Os circuitos que fazem acontecer a cena da música independente no Brasil e no ES

Os circuitos que fazem acontecer a cena da música independente no Brasil e no ES

 

Dos eventos realizados no Festival Reconecta com objetivo de pensar e refletir sobre cultura e a produção cultural contemporânea, os convidados que formaram a mesa do “Seminário da Música – Novas pautas e desejos”, realizado no dia 4 de março, nos jardins do Solar Monjardim, abordaram, sobretudo, o papel das tecnologias da informação na difusão, divulgação e distribuição de música. A questão é pertinente e atualíssima e ao mesmo tempo apresenta-se como um desafio. Se por um lado a internet facilitou a interação entre artista, produtores e público, por outro lado é um ambiente altamente pulverizado, onde há muita gente, boa ou ruim, atuando e buscando atenção e destaque. Entender este novo mundo e saber atuar nele e ao mesmo tempo construir circuitos alternativos de apresentação foram as questões que marcaram o debate entre os quatros participantes da mesa e destes com o público presente.

Uma das dificuldades que mais afetam o e reconhecimento do trabalho de bandas e músicos é, sobretudo, a falta de espaço para a apresentação. Essa é uma realidade conhecida por músicos capixabas como Gil Mello, que resolveu transformar sua própria moradia em casa de show e centro cultural. Há sete meses ele e o sócio, Heitor Riguette, abriram, no centro da cidade, a Casa Verde, um espaço alternativo que recebe de bandas e músicos daqui e de fora. Essa tem sido uma estratégia seguida por produtores e músicos que buscam criar outros circuitos de shows e também de contato com artistas de outros estados. “É uma forma que buscamos de dar relevância ao trabalho do artista. Se não há lugar para se apresentar, não há como ser visto e conhecido,” disse Gil, que acrescentou: “não quero desmerecer os bares com música ao vivo, mas espaços como o que criamos tem outra vibe que permitem troca e convivência entre os músicos e atrai um público que vem em função do show do artista.”

A cena alternativa

Criar espaço para que a arte circule e aconteça foi a estratégia buscada também pela produtora Mariana Fagundes, que participa do Coletivo Casinha, um espaço do circuito alternativo em Campos, estado do Rio. Desde que começou a funcionar, a sede do coletivo tem atraído músicos e um público considerável para os shows que são realizados lá. “Fomos surpreendido, o que mostra que há demanda dos artistas e há um público ávido por novidade e pelo som da música que não é tocada na rádio”, disse.

Mariana agora estará à frente da produção de mais uma edição na cidade do “Grito do Rock”, festival criado pelo coletivo Fora do Eixo em colaboração com produtores das cidades onde o evento ocorre e que hoje é uma das maiores referências no circuito musical alternativo do país. A curadoria dos eventos locais é realizada pelos produtores através da internet, pelo site Toque Brasil, rede de música brasileira que conecta bandas, músicos e produtores através de uma plataforma que reúne eventos, projetos e festivais. “A internet é fundamental para a divulgação e distribuição da produção musical hoje. Tem sido pela rede que conhecemos e convidamos artistas e bandas para os eventos que realizamos”, disse Mariana. “No interior do país é o que funciona para a produção de eventos e na divulgação do artistas.”

Circuitos on line

Foi com o propósito de ajudar a divulgar o trabalho de músicos que vêm construindo a cena alternativa da música no Brasil que Josué Veloso, produtor em Recife, Pernambuco, criou a página “Brasileiríssima”, no Facebook, para compartilhar música e abrir espaço de divulgação para bandas e músicos que buscam um lugar ao sol no mercado musical do país. “No início, muita gente achou que não ia dar certo, mas o resultado tem sido surpreendente. Temos sete milhões de seguidores.” A repercussão da página levou à criação do site Brasileiríssimo, que chega a recebe cerca de 700 emails por semana com trabalhos de artistas de todas as partes do país. “A seleção e curadoria dos eventos que participamos é feita com base no perfil das bandas. Buscamos aquelas que têm a ver com a vibe desses festivais.”

São festivais como o Grito do Rock, que acontece em vários pontos do país, e eventos locais como o Bananada, em Goiânia, o Festival do Sol, em Natal, o Infinitas e eventos produzidos pelo coletivo Expurgação, em Vitória, que dão visibilidade para além da rede e da internet. E tem diversos outros eventos, como atesta Gil Mello, nas capitais e cidades do interior do país. “Há muita gente circulando e fazendo a cena independente e um público surpreendente.” São estes circuitos, reais e virtuais, que têm propiciado o aparecimento de novidades e fenômenos como Liniker, o cantor paulista que estourou para o Brasil a partir da rede social e que fechou o Festival Reconecta com um show que pôs um público de três mil pessoas para cantar e dançar da primeira à última música.

 

Links para as páginas dos espaços citados

Brasileiríssimos                                                                       http://brasileirissimos.xpg.uol.com.br/                https://www.facebook.com/br4sileirissimos/info/?tab=page_info

Grito do Rock                                                                                                                 http://gritorock.org

Toque Brasil                                                                                                                  http://tnb.art.br/universo

Casa Verde                                                                     https://www.facebook.com/casaverdesubtropico/?fref=ts

 Casinha                                                                                           https://www.facebook.com/casinha360/?fref=ts

 

Na foto: da esquerda para a direita: o mediador Vitor Lopes (Lab. Muy), Gil Mello, Lívia Egger (produtora), Josué Veloso e Mariana Fagundes

Reconecta, um festival que mostra o fôlego cultural da cidade

Reconecta, um festival que mostra o fôlego cultural da cidade

 

Vitória é uma cidade onde tem gente fazendo literatura nas quebradas e na internet divulgando música e formando redes de distribuição; tem gente abrindo a casa e produzindo show; tem gente falando de música e gente contando história e tem poesia no poste. E em Vitória tem muita bicha preta, muita bicha branca, muita mulher negra e mulher branca no Hip Hop e tem crianças curtindo tudo isso acompanhadas de pai e mãe. Foi o que se viu no último domingo no Parque da Pedra da Cebola, quando cerca de três mil pessoas, gente das mais diversas tribos da cidade, esteve lá para prestigiar o show de Lineker e o último dia de ações culturais do Festival Reconecta, evento que durante quatro dias, de 3 a 6 de março, pretendeu mostrar “um recorte da produção cultural que pulsa aqui no Espírito Santo e Brasil afora”.

