A arte de pilotar motocicletas – ou com Chico na garupa

Volto às lembranças de Vitória do tempo das praias depois aterradas e de ruas tranquilas e trepidantes calçadas com de paralelepídeos, onde eu aprendi a dirigir, ou mais precisamente, a pilotar. Trago essa lembrança porque o responsável pelo meu aprendizado sempre me cobra essa história, que é um pouco sobre ele e também sobre motocicleta.

Aliás, sobre ele eu até já comentei aqui neste blog em textos que lembrei os Mamíferos de Afonso, Marco Antônio e Mário Ruy entre outros. Cantor, compositor, violonista, meu professor de pilotagem tem lugar alto na história da música capixaba. Mas há histórias sobre ele que poucos sabem, por isso conto aqui e assim, atendo ao pedido dele. Então Chico Lessa, esse é para você, que foi quem me ensinou a arte de pilotar motocicleta quando eu tinha 11 anos de idade, se não me engano.

Chico foi muito nosso amigo, apesar de hoje em dia quase não nos encontrarmos. Mas uns 40 e poucos anos atrás, ele foi pessoa frequente na nossa casa no Barro Vermelho, uns dos muitos bons amigos de Branca Santos Neves, minha mãe. Lembro dele chegando lá em casa com seu sorriso manso e aberto, os olhos doces e verdes e cabelos que antecipavam o estilo dreadlocks dos rastafáris da Jamaica. Cachos de embaraços. Na época, a estética era cabeluda.

Chico e as cinquentinhas

O caso é que Chico Lessa foi muito presente na casa do morro, sobretudo no início dos anos 1970, época em surgiam as primeiras cinquentinhas, modelo de motocicleta que virou febre entre os adolescentes dos bairros praianos de Vitória. (As Cinquentinhas eram motos de baixa cilindrada que foram responsáveis pelo desenvolvimento das primeiras gerações de motociclistas no Brasil, segundo o portal Uol). Lembro bem de meninos na Praia do Canto montados em suas pequenas motos, que podiam ser uma Yamaha, uma Suzuki ou uma Honda, mas só nas cores azul ou laranja, as únicas opções oferecidas pelas três marcas. Victinho, meu irmão, além de nadador, surfista e marinheiro, foi também motoqueiro pioneiro numa Yamaha de cor azul que meu pai comprou para a gente em maio de 1972.

Pois então, foi na cinquentinha Yamaha de cor azul com o corajoso e intrépido músico Chico Lessa na garupa, que fui aprendendo a contornar a pracinha do Cauê nas primeiras noções de pilotagem numa motocicleta, que é mais difícil de dirigir do que carro, principalmente para uma criança de 11 anos de pernas ainda curtas mesmo para uma cinquentinha. Pode parece irresponsável botar uma criança para pilotar motocicleta. E talvez fosse, mas as ruas da Praia do Canto e arredores eram tranquilas e de pouco tráfego, apesar de trepidantes, o que foi motivo para tombos frequentes, quase sempre sem maiores consequências. Geralmente o prejuízo maior era da moto, que tinha retrovisores e manetes de freio ou embreagem quebrados. Para o piloto o prejuízo mais comum era causado pelo cano de descarga quente e mal situado das cinquentinhas. Foram muitas as pernas queimadas.

Naquele dia na Praça do Cauê, Chico levou eu e Bianca, minha irmã, para pilotar motocicleta pela primeira vez. Uma de cada vez. Eu e ele demos algumas voltas na praça. Depois ele achou que eu já tinha boa noção de pilotagem e deixou que eu conduzisse a moto até em casa, no Barro Vermelho. Então ele levou Bianca, que já esperava ansiosa sua vez de aprender a pilotar motocicleta com Chico Lessa na garupa.

Violão não

Ah sim, Chico Lessa também tentou ser meu professor de violão, mas deste ele desistiu de mim. Fez bem, pois na moto me saí melhor aluna.

