Carmélia, um pouco mais dela

Sigo falando um pouco mais sobre Carmélia, porque num post só talvez eu não tenha sido capaz de revela-lá. Mas antecipo, falar de Carmélia é falar de um tempo de Vitória, dos amigos dela e dela própria, a Magnólia. Esses, principalmente, foram os assuntos de suas crônicas. Este é então, meu pretexto para o texto que segue.

Vitória de mais de 40 anos atrás é o tempo e o lugar de Carmélia. Esse foi o cenário de sua vida e de suas crônicas. Era um tempo em Vitória que o pescador levava o cesto de peixes às casas das famílias. Ali mesmo escolhia-se e comprava-se o pescado fresco. Entre o peixe e a mesa do almoço só havia a rede e o pescador. Era uma época que a Praia do Canto ficava mais próxima do mar, em que havia as praias de Santa Helena e do Barracão, depois soterradas pelos muitos aterros que a cidade sofreu. Nesse tempo de Carmélia, as ilhas do Boi e do Frade só eram alcançadas de barco ou a pé na maré baixa, a partir da praia que contornava toda a Avenida Saturnino de Brito, do Iate Clube ao Miramar.

Faz tempo isso. A Avenida Saturnino de Brito, que um dia beirou o mar, é hoje uma via interna da Praia do Canto que nem merece mais o status de avenida. Ficou pequena, secundária, no bairro que cresceu para cima e para os lados, depois dos aterros e dos edifícios. Mas as castanheiras, que Carmélia comemorava (abençoava) em crônicas continuam lá contornando a avenida, inclusive aquela que compôs o “Estilingue” de Nenna (ainda Atílio Gomes), obra de intervenção urbana e marco da Arte Contemporânea na cidade.

As modas e a Bossa Nova

A referência à obra de Nenna serve de indicativo de que Vitória, apesar de pequena capital do Sudeste, como ainda é hoje, reunia uma gente antenada com as novas propostas e linguagens artísticas que sacudiam a arte naqueles anos 60/70. Aquela era a época também dos Mamíferos, da contracultura, e da geração de 1968 retratada por Zuenir Ventura no livro “1968, a ano que não terminou”, mas vivendo aqueles tempos de Vitória à beira mar. Era uma turma de gente que curtia os beatniks, o cinema autoral francês, psicanálise, o desbunde e a fossa, o estado de ânimo e de alma que dominou a época e a única concessão ou adesão que ela se permitiu fazer às modas daquele tempo. Escreveu crônicas sobre a fossa e suas modalidades.

Mas Carmélia não se impressionava, nem se furtava à crítica ao gosto dos amigos. Tinha um olhar crítico e por vezes entediado para as modas da época, a ponto de se entediar com a conversa em torno do último filme do Goddard, com “a carneirada que compõe o exército tropicalista (…) e a espinafração social em mesa de botequim”. Não era do desbunde nem da revolução, mas sim uma observadora atenta e crítica de seu tempo e de sua geração. Seu gosto e paixão tinham inspiração maior na geração anterior, de Tom Jobim e Antônio Maria, o compositor e cronista da dor de cotovelo de quem ela se considerava viúva. Carmélia era samba canção e bossa nova.

Foi em 1958 que a primeira crônica de Carmélia foi publicada no jornal Sete Dias, um ano antes de João Gilberto lançar “Chega de Saudade”, o Lp símbolo da Bossa Nova, movimento que produziu também Dindi, musa em música de Tom Jobim e amiga imaginária a quem ela se confessava em crônicas. A canção de Tom foi a que ela mais cantou na sua efêmera vida de cantora – sim, ela também foi cantora. O Praia Tênis Clube, na Praia Comprida, e no Iate Club, na Praia do Canto, foram os palcos dela.

Ela por ela

De 1958 até 1974, ano de sua morte, Carmélia seguiu cronista por sete jornais – além de Sete Dias, escreveu também em O Diário, Vida Capixaba, A Tribuna, A Gazeta, O Debate e Jornal da Cidade.  Destes, só dois resistiram ao tempo e à internet. Mas aqueles eram tempos analógicos, em que os jornais eram o meio e privilégio de poucos e onde acontecia, além das notícias de praxe, o debate cultural, a crítica, as intrigas da cidade. Mas eram também, como ainda hoje, o espaço dos cronistas, como Cármelia, que se reconhecia como “cronista do povo”, foi o que ela declarou em autoentrevista publica em O Diário e em “Vento Sul”.