O show do cantor paulista, talento que viralizou na internet no final do ano passado com o EP “Cru”, foi o ponto final das atividades do dia, que teve ainda brechós, oficina de arte gráfica e desenho, encontro de danças urbanas, papo sobre alimentação como arte e ativismo e música, muita música. O domingo no parque deu uma pequena mostra do que foram os quatro dias do festival, evento que reuniu várias linguagens e experiências culturais em ações realizadas por toda a cidade e tudo ao mesmo tempo.

Do centro à periferia

O Festival Reconecta é uma realização do Lab. Muy – Arte e Cultura Digital com apoio da Secretaria de Estado da Cultura e uma extensão dos festivais Casa.Lab e Fábrica.Lab de Ideias, realizados em 2013 e 2014, respectivamente. Mas ao contrário destes dois, que se concentraram em um único espaço (a Casa Amarela, no centro da cidade, e a Fábrica de Ideias, em Jucutuquara), o Reconecta teve como palco principal os espaços abertos da cidade, como a Praça Costa Pereira, o Morro do Jaburu, e o Parque Pedra da Cebola. A ideia do festival é esta mesma, abrir espaços para exibir e refletir sobre as criações e as manifestações culturais que se realizam fora dos eixos massivos da produção cultural do país. Foram 225 envolvidos, entre artistas e ativistas, mais uma equipe de 40 pessoas, entre produtores, fornecedores que ocuparam ruas, praças, parques, jardins, bares e o Teatro Carlos Gomes com intervenções, shows, oficinas, bate papo e debates sobre a produção cultural contemporânea.

A escolha dos espaços para realização das ações do Reconecta levou em consideração as referências culturais que cada lugar emite e que permitiu envolver os quatro cantos da cidade. O centro foi palco do primeiro dia. “Não poderíamos abrir mão do centro, pois é lugar que tem movimentado a cidade e onde se encontram espaços reconhecidos na realização da cena cultural daqui como a Casa da Stael, a Casa Verde, os bares da Gama Rosa”, explica Fabrício Noronha, curador do evento e um dos sócios do Lab. Muy.

Quatro eixos

Os espaços foram escolhidos também em função dos quatro eixos pensados pela curadoria do evento com o objetivo de refletir questões pertinentes à cultura urbana e contemporânea que se manifesta na cidade, no estado e no país. O centro foi palco do eixo “Política, cultura e transformação”, no sentido justo de pensar a cultura como ação política. Além de atividades na Praça Costa Pereira e show com os músicos Macako e Otto, no Teatro Carlos Gomes foi realizada, no dia 3, a mesa de abertura do evento com seminário “A cultura como gatilho das transformações sociais do Brasil” (assunto do próximo post).

Em Jucutuquara o eixo foiConexão, cultura e ocupação”, com a realização de seminários sobre música (em próximo post), nos jardins do Solar Monjardim, e a intervenção de lambes poéticos nos postes da Avenida Paulino Miller. Mas as ocupações do dia extrapolaram o bairro e cobriram vários outros espaços com o evento “Não pare de dançar”, uma festa integrada entre vários bares e casas de shows da cidade conectados por um ônibus boate (com direito a bar e DJs) que circulou por todos os pontos – do centro à Praia do Canto e Jardim da Penha. Cada ponto promoveu suas próprias atrações e uma única pulseirinha, a 20 reais, dava acesso a todos eles.

Coletivo Jaburu

A escolha do Morro do Jaburu como palco do terceiro dia do festival aconteceu em função dos vários coletivos presentes na comunidade, muitos dos quais têm literatura como ação cultural. Daí o nome Palavra, cultura e visibilidade” para o terceiro eixo do festival. “O morro estava sedento por ações e eventos que pudessem fazer acontecer o potencial criativo dos coletivos criados ali e em outras comunidades que são expressão da cultura que se faz na periferia, seja na música, na dança, seja na literatura”, diz Fabrício. A proposta do festival foi abraçada pela Associação de Moradores e envolveu moradores, inclusive crianças da comunidade.

E por fim, o eixo “Conexão, cultura e partilha”, encerrou o festival coma ocupação da área das quadras do Parque Pedra da Cebola e o show das locais bandas Vão, Vão, Vão, Caxambu Santa Cruz, Rabujah e os artistas de São Paulo Tássia Reis e Lineker, um fenômeno também de presença em palco que botou todo mundo para cantar as músicas do seu primeiro CD, “Remonta”, que será lançado este ano.

Balanço Geral

No balanço geral do festival, o resultado foi positivo. “Estamos muitos felizes, atraímos quase 8 mil espectadores e ajudamos a dar espaço e visibilidade a muitas ações. Foram 121 propostas que recebemos na chamada pública que realizamos para o Reconecta. Uma quantidade que nos surpreendeu e mostra o potencial de realização cultural que pulsa na cidade. Infelizmente nem tudo foi possível contemplar por questões orçamentárias”, diz Fabrício. Mas ele garante que a quarta versão do festival já está certa, pois o projeto foi classificado em quarto lugar no Prêmio Funarte (edital Festivais), o que garante seu financiamento. Fabrício não quer adiantar o conteúdo, pois ainda está sendo pensado. O certo é que ano que vem tem mais. Que bom!

Paulo DePaula, uma história do teatro capixaba em primeira pessoa

Paulo DePaula, uma história do teatro capixaba em primeira pessoa

 

Como todo ano, na véspera do Natal, Paulo DePaula estará à frente de mais uma encenação do “O auto dos reis a procura do rei”, que acontece hoje, a partir das oito horas da noite, na pracinha central da Barra do Jucu, Villa Velha. Será a 15ª edição do Auto que homenageia o nascimento de Jesus Cristo e mais uma vez será encenada por elenco e coral formado por pessoas da comunidade da Barra. O elenco conta com 18 integrantes que aprenderam o ofício de ator nas oficinas que Paulo ministra na sede do Teatro da Barra, a instituição que ele e o filho, Bob de Paula, criaram há 40 anos. O Auto é uma homenagem de Paulo ao Natal e à Barra do Jucu em forma de teatro, arte que é seu ofício e sua paixão. Paulo DePaula é um homem de teatro desde sempre.

A primeira vez que ele pisou num palco contava quatro anos de idade. Está com 83. Fazendo as contas, são 80 anos de palco. É uma longa história que merece ser contada, pois é parte importante da história e memória do teatro capixaba. Porque além de dramaturgo, ator, diretor, produtor, Paulo é também poeta, escritor, tradutor, professor e um estudioso da história do Espírito Santo e das tradições da cultura popular brasileira e capixaba, temas que foram motivo e propósito das muitas peças que escreveu e encenou. Ele é um profundo conhecedor do teatro capixaba desde os tempos do padre José de Anchieta, o precursor.

