Nenna – parte II: early years na ilha

Nenna – parte II: early years na ilha

A obra já foi muito comentada, refletida, festejada, mas não há como nem porque evitar mencioná-la de novo quando se quer falar da trajetória artística de Nenna. Não só porque o Estilingue Gigante representou “a primeira manifestação pública de vanguarda nas artes plásticas do Espírito Santo”, como escreveu o poeta, músico e jornalista Arlindo Castro em artigo na edição de O Diário de 19 de julho de 1970, e “entrou para a crônica da cidade”, como lembrou Setembrino Pelissari, prefeito de Vitória na época, em depoimento em “A pedra que o Estilingue lança”, documentário realizado em 2010 por Ana Murta. Mas é preciso lembrar a obra principalmente porque o Estilingue Gigante diz muito sobre a arte e a estética de seu criador, desde então.

Foi na madrugada do dia 14 de julho de 1970 que Nenna juntou um grupo de amigos,companheiros de ideias, anseios e juventude, para montar a obra numa das castanheiras que então contornavam a Avenida Saturnino de Brito, na Praia do Canto, Vitória. Pela manhã, depois de revestida de gesso e pigmento e acrescida com uma tira longa de plástico vermelho e preto, a árvore havia se transformado num estilingue gigante – arma ou brinquedo imenso para uns ou para outros transeuntes surpreendidos pela intervenção. O Estilingue causou a surpresa esperada na cidade que não contava sequer com uma galeria de arte para o artista expor seu trabalho. Mas isso não foi empecilho para quem iniciava carreira e já enxergava as muitas possibilidades na forma de fazer e expor arte para além das paredes de galerias. Nenna tinha 18 anos.

Na ilha

Para a professora e crítica de arte Almerinda da Silva Lopes, em “A poética de Nenna”, livro ainda inédito em que ela percorre com olhar crítico a trajetória do artista, o Estilingue Gigante foi uma criação respaldada nas práticas conceitualistas e experimentais que instigavam e inspiravam Nenna nos primeiros anos e que estavam em sintonia com o tempo poético e histórico que atravessava a cena artística no mundo e no Brasil. Mas não em Vitória.

No início dos anos 1970, essas ideias eram praticamente desconhecidas na cidade e no estado do Espírito Santo, que possuía uma única escola de artes, o Centro de Artes da Ufes, onde ainda predominava um pensamento que enxergava vanguarda no Surrealismo ao mesmo tempo que ignorava a iconoclastia de Marcel Duchamp, e professores que exigiam cópia exata dos objetos de referência nas aulas de modelagem ou reprodução fiel de paisagens nas aulas de pintura. “Se é para reproduzir, melhor usar uma câmera fotográfica, não é não?”, pensava Nenna.

E ele não fez por menos, usou fotografia e também vídeo, pigmento e plástico, elementos naturais e industriais e a tecnologia de novos meios, todo tipo de material e suporte para fazer a sua arte. Não estava interessado em copiar o que já estava feito e que não exigia desafio nem invenção. Largou a escola e buscou novas fontes de formação e informação e outros interlocutores.

Mergulhou no ambiente da contracultura que, por incrível que pareça, reverberava em Vitória e inspirava uma turma de jovens ansiosos por novas linguagens e manifestações da arte. Jovens que tinham a cabeça feita por Marshall MacLuham, Allen Ginsberg, Glauber Rocha e Jean-Luc Goddard e pelas revistas de arte disponíveis na biblioteca do IBEU, como Arte na América e Art News. “A gente aprendeu muito lendo”, lembrou Luizah Dantas, colega de Nenna no curso do Centro de Artes da Ufes, em depoimento no documentário “A pedra que o Estilingue lança”.

Formação poética

Nesses primeiros anos, enquanto faz a cabeça junto aos amigos daqui – gente com a erudição de Arlindo Castro, com a poesia de Sérgio Régis, com a música dos Mamíferos e o canto de Aprígio Lyrio –, Nenna lê avidamente todo tipo de publicação que pudesse deixá-lo informado sobre a produção artística contemporânea. Viaja constantemente ao Rio de Janeiro, a capital federal da arte brasileira nos anos 60/70, tão perto e tão longe.

