Reconecta, um festival que mostra o fôlego cultural da cidade

Reconecta, um festival que mostra o fôlego cultural da cidade

 

Vitória é uma cidade onde tem gente fazendo literatura nas quebradas e na internet divulgando música e formando redes de distribuição; tem gente abrindo a casa e produzindo show; tem gente falando de música e gente contando história e tem poesia no poste. E em Vitória tem muita bicha preta, muita bicha branca, muita mulher negra e mulher branca no Hip Hop e tem crianças curtindo tudo isso acompanhadas de pai e mãe. Foi o que se viu no último domingo no Parque da Pedra da Cebola, quando cerca de três mil pessoas, gente das mais diversas tribos da cidade, esteve lá para prestigiar o show de Lineker e o último dia de ações culturais do Festival Reconecta, evento que durante quatro dias, de 3 a 6 de março, pretendeu mostrar “um recorte da produção cultural que pulsa aqui no Espírito Santo e Brasil afora”.

O show do cantor paulista, talento que viralizou na internet no final do ano passado com o EP “Cru”, foi o ponto final das atividades do dia, que teve ainda brechós, oficina de arte gráfica e desenho, encontro de danças urbanas, papo sobre alimentação como arte e ativismo e música, muita música. O domingo no parque deu uma pequena mostra do que foram os quatro dias do festival, evento que reuniu várias linguagens e experiências culturais em ações realizadas por toda a cidade e tudo ao mesmo tempo.

Do centro à periferia

O Festival Reconecta é uma realização do Lab. Muy – Arte e Cultura Digital com apoio da Secretaria de Estado da Cultura e uma extensão dos festivais Casa.Lab e Fábrica.Lab de Ideias, realizados em 2013 e 2014, respectivamente. Mas ao contrário destes dois, que se concentraram em um único espaço (a Casa Amarela, no centro da cidade, e a Fábrica de Ideias, em Jucutuquara), o Reconecta teve como palco principal os espaços abertos da cidade, como a Praça Costa Pereira, o Morro do Jaburu, e o Parque Pedra da Cebola. A ideia do festival é esta mesma, abrir espaços para exibir e refletir sobre as criações e as manifestações culturais que se realizam fora dos eixos massivos da produção cultural do país. Foram 225 envolvidos, entre artistas e ativistas, mais uma equipe de 40 pessoas, entre produtores, fornecedores que ocuparam ruas, praças, parques, jardins, bares e o Teatro Carlos Gomes com intervenções, shows, oficinas, bate papo e debates sobre a produção cultural contemporânea.

A escolha dos espaços para realização das ações do Reconecta levou em consideração as referências culturais que cada lugar emite e que permitiu envolver os quatro cantos da cidade. O centro foi palco do primeiro dia. “Não poderíamos abrir mão do centro, pois é lugar que tem movimentado a cidade e onde se encontram espaços reconhecidos na realização da cena cultural daqui como a Casa da Stael, a Casa Verde, os bares da Gama Rosa”, explica Fabrício Noronha, curador do evento e um dos sócios do Lab. Muy.

Quatro eixos

Os espaços foram escolhidos também em função dos quatro eixos pensados pela curadoria do evento com o objetivo de refletir questões pertinentes à cultura urbana e contemporânea que se manifesta na cidade, no estado e no país. O centro foi palco do eixo “Política, cultura e transformação”, no sentido justo de pensar a cultura como ação política. Além de atividades na Praça Costa Pereira e show com os músicos Macako e Otto, no Teatro Carlos Gomes foi realizada, no dia 3, a mesa de abertura do evento com seminário “A cultura como gatilho das transformações sociais do Brasil” (assunto do próximo post).

Em Jucutuquara o eixo foiConexão, cultura e ocupação”, com a realização de seminários sobre música (em próximo post), nos jardins do Solar Monjardim, e a intervenção de lambes poéticos nos postes da Avenida Paulino Miller. Mas as ocupações do dia extrapolaram o bairro e cobriram vários outros espaços com o evento “Não pare de dançar”, uma festa integrada entre vários bares e casas de shows da cidade conectados por um ônibus boate (com direito a bar e DJs) que circulou por todos os pontos – do centro à Praia do Canto e Jardim da Penha. Cada ponto promoveu suas próprias atrações e uma única pulseirinha, a 20 reais, dava acesso a todos eles.

Coletivo Jaburu

A escolha do Morro do Jaburu como palco do terceiro dia do festival aconteceu em função dos vários coletivos presentes na comunidade, muitos dos quais têm literatura como ação cultural. Daí o nome Palavra, cultura e visibilidade” para o terceiro eixo do festival. “O morro estava sedento por ações e eventos que pudessem fazer acontecer o potencial criativo dos coletivos criados ali e em outras comunidades que são expressão da cultura que se faz na periferia, seja na música, na dança, seja na literatura”, diz Fabrício. A proposta do festival foi abraçada pela Associação de Moradores e envolveu moradores, inclusive crianças da comunidade.

E por fim, o eixo “Conexão, cultura e partilha”, encerrou o festival coma ocupação da área das quadras do Parque Pedra da Cebola e o show das locais bandas Vão, Vão, Vão, Caxambu Santa Cruz, Rabujah e os artistas de São Paulo Tássia Reis e Lineker, um fenômeno também de presença em palco que botou todo mundo para cantar as músicas do seu primeiro CD, “Remonta”, que será lançado este ano.

Balanço Geral

No balanço geral do festival, o resultado foi positivo. “Estamos muitos felizes, atraímos quase 8 mil espectadores e ajudamos a dar espaço e visibilidade a muitas ações. Foram 121 propostas que recebemos na chamada pública que realizamos para o Reconecta. Uma quantidade que nos surpreendeu e mostra o potencial de realização cultural que pulsa na cidade. Infelizmente nem tudo foi possível contemplar por questões orçamentárias”, diz Fabrício. Mas ele garante que a quarta versão do festival já está certa, pois o projeto foi classificado em quarto lugar no Prêmio Funarte (edital Festivais), o que garante seu financiamento. Fabrício não quer adiantar o conteúdo, pois ainda está sendo pensado. O certo é que ano que vem tem mais. Que bom!