Mas Paulo DePaula é também um amigo querido. Foi pelas mãos dele que minha mãe, Branca Santos Neves, virou atriz. A estreia dela aconteceu em 23 de abril de 1976, no Teatro Carlos Gomes, com “Anchieta: um depoimento”, escrita e dirigida por Paulo. Foi a primeira vez que a vi no palco de um teatro. E não seria a última vez que assistiria minha mãe no palco sob direção de Paulo de Paula. Mas essa história não cabe aqui. Não ainda. Nem todas as histórias caberão aqui. Nem tudo sobre ele caberá aqui. Paulo é muito, mas meu espaço é pouco. Então, lamentavelmente em resumo, falo um pouco sobre ele, e especialmente sobre ele e o Teatro da Barra.

Teatro, formação e cultura popular

“O Auto dos Reis a Procura do Rei” é um teatro de inspiração anchietiana, que incorpora manifestações populares, como faz Paulo com o Congo e a Folia de Reis da Barra do Jucu. É um teatro de rua, ou para ser encenado em espaço aberto, como é da tradição dos autos de fé. Na encenação de hoje, os palcos são a Praça Pedro Valadares e a Igreja Nossa Senhora da Glória, no centro da Barra, e contam com a participação do grupo Folias de Reis da Barra e com Banda de Congo Mirim Tambores de Jacaranema, além o coral Canta Barra, também formado por pessoas da comunidade e sob regência de Inarley Carletti.

Fui assistir a um ensaio do Auto, mas não acompanhei o grupo até o local de exibição. Não fui à praça. Paulo me ligou mais tarde lamentando, ou melhor, penso eu, reclamando a minha ausência. Ele é assim, exigente e rigoroso com o que lhe diz respeito. Diz para mim sobre os aspectos que acha necessário serem considerados neste perfil.  Ele dirige nossa conversa com o mesmo rigor com que dirige seus atores. No ensaio, Paulo faz o elenco repetir a cena de Herodes e Herodine até que sinta que todos tenham o domínio e o sentido do texto. Diz ele que “texto não é para ser decorado, mas compreendido”. Isso garante a segurança do ator que pode improvisar outra palavra que mantenha o sentido do texto quando a palavra original lhe fugir à memória.

O Teatro da Barra se caracteriza exatamente pela busca de fontes capixabas para enredo das próprias peças, em maior parte escritas por Paulo e o filho Bob, já falecido.  Destes estudos e pesquisa nasceram peças como, “Um homem chamado Domingos”, “A Sereia de Meaípe” “O Auto de Pedro Palácio”, que se apresenta até hoje, depois de ampliada por Marcos Ortiz, e a já citada “Anchieta: um depoimento”, a primeira peça a incorporar elementos da nossa cultura popular e que inaugura o grupo Teatro da Barra, formado inicialmente por Branca, Bob, Luiz Tadeu Teixeira, Joelson Fernandes, Alcione Dias.

Do teatro universitário ao Teatro da Barra

Paulo é também e então um formador. Desde o início de sua longa trajetória sempre trabalhou com a formação de atores. Na década de 1960, como professor no Departamento de Letras da Ufes, ele participou da criação do Teatro Universitário Capixaba (TUC). Na década de 1980, como diretor de Artes Cênicas da Ufes, esteve à frente do Núcleo Integrado de Atividades Cênicas (NIAC) do Centro de Artes formando novos atores e encenando peças de autores consagrados como Maria Clara Machado, Shakespeare, Tennesse Willians, Fernando Arrabal, Ariano Suassuna e Julio Matas.

A vocação de formador em atividades cênicas continuou com o Teatro da Barra. Tem sido assim desde o princípio quando estudantes que participaram das iniciativas de Paulo na universidade foram convidados a participar de algumas montagens do grupo. De lá para cá, o Teatro tem ofertado oficinas abertas a todos interessados em arte cênica e que abrangem desde estudos de textos de peças, preparação vocal e corporal, exercício de esquetes e jograis. São duas oficinas por ano com duração de quatro meses cada.

Acervo memória do teatro capixaba

Paulo é ainda guardião de um acervo precioso que contém notícias, reportagens, crítica e comentário da cena teatral capixaba desde a década de 1960. São documentos que registram momentos, ideias, pensamentos e posições, enfim o contexto cultural capixaba desde a década de 1960. São livros manuscritos, fotografias, recortes de jornais, páginas de revistas que registram momentos do nosso teatro e a história daqueles que fizeram e fazem o teatro capixaba. Há raridades, documentos e informações difíceis de serem encontradas em bibliotecas ou arquivos públicos. O acervo foi todo catalogado e está disponível para consulta pública.

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Cena do Auto dos reis à procura do rei, 2014. Foto Rodrigo Gavini, Acervo Teatro da Barra

Enfim, Paulo DePaula é homem de muitas facetas, todas ligadas à arte e especialmente ao teatro. Pena que não deu para contar toda sua trajetória aqui. Tive que deixar muita coisa de lado e privilegiar o Teatro da Barra. Espero que ele goste.

Mostra de Cinema e Audiovisual da Ufes exibe a produção de novos e futuros realizadores capixabas

Mostra de Cinema e Audiovisual da Ufes exibe a produção de novos e futuros realizadores capixabas

 

Hoje às sete e meia da noite, no Centro Cultural Sesc Glória, será lançado o livro “Plano Geral: panorama histórico do cinema no Espírito Santo”. Esta informação e dica servem para introduzir outro evento, um assunto da semana passada, mas que ainda vale registro aqui, pois trata justamente da produção audiovisual capixaba. O assunto é a 6ª edição da mostra Próximos Olhares. Vale o registro, ainda que tardio, pelo fato desta ter sido a última edição da Mostra, segundo o anúncio feito na abertura do evento, no dia 2 de dezembro, no Cine Metrópoles. Então, um post para registrar o evento que por seis semestres exibiu a produção dos alunos dos cursos de Cinema e Audiovisual e de Música da Ufes. Desde 2013, o evento mostrou para a comunidade academia e para o público geral os primeiros trabalhos em nível profissional daqueles que são ou serão os novos realizadores do audiovisual capixaba.

