Nestor Gomes, uma ladeira e muitas e boas ideias

                           “Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, na alma dos poetas, no cérebro das multidões.”                                                                                                                                            (João do Rio)

 

A Rua Nestor Gomes é na verdade uma ladeira. Na verdade, duas ladeiras, uma que sobe da Rua Duque de Caxias até o largo do Palácio e outra que desce dali em direção à Avenida Florentino Avidos, do outro lado. Esta rua-ladeira em forma de arco reúne em si e ao seu redor prédios, monumentos, escadarias e memórias que são testemunho e marca da formação cultural e da história da cidade de Vitória e do estado do Espírito Santo. É lugar, como disse Rafael Gaspar, do Coletivo Expurgação, que conta muito da identidade capixaba.

A rua foi originalmente chamada de Ladeira do Chafariz, numa referência ao chafariz hoje seco da Praça João Clímaco, na parte alta do arco. Era então uma viela estreita que foi urbanizada na época em que o governador que lhe dá nome mandou botar abaixo o casario antigo da cidade alta, atitude que o povo contente considerou uma boa ideia. Daí o novo logradouro adotou o elogio e a ladeira passou a ser conhecida como Ladeira da Boa Ideia. O nome, não o motivo que o originou, talvez possa ser considerado uma premonição ou uma vocação. Ou as duas coisas. Segundo Fernando Tatagiba, nos anos 60 a ladeira, nomeada Rua Nestor Gomes desde o final da década de 20, era ponto de agitação cultural da cidade por conta da Livraria Âncora, local de encontro de escritores e da intelectualidade capixaba da época.

A livraria ainda existe, mas agora é outra e tem outro nome. Chama-se Livrara Cultura Capixaba e é uma das instituições que formam o Corredor Criativo Nestor Gomes, uma iniciativa que vem reafirmar, ou resgatar, a vocação da ladeira como lugar de encontros e agito cultural. A rua é endereço de 17 instituições cujo negócio se insere na economia criativa, setor geralmente associado à produção de bens culturais, mas que envolve ainda moda, tecnologia, internet, arquitetura e design e tudo mais que é gerado pela capacidade humana de imaginar, criar, inventar, inovar. São instituições cujo negócio é gerar boas ideias e fazê-las acontecer.

São 17 instituições que coincidentemente foram se instalando na Nestor Gomes nos últimos dez anos, atraídas pelo baixo custo dos imóveis no centro de Vitória e pela riqueza do patrimônio físico e histórico da rua e seu entorno, que lhe confere uma atmosfera inspiradora. E mais recentemente, o centro tem se tornado lugar de moradia e circulação de um público mais aberto e curioso a novas propostas artísticas e ofertas culturais. Pois é um pouco disso que a Rua Nestor Gomes e as instituições ali presentes vêm oferecendo.  Por ser endereço de instituições criativas, a via tem sido palco e moldura de eventos artísticos e ações culturais como o Ensaio Aberto e o Cine Expurga, do Coletivo Criativo Expurgação (matéria do post anterior), o Beco das Pulgas, do Instituto Quórum, das esquetes teatrais do Teatro Folgazões, exposições com as criações de moda do Atelier King & Tacchetto, eventos que em geral ocorrem simultaneamente como forma de movimentar e trazer o público de volta ao centro histórico.

APL, alternativa ao fomento cultural

A reunião de empresas de um mesmo setor em um mesmo lugar é não só uma coincidência feliz como também condição apropriada para a conformação de um arranjo produtivo local (APL), que é caracterizado, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, por aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais com foco específico de atividade econômica e que atuam de maneira colaborativa e interativa, de forma a favorecer e ampliar a troca de conhecimentos, as formas de acesso ao mercado e a geração de inovações. O Corredor Criativo Nestor Gomes é uma das 27 APLs no âmbito da economia criativa identificadas no país pelos ministérios do Desenvolvimento e da Cultura e o único do estado. O fato é relevante uma vez que o reconhecimento favorece a elaboração de projetos coletivos, a concorrência a editais e seleções públicas, apoio institucional e acesso a linhas específicas de financiamento, o que pode dar maior peso aos projetos gerados no âmbito do Corredor na concorrência em editais públicos e privados de fomento à cultura.

