A contracultura na ilha – Mamíferos, parte III

A contracultura na ilha – Mamíferos, parte III

Na época em que os Mamíferos surgiram, o contexto social mundial do lado ocidental estava mais ou menos assim: “Os jovens de hoje parecem querer expressar-se de todas as formas e em todos os setores. Em todo canto a juventude moderna se insurge, presentemente contra o mundo que chamam de ‘quadrado’”. A citação que anuncia a insurgência dos jovens contra o mundo “quadrado”, é um trecho do lead da matéria escrita por Maura Fraga e publicada em edição do jornal O Diário de novembro de 1969. Já de início, Maura constatava (ou acreditava) que “Vitória, como não poderia deixar de ser, também sofre (sic) com este fenômeno: os jovens daqui não são diferentes dos de outros mundos.” E a prova disso era o trio formado por Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó e Mário Ruy Nogueira: “inconformados com a velha regra que a seu ver dominava nosso ambiente, um grupo de jovens criou um conjunto rebelde e que se tornou em pouco tempo motivo para muitas discussões: Os Mamíferos.”

A matéria n’O Diário foi publicada dois meses depois da apresentação dos Mamíferos no II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, quando a banda sacudiu e dividiu o público com a performance em “Cosmorama Total”, composição de Chico Lessa e Ronaldo Alves, interpretada “insanamente” por Aprígio Lyrio, que ocupava o vocal do grupo naquela ocasião, episódio narrado em post anterior.

A Contracultura

O texto de Maura e outros textos dão uma ideia de que controvérsias culturais e comportamentais agitavam o mundo e a ilha nas revolucionárias décadas de 1960 e 1970. E os Mamíferos seria a prova de que a contracultura chegara também a Vitória.

Um parêntese:

Contracultura: substantivo feminino – diz-se da mentalidade dos que rejeitam e questionam valores e práticas da cultura dominante da qual fazem parte (Google).

Inicialmente um movimento filosófico com marco no existencialismo de Jean Paul Sartre, reverberou na arte e no comportamental da Beat Generation, que, por sua vez, resultaria no movimento hippie (Wikipédia).

Esses movimentos contestatórios chegaram ao Brasil dando origem à “Tropicália”, movimento musical que inovou a música popular brasileira, trazendo em suas letras versos irreverentes. Em suas roupas e estilos também havia a influência do estilo hippie (Brasilescola).

De fato, a banda foi formada por garotos que amavam os beatniks, os Rolling Stones, o Jazz, Caetano e Gil, Tom e sustenidos. “Eles foram (…) a grande célula de uma obra musical surrealista, para marcar o absurdo de uma época”, escreveu Sandra Aguiar, em matéria de novembro de 1986, em A Tribuna, que relembrava os 20 anos do surgimento da banda.

O que havia diferente em os Mamíferos era que, enquanto aqui predominavam os chamados “conjuntos de baile” que se contentavam em tocar música padrão “aceitável” e já incorporada ao gosto comum, como samba, boleros e bossa nova, eles traziam uma proposta de um som contemporâneo, autoral, antenado com o que havia de mais experimental e ousado na música aqui e lá fora. “Música de vanguarda”, com se dizia na época, ao som de guitarras distorcidas e “com letras que não eram usuais aos padrões dos letristas da época”, como anotou Willis Machado, no artigo “Os Mamíferos contra o tédio”, na Gazeta de março de 1970.

Era muito para a conservadora Vitória e dividiu muita gente. Nos festivais dos quais participaram, os Mamíferos conseguiam tirar dos jurados o mesmo número de notas dez e zero, como lembrou Afonso na matéria de Sandra. Ou seja, os Mamíferos conseguiram dividir públicos, gostos, críticas e vontades, boas e más. Na mesma matéria, Marco Antônio admite que apesar de todo o barulho em torno do grupo, os Mamíferos queriam apenas “ser bons instrumentistas”, mas “com toda a irreverência” que aquelas décadas inspiravam.

Na ilha, a viola e lua

Sobre a formação musical dos músicos e parceiros dos Mamíferos, deixo que outras publicações que virão, como o livro “Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular”, de Francisco Grijó, contem melhor e com mais detalhe. Não cabe aqui neste post, que é também propósito para introduzir as mudanças na casa de Branca, que agora me lembro melhor, começou antes do pôster de Caetano no fundo da sala maior. Creio que começou em 1969, ano em que o som dos Mamíferos abalou Vitória.

Mas para finalizar este texto e dar um pouco mais do clima da época, reproduzo dois textos que exemplificam a incompreensão e a intolerância de muitos em relação ao som dos Mamíferos, reações que mereceram uma queixa de Afonso. Em artigo em O Diário, intitulado a propósito “As hienas dos festivais” ele desabafava: “estou falando aos fariseus coisa muito séria e moderna, ela toca e corrói os tímpanos dos que ouvem somente as velhas liras (…) Músicos, poetas, vocês pararam numa tremenda acomodação, eu não, eu sou eterno pesquisador acossado, sempre, por uma nova sede. (…) Hoje estou muito farto dessa viola, dessa lua, dessas concessões tão irrisórias.”

Com carinho e solidariedade, Carmélia Maria de Souza consola Afonso da melhor forma que ela poderia fazer, escrevendo uma crônica para ele.

“Afonso, meu irmão:

É verdade que o tempo, que era bom, foi passando.

Mas é verdade também que a nossa viola continuou. É a mesma viola que ontem chorava canções baixinho nas nossas serestas de beira de praia embalando as nossas conversas e os nossos silêncios das noites de verão, banhados pela luz das estrelas ou da lua cheia que eram sempre imensas sobre nós.

E eu juro a você, do alto do meu perdão, que as estrelas se multiplicaram no céu da madrugada. Embora os sonhos, alguns sonhos, se tenham desmanchado e se continuado no sopro violento das hienas dos festivais.

Mas há o nosso tempo, companheiro. Sempre haverá, na vida e em nós, UM tempo. E basta.

 

Impossível falar de Vitória dos anos 1960 e 1970 sem lembrar Carmélia M. de Souza.

Uma noite no Livepub com Afonso Abreu e amigos, muitos amigos

Uma noite no Livepub com Afonso Abreu e amigos, muitos amigos

No dia 14 de setembro, quarta-feira da semana passada, revi e ouvi o trio original dos Mamíferos tocando juntos outra vez.  Fui assistir Afonso Abreu e convidados no show comemorativo “Afonso Abreu – 70 anos”, ideia que segundo ele, “foi sacanagem do Murilo”, seu filho e produtor. “Quem gosta de comemorar 70 anos? E depois eu só faço aniversário no dia 18”, informou. Afonso estava de ótimo humor, cercado de amigos e atrasado.

