Novos rumos ou em busca do tempo passado

Neste quase um ano do blog Flânerie foquei a cidade e principalmente o centro da cidade de Vitória. Foram crônicas e reportagens, sobretudo reportagens, que me exigiram tempo que agora não tenho tido mais. Outras tarefas e necessidades mais urgentes estão a me tirar o tempo necessário às apurações e levantamentos necessários às reportagens. Além do mais, os temas de que tratei em muitos post, sobretudo temas culturais, passaram a ser matéria, boa matéria, de outras editorias deste jornal que me acolhe. Mas isso talvez seja mero pretexto meu, pois pretendo continuar conversando – entrevistando? – pessoas. Pessoas que vão me ajudar a contar memórias e histórias de Vitória.

Então, não estou abrindo mão do blog, pois gosto de pesquisa (reportagem) e escrita. O que preciso é conciliar meu tempo com meu gosto. E farei isso mudando o foco do blog, das atualidades da cidade para a memória de quem conta história desta cidade. Uma memória que é também minha (o que me facilita o trabalho), mas não só.

E vou recomeçar retomando uma ideia guardada que é tratar da memória de quem tem história nessa cidade. Vou falar das memórias e dos amigos de Branca Santos Neves, minha mãe. Vou falar dela e com ela falar da cidade de Vitória.

E começo logo mais, no post que segue, flanando por um tempo passado. Um post que é, sobretudo, uma homenagem a elas, Branca e a cidade.

Pausa para balanço e um feliz ano novo

Neste primeiro ano do blog Flânerie o centro de Vitória prevaleceu nos posts publicados, como foi seu propósito e não sem merecimento e muito menos por falta de assunto. O centro é hoje e de novo lugar de muita gente e muito movimento que merecem registro. Bom ver jovens renovando o bairro e fazendo dele um novo centro irradiador de arte, cultura e diversão, um lugar de iniciativas e negócios criativos.

Pois então, estão lá movimentando o bairro e toda a cidade pessoas e empresas que instituíram um corredor criativo na Rua Nestor Gomes, que renovaram a vocação cultural da Rua Sete de Setembro, como os bares da rua e OParque, empresa antenada com as formas inovadoras de trabalho compartilhado. É também nOParque e no Guanaaní Hostels que vêm rolando eventos bacanas que atraem público novo para lugar, assim como tem sido nas casas de festas na região do Parque Gruta da Onça.

Um pouco disso tudo publicamos aqui com a ideia de falar da cidade de Vitória a partir do seu bairro central. Mas não fiz isso sozinha, não sempre. Convidei pessoas talentosas para participar comigo destes passeios pelo centro, como Thaiana Gomes e Syã Fonseca, jovens fotógrafos, que com imagens me ajudaram a retratar o bairro. A ideia é que novos convites sejam aceitos para me fazer companhia aqui neste blog na intenção de ampliar seu foco para assuntos que falam sobre nós capixabas e sobre a cultura daqui e o movimento cultural que produzimos aqui. O centro sempre será nosso assunto, nosso cantinho. Mas não só.

Perfis

A cidade irradia arte, cultura e criatividade em muitos lugares. Por isso, esses passeios estenderam-se para outros espaços e outras pessoas que têm despontado na cena cultural capixaba, como Fabrício Noronha e o Projeto Infinitas. Agora a ideia e falar também de pessoas que há muito estão no cenário cultural da cidade e do estado, como fizemos no último post, publicando um breve perfil de Paulo DePaula e sobre sua contribuição à história do teatro capixaba, post que inaugura a série “Perfis Capixabas”, que terá vez uma vez a cada mês.

E tivemos espaço ainda para assuntos pelos quais não podíamos nos omitir, tamanho sua indignidade. Assim, a tragédia do Rio Doce mereceu registro aqui. E foi bom ver a rede social não deixar o assunto morrer e, mais ainda, pressionar a grande mídia a abrir a pauta e destacar toda a tristeza de agora e a incerteza futura que marcam esta tragédia.

Feliz 2016

Hora agora é de planejar o ano e preparar novas pautas que tenham a cidade e a cultura do estado como foco e motivo.

Antes disso e por isso, faço uma pausa para recarregar baterias num descanso de duas semanas. Na segunda semana de janeiro voltamos à carga.

Um feliz ano novo a todos nós. É o que sempre se deseja e sempre se espera. Espero.

Um texto perplexo – Rio Doce

“Traga-me um copo d’água, tenho sede. E essa sede pode me matar.”                                   (Anastácia e Dominguinhos)

Faço uma pausa nos assuntos que costumo tratar aqui. Pauso para um lamento, como se fosse um minuto de silêncio. O silêncio futuro da vida ribeirinha que se extinguirá, porque ribeirinhos vivem de rio e não haverá mais o rio. A ganância e a irresponsabilidade estão matando 880 km de vida do rio e condenando – ou o menos transformando drasticamente – a vida de quem vive à beira rio. Não se trata apenas da vida material. É, sobretudo, a vida extinta ou desarrumada. A infelicidade/dificuldade na vida bate à porta dos que ficam. E é também a economia, estúpido.

Pense: o que será da economia das cidades ao longo dos 880 quilômetros de extensão se não houver água limpa para consumo? Cidades que vivem também da agricultura e da pecuária. Sem água não haverá agricultura, nem pecuária. O comércio será afetado, escolas suspenderão aulas, o desemprego ou a falta de renda ameaçará famílias.  Não só nas cidades, mas também nas comunidades ribeirinhas. Se a tragédia que se anuncia e que já afeta Minas Gerais for confirmada também para o Espírito Santo, vai provocar uma calamidade. Alguém tem que pagar por isso e acho que todos já sabemos quem deve. Vamos mexer onde mais dói ao capital, vamos mexer com o lucro da empresa aplicando uma multa digna. Os R$ 250 milhões iniciais anunciados mostram apenas a falta de visão e a covardia do governo federal diante de tamanha devastação, que ainda nem mostrou todo seu tamanho. Mas já se anuncia que não será pequeno.