E esse talvez seja o caminho para resolver uma das maiores queixas dos produtores capixabas, que não raramente têm seus projetos preteridos em relação aos projetos vindos principalmente do eixo Rio-São Paulo. A política de editais é parte do processo de quem faz cultura no Brasil, pois infelizmente o setor cultural do país, em sua maior parte, não se sustenta sem apoio e suporte institucional e políticas públicas que possam incrementá-lo. E na disputa por apoio e financiamento, o balanço tem sido negativo para o Espírito Santo. “O estado sempre ficou a margem. As grandes empresas que faturam e muito aqui, como Petrobras, Vale, Acelor, têm sede no Rio de Janeiro ou São Paulo e é lá que investem”, lamenta Aline Yasmin, do Instituto Quorum. Segundo ela, mesmo as empresas capixabas dão pouco apoio à cultural local. “Elas preferem bancar projetos de artistas consagrados, que dão retorno comercial e imediato, do que apoiar o desenvolvimento cultural do seu próprio estado”, diz Aline.

Um novo significado no centro

A formação de uma APL criativa pode também estimular o consumo da produção cultural local e abrir o mercado para outras possibilidades de criação artística. Entre os parceiros envolvidos na consolidação da APL Nestor Gomes, estão as secretarias estadual e municipal de cultura, a secretaria de desenvolvimento do estado, Serviço de Apoio a Micro e Pequena Empresa (Sebrae) e Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo (Findes). Para Aline, a participação de entidades como a Findes é importante para que a iniciativa privada entenda o papel da economia criativa no desenvolvimento local, na geração de emprego e renda e para a requalificação e reapropriação do espaço urbano.

No centro de Vitória, apesar do incremento no movimento de pessoas e eventos, ainda se encontram áreas degradadas e abandonadas, propício a ser ocupada pela praga das cracolândias. Corredores e espaços criativos tem sido solução adotada em algumas cidades para recuperação urbana, não apenas pela requalificação de ruas, como também de prédios e bairros inteiros, como vem ocorrendo no centro do Rio de Janeiro e ocorreu em Berlim e outras cidades que enfrentaram a decadência de seus velhos centros. As experiências de arranjos produtivos têm se mostrado como boa solução para dinamizar e dar novos usos e ocupações à áreas decadentes, o que em geral é acompanhada pela recuperação e restauração do patrimônio físico. É outra contribuição que Lorena Louzada, do Expurgação, acredita que a APL Nestor Gomes pode trazer: dar novo significado, ou resignificar, o centro de Vitória.

Conexões globais

A consolidação de uma APL criativa é importante não só para fortalecer as redes de cultura locais, mas pode oferecer oportunidade de cooperação internacional entre iniciativas semelhantes comprometidas em investir na criatividade como uma propulsão para o desenvolvimento urbano sustentável e aumento da influência da cultura no mundo. Projetos como Grito do Rock, realizado pelo Expurgação em parceria com Coletivo Fora do Eixo, e o Espírito Mundo, do Instituto Quórum, que desde 2005 promove intercâmbio entre criativos locais e internacionais, conectam Vitória com a cena cultural independente que emerge em outros cantos do mundo.

A próxima edição do Espírito Mundo vai levar dez artistas capixabas para participar do Festival Espírito Provence, na França, durante o mês de agosto. Além de apresentação de trabalhos próprios, intercâmbio de conhecimento e troca de ideias, experiências como estas podem consolidar Vitória como cidade integrante do circuito cultural independente e incentivar o trabalho, a formação e mesmo a carreira internacional de artistas locais.

Foi numa dessas oportunidades que Yuri Salvador, fotógrafo e cinegrafista do Expurgação, depois de participar da edição 2013 do Espírito Mundo, resolveu ficar na Europa e estudar cinema. Agora corre mundo documentando o drama humano em áreas de conflito. Está no Oriente Médio, provavelmente cobrindo a tragédia síria. Talvez volte logo, talvez fique mais um tempo lá fora. Quem sabe das voltas que o mundo dá?