– Como sempre –, disse Marco Antônio Grijó, o que sempre chega cedo. “Compromisso é compromisso”. Mas ele deve estar acostumado, afinal são 50 anos fazendo música e dividindo palcos com Afonso.

E depois de muitos anos, revi Mário Ruy, que sempre foi magro e continua. Fácil reconhecê-lo, apesar de tanto tempo. “Bom tempo”, foi o que ele me disse e não se referia apenas ao tempo decorrido, mas sim ao tempo do início. Mário Ruy foi um dos amigos convidados para tocar com Afonso naquela noite. Outro que se apresentou com Afonso foi Gabriel Grossi, um dos maiores representantes da harmônica e que integra o “Hamilton de Holanda Quinteto”, além de Marco Antônio e Pedro de Alcântara. Os dois últimos formam com o anfitrião o conjunto Afonso Abreu e Trio, que toca com frequência mensal no Livepub, dentro o projeto LiverJazz.

Mas rever Afonso, Marco Antônio e Mário Ruy, o trio original de “Os Mamíferos”, tocando juntos mais uma vez foi motivo a mais para ir ao Livepub. Estão todos bem, reconhecíveis nas aparências e nos humores, e tocando ótima música desde sempre.

Sobre acrescidos ou outros amigos

Entre os que estiveram naquela noite no Livepub para assistir Afonso e amigos, revi Paulo Branco, também depois de anos, e ainda Álvaro Abreu, o irmão, este visto e revisto.  Mas não vi Rogério Coimbra. “Deve estar no Rio,” me disse Afonso, que emendou: “ele sempre diz que está no Rio quando tem show meu”. O humor de Afonso é delicioso.

Encontrei também com Marcos Moraes, irmão de Zé Renato, que foi casado com Zilá que também casou com Chico Lessa. Era um mundo pequeno, esta ilha. Lembrei da Zilá porque foi a primeira noiva, que eu soube, que chegou na igreja numa motocicleta. Mas não me lembro em qual casamento, com Chico ou com Zé Renato.

Paulo Branco, Zé Renato, Rogério Coimbra e Chico Lessa estão entre os compositores, instrumentistas e poetas que orbitaram e contribuíram com a história e com o repertório dos Mamíferos, quando não, foram acrescidos à banda e estenderam para mais de três o trio original, que naquela noite, tocou junto “Malandro”, composição de Afonso e Mário Ruy. São todos amigos de longa data. Grandes amigos, afinal o nível das amizades pode ser medido pelo tamanho das implicâncias.

Próximos capítulos – um livro

Contar desses encontros serve de pretexto para recordar um pouco mais da banda, que foi formada quando os três contavam 20 anos em 1966. Fazendo as contas, comemoram-se este ano 50 anos do surgimento do grupo e 70 de cada um. E as efemérides não vão passar em branco. Em novembro, o projeto Aurora Gordon lança o livro “Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular”, de Francisco Grijó, que conta em detalhes e a partir de memórias e depoimentos de seus principais personagens e daqueles que de uma forma ou de outra estiveram envolvidos nessas histórias, a trajetória do grupo que sacudiu a cena musical de Vitória dos anos 1960 e 1970. São histórias de pessoas interessantes que fizeram parte da crônica cultural capixaba no contexto da contracultura, tendo a ilha como cenário.

De minha parte, conto mais em próximo post e através de texto que remontam ao início dessas histórias. São textos jornalísticos que ajudam a recuperar memórias e climas de outras épocas e revelam um pouco sobre cultura e comportamento na Vitória de 50 nos atrás. O pretexto é comemorar essas trajetórias. Afinal, são 70 anos.

Foto: Miro Soares

1969, o homem pisa na lua e os Mamíferos acontecem em Vitória

1969, o homem pisa na lua e os Mamíferos acontecem em Vitória

Uma última, talvez, lembrança de Marinho Celestino me leva aos Mamíferos e ao ano de 1969 em Vitória. Nessa época, Marinho era ainda um cabeleireiro, o melhor da cidade apenas, mas já companheiro das ousadias. Tanto que foi ele quem produziu o figurino e o make-up dos Mamíferos, quando o grupo se apresentou na finalíssima do II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, realizado entre agosto e setembro de 69, no Ginásio do Sesc, Parque Moscoso. Foi ideia de Marinho “colocar peruca em Marco Antonio Grijó e criar o penteado de Afonso Abreu, além de dar as dicas de como Mário Ruy deveria se vestir,” como lembrou Francisco Grijó em comentário em post que publiquei aqui.

Para quem não conheceu os Mamíferos e muito menos ouviu falar do episódio narrado acima, vale citar matéria publicada em novembro de 2011 pelo jornal O Estado de São Paulo, a título de introdução: “(…) anos antes de Alice Cooper, de David Bowie, na cena musical de Vitória, Espírito Santo, a partir de 1966, um (…) grupo assombrava as plateias com uma performance psicodélica, os rostos pintados, maquiagem pesada e a atuação insana e performática de um cantor andrógino (Aprígio Lyrio). Era Os Mamíferos, garotos fãs de Allen Ginsberg e do movimento beat americano, de Aldous Huxley e Marshall McLuhan.”

Segundo o Estadão, essa é “uma história nunca contada porque [os Mamíferos] não alcançaram o estrelato.” Não é bem assim. A história dos Mamíferos pode ter sido pouco ou nem contada em outras plagas para além do Espírito Santo, mas aqui há bom registro e testemunho sobre o grupo musical que surgiu em Vitória em 1966 e agitou a cena local até meados dos anos 1970.

A lembrança do II Festival talvez seja uma das passagens mais folclórica deles e vêm a propósito, porque os Mamíferos estariam comemorando 50 anos este ano. Não é pouco coisa e é uma bela história na memória cultural capixaba e vai muito além das caras pintadas. Como registrou José Roberto Santos Neves no livro “Rockcrise – a história de uma geração que fez barulho no Espírito Santo”, os Mamíferos foi o primeiro grupo a construir de fato uma produção autoral em terras capixabas, “que se preocupou em reverberar a contracultura no Estado a partir de letras poéticas e provocativas, visual ousado e uma base sonora ampla, em sintonia com a diversidade da Era de Aquários”.

