do clima da época, reproduzo dois textos que exemplificam a incompreensão e a intolerância de muitos em relação ao som dos Mamíferos, reações que mereceram uma queixa de Afonso. Em artigo em O Diário, intitulado a propósito “As hienas dos festivais” ele desabafava: “estou falando aos fariseus coisa muito séria e moderna, ela toca e corrói os tímpanos dos que ouvem somente as velhas liras (…) Músicos, poetas, vocês pararam numa tremenda acomodação, eu não, eu sou eterno pesquisador acossado, sempre, por uma nova sede. (…) Hoje estou muito farto dessa viola, dessa lua, dessas concessões tão irrisórias.”

Com carinho e solidariedade, Carmélia Maria de Souza consola Afonso da melhor forma que ela poderia fazer, escrevendo uma crônica para ele.

“Afonso, meu irmão:

É verdade que o tempo, que era bom, foi passando.

Mas é verdade também que a nossa viola continuou. É a mesma viola que ontem chorava canções baixinho nas nossas serestas de beira de praia embalando as nossas conversas e os nossos silêncios das noites de verão, banhados pela luz das estrelas ou da lua cheia que eram sempre imensas sobre nós.

E eu juro a você, do alto do meu perdão, que as estrelas se multiplicaram no céu da madrugada. Embora os sonhos, alguns sonhos, se tenham desmanchado e se continuado no sopro violento das hienas dos festivais.

Mas há o nosso tempo, companheiro. Sempre haverá, na vida e em nós, UM tempo. E basta.

 

Impossível falar de Vitória dos anos 1960 e 1970 sem lembrar Carmélia M. de Souza.

Uma noite no Livepub com Afonso Abreu e amigos, muitos amigos

Uma noite no Livepub com Afonso Abreu e amigos, muitos amigos

No dia 14 de setembro, quarta-feira da semana passada, revi e ouvi o trio original dos Mamíferos tocando juntos outra vez.  Fui assistir Afonso Abreu e convidados no show comemorativo “Afonso Abreu – 70 anos”, ideia que segundo ele, “foi sacanagem do Murilo”, seu filho e produtor. “Quem gosta de comemorar 70 anos? E depois eu só faço aniversário no dia 18”, informou. Afonso estava de ótimo humor, cercado de amigos e atrasado.

– Como sempre –, disse Marco Antônio Grijó, o que sempre chega cedo. “Compromisso é compromisso”. Mas ele deve estar acostumado, afinal são 50 anos fazendo música e dividindo palcos com Afonso.

E depois de muitos anos, revi Mário Ruy, que sempre foi magro e continua. Fácil reconhecê-lo, apesar de tanto tempo. “Bom tempo”, foi o que ele me disse e não se referia apenas ao tempo decorrido, mas sim ao tempo do início. Mário Ruy foi um dos amigos convidados para tocar com Afonso naquela noite. Outro que se apresentou com Afonso foi Gabriel Grossi, um dos maiores representantes da harmônica e que integra o “Hamilton de Holanda Quinteto”, além de Marco Antônio e Pedro de Alcântara. Os dois últimos formam com o anfitrião o conjunto Afonso Abreu e Trio, que toca com frequência mensal no Livepub, dentro o projeto LiverJazz.

Mas rever Afonso, Marco Antônio e Mário Ruy, o trio original de “Os Mamíferos”, tocando juntos mais uma vez foi motivo a mais para ir ao Livepub. Estão todos bem, reconhecíveis nas aparências e nos humores, e tocando ótima música desde sempre.

Sobre acrescidos ou outros amigos

Entre os que estiveram naquela noite no Livepub para assistir Afonso e amigos, revi Paulo Branco, também depois de anos, e ainda Álvaro Abreu, o irmão, este visto e revisto.  Mas não vi Rogério Coimbra. “Deve estar no Rio,” me disse Afonso, que emendou: “ele sempre diz que está no Rio quando tem show meu”. O humor de Afonso é delicioso.

Encontrei também com Marcos Moraes, irmão de Zé Renato, que foi casado com Zilá que também casou com Chico Lessa. Era um mundo pequeno, esta ilha. Lembrei da Zilá porque foi a primeira noiva, que eu soube, que chegou na igreja numa motocicleta. Mas não me lembro em qual casamento, com Chico ou com Zé Renato.

Paulo Branco, Zé Renato, Rogério Coimbra e Chico Lessa estão entre os compositores, instrumentistas e poetas que orbitaram e contribuíram com a história e com o repertório dos Mamíferos, quando não, foram acrescidos à banda e estenderam para mais de três o trio original, que naquela noite, tocou junto “Malandro”, composição de Afonso e Mário Ruy. São todos amigos de longa data. Grandes amigos, afinal o nível das amizades pode ser medido pelo tamanho das implicâncias.

Próximos capítulos – um livro

Contar desses encontros serve de pretexto para recordar um pouco mais da banda, que foi formada quando os três contavam 20 anos em 1966. Fazendo as contas, comemoram-se este ano 50 anos do surgimento do grupo e 70 de cada um. E as efemérides não vão passar em branco. Em novembro, o projeto Aurora Gordon lança o livro “Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular”, de Francisco Grijó, que conta em detalhes e a partir de memórias e depoimentos de seus principais personagens e daqueles que de uma forma ou de outra estiveram envolvidos nessas histórias, a trajetória do grupo que sacudiu a cena musical de Vitória dos anos 1960 e 1970. São histórias de pessoas interessantes que fizeram parte da crônica cultural capixaba no contexto da contracultura, tendo a ilha como cenário.

De minha parte, conto mais em próximo post e através de texto que remontam ao início dessas histórias. São textos jornalísticos que ajudam a recuperar memórias e climas de outras épocas e revelam um pouco sobre cultura e comportamento na Vitória de 50 nos atrás. O pretexto é comemorar essas trajetórias. Afinal, são 70 anos.

Foto: Miro Soares