III FLIC: resistência e insistência na promoção da arte e da cultura do Espírito Santo

III FLIC: resistência e insistência na promoção da arte e da cultura do Espírito Santo

O post da semana está sendo publicado com um atraso proposital, para dar tempo de acompanhar a abertura da III Feira Capixaba do Livro que começou ontem, quarta-feira, 10 de maio, e segue até domingo, 15, na Fábrica de Ideias, em Jucutuquara. Com programação diversa, o objetivo da Feira é aproximar autores e leitores e formar público para a literatura de uma maneira geral, e para a literatura produzida no Espírito Santo, em particular. O cardápio é vasto como é propósito de uma feira. Mas o primeiro dia serviu para dar uma ideia dos dilemas e desafios que envolvem a produção literária no Espírito Santo. Serviu também para uma constatação: a necessidade de afirmar a cultura do capixaba não só no país, mas no próprio estado. “Precisamos fazer o nosso lugar, senão não existiremos” como colocou Rogério Borges, secretário de Cultura da Ufes, na primeira mesa de debates da Feira, sobre a necessidade de apoiar iniciativas que incentivem a difusão e o reconhecimento da expressão cultural do Espírito Santo, aqui e acolá.

Esta foi a principal questão colocada no primeiro dia do evento. E não é uma questão pequena, pois diz respeito à própria realização da Feira, que persiste numa terceira edição pela insistência, dedicação e idealismo de suas organizadoras, Regina Menezes, Esther Abreu e Suzi Nunes, que com pouco apoio e sem nenhum patrocínio, conseguem de novo atrair e reunir atores importantes no cenário cultural e literário capixaba com a disposição de debater, palestrar, bater papo, expor obras e entreter com literatura e arte o público que comparecer à Fábrica de ideias neste fim de semana.

Não é pouca coisa num país que lê pouco, num estado pouco expressivo no cenário nacional e sem o interesse e a atração de patrocínio público e privado, mesmo com o evento tendo sido aprovado na Lei Rouanet e apto para captação recursos. Não é pouco coisa num país deficiente em educação e de baixo consumo cultural. “Em nosso estado há uma vasta produção não só literária, mas artística de uma maneira geral, mas que é pouco conhecida pelo próprio capixaba”, diz Regina, que acredita que o papel da Feira é justamente dar visibilidade à literatura e arte produzida em todo o estado do Espírito Santo, além de debater o papel dos agentes na promoção da cultura capixaba.

Entraves e desafios da comercialização

Uma das questões mais urgente diz respeito à comercialização de obras de autores do estado. Como boa parte da literatura aqui produzida é publicada via incentivo fiscal ou apoio de órgãos governamentais, cria-se uma dificuldade de comercialização de livros por livrarias, já que estas não podem emitir nota fiscal, uma vez que a edição das obras é isenta de impostos. “Este é um problema que estamos levando à secretaria estadual de Fazenda e à Assembleia Legislativa, de forma que possamos pensar uma solução a este entrave e assim possibilitar colocar nossos livros à disposição de um público mais amplo” e não só aquele que frequenta bibliotecas públicas, o destino final da maioria da literatura produzida aqui, informa Regina.

E boa literatura e bons autores é o que não tem faltado no estado. Desde que foram lançados em 2009, os editais da Secretaria de Estado da Cultura permitiram a edição de 99 obras de autores novos ou reeditados, como informou o subsecretário de cultura do estado, José Roberto Santos Neves.

Outro desafio é sensibilizar as prefeituras municipais para apoiar a ampliar a participação de autores locais. Para dar conta do propósito, as organizadoras percorreram mais de vinte municípios capixabas promovendo uma prévia local da Flic, de forma a atrair público e autores locais para o evento principal que ocorre agora na Fábrica de Ideais. Nestas andanças pelo estado, bancada pelas próprias organizadoras, sobressai, sobretudo, o apoio das academias de letras municipais que não só acolhem o evento localmente, mas participam efetivamente da programação em Vitória. Este ano, por exemplo, participam da Feira as academias de letras de Vitória, Vila Velha, Castelo, Marataízes, São Mateus, São José do Calçado, Iúna e Aracruz.

“Nosso trabalho é um trabalho de formiguinha, porque acreditamos que fazemos boa literatura no Espírito Santo”, diz Regina, que assim como os demais participantes, estão na Flic por questão e vontade própria, isto é, voluntariamente.

Novos apoios

Apesar das dificuldades apontadas, algumas instituições do estado mostram interesse em apoiar a permanência do evento no calendário cultural do estado. A participação de representantes de órgãos de governo do estado e dos municípios tem apontado neste sentido. Segundo Regina, o Banestes e o Sicoob já manifestaram interesse em apoiar a próxima edição, que pode ocorrer no campus da Ufes em Goiabeiras, segundo Rogério Borges. “Podemos oferecer toda uma infraestrutura para receber a Feira, que poderá usufruir dos auditórios, teatro, cinema e salas que a universidade dispõe”.

Vale informar que a terceira edição da Flic é uma realização da Academia Espiritosantense de Letras, Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Feminina Espirtosantense de Letras, com apoio da Prefeitura Municipal de Vitória.

Programação

Para que estiver interessado, segue link com a programação completa da III Feira Literária Capixaba:

http://media.wix.com/ugd/2d94ae_eaa1b00d4ce14a6a9b2d1335aa5242e6.pdf

Nota sobre 23 títulos e um evento

Ontem, no Palácio Anchieta, um público de mais de mil pessoas prestigiou a noite de lançamento dos livros dos autores capixabas contemplados pelos editais da Secretaria de Cultura do Estado, modalidade autor estreante, edição 2014 e 2015.