 

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Mário Ruy, os Mamíferos e Aprígio Lyrio. Fotos: Antônio Sessa Netto. Acervo: Milson Henriques

 

Frenesi total

Os Mamíferos se constituiu com mais frequência como um trio formado por Afonso Abreu no contrabaixo, Mário Ruy na guitarra e Marco Antônio Grijó na bateria, mas durante certo período acrescido de Aprígio Lyrio nos vocais. Foi com esta formação em quarteto que eles se apresentaram no II Festival Capixaba de MPB, produzidíssimos por Marinho Celestino, para delírio da plateia e para marcar a história da música no Espírito Santo.

“’Os Mamíferos’ arrancaram as maiores gargalhadas. Com uma letra inteligente (…) arrancaram muitos aplausos para a música ‘Cosmorama Total’. O público não se aguentou quando os mais diferentes sons eram produzidos pelo conjunto, enquanto um homem e uma mulher dançavam freneticamente ao ritmo. O Festival foi uma festa completa onde o público viu de tudo: desde as mais lentas e poéticas melodias ao frenesi total do Cosmorama”. Esse é o parágrafo de abertura da cobertura de Willis Machado da final do Festival, publicada em 16 de setembro de 69, em A Gazeta, e nela dá para sentir o impacto causado pela apresentação dos Mamíferos.

Contracultura

Naquele II Festival Capixaba de MPB, os Mamíferos causaram e não só pelo visual ousado. Bebiam de tudo que explodia em sete mil cores no Brasil e no mundo na década das revoluções políticas, sociais, culturais, sexuais, musicais. Contemporâneos de Os Mutantes, uma das bandas mais criativas surgidas na música brasileira em todos os tempos, os Mamíferos tinham como marca a inventividade e a irreverência, além do visual psicodélico típico dos que comungavam no movimento tropicalista de Caetano Veloso e Gilberto Gil, seus principais expoentes. Não que os Mamíferos fossem do movimento. Bebiam de muitas e outras fontes. Mas viviam e produziam em Vitória, cidade fora do eixo principal da produção cultural do Brasil e do planeta. O que acontecia em Vitória não ia além das divisas do Espírito Santo. Ficava por aqui mesmo.  E às vezes ficava mal.

A ousadia daquela apresentação não foi bem aceita por todos. Eram os anos 60, que apesar de toda a revolução que marcou a época, ainda eram tempos conservadores e ainda mais na pequena Vitória, onde cabelos compridos, roupas coloridas e música visceral eram quase subversão e requisitos para a má fama. Na matéria do Estadão, Afonso Abreu lembra que o II Festival “era um festival de almofadinhas. Todo mundo de smoking (…) Olhando das coxias, a gente teve a ideia de derrubar tudo.” Mas teve quem não reagiu bem.

Por causa da apresentação do grupo na finalíssima, teve quem vaiou e quem xingou o grupo de bicha e maconheiro, ou algo assim. Teve jornalista que esqueceu a música e trocou o nome do grupo para Os Herbívoros. Que maldade. Isso irritou Afonso e Marco Antônio, rapazes de boas famílias que só queriam fazer música em Vitória.

Os Mamíferos, a casa e o cachorro

O grupo Mamíferos foi formado por músicos talentosos e em comemoração aos 50 anos e porque merecem, terão novos registros aqui, sobretudo da boa música que fizeram e fazem até hoje e que revela, acho eu, um pouco da alma da ilha. Mas aproveito e lembro que eles frequentaram muito a nossa casa e eram muito amigos de Branca, minha mãe, motivo dessas memórias. Ela gostava de todos. E provavelmente muito das mudanças de gosto e interesses dela tenha a ver com a amizade com os meninos, como minha mãe se referia ao trio e aos acrescidos. São historias que tratarei mais à frente. Mas a título de ilustração, conto um caso.

Os Mamíferos eram tão íntimos e amigos da casa do morro que mereceram carinhos e cuidados especiais, dos mais inusitados até, como os de Duque, o cachorro que por mais tempo guardou a casa. Duque, o cachorro da família que latiu, rosnou e abanou o rabo para muitas das históricas que conto aqui, era um vira lata peludo e íntimo dos íntimos da casa – agia como um leão de chácara que selecionava pelo abanar do rabo ou pelo rosnar do focinho quem tinha acesso livre à casa e quem ainda não tinha. E que ninguém teimasse, porque o bicho era bravo.

Mas era fiel aos amigos, como os meninos dos Mamíferos. Duque gostava tanto deles que chegou a escoltar, já de madrugada, Marco Antônio e Afonso do Barro Vermelho até o horto de Maruípe, cerca de cinco quilômetros da casa do morro, a casa dele.

– Acho que tem um cachorro seguindo a gente – disse Marco Antônio para Afonso, que dirigia o fusca azul.

– É o Duque! – reconheceram e ficaram preocupados. Pararam o carro e insistiram com Duque que voltasse para casa. Perderam o cachorro de vista e assim que Afonso chegou em casa, ligou pra nossa casa. Minha irmã atendeu.

– Bia, o Duque está aí? – perguntou Afonso, preocupado.

– Sim, está dormindo na varanda – respondeu Bianca.

Acho que Duque deve ter ficado preocupado também. Se pudesse falar, teria ligado para a mãe de Afonso e para as tias de Marco Antônio e perguntado se eles já tinham chegado também. Não era um cão de raça nobre, mas tinha seus critérios e valores. Adorava os amigos. Só os amigos.

Duque foi enterrado aos 14 anos, e com tristeza, no quintal que hoje é a área de lazer do condomínio que ocupa o lugar onde um dia foi a casa dele.

 

Cosmorama Total

Aos interessados, a letra de “Cosmorama Total”, que junto com o ritmo, causou na apresentação dos Mamíferos, em setembro de 1969. Chico Lessa e Ronaldo Alves são os autores. Tropicalismo puro.

COSMORÂMA TOTAL

PONTOS

TELEPONTOS

E OS CONTOS DE RÉIS

TELAS

AS JANELAS

MILHÕES DE FIÉIS

 

ESTÁ NA MODA SINHÁ

ESTÁ NA MODA SINHÁ

 

PROGRAMADA A MEMÓRIA

O CICLO SE COMPLETA

EMULSÃO DE HISTÓRIA

NOS CONDULTOS DE CRISTAIS

O CÍRCULO SE FECHA:

  • MILHÕES DE ANIMAIS

JOGUE TÔDA DOR

NUM COMPUTADOR

SAIA DA RODA SINHÁ

SAIA DA RODA SINHÁ

 

SEM GRAVITAÇÃO

SOMOS DOIS SÊRES HUMANOS

PELO ESPAÇO

OCEANOS

SEM PLANOS

MERIDIANOS

NUM ABRAÇO SIDERAL

NUM ABRAÇO SIDERAL

JOGANDO O MESMO JÔGO

COM BOLAS DE FOGO

EM COSMORÂMA TOTAL

Esperando Godot ou a vez que Marinho Celestino ousou no teatro e Amylton de Almeida não perdoou

Esperando Godot ou a vez que Marinho Celestino ousou no teatro e Amylton de Almeida não perdoou

Como disse em post anterior, Marinho Celestino viveu na Europa de onde vinha frequentemente cheio de novidades. Quando voltou em definitivo para o Brasil, trouxe propostas que pareciam bastante ousadas, que ele acreditava revolucionárias. Estava mesmo cheio de ideias depois de dez anos de experiência europeia. Ousado sempre foi, pois afinal, quem nasceu mulato e viado em Vitória de mais de 50 anos atrás e não teve a menor vergonha disso é antes de tudo um forte, um corajoso.