No balanço geral, foram exibidas 72 produções que envolveram cerca de 180 alunos na realização de filmes nos mais diversos formatos, como videoclipes, ficção e documentário em curta metragem e pôs em prática o conhecimento adquirido em sala de aula e nos laboratórios da universidade sobre linguagem, técnica, poética, estética, teoria e prática do cinema e audiovisual. A mostra serviu também para dar conhecimento público daquilo que os cursos oferecem para a formação de seus alunos. “A realização de filmes para o evento colocou o aluno em contato com todas as fases de produção audiovisual e exigiu que ele pusesse em prática o conhecimento adquirido nos conteúdos dos cursos”, explica Gabriela Alves, professora do curso de Cinema e Audiovisual e supervisora da Próximos Olhares.

Da sala de aula à sala de cinema

A mostra veio justamente para colocar a produção dos alunos para fora das salas de aula. “Filmes são feitos para serem exibidos”, diz Klaus’Berg Bragança, professor de Cinema e Audiovisual e coordenador da mostra junto com Marcus Neves, professor do curso de Música. Klaus diz que o objetivo da mostra Próximos Olhares foi colocar os filmes em circulação – “filmes são feitos para públicos” – e mostrar que é possível realizar bons produtos com poucos recursos.

De fato, baixos custos e poucos recursos não inviabilizam a produção e nem impossibilitam boas realizações. Filmes feitos para a Próximos Olhares foram exibidos e premiados em outras mostras e festivais de cinema aqui e pelo país a fora, como o Festival de Vitória, a Mostra Produção Independente da ABD&C, o FECIN, o Cine MuBe, a Mostra Universitária de Curtas LGBT e a Mostra de Audiovisual Universitário da América Latina na UFMT.

“A mostra é o nosso primeiro teste com a tela de cinema. Saber que nossos trabalhos seriam exibidos em público e não se restringiriam às exigências das disciplinas foi um importante motivador em todo processo de concepção e produção do filme” diz Aline Lopes, diretora de “Reduto”, uma das três produções em curta metragem de ficção exibidas na sessão “Projeção” na 6ª Mostra. As outras duas foram “Guaiamu”, de Victor Neves, e “Um possível blues”, de Láisa Freitas.

Outro objetivo importante da mostra, que é uma ação do programa de extensão universitária vinculado ao Departamento de Comunicação Social (DepCom) e ao Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM), foi integrar as produções dos dois cursos. Tanto que as três produções exibidas na sessão “Projeção” foram realizadas por alunos do curso de Cinema e Audiovisual em parceria com o Grupo de Experimentação Sonora, (GEXS) projeto de extensão vinculado ao curso de Música.

Além dos três curtas, a 6ª edição da Próximos Olhares exibiu também, na sessão “Curto e Grosso”, 11 filmes de até quatro minutos narrados e montados em imagens fotográficas.

The end

Vale lembrar que a Próximos Olhares não pretendeu ser uma mostra competitiva, mas ser, sobretudo, de exibição da produção acadêmica em Cinema e Audiovisual. Mas os esforços para realizar a mostra têm sido demasiados, assim como a exigência de disponibilidade e dedicação dos envolvidos. Outras questões de cunho institucional inviabilizam a realização de mostras futuras, que de qualquer jeito deixa um saldo positivo para os cursos de Cinema e Audiovisual e de Música e para a própria universidade, pela oportunidade de dar resposta à sociedade daquilo que é produzido em seus cursos e em seus campi. Vai deixar saudade.

 

Foto: cena de “Reduto”, de Aline Lopes

Sunday Sale, 2ª edição: mais comida, mais diversão e arte no centro da cidade

Sunday Sale, 2ª edição: mais comida, mais diversão e arte no centro da cidade

 

Bom ver quando a segunda edição de uma boa ideia vem ainda melhor. Bom ver boas ideias sendo executada com entusiasmo por suas produtoras e curtida por uma galera ainda maior e mais animada. Assim foi a segunda edição do Sunday Sale em Vitória que lotou os espaços do Guananaaí Hostel, no centro da cidade, no último domingo, com exposição e comercialização de produtos de marcas locais, oficina criativa, pocket show, exposição de arte, performances, gastronomia e bar.

E melhor ainda é saber que o Sunday Sale se torna agora permanente no calendário cultural e entra para a agenda de eventos da cidade. A ideia é realiza-lo de dois em dois meses, segundo a idealizadora do evento, Carolina Liczbinski. Nada mais justo. Estava bom de ver tanta gente jovem e bonita circulando pelos aposentos do Guananaaí e pelo quintal lateral do casarão que abriga o hostel. A não ser pelos andares de cima, onde ficam os quartos dos hóspedes, cada canto da casa tinha um expositor, um bar, um drink e música, muita música curtida por uma gente descontraídos em suas sandálias de dedo ou rasteirinhas. Nada de afetação, o público que frequenta o centro não é dado a isso.

Segundo a produtora e curadora do evento em Vitória, Kamilla Albani, a proposta do Sunday é divertir e agradar a muitos gostos e dar espaço para produtos e iniciativas criativas. Da produção artesanal de vestuário, papelaria, customização de roupas e bicicletas, gastronomia vegana e vegetariana e à bebida artesanal e à música autoral. Enfim, a proposta do evento parece mais próxima de um público mais ligado ao consumo de produtos e dietas alternativas e com espaço para receber a produção autoral de artistas locais e outros que vieram especialmente para o evento, como o caso do grupo Dr. Swing, formado por músicos sul americanos que tocam nas ruas e bares do Rio de Janeiro. Dos locais, André Prando e a dupla Júlia Papel e Isadora Dalvi deram o tom do som do evento.

Noite adentro

O Sunday Sale é, enfim, um evento que parece ter encontrado um público perfeito em Vitória. Pelo menos foi a impressão que deixou para mim. E desta vez ainda mais forte, pois se na primeira edição, realizada em agosto e registrada aqui neste blog, o público aderiu com força, desta vez ainda mais, principalmente no fim da tarde e início da noite, quando o fluxo de gente só aumentava. Então que seja bem vinda a próxima edição, que deve ocorrer em janeiro.

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Melhor que palavras, imagens que dão um pouco do clima do que foi a segunda edição do Sunday Sale em Vitória.

Conexões Infinitas: a cena cultural e criativa que emerge no ES

LAB MUY Fabrício

Fabrício Noronha: conectando pessoas, arte e cultura

No mês de setembro, além do público consumidor habitual, circulou pelos corredores do Shopping Praia da Costa um público que esteve lá com outro propósito. Um público formado por pessoas que não foram às compras, mas subiram direto para o último piso de garagem do shopping. Foi lá que rolou o Estúdio Infinitas, que concebeu um espaço garagem para servir de palco para o som de bandas e artistas que navegam pelos mais diversos estilos musicais, do rap e do funk, do samba e do rock, do pop ao eletrônico. Passaram por lá Silva, André Prando, Fernanda Gonzaga, A Banda Mais Bonita da Cidade, O Terno, Regional da Nair, Bonde do Rolê, rappers e batalha de mc’s. Foram 18 shows que atraíram um público presente de cinco mil pessoas e mais de 900 mil pessoas alcançadas virtualmente.

