Sizino, o pioneiro

Dia desses peguei para reler “Bares, botequins etc.” o oitavo volume dos “Escritos de Vitória”, coletânea de artigos, crônicas e memórias, que foi publicada pela Secretaria Municipal de Cultura ao longo das gestões de Paulo Hartung e de Luiz Paulo Veloso Lucas, quando prefeitos da cidade. Não sei ao certo quantos volumes foram editados e nem quais as temáticas de todos. Os dois volumes que tenho comigo, encontrei na biblioteca da minha mãe, rica em edições capixabas como livros que contam histórias de Vitória, assunto que sempre a interessou, até porque ela viu e viveu muitas.  “Branca, a que realmente viu tudo”, anotou em dedicatória Rogério Coimbra, um dos 20 autores que escreveram em “Vitória de todos os ritmos”, o 19º volume da coletânea.

A vontade de reler “Bares, botequins etc.” provavelmente me veio porque no último texto que publiquei aqui, contei sobre a festa para Angela Ro Ro e me lembrei do Sizino, que é o motivo deste post de agora, pois que está ausente do oitavo volume, o que eu considero uma injustiça e dou prova.

Para comprovar a injustiça e desfazê-la, informo que o Sizino foi o bar e restaurante pioneiro do Triângulo das Bermudas, trecho final da Praia do Canto que veio a se transformar em point da noite da capital a partir dos anos 1980, isto é, a partir do Sizino e seus dois vizinhos, o Din Don Don e o Bilac, estes ainda funcionando e no mesmo endereço, nas esquinas das ruas Joaquim Lírio e João da Cruz. Depois vieram outros que ali se estabeleceram e transformaram definitivamente aquele pedaço final da Praia do Canto em área dedicada quase que exclusivamente ao comércio, ao lazer e à gastronomia.

Mas foi o Sizino, sem dúvida, que começou atrair público para aquele pedaço. Disso tenho certeza, pois eu vi.

Tardes, noites e madrugadas

O Sizino foi o point de quase todas as noites dos meus primeiros fins de semana de bares e noites. Era o lugar dos primeiros encontros – dali combinava-se outras baladas, como a festa para Ro Ro  – ou ficava-se a noite toda e às vezes até a madrugada quase raiando o dia.  As sextas e aos sábados juntava gente para caramba a partir das sete, oito horas da noite, quando começava a engarrafar as ruas próximas.

O nome do bar era o nome do dono, Sizino, pescador e cozinheiro de mão cheia que abriu um restaurante simples para servir boa moqueca, caranguejo graúdo e cerveja gelada. Era também lugar de almoços depois da praia, de onde vínhamos salgados, com os pés ainda sujos de areia e cheios de fome.

Estar no Sizino era quase como estar em casa, à vontade e ao ponto de, já de madrugada, sermos expulsos pelo garçom folgado e íntimo demais. Caçapava, de quem suspeitei como possível pivô do fim da festa da Ro Ro no texto anterior, agia com autoridade de patrão. Não foram poucas às vezes em que tocou para fora os últimos clientes lavando com água, sabão e rodo o chão do bar sob os nossos pés.

Uma caixa de siris

Mas o Sizino foi breve, cresceu mais que a ambição do dono, que resolveu passá-lo à frente, quando a área já era disputada por novos e maiores estabelecimentos que foram mudando a cara do lugar. Mas antes que isso acontecesse, o final da Praia do Canto, e especialmente, os quarteirões finais da Rua Joaquim Lírio, era lugar de residências e do movimento de pescadores (como Sizino e Don Don, este homenageado pelo Di Don Don) que ainda mantêm, no final da rua, uma pequena colônia para receber a acondicionar o produto da pescaria que chega em barcos pelo canal de Camburi. Aquele era o tempo que o pescador levava o pescado fresco à casa do freguês e, às vezes, à mesa do Sizino.