Do sofá para a TV

Uma outra questão que envolve esta tragédia e que foi motivo de discussão nas redes sociais tem a ver com Paris. Mas creio que houve males entendidos. A discussão sobre que tragédia lamentar – Paris ou Rio Doce – é infrutífera. Não se trata de considerar o luto pessoal de cada um de nós ou dimensionar quem sofre mais. A meu ver a questão é sobre o espaço de cobertura que cada tragédia mereceu. Aí o Rio Doce perdeu. Ou pelo menos começou perdendo.  Tive a impressão de que a indignação e reclamação sobre esta injustiça midiática repercutiram e daí o Rio Doce ganhou mais espaço – ou pelo menos o espaço devido – na cobertura da TV. Pois afinal o descaso, a irresponsabilidade, o desprezo e avareza, a tragédia anunciada e não evitada, o risco certo à vida dos outros não seriam também uma barbárie? O ativismo de sofá tem ao menos a força da repercussão. E isso é de considerar.

O silêncio dos nossos políticos

O silêncio dos nossos parlamentares foi constrangedor, para não dizer comprometido. Deputados calados ou com discursos cheios de indignação, mas vazios de ação. Nenhum deles propôs nada além da cobrança fútil, que parece mais peça de campanha do que preocupação e envolvimento real com a tragédia do Rio Doce que se avizinha das nossas cidades ribeirinhas. Na nossa Assembleia, houve discursos indignados, mas nenhuma ação de fato concreta. Não se viu deputado correndo o Rio Doce para constatar as condições das cidades que vão sofrer com a lama tóxica que desce o rio. Na Câmara Federal, não se viu nenhum de nossos representantes ocupando a tribuna da casa para tratar de questão tão grave. Passaram batidos, até porque sabemos todos que muitos estão financiados pela grana das empresas responsáveis por tamanho desastre.

Também são vazios, e até perversos, os discursos corporativos de responsabilidade social, sustentabilidade ambiental. E ainda instituem prêmios, selos em cima dessa balela. Quanta leviandade. E burrice. Discurso não segura barragem nem evita prejuízo monetário ou de imagem. Discurso não resiste ao fato. E não vale também o discurso de que a responsabilidade das empresas é gerar emprego e recolher impostos. É responsabilidade de uma empresa ser responsável em suas operações e proteger suas instalações e barragens, como as duas que estouraram sobre a cabeça dos vilões (no sentido etimológico da palavra e não na conotação depreciativa, que essa cabe a outros) de Bento Rodrigues, vila que estava lá antes das barragens e que agora já não está, não existe mais. A responsabilidade social e a sustentabilidade ambiental morreram em Bento Rodrigues.

Notícias que assustam cada vez mais

Enquanto escrevo este texto, leio que a Samarco admitiu o risco de rompimento da segunda barragem. Ou seja, esta era de fato uma tragédia anunciada. E pode ficar pior.

Flânerie ou a arte de passear pelas ruas. Vitória

 

“Flânerie é o ato de deliberadamente e descompromissadamente vagar pelo espaço urbano, em busca de detalhes escondidos ou imperceptíveis aos olhos mais apressados”.

(Charles Baudelaire)

 

Alguns indicam que quem primeiro cunhou e deu uso ao termo flânerie foi o poeta Baudelaire, que teve nas ruas e nos habitantes de Paris a inspiração para sua poesia. Foi também nas ruas de Paris que o filósofo judeu alemão Walter Benjamin refletiu sobre a modernidade que imprimia novos contornos à paisagem da cidade. O repórter e cronista carioca João do Rio fez do ato seu método e reportou a alma encantadora das ruas do Rio de Janeiro do tempo da Belle Époque.

Flânerie é, pois então, o ato de passear por ruas e paisagens com olhos atentos e perceber neste passeio o tempo e o lugar em que se vive. O termo vem a propósito. Acredito que ele serve perfeitamente às intenções deste blog, porque à maneira do flâneur, mas com os olhos de jornalista, pretendo reportar fatos, acontecimentos, movimentos e pessoas que exprimem a alma das cidades e dos lugares na cidade. Cidades serão tema e inspiração para crônicas, notas, notícias e reportagens. Passado e presente, memória e atualidade.

Como o flâneur, não farei isso de maneira apressada. Quero ter o tempo necessário ao apuro da reportagem, gênero que certamente será o mais frequente neste espaço.  O compromisso é que a atualização seja feita uma vez por semana, como uma coluna semanal. Mas é claro que nada impede atualizações pontuais, a mercê de agendas e acontecimentos interessantes que venham a surgir neste meio tempo.

***

Os primeiros passos serão dados pelas ruas da minha cidade, Vitória. Mais precisamente, vou começar pelo centro da cidade. Começo por ali, pois é lugar que guarda história e memória da cidade, mas, sobretudo, porque há ali pessoas interessantes e novos movimentos acontecendo. O centro velho vem ganhando novos ares e preservando histórias. O antigo e o novo, tradição e modernidade. E é que vou mostrar nas próximas postagens, que serão publicadas toda terça-feira, a começar amanhã.

Convido os leitores a me acompanhar nestes passeios. Bem vindos.