Mas por que o Infinitas foi parar em um shopping, depois de ter ocupado espaços como a Fábrica de Ideais e a Casa Lab., no centro da cidade, espaços que parecem mais de acordo com o tipo de público que segue as produções Infinitas, um público que não se vê no shopping com frequência? E por que não? Responde Fabricio Noronha, 31 anos, um dos curadores do Estúdio Infinitas. Para ele, o convite do Shopping sinaliza uma abertura da cidade fechada e autossuficiente que caracteriza os shoppings centers, para a cidade aberta onde circulam todas as pessoas, todas as artes, todas as culturas.

Pense em conexões. Este é o sentido. Conectar pessoas, conectar propostas, conectar e realizar os potenciais criativos que se manifestam nos espaços diversos das cidades, em diferentes países, pelo mundo.

Conexões glocais

O convite do Shopping para a curadoria do evento musical não foi à toa. O Infinitas é uma multiplataforma cultural que atua nos diversos campos da comunicação e da produção, circulação e difusão de conteúdos culturais. Rádio, audiovisual, internet, shows e eventos culturais. Tudo ao mesmo tempo.  Pois é esta a marca das produções Infinitas. Enquanto o evento acontece nos espaços reais, transmissões ao vivo são realizadas via internet para um público participante ainda mais amplo.

O modo de fazer revela uma nova concepção da produção cultural que vem acontecendo no estado, no país e no mundo. É uma concepção antenada com as conexões que o tempo atual nos permite. Arte, comunicação e cultura, gente aqui e gente lá, juntos ou separados, mas fundamentalmente conectados em redes. Redes que sempre existiram, mas que agora são  estendidas pelas possibilidades tecnológicas que nos ligam virtualmente. Daí o termo Glocal, que dá sentido ao que pode ser ao mesmo tempo local e global, que ocorre lá fora e é acessado aqui, ou vice-versa. “A ideia é compartilhar conteúdos e fomentar o diálogo entre agentes culturais, além de abrir e adaptar espaço para receber novas propostas artísticas”, resume Fabricio.

O evento do shopping é apenas uma das atividades do Infinitas, projeto do Lab. Muy, produtora que tem como sócios Fabricio, Rimaldo Sá e Vitor Lopes e que atua nas áreas de educação, comunicação, arte e cultura. A criação do Lab. explica a própria gênese do trabalho que marca as novas experiências de produção cultural e o modo de operar de artistas, produtores, fornecedores e patrocinadores, enfim, agentes que vêm fazendo a cena cultural capixaba. O Lab. Muy nasceu da articulação entre grupos de pesquisa na universidade e também junto aos coletivos criativos que surgiram nos primeiros anos do século XXI com uma nova proposta de realização colaborativa e gestão coletiva da produção cultural.

Festivais multiculturais – diálogos possíveis

Enquanto o Estúdio Infinitas no Shopping Praia da Costa focou, sobretudo, sobre shows musicais, os festivais realizados pelo Infinitas estão mais um grande evento ou feira cultural do que para um espaço de exibição. A Casa. Lab Infinitas e a Fábrica. Lab Infinitas, realizados 2013 e 2014, abriram espaço para seminários, laboratório, oficinas, exposições e shows de música e dança. “Não queríamos um festival naquele formato engessado de pouca interação entre quem faz e quem assiste. Queríamos algo múltiplo e aberto às experimentações e que permitisse um diálogo entre diferentes manifestações artísticas da cultura daqui e de fora e destas com o público, real ou virtual. A ideia é abrir o conhecimento e estimular uma reflexão sobre a cultura que fazemos e vivemos.”

O evento realizado na Fábrica de Ideias, por exemplo, além dos shows de música de artistas como André Prando, Alice Caymmi, Rodrigo Amarante e Guilherme Arantes, serviu de espaço de exibição e reflexão sobre a arte do Passinho, a manifestação cultural que tomou conta das periferias urbanas e é expressão da criatividade em dança, música e desafio poético. Oficinas literárias, exposição de arte e artesanato, culinária, laboratório de linguagem digital e música eletrônica, dão uma pequena mostra do cardápio do que o projeto Infinitas propõe como forma de realizar a produção artística e cultural no estado. Para Fabricio, “não se trata apenas de exibir, mas, sobretudo, refletir sobre cultura contemporânea e compartilhar arte e conhecimento”.

Um mundo sustentável

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Fabrício Noronha na sede do Lab. Muy

Ele acredita que a abertura do Shopping Praia da Costa para um evento realizado por uma iniciativa como o Infinitas mostra sensibilidade de seus diretores para o diálogo com a cidade aberta e uma compreensão de que vivemos em rede, em uma sociedade que é coletiva e diversificada. Para Fabricio, o isolamento apenas contribui para incendiar as polarizações políticas e sociais que temos experimentado hoje no país e nas cidades brasileiras. “Precisamos pensar em formas sustentáveis e harmoniosas de viver e conviver”. Ele acredita que para isso, é preciso estabelecer um diálogo e a troca de conhecimento entre os diferentes atores, sejam culturais, sejam políticos ou sociais.

Para quem quiser mais informações sobre o projeto Infinitas, basta acessar: www.infinitas.art.br. Quem quiser pode ainda acessar o programa diário que o projeto mantém na Rádio 104.7.

Para informações sobre o Lab. Muy, acesse: www.labmuy.cc

Fotos do Fabrício por Syã Fonseca

Sunday Sale, celebração cultural e consumo sustentável no centro da cidade

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No domingo, 16, Vitória recebeu a primeira edição do Sunday Sale na cidade, evento que é ao mesmo tempo feira comercial e festa cultural de incentivo e promoção de marcas locais e projetos da economia criativa, além de espaço de exposição de artistas independentes, músicos autorais e oficinas de criação. Foram 28 expositores de roupas, calçados, acessórios, itens de decoração, design, livros, discos e arte plástica, reunidos num dos belos casarões que o centro de Vitória preserva e que desde o ano passado abriga o Guanaaní Hostel. O público que compareceu para prestigiar e consumir moda, arte e cultura, cerca de 400 pessoas, era predominante jovem, como tem sido em eventos que vêm sendo realizado no centro por gente também jovem.