É nesse movimento que ele trava contato com a arte de Lígia Clark, Lígia Pape e Hélio Oiticica – com quem iria conviver durante o verão nova-iorquino de 1973 –, com a obra provocativa de Yoko Ono e a Pop Art de Andy Wahol, Robert Rauschenberg e Jasper Jones, criadores com propostas artísticas que seduziam Nenna.

O resultado de tanta pesquisa já se refletia no Estilingue Gigante, que trazia um conceito e uma proposta que iriam permear outros trabalhos de Nenna: a provocação ou convocação da participação ativa do espectador com a obra ou as interações de um com outro, “questão que interessava mais ao artista do que o produto final”, como anotou Almerinda Lopes.

Tradição, arte envolvente

O convite à interação sensível entre obra e espectador é uma das marcas da arte de Nenna, e não só essa. Mas em um único post não é possível dar conta de toda a força criativa do artista, então me apego aqui à marca da interação entre arte e espectador. E faço isso relembrando a mostra Meditações Extravagantes, a última que Nenna realizou no Brasil, em 2012 , antes de sua mudança para a França.

Relembro, especialmente, a sensível e emocionante Tradição, uma das oito obras da mostra. Tradição é uma obra de ambientação que só é percebida e sentida quando penetrada. Ocupou toda uma sala do Museu de Arte do Espírito Santo (Maes) e era vermelha, quente, intensa e surpreendentemente calma e meditativa. Homenagem ao folclorista capixaba Hermógenes Fonseca, a obra foi confeccionada em fitas vermelhas dependuradas em volta de um enorme tambor de Congo e preenchida por luz e som que remetiam à batida dos tambores, à música do violonista Maurício de Oliveira e às pausas silenciosas de John Cage.

Tradição foi confeccionada como um altar neobarroco e traz, segundo Almerinda Lopes, uma gama de referências culturais, materiais, tempo e memórias. A obra é também homenagem do artista à cultura da terra materna. Penetrá-la é sentir a ousadia e a vibração das cores das festas populares do interior do Espírito Santo “enquanto traço da identidade, afirmação e persistência cultural de um povo”.

Tradição é bela arte.

Foto de Jorge Sagrilo (2012)

Nenna, em transição

Nenna, em transição

Esse post serve para dar notícias de um amigo querido e para lembrar um pouco da trajetória de um artista altamente criativo. A primeira vez que o vi foi na praia de Manguinhos, onde eu estava com minha mãe e uma amiga de infância. Ele chegou com Rosalca, sua namorada então, e os dois se juntaram a nós. Foi a primeira vez que vi um homem de tanga, isso antes de Caetano e Gabeira. Acho que foi em algum fim de semana lá pelo início dos anos 70 e ele já era ousado. Agora ele não mora mais aqui e as conversas têm sido virtuais.

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Nenna mora na França, para onde mudou, casou e se tornou pai de Antoine, seu filho mais novo, nascido há seis meses em Angers, cidade na região do Vale do Loire, onde vive desde 2012 com Magali Rencien, mãe de Antoine. Neste mês de abril e até maio, ele estará cercado pela família. Juranda, sua filha, está em Angers com Clarice, a neta que comemorou quatro anos este mês. Rebecca, a outra filha, está para chegar. Elas vieram conhecer o irmão e tio recém-nascido. Nenna está feliz. “Os dias têm sido bons”, diz ele.

Ser pai nessa fase da vida é uma benção, não só pelo filho “lindo e com saúde”, mas pela segurança que Nenna experimenta hoje. E isso se deve ao encontro com Magali e à mudança para Angers, há cinco anos. Numa retrospectiva da vida, ele recorda que teve a primeira filha aos 20 e poucos anos e a segunda aos 40, mas em momentos incertos da vida difícil do artista que nunca cedeu às concessões fáceis, sejam de ordem éticas ou estéticas. Agora, aos 65 anos, em Angers, ele tem o aconchego, não só familiar e amoroso, mas da cidade e do país que lhe dão a segurança e as condições de trabalho que nem sempre encontrou como artista brasileiro e capixaba, especialmente. “Aqui a atividade artística é reconhecida e apoiada, tem papel importante na vida social. Não é uma atividade marginal. O material para a arte, as muitas publicações, os livros, as conferências, tudo é de primeira qualidade. E ainda temos a segurança cotidiana. Andamos tranquilos.”