Mas este post, que será breve, trata mais da cerimônia do que dos livros e seus autores, que estes são 23 e não caberiam no tamanho adequado (ou recomendado) de um texto para blog. Mas como este é um bom assunto, alguns deles – livro e autor – poderão ser comparecer aqui nesta tela futuramente.

A nota ruim

Então, a cerimônia.

Dados os pronunciamentos de praxe das autoridades, o público de mais de mil pessoas foi demasiado, uma vez que a ideia era que cada um autografasse os exemplares de seus livros. Uma ideia até simpática, mas que se mostrou se não impraticável, pelo menos nada eficiente. Ficou nítido o incômodo e a tensão dos autores com tanta gente em volta das mesas ávidas por um exemplar e uma dedicatória. Faltou livro, faltou um pouco mais de organização.

Nem todos ali presentes conseguiram obter os exemplares. Eu até dei sorte. Consegui exemplares de dez títulos lançados ou relançados na noite, sem contar “Chorume”, que por antecipação já havia recebido das mãos do autor, Tiago Zanoli. Melhor seria ter mantido a logística das cerimônias anteriores de distribuir kits em sacolas com um exemplar de cada título. Quem se interessasse que buscasse depois o autor e a dedicatória.

A nota boa

A nota boa da noite foi ver um público de fato interessado e descontraído circulando pelo Salão São Tiago para prestigiar a nova literatura capixaba – aliás, a nova e a mais antiga, já que foram lançadas novas edições de livros de Fernando Tatagiba, Amylton de Almeida e Deny Gomes, autores reconhecidos das letras capixabas.

E a nota ainda melhor é saber que aqui na terra capixaba temos autores fazendo boa literatura, autores que merecem ser lidos.

CHORUME, primeiro romance de Tiago Zanoli. Para ler e cheirar.

CHORUME, primeiro romance de Tiago Zanoli. Para ler e cheirar.

 

Ele é fotógrafo e jornalista, apesar de dizer que desta última atividade já estar recuperado. Tiago Zanoli tem 37 anos e é escritor. Também. Na verdade, ser escritor foi o que desejou desde sempre. Desejo realizado na forma do romance novela “Chorume”, seu primeiro livro, lançado recentemente e que ele distribuiu a amigos e interessados na noite de ontem, na calçada do Grapino Rango Bar, na Rua Gama Rosa, centro.

“É um livro para cheirar”, diz o autor. E é o que o título e a capa sugerem, mas tem a ver também com a vida do personagem, “um cara escroto”, como Tiago o definiu na dedicatória que escreveu no meu exemplar, movido a pó, álcool, sexo e contravenção e que narra sua saga em primeira pessoa. É uma saga vertiginosa de um personagem sem nome, mas cheio de ação, desejo e vacilo, como pode ser sentido já nas primeiras páginas do primeiro capítulo, intitulado “cheirações de narizinho”, a propósito. Mais eu não conto e nem posso, pois ainda não terminei de ler o meu exemplar.

O processo de criação

A inspiração para o primeiro romance veio exatamente do rastro de cheiro deixado pela passagem do caminhão de lixo. Veio de um episódio que ele levou para o livro e para o personagem. Veio de uma manhã em que Tiago foi despertado pelo suor do lixo [que] escorreu e se entranhou na rua, deixando no ar, por horas, seu desagradável perfume. “A palavra chorume ficou em minha cabeça e foi a partir dela que criei história e personagens”, diz. É assim que Tiago cria, a partir das vivências da rua, dos bares, dos bêbados, “da conversa com o flanelinha que te fila um cigarro”. A rua é o seu motivo e inspiração. A rua e a contravenção.

A princípio o livro teria a forma de contos. Mas por sugestão do amigo e escritor Saulo Ribeiro, que achou que a história caberia melhor como novela e não dispersa em contos, transformou-se em um romance de 110 páginas. As dicas de Marcelino Freire dadas durante oficina literária na Ufes, também ajudaram Tiago a lapidar o texto do romance. E as leituras de autores como Reinaldo Moraes, autor de “Pornopopéia”, e Lourenço Mutarelli, que escreveu “O cheiro do ralo”, o inspiraram. Henry Miller e Rubem Fonseca também. E Reinaldo Santos Neves, que ele entrevistou quando repórter do 2º Caderno de A Gazeta e que considera um dos maiores autores brasileiro.

Em obra: novos projetos, novas escrituras

A criação de Chorume foi possível depois que o projeto do livro foi aprovado em edital da Secretaria de Estado da Cultura (Secult-ES) de 2014. Dos mil exemplares impressos, 600 serão distribuídos em bibliotecas públicas e em bibliotecas de escolas públicas do estado. Outros 200 serão distribuídos em evento da Secult, a ser realizado ainda este mês provavelmente, e outros 200 estão sendo distribuídos pelo próprio autor, como ocorreu na noite de ontem.

Atualmente Tiago Zanoli está ocupado em escreve um roteiro para filme de longa metragem com o cineasta Edson Ferreira, diretor de “Entreturnos”. Será mais um projeto seu contemplado por edital da Secult. E faz anotações para um livro de contos e um romance. A alma e o perfil dos personagens estão sendo organizados em pastas, onde ele guarda ideias e inspirações. Alguns sobreviverão, outros não. É assim que ele cria.