No seu retorno a Vitória, Marinho veio com a proposta de realizar um “projeto ambicioso de teatro popular que [exigia] um espaço totalmente anticonvencional”, como contou em entrevista a Tinoco dos Anjos, publicada na primeira página do Caderno Dois de A Gazeta de 7 de fevereiro de 1981. “Marinho espera, com esse trabalho, oferecer uma nova abertura para os próprios grupos artísticos locais, mas seu maior objetivo é atingir o operariado”, anotou Tinoco.

E ele escolheu para esse projeto “Esperando Godot” de Samuel Beckett, uma obra complexa de uma arte tão pouco popular como é o teatro no Brasil, e que iria estrear dali a pouco mais de um mês. O espaço anticonvencional foi concretizado num improvisado Teatro do Mercado da Capixaba, prédio já naquela época decadente do centro da cidade, cujo pátio central recebeu arquibancadas de madeira que formavam uma arena coberta com lona de circo e palco em três planos com plataforma móvel, além de uma montanha de terra de cinco metros de altura, projeto cênico executado por Luizah Dantas. Era um cenário que impressionava. Para Marinho, era também um espaço adequado para um público “que tem medo de sentar no veludo”, numa referência às poltronas do Teatro Carlos Gomes.

“Pérolas aos porcos”

Talvez a ousadia maior de Marinho tenha sido conseguir que o espetáculo seguisse depois realizando sessões especiais para os operários da Antarctica, da Pepsi Cola, Escelsa e Larica, algumas das empresas que compraram pacotes de ingressos que distribuíram entre seus empregados. Não se sabe se Marinho pretendia fazer a revolução nas fábricas. Talvez apenas pretendesse levar teatro “para o operariado através do patronato”, como afirmou na entrevista a Tinoco. “Esta é uma forma de fazer com que a classe menos favorecida tenha acesso também à cultura. Para que o operariado, no seu período de lazer, não se limite à praia, ao futebol e à televisão à noite,” disse.

Era uma proposta não só ousada, mas também inédita. Na época, ainda não havia as leis de incentivo cultural e era pouco comum o patrocínio empresarial para projetos culturais, ainda mais de teatro, que dependia de verba pública, e ainda mais no Espírito Santo, onde público quase nunca pagou custos de produção e cachê de ator. Marinho conseguiu mover mundos e fundos, públicos e privados, para viabilizar a produção e pagar os atores, inclusive pelos exaustivos ensaios. Mas muita gente duvidou dele.

“Quem é esse cara que acha que o povão vai entender Godot, que tem um texto pesado mesmo para a gente”, foi um dos comentários não creditados anotados por Victor Martins em matéria de página inteira no Caderno Dois de A Gazeta do dia da estreia, 12 de março de 1981. Para Marinho, Godot era o texto certo, pois que trata da “relação mestre-escravo, dominante-dominador (sic)”.  Na matéria, Victor parecia já adivinhar a polêmica que viria depois. “O frisson – além de algumas pontadas de inveja – que esta versão de 81 de Godot consegue disseminar aqui e ali seriam prenúncios do êxito de uma montagem reconhecidamente pretensiosa,” escreveu Victor.

A crítica

A estreia no dia 12 de março lotou o Teatro do Mercado da Capixaba. O elenco era formado por Anginha Buaiz (mensageiro), Laura Lustosa (Lucky), Milson Henriques (Pozzo), Bob DePaula (Estragon) e Branca Santos Neves (Vladimir), além de Selmo Rocha, Hélio Gama e Balduino El Africano, que formavam o cortejo.  A produção foi de Marinho e Antônio Alaerte. Mas a peça, que tinha duração de mais de três horas. foi mal recebida pela crítica local que se dividiu quanto ao desempenho do elenco. E teve quem não perdoou nada, sobretudo não perdoou a Marinho. Afinal, quem era “aquele cabeleireiro bicha que veio de Paris com ideia de montar Beckett para o operariado?”, segundo outro comentário anotado por Victor Martins.

Dois dias depois da estreia, 14 de março, foi publicada na primeira página do Caderno Dois a crítica de Amylton de Almeida para Esperando Godot na versão de Marinho Celestino. Vinha com o seguinte título: “Enfim, o teatro desastre nas travessuras de um cabeleireiro”. Isso não ia dar certo.

No seu texto, Amylton não deixava pedra sobre pedra. Sua crítica desferiu sarcasmo para todos os lados. Ele começou ferino escrevendo que “o cabeleireiro Marinho Celestino, após cinco anos de Paris, sofre com a aflitiva certeza de que sua volta à terra o obrigará a comer pão em vez de brioche. (…) Ele pretende sacudir todo o marasmo que sempre foi do teatro capixaba (…) para realizar um espetáculo revolucionário destinado a divertir o operariado capixaba em local compatível, com muito calor e cadeiras desconfortáveis.”

Entre os atores, nenhum foi elogiado. Sobre a minha mãe, Amylton a descreveu “como uma mulher mal informada, que jamais soube da existência de Cacilda Becker e Lilian Lemmertz”, em referência a duas das maiores intérpretes de Godot no teatro nacional. E continuou: “parece ser uma mulher séria e provavelmente até inteligente para se entregar a um ridículo espalhafatoso (…) O seu ridículo é muito mais aflitivo exatamente porque contido e dolorosamente consciente. Branquinha Santos Neves deve se achar a pior atriz do mundo”. Ufa!

Não sobrou nem mesmo para o autor. Samuel Beckett foi taxado por Amylton como “o obscuro e mal humorado empregado de James Joyce”, que seguindo o exemplo de seu patrão, conseguiu cometer o mesmo pecado do autor de Ulisses. Como disse Virgínia Woolf a respeito do romance de Joyce e devidamente reproduzida por Amylton: “Nenhuma obra-prima tem o direito de ser tão chata”. Não sobrou nem para Godot.