Uma noite mamífera – o epílogo

Uma noite mamífera – o epílogo

Antes de mais nada, peço desculpas pela minha falta. Que coisa feia, intervalar sem maiores explicações. Mas explico breve: questão de tarefas extras e exigentes. Mas volto ao fio da meada, que deixei solto. E nem ia falar do que vou falar aqui, neste post atrasado. Até achei que ia partir para outros assuntos e outras lembranças de Branca. Mas o fato é que na quarta-feira da semana passada, dia 9 de novembro, aconteceu o show da banda Aurora Gordon e o lançamento do livro “Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular”, do professor e escritor Francisco Grijó, no Teatro da Ufes, dois eventos que comemoraram os 50 anos dos Mamíferos. E assim a saga mamífera continua, e por bons motivos, gosto e prazer. O show foi ótimo, com o Aurora Gordon e participação preciosa de André Prando interpretando o repertório dos Mamíferos; o livro é importante para a historiografia da cultura e da arte capixaba e pelo prazer da leitura; e o assunto me é especial. Foi uma noite em que encontrei muita gente, muitos amigos, que fizeram essa história agora comemorada e contada em livro.

Todos esses eventos são parte do Aurora Gordon, que além de nome da banda de música é um projeto maior de memória e preservação, produção e criação artística e é nele que se inserem Francisco Grijó e sua crônica biográfica da saga dos Mamíferos. O livro é dividido em duas partes, além do prólogo e do epílogo com textos e letras de autoria dos personagens retratados no livro. Aliás, mais que personagens, são personalidades que Grijó retrata no perfil e na história de todos que participaram da banda, seja como músicos, seja como autores.

O livro

A primeira parte do livro é dividida em oito capítulos, um para cada participante. Nos títulos dos capítulos, o autor colocou uma qualidade que de certa forma sintetiza a personalidade e o papel de cada um na banda. Afonso Abreu é o líder, Marco Antônio Grijó, o profissional; Mário Ruy, as cordas; Aprígio Lyrio, a voz; Arlindo Castro, a palavra; Paulo Branco, o rock; Rogério Coimbra, a produção; e Sérgio Regis, a letra. São estes enfim, os meninos dos Mamíferos, como diria Branca. Mas há muitas outras pessoas que passam pelo livro e direta ou indiretamente passaram pela trajetória meteórica da banda, que surgiu em 1966 e findou em 1971. Foi breve, mas fez um barulho danado, como o livro mostra.

Mas os títulos dos capítulos são só uma pista, pois cada capítulo revela um pouco da formação, interesse e histórias acontecidas com e entre seus personagens e vai além. O livro do Grijó lança um olhar revelador de uma época que foi criativa e contestatória em quase todo mundo e aqui em Vitória também. É sobre essa época e seu contexto que o livro passeia numa perspectiva não só local, mas também brasileira, retratando e refletindo de maneira crítica sobre o momento social, político, econômico e ideológico em que os Mamíferos surgem.

Na segunda parte do livro, o contexto da época fica ainda mais revelador quando trata de dois eventos que sacudiram a cena cultural capixaba, os festivais capixabas de MPB e Festival de Verão de Guarapari, este último uma mistura de música e desbunde, polícia e repressão, acidentes e desorganização e principalmente, que marcou o fim da banda Mamíferos.

O livro “Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular” foi escrito a partir de dezenas de entrevistas e minuciosa pesquisa documental, que formam um retrato detalhado de uma época e por meio de texto que aproxima o leitor de personagens e de um tempo interessante em Vitória.

Eu, Ronaldo e Chico Lessa

Nesta noite comemorativa tive ainda um privilégio que aconteceu por puro acaso. Foi por coincidência que, ao descer para a cantina do cine Metrópoles, encontrei no caminho Chico Lessa acompanhado de Ronaldo Alves, que chegavam para o evento.  Chico e Ronaldo são os autores da antológica “Cosmorama Total”, canção com que os Mamíferos causaram no II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira (fato contato em detalhes no livro do Grijó) e inauguraram a modernidade na cultura capixaba. A canção não teve registro material e quase se perdeu na memória do próprio autor. Chico me contou que teve que recorrer a Afonso para lembrar a melodia, pelo menos partes dela, e assim recuperar a música.

Mas o que eu queria contar foi que Chico tocou para mim ali mesmo pelo caminho sua versão mais melodiosa de Cosmorama Total, que na noite do II Festival Capixaba de MPB, tinha se transformado num rock pesado na versão mamífera. Então era eu com Ronaldo e Chico numa audição exclusiva e recuperada da música que marcou época e fez história com os Mamíferos. Foi bom à beça, Chico Lessa.