Carmélia não casou, numa época que todas as mulheres casavam. Carmélia era Carmélia para tudo e para todos. “Trágica, hostil, amiga, cínica e debochada”, como a descreveu Amylton de Almeida na introdução de “Vento Sul”, Carmélia era ousada. Não teve filhos, só amigos e alguns amores frustrados.

Todas as épocas são interessantes. Mas nem todas conheceram alguém como Carmélia

Todas as épocas são interessantes. Mas nem todas conheceram alguém como Carmélia

“(…) escreva uma crônica cheia de doçura, se possível, lembrando de alguém que sempre entendeu (com amor e ironia) que esta ilha é uma delícia, porque qualquer lugar do mundo se torna delícia, desde que ele abrigue os amores que a gente tem…”

Muito se falou e se escreveu sobre ela. Até porque não é possível falar da vida boêmia e intelectual de Vitória dos anos 1960 e 1970 sem lembrar Carmélia Maria de Souza. Na verdade, não é possível lembrar Vitória dos anos 1960 e 1970 sem falar de Carmélia, até porque ela mesma comentou muito sobre esta época. De certa forma, Carmélia traduziu o espírito daquela época em Vitória. Ou melhor, Carmélia era o próprio espírito da época – às vezes um espírito santo, às vezes um espírito de porco. Porque ela era assim, contraditória, de brigas e amores.

Tenho uma lembrança infantil dela, pois que frequentou muito a nossa casa no morro do Barro Vermelho. Só mais tarde conheci a cronista sublime que ela foi. Recentemente reli “Vento sul”, obra que reúne o melhor de Carmélia em forma de crônica. E o melhor de Carmélia não é pouca coisa – “pode crer, irmão” –, assim como o pior também não, como ela mesma admite e avisa em alguns de seus textos, como  “Autocrítica”: “sou capaz das coisas mais cruéis, perversas, incríveis. (…) Sou fogo. Graças a Deus, consigo ser ruim”.

O título da coletânea é referência a esta cidade de ventos, a Ventória dos velejadores, que ela amava.  A cidade foi protagonista, cenário e paisagem, quando não saudade, de algumas das crônicas de Carmélia reunidas em “Vento Sul”. A Vitória de seus escritos nos leva ao Britz Bar e ao Mar e Terra, à Rua Duque de Caxias e à Praia do Canto, às tardes e às madrugadas.

Mas nas crônicas de Vento Sul Carmélia fala, sobretudo, sobre ela mesma e nas suas confissões revela um pouco do espírito de sua geração. Talvez ninguém tenha expressado a alma da cidade de 50 anos atrás com tanto lirismo e de forma tão pessoal como fez ela em crônicas. Ou não seriam líricas as crônicas que falam de amores e afetos, do mar, do céu e das estrelas, das noites de lua e violão à beira mar?

Minhas lembranças dela são lembranças de criança, pois que Carmélia morreu em 1974, aos 37 anos, quando eu mal entrava na adolescência. E nos últimos meses de vida ela se afastou lá de casa por motivos que eu esqueci ou não lembrei de perguntar. Mas eu lembro que suas visitas enchiam nossa casa de amigos e gargalhadas, quase sempre provocadas por ela, que era também, claro, muito espirituosa.

Vento sul, crônicas de confessionário

“É natural e humano o pranto, tanto quanto o riso, na geração de onde eu vim e na geração deste tempo que nos foi dado para viver.”

Vento Sul é uma obra póstuma, cujo título foi retirado por Amylton de Almeida de um romance que Carmélia não concluiu – sua maior frustração, “verdadeira crueldade que cometi comigo mesma”. O título serviu então à coletânea de crônicas organizada e editada por Amylton a partir de textos publicados em jornais e revistas por onde ela passou em 17 anos de jornalismo. Na introdução, Amylton compara Carmélia a Gertrude Stein, pois que teria representado para boa parte da intelectualidade boêmia capixaba o mesmo que a poeta e romancista havia representado para os intelectuais e boêmios que se reuniam em torno dela e fizeram de Paris uma festa nos anos 20 do século passado. “Carmélia viveu tudo, intensamente, sempre presente e inevitavelmente à frente de tudo que se tentava fazer para romper com o convencional e o intelectualmente passivo”. Exagero ou não, Carmélia era de fato uma referência daquela época em Vitória. Ou quem sabe a sua mais completa tradução.