Foi o que aconteceu numa madrugada, com o dia quase raiando, que saímos de lá com uma penca de siris trazidos pelos pescadores que chegavam com os barcos. Como eles sabiam que aquela hora ainda seria possível encontrar o Sizino aberto, foram atrás de primeiros fregueses para ofertar pescado fresco, na esperança de vender algumas dúzias de siris vivos. Ricardo Jarrão, que comandava a mesa em que estávamos, mandou comprar a caixa toda e dali já combinou sem mais cerimônia, que não era necessária: amanhã todos na casa de Branca para desfiá-los e cortá-los ao meio e depois cozê-los e comê-los a carne pura ou em muma. Minha mãe não se opôs, pelo contrário. No dia seguinte, a casa encheu de gente e de siris, que foram desfiados pacientemente no palitinho.

Uma andorinha

A época do Sizino era o tempo em que bastava uma andorinha para fazer verão – ou um bar para reunir todo mundo –, antes que a cidade crescesse e os bares se multiplicassem por ruas e quarteirões que oferecem opções variadas. Do Triângulo das Bermudas na Praia do Canto, à Lama de Jardim da Penha, à Laminha de Jardim Camburi e aos bares nos limites da Mata da Praia com o Bairro República, Vitória cresceu e formou novos circuitos de comida e diversão. E o Sizino foi pioneiro, mesmo que sem intenção, nessa história. Por isso me atrevi a reclamar, ainda que tardiamente, a ausência do Sizino entre os bares lembrados no oitavo volume dos “Escritos de Vitória”.

Uma festa pra Ro Ro que rolou escada abaixo

Uma festa pra Ro Ro que rolou escada abaixo

Acho que já deixei transparecer nessas minhas lembranças de Branca que ela gostava de festas e agitos. E teve muitas festas na nossa casa no Barro Vermelho. Mas se não tinha festa em casa, minha mãe ia a festas em outros lugares e em outras casas. E muitas vezes eu fui com ela, quando ela achou que eu já tinha idade para acompanhá-la. Mais tarde eu tive idade para ir a festas por conta própria, onde quase sempre encontrava com ela, que não perdia quase festa nenhuma em Vitória.

Não sei se esse espírito festeiro de minha mãe tinha a ver com o fato dela ser filha de pais boêmios, frequentadores assíduos do Club Vitória, no Parque Moscoso, onde se encontrava, dançava e se divertia a elite capixaba dos anos 30 e 40 do século passado. Meus avós e seus amigos formavam uma turma de pessoas alegres que gostava de festas, serestas, poemas e madrugadas, enfim, de se divertir. Mais ou menos como gostou Branca, alguns anos depois.

Bom, mas esse é outro tempo, deveras outrora, de que não tenho lembrança nem a quem mais perguntar sobre. Ou quase ninguém mais. Vou contar então de uma festa de que me lembro e onde encontrei minha mãe, que chegou antes. Foi uma festa ótima até terminar de forma escandalosa, o que foi melhor ainda ou, talvez, a melhor parte da festa.

Aconteceu no início dos anos 1980, período em que a MPB vinha revelando muitas vozes femininas, como Marina Lima, Joana, Zizi Possi, Simone e Ângela Ro Ro, que veio dar show no Teatro Carlos Gomes em 1981 e deu o que falar. Porque Ro Ro já nasceu fora do armário e abusada, como provou na ocasião.

Festa nos apês

Acho que a festa aconteceu depois do show, mas não tenho certeza, pode ter sido dias depois. Isso porque me lembro de que estivemos com Ro Ro e sua trupe no Sizino, bar e restaurante pioneiro do que viria a ser o point Triângulo, no quarteirão final da Rua Joaquim Lírio, Praia do Canto. Naquele encontro, estavam todos tranquilos, divertidos e em bom convívio. Por enquanto.