Bem, sobre a qualidade da obra de Beckett não ouso opinar, mas lembro que a crítica de Amylton enfureceu Marinho, que transtornado exigiu espaço para réplica, que A Gazeta não concedeu. O motivo eu não sei. Só sei que Amylton voltou à carga e no dia 18 de março, na seção agenda cultural, afirmou que a encenação era “indigna do nome teatro”. E insistiu na agenda cultural do dia 27: “Enquanto Branquinha Santos Neves e Bob DePaula imitam Renato Aragão e Dedé Santana, sem intenção de divertir o público, Milson Henriques intencionalmente caricatura seu personagem, conferindo-lhe tiques de Zé Bonitinho.” Ia dar merda, quase deu.

Marinho Celestino x Amylton de Almeida, o embate

Noite de chuva, evento na Galeria Homero Massena, centro da cidade, Marinho entrando, Amylton saindo. Podia dar em tapa na cara, quadros voando ou briga na calçada, mas deu apenas em dedo na cara, batida no peito e num insulto que definia, segundo Marinho, a diferença entre ele e Amylton.  Rogério Medeiros, que acompanhava Marinho, é quem conta:

“Vi Amylton saindo e alertei Marinho: ‘é a sua oportunidade’. Ele partiu grande para cima do Amylton, que mais baixo, se encolheu.” Marien Calixte tentou apaziguar, mas Rogério insistiu: “vai deixar por isso mesmo?” Marinho mais puto ainda, bateu no peito, botou o dedo na cara de Amylton e cuspindo, esbravejou mil insultos que encerram a seguinte sentença: “eu sou viado, mas você não passa de uma bicha”.

Rogério conta que não entendeu o insulto e na volta, no carro, perguntou a Marinho que negócio era aquele de viado e bicha. Marinho explicou: “bicha tem problema com o pai, com a mãe, com o mundo, consigo mesma. Dá a bunda com desgosto, complexo e culpa. Eu sou viado, dou a bunda porque gosto”. Baixa o pano.

A temporada

Toda a crítica capixaba da época foi unânime em considerar a incursão de Marinho Celestino no teatro como amadorística. Quanto aos atores, houve elogios. Minha mãe, inclusive, teve seu desempenho considerado positivamente como surpreendente na crítica de Toninho Neves para A Tribuna.

E a temporada cumpriu seu objetivo. Esteve por três meses em cartaz no Teatro do Mercado da Capixaba e recebeu também o público operário que esperava. Depois disso, Marinho não teve novas experiências com o teatro. Minha mãe seguiu.

Marinho Celestino, uma lembrança entre muitas

Como venho contando, minha mãe foi atriz. Estreou no teatro pelas mãos de Paulo DePaula em “Anchieta: um depoimento”, em abril de 1976, no Teatro Carlos Gomes. Depois vieram experiências com outros parceiros de palco e arte. Um desses parceiros, talvez o mais inusitado, foi Marinho Celestino, que viveu na França por uns bons anos e voltou de lá cheio de ideias.  Uma das ideias foi fazer teatro em Vitória. Não se sabe se ele fez teatro na França – cinema sim, que ele provou –, mas ousou encenar Samuel Beckett no então improvisado Teatro do Mercado da Capixaba, no início dos anos 1980. “Esperando Godot” teve em seu elenco Bob de Paula, Milson Henriques, Laura Lustosa, Ângela Buaiz e Branca Santos Neves, sob direção de Marinho Celestino.

Mas antes de tratar dessa experiência, vou apresentar Marinho, ou ao menos contar alguma das muitas lembranças que tenho dele, pois histórias, muitas histórias, foi o que ele deixou na memória de quem o conheceu.

Marinho Celestino, Marinho festivo, Marinho trambiqueiro, Marinho “pé de pato”

Marinho era uma figura em todos os sentidos. Fisicamente, sua presença chamava atenção. Mulato alto, corpulento e bicha, costumava vestir-se com batas e calças pantalonas (traje típico da época) apertadérrimas até a altura do joelho que pareciam prestes a arrebentar naquelas coxas grossas. Dono de uma das bundas mais insinuantes da cidade, Marinho tinha um salão de beleza badaladíssimo nas décadas de 1960 e 1970 e era a festa em pessoa. Feminino, extrovertido e falante, cortou o cabelo de muitos. Pediu empréstimo que nunca pagou – minha mãe se queixou muito – e foi morar em Paris, na época que muitos brasileiros se exilaram na Europa por opressão ou por vontade própria (chegamos atrasados para os anos 20, mas fizemos, nos anos 70, de Paris a nossa festa). De lá mandou e trouxe novidades e muitas histórias – algumas possivelmente verídicas e outras provavelmente exageradas.

Porque ele era exagerado. Exagerava o nome da minha mãe quando encontrava com ela – “Branquiiiiiinnnhhhaaa”.  Isso antes dos dissabores. E depois também, acho. Marinho era pé de pato e cara de pau. E incrivelmente sedutor. Envolvente, de fato. Perdoável também. Minha mãe perdoou.

Onde andarás?

Enquanto morou na Europa, Marinho veio ao Brasil com frequência anual. Numa dessas vindas levou um rapaz bonito, argentino, de nome Rodolfo, para dormir lá em casa. Minha mãe providenciou uma cama para os dois. No dia seguinte Marinho foi embora e Rodolfo ficou com a gente. Gostou de todos nós e nós dele também. Contou ter deixado a Argentina por causa de seus cabelos cumpridos, que para a ditadura militar e paranóica que vitimou também nossos vizinhos, era sinal de subversão. Depois continuou mochileiro em direção ao Nordeste com intenção de chegar ao México. De Olinda, mandou notícias. Estava bem e com saudades. Voltou à Vitória um ano depois e foi direto lá pra casa, acolhida certa. Matou nossas saudades, contou histórias de viagem, viveu uma paixão. E foi embora mais uma vez. Notícias nunca mais. Por onde andará Rodolfo?

Ah, sim, Rodolfo teve sucesso: alcançou o México com o polegar estendido.

 

Rodolfo, Bia e Tango na varanda

Na varanda da casa do morro, Rodolfo, Bianca minha irmã e Tango, o cachorro que coincidentemente já tinha este nome antes de Rodolfo chegar. Prenúncio de boas vindas. Foto: Flavinho Santos (o menino de Pasolini, como dizia Marinho)

A foto e outras histórias de Marinho ficam para o próximo post.

