Paulo DePaula, uma história do teatro capixaba em primeira pessoa

Paulo DePaula, uma história do teatro capixaba em primeira pessoa

 

Como todo ano, na véspera do Natal, Paulo DePaula estará à frente de mais uma encenação do “O auto dos reis a procura do rei”, que acontece hoje, a partir das oito horas da noite, na pracinha central da Barra do Jucu, Villa Velha. Será a 15ª edição do Auto que homenageia o nascimento de Jesus Cristo e mais uma vez será encenada por elenco e coral formado por pessoas da comunidade da Barra. O elenco conta com 18 integrantes que aprenderam o ofício de ator nas oficinas que Paulo ministra na sede do Teatro da Barra, a instituição que ele e o filho, Bob de Paula, criaram há 40 anos. O Auto é uma homenagem de Paulo ao Natal e à Barra do Jucu em forma de teatro, arte que é seu ofício e sua paixão. Paulo DePaula é um homem de teatro desde sempre.

A primeira vez que ele pisou num palco contava quatro anos de idade. Está com 83. Fazendo as contas, são 80 anos de palco. É uma longa história que merece ser contada, pois é parte importante da história e memória do teatro capixaba. Porque além de dramaturgo, ator, diretor, produtor, Paulo é também poeta, escritor, tradutor, professor e um estudioso da história do Espírito Santo e das tradições da cultura popular brasileira e capixaba, temas que foram motivo e propósito das muitas peças que escreveu e encenou. Ele é um profundo conhecedor do teatro capixaba desde os tempos do padre José de Anchieta, o precursor.

Mas Paulo DePaula é também um amigo querido. Foi pelas mãos dele que minha mãe, Branca Santos Neves, virou atriz. A estreia dela aconteceu em 23 de abril de 1976, no Teatro Carlos Gomes, com “Anchieta: um depoimento”, escrita e dirigida por Paulo. Foi a primeira vez que a vi no palco de um teatro. E não seria a última vez que assistiria minha mãe no palco sob direção de Paulo de Paula. Mas essa história não cabe aqui. Não ainda. Nem todas as histórias caberão aqui. Nem tudo sobre ele caberá aqui. Paulo é muito, mas meu espaço é pouco. Então, lamentavelmente em resumo, falo um pouco sobre ele, e especialmente sobre ele e o Teatro da Barra.

Teatro, formação e cultura popular

“O Auto dos Reis a Procura do Rei” é um teatro de inspiração anchietiana, que incorpora manifestações populares, como faz Paulo com o Congo e a Folia de Reis da Barra do Jucu. É um teatro de rua, ou para ser encenado em espaço aberto, como é da tradição dos autos de fé. Na encenação de hoje, os palcos são a Praça Pedro Valadares e a Igreja Nossa Senhora da Glória, no centro da Barra, e contam com a participação do grupo Folias de Reis da Barra e com Banda de Congo Mirim Tambores de Jacaranema, além o coral Canta Barra, também formado por pessoas da comunidade e sob regência de Inarley Carletti.

Fui assistir a um ensaio do Auto, mas não acompanhei o grupo até o local de exibição. Não fui à praça. Paulo me ligou mais tarde lamentando, ou melhor, penso eu, reclamando a minha ausência. Ele é assim, exigente e rigoroso com o que lhe diz respeito. Diz para mim sobre os aspectos que acha necessário serem considerados neste perfil.  Ele dirige nossa conversa com o mesmo rigor com que dirige seus atores. No ensaio, Paulo faz o elenco repetir a cena de Herodes e Herodine até que sinta que todos tenham o domínio e o sentido do texto. Diz ele que “texto não é para ser decorado, mas compreendido”. Isso garante a segurança do ator que pode improvisar outra palavra que mantenha o sentido do texto quando a palavra original lhe fugir à memória.

O Teatro da Barra se caracteriza exatamente pela busca de fontes capixabas para enredo das próprias peças, em maior parte escritas por Paulo e o filho Bob, já falecido.  Destes estudos e pesquisa nasceram peças como, “Um homem chamado Domingos”, “A Sereia de Meaípe” “O Auto de Pedro Palácio”, que se apresenta até hoje, depois de ampliada por Marcos Ortiz, e a já citada “Anchieta: um depoimento”, a primeira peça a incorporar elementos da nossa cultura popular e que inaugura o grupo Teatro da Barra, formado inicialmente por Branca, Bob, Luiz Tadeu Teixeira, Joelson Fernandes, Alcione Dias.

Do teatro universitário ao Teatro da Barra

Paulo é também e então um formador. Desde o início de sua longa trajetória sempre trabalhou com a formação de atores. Na década de 1960, como professor no Departamento de Letras da Ufes, ele participou da criação do Teatro Universitário Capixaba (TUC). Na década de 1980, como diretor de Artes Cênicas da Ufes, esteve à frente do Núcleo Integrado de Atividades Cênicas (NIAC) do Centro de Artes formando novos atores e encenando peças de autores consagrados como Maria Clara Machado, Shakespeare, Tennesse Willians, Fernando Arrabal, Ariano Suassuna e Julio Matas.

A vocação de formador em atividades cênicas continuou com o Teatro da Barra. Tem sido assim desde o princípio quando estudantes que participaram das iniciativas de Paulo na universidade foram convidados a participar de algumas montagens do grupo. De lá para cá, o Teatro tem ofertado oficinas abertas a todos interessados em arte cênica e que abrangem desde estudos de textos de peças, preparação vocal e corporal, exercício de esquetes e jograis. São duas oficinas por ano com duração de quatro meses cada.

Acervo memória do teatro capixaba

Paulo é ainda guardião de um acervo precioso que contém notícias, reportagens, crítica e comentário da cena teatral capixaba desde a década de 1960. São documentos que registram momentos, ideias, pensamentos e posições, enfim o contexto cultural capixaba desde a década de 1960. São livros manuscritos, fotografias, recortes de jornais, páginas de revistas que registram momentos do nosso teatro e a história daqueles que fizeram e fazem o teatro capixaba. Há raridades, documentos e informações difíceis de serem encontradas em bibliotecas ou arquivos públicos. O acervo foi todo catalogado e está disponível para consulta pública.

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Cena do Auto dos reis à procura do rei, 2014. Foto Rodrigo Gavini, Acervo Teatro da Barra

Enfim, Paulo DePaula é homem de muitas facetas, todas ligadas à arte e especialmente ao teatro. Pena que não deu para contar toda sua trajetória aqui. Tive que deixar muita coisa de lado e privilegiar o Teatro da Barra. Espero que ele goste.