Se há semelhança entre Carmélia e Gertrude Stein, como disse Amylton, a mim a semelhança está na lembrança de vê-la sentada na poltrona do escritório quarto de hóspedes da nossa casa – seu lugar cativo –, onde passava noites inteiras sentada com o indefectível copo na mão e cercadas de amigos atraídos pelas suas conversas, sua crítica e seu humor e pelas crônicas que muitas vezes eram esboçadas, senão acabadas, ali naquele momento junto aos que eram da turma. Mas não era só noites que ela passava lá em casa, havia também tardes e houve dias.

Em uma de suas crônicas, ela comenta um tombo que sofreu e na queda levou Milson Henriques, grande amigo, junto. O acidente resultou em um braço quebrado e joelho machucado e foi motivo de uma temporada de Carmélia no escritório quarto de hóspede da nossa casa no Barro Vermelho. Para a gente, as crianças, dizia que tinha água no joelho e precisava de cuidados médicos, ou dos cuidados do meu pai, médico, e por quem ela tinha enorme carinho.

Mas não foram poucas as vezes que ela ali se internou – e na casa de outros de seus amigos queridos. Muitas vezes por dores outras, geralmente dores de amor. Ela era dada a isso. E confessou.

Vento sul, crônicas de amor

“Diga ao meu amor que não deixo nada para ele, a não ser a certeza de que ele esteve presente em todos os sonhos e em todos os dias da minha vida, desde quando o conheci.”

Vento Sul também é feito de sentimentos confessos, da personalidade e das percepções de sua autora. É feito de coisa que ela amava e outras nem tanto: a vida e a morte, os amigos para toda a vida e gente chata, praia e Praia da Costa, manhãs de sol e noites frias, Dindi e Maísa. Para Dindi – que não é e nem nunca foi pessoa encarnada, mas personagem musa imaginada por Tom Jobim na canção que ela amava, sobretudo na voz de Sylvia Telles –, Carmélia dedicou algumas crônicas e a quem escreve como escrevia a muitos de seus amigos – “diga que eu fui sua muito doida amiga mesmo, Dindi”.

Maísa foi aquela que provocou a maior dor de amor de Carmélia, como a cronista confessou sem pudor. Carmélia considerava Maísa a melhor cantora e a pior mulher. E por dois motivos: “O Barquinho”, música de Roberto Menescal e Ronaldo Bóscoli que ela adorava na voz de Maísa; e Zé Costa, uma das paixões de Carmélia. Maísa, a cantora cujos belos verdes olhos mereceram poema de Manuel Bandeira, tomou Zé Costa de Carmélia, assim como haveria de tomar Ronaldo Bóscoli de Nara Leão poucos anos depois. Maísa era dessas. Mas talvez Maísa tenha sido outra das paixões de Carmélia.

Branca e Carmélia

“E a gente diz adeus. Mas sempre haverá vento, pode crer. Pelo menos enquanto a noite – esta pátria querida de todos nós – continuar sendo habitada, não pelos grandes homens, com seu ridículo. Mas pelos companheiros. Com a sua ternura e com o seu perdão.”

Não sei exatamente por que Branca brigou com Carmélia e elas deixaram de se falar. Esse foi um dos maiores arrependimento de minha mãe, que não perdoou a tempo. Carmélia morreu sem que as duas voltassem a se falar. Carmélia até pediu, mas Branca ainda magoada, recusou um último encontro. Acho que não pensou que fosse o último. Chorou com dor, depois. E perdoou.

Esperando Godot ou a vez que Marinho Celestino ousou no teatro e Amylton de Almeida não perdoou

Esperando Godot ou a vez que Marinho Celestino ousou no teatro e Amylton de Almeida não perdoou

Como disse em post anterior, Marinho Celestino viveu na Europa de onde vinha frequentemente cheio de novidades. Quando voltou em definitivo para o Brasil, trouxe propostas que pareciam bastante ousadas, que ele acreditava revolucionárias. Estava mesmo cheio de ideias depois de dez anos de experiência europeia. Ousado sempre foi, pois afinal, quem nasceu mulato e viado em Vitória de mais de 50 anos atrás e não teve a menor vergonha disso é antes de tudo um forte, um corajoso.