Dois em cena – Branca Santos Neves e Jace Teodoro

Dois em cena – Branca Santos Neves e Jace Teodoro

Jace Teodoro conheceu Branca Santos Neves por causa de uma música de Billie Hollyday. Ele me contou: “um dia entrei no salão de ensaios da Academia de Karla Ferreira, onde fazia aulas de dança, cantarolando ‘You’ve changed’ e uma voz vinda do fundo do salão me acompanhou. Era Branca.”

Minha mãe se apresentava assim, puxando conversa, chegando (ou cantando) junto. Sempre alerta, sempre interessada. “Branca me apresentou a muitas pessoas interessantes. Eu vinha do Rio de Janeiro depois de 16 anos morando lá e sem conhecer quase ninguém em Vitória. Ela era uma pessoa aglutinadora e foi generosa comigo.” Depois do primeiro encontro, tornaram-se inseparáveis, trabalhando e badalando pela cidade.

Dois espetáculos

Eu encontrei Jace em vésperas de lançamento de seu terceiro livro de crônicas, “A palavra que apalavra”, título também do último espetáculo que ele criou e encenou com a minha mãe. O espetáculo em que ela começou a esquecer palavras.

“Fizemos dois espetáculos juntos”, lembra Jace. O primeiro foi “Enquanto uns cegos, outros olhos”, em meados da década de 1990, e que também reunia teatro, música, dança e poemas, como não poderia deixar de ser. As palavras estão em Jace desde muito cedo, ainda nas salas de aula onde ele já gostava de ler em voz alta seus exercícios de redações. “Palavra tem a ver com ritmo, respiração, pontuação”. Ele contou que o processo de criação dos espetáculos que fez com Branca era também um processo coletivo e acontecia durante os ensaios. “Em ‘A palavra que apalavra’ eu tinha uma ideia do que seria o espetáculo, que foi sendo criado com os jogos de palavras que eu Branca fazíamos durante os ensaios e pelo ritmo e melodia que vinham do acordeom do Mirano. Foi um ‘working in progress.’” “A palavra…” contava ainda com as participações de Duda Padovan e Paulo Sodré e teve direção de Erlon Paschoal.

Os dois espetáculos passaram pelos teatros Sesi, Carlos Gomes e o Galpão, que hoje funciona como cerimonial para festas e comemorações.

Últimos palcos

A princípio, Jace se mostrou reticente com meu convite para falar de Branca e mencionar o início do processo de esquecimento. Mas entendeu que a proposta é como uma homenagem à história e as memórias dela. Então ele recordou a casa do Barro Vermelho e a sala estúdio que ela adaptou para aulas de postura corporal e onde ocorreram ensaios dos espetáculos. A mesma sala ampla e um tanto austera que foi mudando e mostrando os novos interesses de Branca – no início o pôster de Caetano no tempo da Tropicália e depois e até a venda da casa, transformada em sala estúdio e que serviu aos primeiros ensaios de “Enquanto uns cegos…”

“Branca era uma atriz entusiasmada, que se punha à disposição das criações artísticas, e uma pessoa corajosa. Lembro que pensei uma cena de seio desnudo para ‘A palavra…’, mas fiquei com receio sobre ela aceitar, afinal poderia parecer escandaloso para uma mulher de 60 anos. Que nada, ela topou na hora e tirou a blusa ali mesmo. Levei um susto.” O problema para ela é que “A palavra…” era um espetáculo de muito texto, marcação e coreografia. E Branca começou a demonstrar dificuldade de memorizar. “Tivemos que diminuir a participação dela para não sobrecarregá-la, mas mantive a cena solo do seio desnudo, quando o palco era todo dela”, lembra Jace.

A cena do esquecimento do poema em “A palavra que apalavra”, que mencionei no post anterior foi um dos primeiros sintomas do mal que foi afastando minha mãe dos palcos. Ela ainda faria alguns trabalhos com Paulo de Paula, que a introduziu ao palco em meados da década de 1970, e que foi seu parceiro mais constante – como ator ou como diretor. Aos poucos ela foi deixando os palcos e as câmeras.

 

Jace Teodoro e a crônica nossa de cada dia

Jace Teodoro e a crônica nossa de cada dia

Aviso aos navegantes recentes: esse é o segundo texto sobre as memórias de Branca Santos Neves contadas por mim com o auxílio precioso de quem conviveu com ela. Jace, agora.

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Os sintomas da do mal que acomete minha mãe e que a deixa agora sem memória foram surgindo aos poucos. Pequenos esquecimentos que a princípio não pareciam tão diferentes de um jeito avoado que ela sempre teve e que até parecia diverti-la. Mas foi ficando mais constante. Um dia, no palco, deu-se um lapso. O poema “A mulher das cebolas”, de Jace Teodoro, que ela declamava em ato do espetáculo “A palavra que apalavra”, ficou pelo meio.

Sou uma mulher derramando lágrimas ao meio-dia, pra quem não há manhãs nem fins de tarde. Apenas cebolas como guia/ mais couve, ovos estrelados, bife e cabelos de gordura (…)

Jace intercedeu e deu guia. E então Branca falou mais ato e recordou o poema até o fim:

Sou essa mulher de sonhos partidos ao meio/ que não conhece do sexo a virtude. Apenas calcinhas no varal e dois dedos tentando acordar o bico adormecido dos seios.

“A palavra que apalavra” é também o título terceiro livro de Jace, autor das duas obras de títulos idênticos, mas de formas e conteúdos diferentes. Enquanto uma é livro de crônicas recém-lançado, a outra foi um espetáculo que reuniu dança, teatro e música que ele criou e mais uma vez atuou com Branca Santos Neves, em 2000. Um espetáculo que conciliou todos os talentos de Branca e Jace.

Jace foi um dos muitos amigos que frequentou a casa de Branca no Morro do Barro Vermelho.

A palavra que apalavra, o livro

Antes de seguir com as lembranças da parceria (que seguirei em próximo post), faço um parêntese para falar de Jace e do livro dele. Pois que então, além de ator e bailarino, Jace é dado às criações que as palavras possibilitam, sobretudo quando em forma de crônicas. Jace, além de jornalista (também), é um cronista natural, que sabe extrair assunto do cotidiano corriqueiro e versar com leveza, humor e um pouco de pimenta sobre situações aparentemente banais da vida diária e das notícias do dia. Como ele mesmo escreveu: “miudezas cotidianas são atrativos e cardápio deste cronista”. A astúcia, a perspicácia e a delícia dos textos de Jace surpreende até mesmo o tédio dos insensíveis.