Foi uma festa memorável que aconteceu simultaneamente em dois apartamentos de um prédio de três andares na Rua Agrimensor Adolfo Oliveira, Praia Comprida. Num dos apartamentos, o de baixo, moravam o jornalista J. B. Nery e Ricardo Jarrão, este último um dos responsáveis pela vinda de Ro Ro à Vitória. Na época, Jarrão trabalhava no extinto Departamento de Cultura do Estado (Dec), órgão que bancou o convite e a vinda de Ro Ro para seu primeiro show na cidade.

A festa girava em torno da cantora e servia não só de boas vindas, mas também para dar alguma alegria a Ro Ro, que, me lembrou Jarrão, acabara de romper romance com a também cantora Zizi Possi e estava mal com isso. Espalhada pelos dois apartamentos, a festa atraiu gente para caramba. Praticamente todo mundo que frequentava o Sizino estava lá. Lembro de ver gente pelas salas, cozinhas, nos quartos e nos banheiros dos dois apartamentos. Gente em pé, gente no sofá, nas cadeiras e gente sentada em almofadas pelo chão. Tinha gente até na escada que seria lugar do embate final que acabou com a festa, mas não com o ânimo da gente. Pelo contrário.

Caçapava, o destemido

RoRo veio a Vitória acompanhada de duas amigas que eram a produtora e a iluminadora do show. Uma delas carregava uma boa quantidade de coisas de deixar gente contente e na tomada, coisas que estavam de acordo com o cardápio de baratos da época e que serviram bem à festa, que foi bem dançante. Lembro que em pares ou individualmente, muita gente bailava na sala do apartamento que eu estava, acho que no de cima, aonde moravam Tainha, que depois se tornaria monge budista, Betarello e o arquiteto André Abe.

Mas não sei exatamente o que aconteceu. Foi de repente, o tempo de um xixi. Fui ao banheiro e quando voltei para sala, a festa tinha acabado, ou melhor, tinha descido escada abaixo e já nem era festa mais. Havia se transformado num embate homem a homem entre Ro Ro e Tadeu Lessa, vulgo Patola, aquela altura imobilizado e arroxeado pela “gravata” bem aplicada pela maldita cantora embriagada.  Foi um escarcéu só. Um patamar acima, os convidados se aglomeravam agitados em torcida por Patola, que se encontrava em grande desvantagem.

– Larga ele, Ro Rorosa –, gritava Nahor Bastos, incentivado pelas pessoas em volta.  Minha mãe ria de quase cair da escada. Ela estava adorando aquela confusão toda. Mas antes que se perdessem todas as estribeiras, as amigas de Ro Ro intercederam e desceram com a cantora o resto dos graus que faltavam até portaria do prédio e de lá de volta para hotel onde se hospedaram.    

Versões

Embate encerrado, voltei para dentro do apartamento e encontrei Jarrão sentado, sozinho e injuriado, no sofá da sala quase vazia. Perguntei o motivo da confusão. Jarrão resmungou uma resposta que mal entendi, mas que parecia insinuar que o problema tinha sido entre egos, tipo quem é a estrela aqui. Fiquei em dúvida.

Mas a versão mais difundida conta que a confusão começou pela inconsequência de Caçapava, o garçom do Sizino, que aquela noite largou o serviço para ir à festa e dançar agarradinho com Ângela Ro Ro. E apesar dela só amar mulheres, ele acreditou que era macho suficiente para reverter a preferência da cantora e passou a contar vantagens anatômicas com intenção de possuí-la. Pra quê. O atrevimento acendeu o curto pavio da cantora que, ultrajada, resolveu acabar com a festa do jeito que se esperava dela, escandalosamente.

Agora, porque sobrou para Patola, eu não faço a menor ideia, uma vez que perdi o início da confusão.

Em dúvida, segui para outros lados, já que nos apartamentos pouca gente sobrava. Foi o que fez a maioria dos convidados. Era cedo ainda e estávamos todos embalados e animados pela festa repentinamente acabada. O jeito era continuar e fomos, ou melhor, voltamos mais uma vez para o Sizino, aonde muitas noites amanhecemos.

Bons dias!