Gestação

Esse sentimento de segurança se deve também ao momento do artista. Nenna está tranquilo, calmo e sem pressa. A não ser nos momentos do dia em que cuida de Antoine, ele segue em exercícios diários de pintura, escultura e edição de vídeo em um dos dois ateliers que mantém na cidade, enquanto amadurece o projeto da próxima exposição que pretende exibir daqui a dois anos ou um pouco mais, o tempo que a obra pedir.

Ele não dá muito informação sobre o trabalho, uma vez que ainda está em processo de criação e Nenna não quer se adiantar. “A obra vai mudando desde o momento em que começamos a pensar nela até a produção final.” Mas ele não faz por menos. De certo é que será apresentada em Paris e “não será menor que ‘Meditações Extravagantes, diz, em referência a sua última exposição, que ocupou os espaços do Museu de Arte do Espírito Santo (MAES) e a Galeria Homero Massena, entre abril e julho de 2012, Vitória. O conceito será o mesmo – instalação e ambientação –, mas a estética não. “O momento é outro”. Por isso ele nem cogitou exibir Meditações na França. “Não faz sentido”, diz Nenna. “Obras como ‘Tradição’ têm forte sotaque brasileiro” o que para ele tem a ver com o tempo, o lugar e os interesses que o moviam em outro momento. “Agora estou interessado em outras estéticas.”

A obra e o espaço da obra

O processo de criação para o novo trabalho tem levado Nenna a visitar locais de exposição na capital francesa – que fica a cerca de 300 km de distância de Angers – em busca do espaço que não só abrigue, mas também dialogue com a obra. “O espaço é vital à obra”, diz ele. E isso é evidente na trajetória do artista, desde que Atílio Gomes Ferreira, o nome civil, surpreendeu a cena artística capixaba, em 1970, com o impactante “Estilingue Gigante”, interferência urbana que aproveitou as formas sugestivas de uma das castanheiras da Avenida Saturnino de Brito, Praia do Canto, para criar uma obra provocativa e interativa, marco da arte contemporânea em terras capixabas.

Das galerias de Paris, poucas lhe interessam. A cidade tem 1.200 galerias de arte – uma infinidade para quem se batia, no início da carreira, com a falta quase total de espaços de exposição em Vitória. Mas Nenna não se deslumbra. Diz que a maior parte destas galerias faz parte de um mercado que não o interessa e muitas se dedicam principalmente a esquentar o currículo de artistas estrangeiros e periféricos – “pelo deslumbre de expor em Paris” – o que agrega valor em seus países de origem. E ele prefere espaços com grandes áreas de exposições, como o Palais de Tokyo. A arte de Nenna é ambiciosa, como deve ser a arte.

Respirar-te

Morar na França tem proporcionado a Nenna uma vivência nos ambientes de referência e alta produção artística e um mergulho no berço da cultura e da arte ocidentais. Em Angers, que conta com pouco mais de 170 mil habitantes e quase dois mil anos de história, o Musée de Beaux-Arts, o principal da cidade, tem um acervo de 65 mil obras, incluindo desde objetos arqueológicos, passando pela antiguidade clássica, renascimento, impressionismo, etc. um panorama bastante amplo da história da arte, aí incluindo alguns artistas contemporâneos. “E há muitos jovens artistas aqui trabalhando em ateliers administrados por coletivos em parceria com a prefeitura. A energia é boa”.

Estar na Europa permite que ele frequente os circuitos de arte na França e no continente, mantendo-se sempre curioso e crítico em relação à produção artística contemporânea. “Pela primeira vez vivo de fato e não de passagem num ambiente central da produção e circulação artística mundial. Isso significa muito”. Por isso ele não tem pressa agora, está fruindo arte e amor e bebendo os excelentes vinhos do Vale do Loire.  Santé!

Clarice, Nenna e Antoine no atelier do artista. Foto: Juju Alegro