No seu retorno a Vitória, Marinho veio com a proposta de realizar um “projeto ambicioso de teatro popular que [exigia] um espaço totalmente anticonvencional”, como contou em entrevista a Tinoco dos Anjos, publicada na primeira página do Caderno Dois de A Gazeta de 7 de fevereiro de 1981. “Marinho espera, com esse trabalho, oferecer uma nova abertura para os próprios grupos artísticos locais, mas seu maior objetivo é atingir o operariado”, anotou Tinoco.

E ele escolheu para esse projeto “Esperando Godot” de Samuel Beckett, uma obra complexa de uma arte tão pouco popular como é o teatro no Brasil, e que iria estrear dali a pouco mais de um mês. O espaço anticonvencional foi concretizado num improvisado Teatro do Mercado da Capixaba, prédio já naquela época decadente do centro da cidade, cujo pátio central recebeu arquibancadas de madeira que formavam uma arena coberta com lona de circo e palco em três planos com plataforma móvel, além de uma montanha de terra de cinco metros de altura, projeto cênico executado por Luizah Dantas. Era um cenário que impressionava. Para Marinho, era também um espaço adequado para um público “que tem medo de sentar no veludo”, numa referência às poltronas do Teatro Carlos Gomes.

“Pérolas aos porcos”

Talvez a ousadia maior de Marinho tenha sido conseguir que o espetáculo seguisse depois realizando sessões especiais para os operários da Antarctica, da Pepsi Cola, Escelsa e Larica, algumas das empresas que compraram pacotes de ingressos que distribuíram entre seus empregados. Não se sabe se Marinho pretendia fazer a revolução nas fábricas. Talvez apenas pretendesse levar teatro “para o operariado através do patronato”, como afirmou na entrevista a Tinoco. “Esta é uma forma de fazer com que a classe menos favorecida tenha acesso também à cultura. Para que o operariado, no seu período de lazer, não se limite à praia, ao futebol e à televisão à noite,” disse.

Era uma proposta não só ousada, mas também inédita. Na época, ainda não havia as leis de incentivo cultural e era pouco comum o patrocínio empresarial para projetos culturais, ainda mais de teatro, que dependia de verba pública, e ainda mais no Espírito Santo, onde público quase nunca pagou custos de produção e cachê de ator. Marinho conseguiu mover mundos e fundos, públicos e privados, para viabilizar a produção e pagar os atores, inclusive pelos exaustivos ensaios. Mas muita gente duvidou dele.

“Quem é esse cara que acha que o povão vai entender Godot, que tem um texto pesado mesmo para a gente”, foi um dos comentários não creditados anotados por Victor Martins em matéria de página inteira no Caderno Dois de A Gazeta do dia da estreia, 12 de março de 1981. Para Marinho, Godot era o texto certo, pois que trata da “relação mestre-escravo, dominante-dominador (sic)”.  Na matéria, Victor parecia já adivinhar a polêmica que viria depois. “O frisson – além de algumas pontadas de inveja – que esta versão de 81 de Godot consegue disseminar aqui e ali seriam prenúncios do êxito de uma montagem reconhecidamente pretensiosa,” escreveu Victor.

A crítica

A estreia no dia 12 de março lotou o Teatro do Mercado da Capixaba. O elenco era formado por Anginha Buaiz (mensageiro), Laura Lustosa (Lucky), Milson Henriques (Pozzo), Bob DePaula (Estragon) e Branca Santos Neves (Vladimir), além de Selmo Rocha, Hélio Gama e Balduino El Africano, que formavam o cortejo.  A produção foi de Marinho e Antônio Alaerte. Mas a peça, que tinha duração de mais de três horas. foi mal recebida pela crítica local que se dividiu quanto ao desempenho do elenco. E teve quem não perdoou nada, sobretudo não perdoou a Marinho. Afinal, quem era “aquele cabeleireiro bicha que veio de Paris com ideia de montar Beckett para o operariado?”, segundo outro comentário anotado por Victor Martins.