A proposta do Sunday Sale é parecida com o Mercado Mundo Mix, surgido em meados dos anos 1990, e que abriu espaço para exposição e venda de produtos das novas marcas ainda não inseridas no mercado comercial. Mas diferentemente deste, o Sunday Sale quer propor e incentivar o consumo sustentável, além de celebrar arte e cultura. “Não se trata apenas de promover marca, mas criar uma cultura de sustentabilidade. Os produtos aqui expostos têm essa característica”, diz a artista plástica Kamilla Albani, uma das produtoras do evento em Vitória.

Coletivos e independentes

Thais Rodrigues, do Coletivo AIO, por exemplo, encontra muito das matérias primas básica de sua produção no descarte dos moradores de Jardim da Penha, onde mora. Há poucos dias encontrou teclados de computadores. Vão virar porta copos. As luminárias coloridas que expôs no Sunday são feitos de cano de PVC e as almofadas, de sacos de grãos para exportação. Mas Thais vê eventos como Sunday como solução para circulação produtos e de troca e interação entre os expositores. “Novas ideias e parcerias podem surgir nesses encontros”, diz. Ela acredita ainda que o contato direto entre produtor e consumidor é enriquecedor para o primeiro, que pode descobrir tendências de consumo, e para o segundo, que adquire produtos mais em conta, sem intermediários, algumas vezes podendo ser customizados.

Outro aspecto interessante que se pode constatar no evento é quantidade de gente produzindo coletivamente. Mais da metade dos expositores ali presentes faz parte de coletivos criativos, uma nova proposta de produção e gestão compartilhada de negócio. Essa tem sido uma tendência entre produtores e criadores. “Facilitamos nosso negócio e unimos esforços, mesmo que cada um realize produto próprio”, diz o estilista Tiago Manauará. “E a troca de ideias é enriquecedora”, completa Ériko Artur, parceiro de Tiago no Coletivo Manga Rosa, que aliás fazia no Sunday a primeira exposição coletiva de produtos. “Temos feito coisas juntos, mas o Manga Rosa está nascendo hoje e aqui”, informou Tiago, que expunha suas confecções.

Fora dos espaços e eventos de exposição, a forma de comercialização dos criadores é a internet.

Além dos expositores e seus produtos, o evento ofereceu ainda corte de cabelo e barba (e  como estão barbudos os jovens hoje em dia), tatuagem, massagem, música ao vivo e nas carrapetas, comidas, bebidas e drinks, porque é assim que se faz a festa.

Carol na estrada

O Sunday Sale é um projeto itinerante, iniciado em pubs de Porto Alegre há pouco mais de um ano. Esta é a sua quarta versão e a primeira em um hostel, tipo de lugar ideal para evento, segundo sua idealizadora Carolina Liczbinski, 21 anos de vida e milhares de quilômetros de estrada. “Os hostels costumam oferecer o espaço ideal para este tipo de feira, que é ao mesmo tempo celebração cultural e consumo sustentável. E isso não só pelo espaço em si, mas também pela própria filosofia deste tipo de estabelecimento, em geral gerido por pessoas abertas à novidade.”

Carol já está de partida. Daqui ela segue rumo ao norte, mais precisamente para a Bahia, onde pretende realizar mais uma edição Sunday Sale. De lá, leva o evento para Belo Horizonte, no dia 20 de setembro, no Samba Room Hostel. Ela escolhe as cidades por gosto e curiosidade. Foi assim que veio dar em Vitória. Quis conhecer a cidade. O motivo? Apenas porque não conhecia. A decisão deixou amigos perplexos, pois veem Vitória, ou melhor, o Espírito Santo, como “aquele fim de mundo”. Vitorinha não merece. Carol concorda e acha que aqui seria um bom lugar para morar, no dia que ela cogitar morar em algum lugar e não em vários, como tem sido desde o dia que jogou para alto carro, apartamento, namorado e cachorro e pôs o pé na estrada. “Viajar é preciso”, acha ela.

Mas não há motivo para preocupações. Enquanto Carol segue Brasil a fora, Kamilla assume a produção do Sunday Sale por aqui. A segunda edição já está garantida. Ocorre daqui a dois meses. Falta apenas marcar a data.

Nestor Gomes, uma ladeira e muitas e boas ideias

                           “Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, na alma dos poetas, no cérebro das multidões.”                                                                                                                                            (João do Rio)

 

A Rua Nestor Gomes é na verdade uma ladeira. Na verdade, duas ladeiras, uma que sobe da Rua Duque de Caxias até o largo do Palácio e outra que desce dali em direção à Avenida Florentino Avidos, do outro lado. Esta rua-ladeira em forma de arco reúne em si e ao seu redor prédios, monumentos, escadarias e memórias que são testemunho e marca da formação cultural e da história da cidade de Vitória e do estado do Espírito Santo. É lugar, como disse Rafael Gaspar, do Coletivo Expurgação, que conta muito da identidade capixaba.

A rua foi originalmente chamada de Ladeira do Chafariz, numa referência ao chafariz hoje seco da Praça João Clímaco, na parte alta do arco. Era então uma viela estreita que foi urbanizada na época em que o governador que lhe dá nome mandou botar abaixo o casario antigo da cidade alta, atitude que o povo contente considerou uma boa ideia. Daí o novo logradouro adotou o elogio e a ladeira passou a ser conhecida como Ladeira da Boa Ideia. O nome, não o motivo que o originou, talvez possa ser considerado uma premonição ou uma vocação. Ou as duas coisas. Segundo Fernando Tatagiba, nos anos 60 a ladeira, nomeada Rua Nestor Gomes desde o final da década de 20, era ponto de agitação cultural da cidade por conta da Livraria Âncora, local de encontro de escritores e da intelectualidade capixaba da época.

A livraria ainda existe, mas agora é outra e tem outro nome. Chama-se Livrara Cultura Capixaba e é uma das instituições que formam o Corredor Criativo Nestor Gomes, uma iniciativa que vem reafirmar, ou resgatar, a vocação da ladeira como lugar de encontros e agito cultural. A rua é endereço de 17 instituições cujo negócio se insere na economia criativa, setor geralmente associado à produção de bens culturais, mas que envolve ainda moda, tecnologia, internet, arquitetura e design e tudo mais que é gerado pela capacidade humana de imaginar, criar, inventar, inovar. São instituições cujo negócio é gerar boas ideias e fazê-las acontecer.