A crônica de Jace trata o leitor como um amigo a quem ele conta, comenta e confidencia casos, fatos, notícias e sentimentos. As palavras são coloquiais, fluidas e exatas nas intenções e no espírito do texto.

Já nos títulos, Jace mostra seu estilo. Ele adora dar títulos, acha que são como convite ao texto ou a moldura deles. Alguns são feitos de citações e referências, como “Ando meio desligado”, que conta casos de gente avoada na vida, como a amiga que esqueceu um bob no penteado da noite; ou em “Maria Bethânia, tu és para mim…” para exaltar a rainha cantante que ele assistiu no espetáculo “Bethânia e as palavras” e que tanto admira; “O vento levou” sobre uma viagem alucinada num Transcol no tráfego da Terceira Ponte; ou ainda “Pela estrada afora”, uma crítica aos motoristas apressados dos ônibus rodoviários – “que se acham a última pastilha do freio antes da descida pro inferno de Dante” – e às estradas mal conservadas do país.

Outros títulos introduzem textos sobre estados de ânimo – “Preguiça” – ou de espírito – “Um brinde aos encontros”. Como um bom cronista, Jace Teodoro é um observador atento, sensível e pessoal do comportamento humano e dos fatos da nossa atualidade.

Noite de autógrafos, muitos autógrafos

“A palavra que a palavra”, o livro, reúne 41 crônicas publicadas entre 2013 e 2014 no Caderno Dois do jornal A Gazeta. O lançamento aconteceu ontem, no Canto do Vinho, Praia do Canto, e atraiu muita gente, pois Jace é querido, curtido e do balacobaco.

Estive lá, mas não falei com ele. A fila do autógrafo era longa e lenta, já que a Jace não basta a dedicatória, mas também a conversa e a entrevista, os abraços e beijos e fotos, muitas fotos. Então, deixo para pegar a dedicatória para o meu exemplar numa próxima ocasião, afinal precisava voltar para casa para escrever o texto. Mas ao menos pude vê-lo feliz e cercado de amigos e admiradores na noite de lançamento de seu novo livro, que, pelo visto, já é um sucesso desde ontem.

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A propósito, a produção da noite e da obra foi da Caju Produções, a mesma produtora que viabilizou “A palavra que apalavra”, o último espetáculo que Branca e Jace fizeram juntos.

Foto: Léo Alves

Branca e a memória

Branca e a memória

 


Todas as mães são especiais. Branca Santos Neves é especial e não só por ser minha mãe, o que já é suficientemente especial para mim. Mas Branca é especial também porque suas histórias são memória de um tempo interessante em Vitória. O tempo que ela viveu intensamente. E há tempo que guardo a ideia de escrever essas histórias, histórias que ela já não pode me contar, porque ela não fala mais comigo.

Ela não fala com ninguém. Já quase não fala mais. Vive alheia, longe da gente e talvez já não se lembre de si mesma. É o mal que a acomete. Minha mãe sofre de Alzheimer há alguns anos e não lembra mais.

Houve uma época que conversamos sobre eu contar sua história, suas memórias. E começamos a registrar as lembranças da Rua Graciano Neves, onde ela cresceu. A ideia era chegar à casa do morro, mas não chegamos. Agora a memória dela é um fio sem meada. Então vou aproveitar este espaço para contar um pouco sobre Branca e lembrar histórias dela e de pessoas que fizeram parte da crônica da vida da capital de tempos atrás. São histórias de amigos que conviveram com ela e que me ajudam a contar dessas memórias, porque ela já não pode mais.

Vou começar pela casa no morro onde ela morou por mais de 30 anos e onde se tornou a pessoa de quem vou contar. É assim que me lembro dela. E vou começar daí porque acho que ela iria gostar. E porque sinto saudade.

 

A casa dela já não existe mais. Aliás, já quase não existe casa na Praia do Canto. Vitória cresceu e é hoje uma cidade vertical e engarrafada. Mas do tempo que inicio essas histórias, a Praia do Canto era quase só de casas. E era menor. Ainda havia a Praia Comprida que dividia o bairro que é hoje toda a Praia do Canto.

A casa ficava no Barro Vermelho, que naquele tempo demarcava apenas a subida e a parte alta do morro. Foi uma das primeiras casas ali, construída em 1966, toda em tijolos de madeira nobre da mata atlântica – o que atualmente seria considerado um crime.

Mas do tempo que conto, na Rua João Manuel de Carvalho, no alto do morro do Barro Vermelho, só havia três casas, a de Carlos e Ângela Salazar, a de Jônice e Ilsa Tristão e a de Paulo e Ângela Oliveira Santos. E acho que naquela época a rua nem tinha esse nome ainda. Acho que não tinha nome nenhum. Não carecia porque já naquela época, em Vitória valiam mais as referências do que os nomes das ruas. E na Praia do Canto todo mundo se conhecia e sabia onde ficava a casa de cada um. Seja como for, a quarta casa no que veio a ser a Rua João Manuel de Carvalho foi a casa de Victor e Branca Santos Neves, a casa de madeira onde ia quase todo mundo que morava em Vitória e que gostava de fazer música, pintura, teatro e dança. Todo mundo que gostava de conversar sobre política, literatura e cinema e de encontrar quem gostava também. Ia lá todo mundo que gostava de Branca Santos Neves. E foram muitos.

 

A casa do morro era de bom tamanho, com três salas, três quartos, três banheiros, um escritório que também servia de suíte para hóspede – era uma casa hospitaleira, com certeza – cozinha, varanda e um quintal grande, que rodeava a casa toda. No início, não tinha muro. Não era necessário. A Praia do Canto era um bairro calmo e tranquilo, e mais ainda o morro do Barro Vermelho e suas poucas casas – naquela época o Barro Vermelho era um pedaço da Praia do Canto e não um novo bairro, mais abrangente, como é hoje.

Era uma casa decorada de maneira comportada e eficiente, senão austera pelo menos sóbria, de acordo com o que devia ser as casas das famílias tradicionais. Aos poucos foi mudando, acompanhado novos interesses e gostos de Branca. Para mim, um dos primeiros sinais da mudança foi na parede do fundo da sala maior, que ganhou um pôster imenso de Caetano Veloso, da época que ele lançou “Transa”, o disco objeto que ela ouviu, ouviu e ouviu.

Minha mãe gostava tanto de Caetano, que chegou a me assustar.

– Você não sabe o que me aconteceu – disse nervosa e esbaforida ao telefone.

Pensei logo em coisa ruim, tamanha era a sua aflição. E afinal, estávamos no Rio de Janeiro dos anos 80, época em que a cidade já era sinônimo de beleza e violência.