Dois dias depois da estreia, 14 de março, foi publicada na primeira página do Caderno Dois a crítica de Amylton de Almeida para Esperando Godot na versão de Marinho Celestino. Vinha com o seguinte título: “Enfim, o teatro desastre nas travessuras de um cabeleireiro”. Isso não ia dar certo.

No seu texto, Amylton não deixava pedra sobre pedra. Sua crítica desferiu sarcasmo para todos os lados. Ele começou ferino escrevendo que “o cabeleireiro Marinho Celestino, após cinco anos de Paris, sofre com a aflitiva certeza de que sua volta à terra o obrigará a comer pão em vez de brioche. (…) Ele pretende sacudir todo o marasmo que sempre foi do teatro capixaba (…) para realizar um espetáculo revolucionário destinado a divertir o operariado capixaba em local compatível, com muito calor e cadeiras desconfortáveis.”

Entre os atores, nenhum foi elogiado. Sobre a minha mãe, Amylton a descreveu “como uma mulher mal informada, que jamais soube da existência de Cacilda Becker e Lilian Lemmertz”, em referência a duas das maiores intérpretes de Godot no teatro nacional. E continuou: “parece ser uma mulher séria e provavelmente até inteligente para se entregar a um ridículo espalhafatoso (…) O seu ridículo é muito mais aflitivo exatamente porque contido e dolorosamente consciente. Branquinha Santos Neves deve se achar a pior atriz do mundo”. Ufa!

Não sobrou nem mesmo para o autor. Samuel Beckett foi taxado por Amylton como “o obscuro e mal humorado empregado de James Joyce”, que seguindo o exemplo de seu patrão, conseguiu cometer o mesmo pecado do autor de Ulisses. Como disse Virgínia Woolf a respeito do romance de Joyce e devidamente reproduzida por Amylton: “Nenhuma obra-prima tem o direito de ser tão chata”. Não sobrou nem para Godot.

Bem, sobre a qualidade da obra de Beckett não ouso opinar, mas lembro que a crítica de Amylton enfureceu Marinho, que transtornado exigiu espaço para réplica, que A Gazeta não concedeu. O motivo eu não sei. Só sei que Amylton voltou à carga e no dia 18 de março, na seção agenda cultural, afirmou que a encenação era “indigna do nome teatro”. E insistiu na agenda cultural do dia 27: “Enquanto Branquinha Santos Neves e Bob DePaula imitam Renato Aragão e Dedé Santana, sem intenção de divertir o público, Milson Henriques intencionalmente caricatura seu personagem, conferindo-lhe tiques de Zé Bonitinho.” Ia dar merda, quase deu.

Marinho Celestino x Amylton de Almeida, o embate

Noite de chuva, evento na Galeria Homero Massena, centro da cidade, Marinho entrando, Amylton saindo. Podia dar em tapa na cara, quadros voando ou briga na calçada, mas deu apenas em dedo na cara, batida no peito e num insulto que definia, segundo Marinho, a diferença entre ele e Amylton.  Rogério Medeiros, que acompanhava Marinho, é quem conta:

“Vi Amylton saindo e alertei Marinho: ‘é a sua oportunidade’. Ele partiu grande para cima do Amylton, que mais baixo, se encolheu.” Marien Calixte tentou apaziguar, mas Rogério insistiu: “vai deixar por isso mesmo?” Marinho mais puto ainda, bateu no peito, botou o dedo na cara de Amylton e cuspindo, esbravejou mil insultos que encerram a seguinte sentença: “eu sou viado, mas você não passa de uma bicha”.

Rogério conta que não entendeu o insulto e na volta, no carro, perguntou a Marinho que negócio era aquele de viado e bicha. Marinho explicou: “bicha tem problema com o pai, com a mãe, com o mundo, consigo mesma. Dá a bunda com desgosto, complexo e culpa. Eu sou viado, dou a bunda porque gosto”. Baixa o pano.

A temporada

Toda a crítica capixaba da época foi unânime em considerar a incursão de Marinho Celestino no teatro como amadorística. Quanto aos atores, houve elogios. Minha mãe, inclusive, teve seu desempenho considerado positivamente como surpreendente na crítica de Toninho Neves para A Tribuna.

E a temporada cumpriu seu objetivo. Esteve por três meses em cartaz no Teatro do Mercado da Capixaba e recebeu também o público operário que esperava. Depois disso, Marinho não teve novas experiências com o teatro. Minha mãe seguiu.