São 17 instituições que coincidentemente foram se instalando na Nestor Gomes nos últimos dez anos, atraídas pelo baixo custo dos imóveis no centro de Vitória e pela riqueza do patrimônio físico e histórico da rua e seu entorno, que lhe confere uma atmosfera inspiradora. E mais recentemente, o centro tem se tornado lugar de moradia e circulação de um público mais aberto e curioso a novas propostas artísticas e ofertas culturais. Pois é um pouco disso que a Rua Nestor Gomes e as instituições ali presentes vêm oferecendo.  Por ser endereço de instituições criativas, a via tem sido palco e moldura de eventos artísticos e ações culturais como o Ensaio Aberto e o Cine Expurga, do Coletivo Criativo Expurgação (matéria do post anterior), o Beco das Pulgas, do Instituto Quórum, das esquetes teatrais do Teatro Folgazões, exposições com as criações de moda do Atelier King & Tacchetto, eventos que em geral ocorrem simultaneamente como forma de movimentar e trazer o público de volta ao centro histórico.

APL, alternativa ao fomento cultural

A reunião de empresas de um mesmo setor em um mesmo lugar é não só uma coincidência feliz como também condição apropriada para a conformação de um arranjo produtivo local (APL), que é caracterizado, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, por aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais com foco específico de atividade econômica e que atuam de maneira colaborativa e interativa, de forma a favorecer e ampliar a troca de conhecimentos, as formas de acesso ao mercado e a geração de inovações. O Corredor Criativo Nestor Gomes é uma das 27 APLs no âmbito da economia criativa identificadas no país pelos ministérios do Desenvolvimento e da Cultura e o único do estado. O fato é relevante uma vez que o reconhecimento favorece a elaboração de projetos coletivos, a concorrência a editais e seleções públicas, apoio institucional e acesso a linhas específicas de financiamento, o que pode dar maior peso aos projetos gerados no âmbito do Corredor na concorrência em editais públicos e privados de fomento à cultura.

E esse talvez seja o caminho para resolver uma das maiores queixas dos produtores capixabas, que não raramente têm seus projetos preteridos em relação aos projetos vindos principalmente do eixo Rio-São Paulo. A política de editais é parte do processo de quem faz cultura no Brasil, pois infelizmente o setor cultural do país, em sua maior parte, não se sustenta sem apoio e suporte institucional e políticas públicas que possam incrementá-lo. E na disputa por apoio e financiamento, o balanço tem sido negativo para o Espírito Santo. “O estado sempre ficou a margem. As grandes empresas que faturam e muito aqui, como Petrobras, Vale, Acelor, têm sede no Rio de Janeiro ou São Paulo e é lá que investem”, lamenta Aline Yasmin, do Instituto Quorum. Segundo ela, mesmo as empresas capixabas dão pouco apoio à cultural local. “Elas preferem bancar projetos de artistas consagrados, que dão retorno comercial e imediato, do que apoiar o desenvolvimento cultural do seu próprio estado”, diz Aline.

Um novo significado no centro

A formação de uma APL criativa pode também estimular o consumo da produção cultural local e abrir o mercado para outras possibilidades de criação artística. Entre os parceiros envolvidos na consolidação da APL Nestor Gomes, estão as secretarias estadual e municipal de cultura, a secretaria de desenvolvimento do estado, Serviço de Apoio a Micro e Pequena Empresa (Sebrae) e Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo (Findes). Para Aline, a participação de entidades como a Findes é importante para que a iniciativa privada entenda o papel da economia criativa no desenvolvimento local, na geração de emprego e renda e para a requalificação e reapropriação do espaço urbano.

No centro de Vitória, apesar do incremento no movimento de pessoas e eventos, ainda se encontram áreas degradadas e abandonadas, propício a ser ocupada pela praga das cracolândias. Corredores e espaços criativos tem sido solução adotada em algumas cidades para recuperação urbana, não apenas pela requalificação de ruas, como também de prédios e bairros inteiros, como vem ocorrendo no centro do Rio de Janeiro e ocorreu em Berlim e outras cidades que enfrentaram a decadência de seus velhos centros. As experiências de arranjos produtivos têm se mostrado como boa solução para dinamizar e dar novos usos e ocupações à áreas decadentes, o que em geral é acompanhada pela recuperação e restauração do patrimônio físico. É outra contribuição que Lorena Louzada, do Expurgação, acredita que a APL Nestor Gomes pode trazer: dar novo significado, ou resignificar, o centro de Vitória.

Conexões globais

A consolidação de uma APL criativa é importante não só para fortalecer as redes de cultura locais, mas pode oferecer oportunidade de cooperação internacional entre iniciativas semelhantes comprometidas em investir na criatividade como uma propulsão para o desenvolvimento urbano sustentável e aumento da influência da cultura no mundo. Projetos como Grito do Rock, realizado pelo Expurgação em parceria com Coletivo Fora do Eixo, e o Espírito Mundo, do Instituto Quórum, que desde 2005 promove intercâmbio entre criativos locais e internacionais, conectam Vitória com a cena cultural independente que emerge em outros cantos do mundo.

A próxima edição do Espírito Mundo vai levar dez artistas capixabas para participar do Festival Espírito Provence, na França, durante o mês de agosto. Além de apresentação de trabalhos próprios, intercâmbio de conhecimento e troca de ideias, experiências como estas podem consolidar Vitória como cidade integrante do circuito cultural independente e incentivar o trabalho, a formação e mesmo a carreira internacional de artistas locais.

Foi numa dessas oportunidades que Yuri Salvador, fotógrafo e cinegrafista do Expurgação, depois de participar da edição 2013 do Espírito Mundo, resolveu ficar na Europa e estudar cinema. Agora corre mundo documentando o drama humano em áreas de conflito. Está no Oriente Médio, provavelmente cobrindo a tragédia síria. Talvez volte logo, talvez fique mais um tempo lá fora. Quem sabe das voltas que o mundo dá?

Coletiva mente, ou como fazer arte no centro da capital

O escritório ocupa o segundo andar de um sobrado de dois andares no numero 227 da Rua Nestor Gomes, centro da cidade. Por uma escada estreita se chega ao amplo salão no andar de cima, onde cinco jovens estão trabalhando. O sexto, Rafael Gaspar, é quem me recebe e me apresenta aos demais. São todos muito simpáticos e receptivos, tanto que a primeira pergunta que faço é respondida por todos eles. Um complementa a informação do outro e isso já me dá ideia do espírito e da energia da turma. A mesa cumprida e compartilhada que ocupa o centro do salão, a disposição dos móveis, os quadros, cartazes e desenhos nas paredes informam que o escritório é um local de trabalho coletivo de criação.