– Encontrei Caetano – disse ela eufórica, quase sufocada.

Depois, mais calma, contou tê-lo encontrado por acaso numa livraria do Leblon. Ficou muda. Caetano percebeu a admiração e a timidez e generosamente puxou uma conversa breve, banal, gentil. Algo sobre livros ou talvez sobre o tempo. Não importa, o fato é que ela sentiu uma emoção imensa e como uma adolescente que às vezes parecia ser, disse que nunca mais lavaria a mão que foi tocada pela mão de Caetano na despedida. O amor [ficou] mais firme do que quando começou.

Branca ouviu todos os discos de Caetano. Só parou de ouvir quando foi deixando de lembrar.

 

A propósito, além de ser minha mãe, Branca Santos Neves foi atriz, bailarina, cronista, curiosa, animada, de muitos amigos e dona de uma casa sempre cheia de gente e movimentos.

 

                                                                                             Continua...

Daqui por diante sigo essas histórias pela minha memória e pela lembrança dos amigos, das pessoas que conviveram com ela e que são também protagonistas das histórias que virão. Histórias de gente interessante em Vitória.

 

 

Novos rumos ou em busca do tempo passado

Neste quase um ano do blog Flânerie foquei a cidade e principalmente o centro da cidade de Vitória. Foram crônicas e reportagens, sobretudo reportagens, que me exigiram tempo que agora não tenho tido mais. Outras tarefas e necessidades mais urgentes estão a me tirar o tempo necessário às apurações e levantamentos necessários às reportagens. Além do mais, os temas de que tratei em muitos post, sobretudo temas culturais, passaram a ser matéria, boa matéria, de outras editorias deste jornal que me acolhe. Mas isso talvez seja mero pretexto meu, pois pretendo continuar conversando – entrevistando? – pessoas. Pessoas que vão me ajudar a contar memórias e histórias de Vitória.

Então, não estou abrindo mão do blog, pois gosto de pesquisa (reportagem) e escrita. O que preciso é conciliar meu tempo com meu gosto. E farei isso mudando o foco do blog, das atualidades da cidade para a memória de quem conta história desta cidade. Uma memória que é também minha (o que me facilita o trabalho), mas não só.

E vou recomeçar retomando uma ideia guardada que é tratar da memória de quem tem história nessa cidade. Vou falar das memórias e dos amigos de Branca Santos Neves, minha mãe. Vou falar dela e com ela falar da cidade de Vitória.

E começo logo mais, no post que segue, flanando por um tempo passado. Um post que é, sobretudo, uma homenagem a elas, Branca e a cidade.

Vitória no centro: muita bunda e pouco busto

Vitória no centro: muita bunda e pouco busto

Na praça arborizada, eles mantêm o olhar firme. São cinco pares de olhos petrificados em rostos cujos semblantes expressam orgulho e autoridade e parecem mirar a eternidade. Nenhum deles encara o observador na praça. Têm os olhos elevados pelo pedestal e as vistas distantes que miram para além da praça, como contemplando um futuro que não viram.   São vultos de personalidades capixabas entronizados em bustos de bronze como forma de homenagem. Têm todos a mesma altura, mas não se sabe se a mesma estatura histórica. Quem sabe? As pessoas na praça simplesmente os ignoram.

Aliás, quem seria capaz de dizer de quem são aqueles bustos de perfis severos que contornam a Praça Costa Pereira, no centro da cidade? Pois para quem nunca prestou atenção, lá estão homenageados em pedra e bronze cinco homens que ajudaram a forjar a cidade de Vitória e o estado do Espírito Santo. Cinco governadores (ou presidentes da então província) que em seu tempo comandaram o poder político e os destinos de estado, da cidade e os contornos do próprio centro da capital, que guarda testemunho, em forma de arquitetura e urbanismo, da passagem de cada um deles.  Os cinco bustos personificam Afonso Cláudio, Muniz Freire, Jerônimo Monteiro, Florentino Avidos e aquele que dá nome ao logradouro, José Fernandes da Costa Pereira Júnior, que quando governou a província, ainda no tempo do império, mandou aterrar a enseada onde é hoje a praça.

A Praça Costa Pereira, a propósito, é o local no centro histórico de Vitória que concentra o maior número de monumentos em forma de escultura que homenageiam nossos vultos. Fora dali, há poucos bustos, pois apesar de histórico, o centro não é de muitas homenagens. Mesmo na cidade alta, lugar de muita história e dos palacetes que sediam ou já sediaram o poder no estado, há apenas um homenageado. Domingos José Martins, o revolucionário, tem busto exibido em frente à sede do Instituto dos Advogados do Espírito Santo, próximo ao Palácio Anchieta. Mais abaixo, na Praça Ubaldo Ramalhete Maia, entre as Ruas Sete de Setembro e Treze de Maio, há dois bustos que lembram o interventor federal que dá nome à praça e outro em homenagem a um forasteiro, o médico paulista Euryclides de Jesus Zerbini, reconhecido por ter realizado o quinto transplante de coração do mundo, o primeiro do Brasil.

De corpo inteiro

Doutor Zerbini é uma das poucas figuras que não têm relação direta com a história do estado, mas que mereceram ser lembrados no centro histórico. Os outros são o Papa Pio XII, com monumento na praça que fica em frente à agência central do Banco do Brasil, e Getúlio Vargas, na praça de mesmo nome, na Avenida Beira Mar. Apenas esses dois ganharam homenagem de corpo inteiro. Aos demais coube apenas um corpo estranho, formado por cabeças que mostram rostos austeros, ombros que sugerem ternos de bom valor e um pedestal alto que substitui o corpo ausente de pessoas já falecidas, pois claro, busto em praça só merece quem já morreu.

Em partes

Nada austeros em comparação aos bustos de nossos vultos, mas talvez mais estranhos, são os corpos dos manequins expostos nas vitrines e nas calçadas das muitas lojas de roupas da Avenida Jerônimo Monteiro e das ruas Sete de Setembro e Treze de Maio. São corpos esquartejados, que nem sempre têm rostos e exibem apenas a parte do corpo em que se veste o produto à venda. São troncos sem membros que vestem camisas, quadris e pernas que vestem calças, pés que calçam meias e bundas só de calcinhas. São como monumentos efêmeros que mudam de roupa ao sabor das modas e das estações e que são olhados e tocados por gente interessada pelos preços mais em conta do comércio do centro da cidade.

São corpos estranhos que não homenageiam alguém em especial, mas quem se importa?

Bundas

Manequins na Avenida Jerônimo Monteiro