Mas ainda não é tudo. No andar superior há também um pequeno ateliê, para quando a criação necessitar de silêncio e concentração, além de cozinha e banheiro. O andar térreo foi adaptado como estúdio de gravação e cineclube, o que indica que o trabalho ali vai da criação à produção artística e à ação cultural. Estes jovens criam, produzem, distribuem e fazem circular bens e serviços criativos.

Estamos na sede do Coletivo Criativo Expurgação, uma empresa que é ao mesmo tempo produtora, agência de criação e espaço de eventos e difusão cultural, formada por profissionais que atuam como designer, videomakers, músicos, fotógrafos, artistas plásticos e visuais, produtores, programadores, roteiristas e comunicólogos, cujas competências percorrem praticamente toda a cadeia produtiva da criação e realização artística, audiovisual e publicitária.  São ao todo nove sócios entusiasmados com o trabalho e com o processo coletivo de criação e produção, de acordo com a filosofia “buzz”, expressão criada pelos economistas ingleses Michael Storper e Anthony Venables para designar “os processos que ocorrem ao mesmo tempo no mesmo lugar, e acabam gerando mais informação, ideias e inspiração”. É uma filosofia de trabalho que predomina em empresas inovadoras que apostam na energia do conjunto como estímulo criativo.

Essa é a gênese do Expurgação, uma ideia que foi tomando forma entre jovens universitários interessados em música, cinema e design, que nos idos de 2002 viviam e conviviam numa casa coletiva no Bairro República, onde havia um estúdio de música. A música levou ao videoclipe, ao cinema, fotografia, artes plásticas e gráficas e à busca constante por linguagens inovadoras para a criação artística.

“Éramos estudantes de curso de Desenho Industrial da Ufes, que estava recém instalado. Como o curso era ainda pouco estruturado, a casa funcionava quase como um laboratório de pesquisa e experimentação”, lembra Alexandre Barcelos, músico, cinegrafista e designer de som. Esse ambiente de colaboração ajudou cada um a descobrir outras vocações e desenvolver novas aptidões criativas com o mesmo espírito coletivo que depois foi levado para o Expurgação, formalmente oficializado em 2007.

A cidade, palco e moldura

O coletivo desenvolve projetos comerciais, como filmes publicitários e institucionais para clientes empresariais, produção musical e videoclipes para artistas e bandas locais, além da prestação de serviços profissionais como forma de dar sustentabilidade à empresa. E é um bom negócio, que garante ao Expurgação uma cartela de 50 clientes e a contratação do trabalho profissional de seus integrantes.

Mas se o trabalho comercial e a prestação de serviços garantem sustentação ao Coletivo, são as produções mais autorais e os eventos culturais e intervenções urbanas que melhor traduzem a marca criativa e produtiva do Expurgação, uma empresa que afinal é formada também por artistas e produtores, que apesar da experiência, são ainda jovens com anseio de criar sua própria obra e buscar um diálogo constante com outros movimentos e artistas na cidade, no país e no mundo que desenvolvam processos inovadores de criação e produção cultural. São muitas as iniciativas do coletivo, sobretudo no campo da música, do audiovisual e da produção de eventos que têm a cidade e a rua como palco e moldura.

O Ensaio Aberto é um exemplo. Todo mês o Expurgação abre as portas de seu estúdio de gravação para a apresentação de bandas e artistas que vêm emergindo da nova cena musical capixaba. Já se apresentaram no evento bandas como Sporro Grosso, The Mudy Brothers, Os Pedrero, A Mesa, Cheap Blues e Babi Jaques; músicos como Fabrício, André Panda, Edson Sagaz e Fespaschoal, que além de músico é produtor no Expurgação. Em março do ano passado, o evento foi realizado dentro da programação do Grito Rock Mundo, idealizado pelo Coletivo Fora do Eixo e que é ao mesmo tempo um festival de música e uma rede de produtores, técnicos de som e músicos interligados na proposta de desenvolver a cadeia produtiva da música através de intercâmbios e da realização de eventos que ajudem a divulgar a obra de jovens artistas.

Os eventos realizados pelo Expurgação em geral ocorrem paralelo ou em parceria com outras iniciativas que acontecem no centro da cidade, sobretudo na Rua Nestor Gomes e seu entorno. O Grito do Rock, por exemplo, ocorreu paralelo ao Beco Cultural das Pulgas, iniciativa do Instituto Quórum, que ocupou o quarteirão final da Rua Duque de Caxias com uma feira de produtos culturais, artesanato e performance de músicos e atores capixabas. Nesses eventos, o coletivo realiza também projeção de vídeos de sua própria produção, que são exibidos nos muros e paredes dos edifícios das ruas.

Polo irradiador de arte e cultura

São iniciativas realizadas de forma colaborativa entre as instituições da economia criativa presentes na Nestor Gomes e através do patrocínio obtidos em editais de apoio à cultura e à circulação de bens e produtos culturais. Mas Rafael lamenta a dificuldade que é viver apenas de cultura no Brasil e mais ainda no Espírito Santo. “Nós não temos mercado para o nosso produto cultural, não temos mercado para o cinema capixaba.” Os canais de circulação e exibição se restringem praticamente às mostras da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), mostras universitárias e ao Festival Vitória Cine Vídeo, que ocorre anualmente na cidade. “Mas a frequência é de um público restrito, formado por pessoas que de uma forma ou de outra estão envolvidas neste mercado.”

Lorena Louzada, produtora e administradora do coletivo, acha que é necessário que haja políticas públicas e apoio institucional que sejam voltados à formação de público e de iniciativas públicas que capazes de facilitar a circulação e consumo de bens e produtos artístico e cultural.  “Sentimos falta até de providências simples, como iluminação, limpeza e segurança nos dias de evento. Muitas vezes, somos nós mesmo que temos que providenciar quase tudo.”

Rafael acredita que região central de Vitória é o lugar ideal para ser palco do incremento cultural não só da cidade, mas de todo o Espírito Santo. “O centro de Vitória tem uma atmosfera inspiradora. É rico em patrimônio histórico, artístico e cultural. Este lugar conta muito da identidade capixaba,” diz. Ele acredita que a presença de instituições criativas é um estímulo a mais para tornar o centro um lugar criador e irradiador de arte e cultura não só da cidade, mas de todo o Espírito Santo e em conexão com o Brasil e o mundo, tornando Vitória modelo de cidade criativa.

Iniciativas neste sentido têm mobilizado os integrantes do coletivo. O Expurgação é uma das 17 instituições inseridas no setor da economia criativa que compõem o Corredor Criativo Nestor Gomes, assunto do próximo texto.