Branca, Marco Antônio e Jairo Maia, melhor a loja de discos de Vitória

Branca, Marco Antônio e Jairo Maia, melhor a loja de discos de Vitória

Os escritos sobre a saga mamífera vão se encerrando por aqui. Mas antes que o faça, vou pegar carona algumas lembranças dessa saga para voltar a Branca. E vou aproveitar a lembrança de Marco Antônio Grijó, o baterista da banda, que me contou como conheceu minha mãe e passou a frequentar a casa dela no morro do Barro Vermelho.

Em 1967, Vitória contava cerca de 100 mil habitantes e a vida social da cidade, ou pelo menos seu maior movimento, se concentrava no seu hoje centro histórico, sobretudo nos cinemas localizados ao longo da Avenida Jerônimo Monteiro e suas transversais, e nas lojas, bares e lanchonetes da Rua Sete de Setembro e seu entorno. Ali era a região do comércio chic e do lazer da ilha, e onde se reuniam jovens que se divertiam embalados e inspirados pela música, moda e comportamento que vinham pela televisão.  Naquela época, as novidades vinham da TV, que afirmava seu domínio sobre o cotidiano das famílias e os costumes das pessoas, sobretudo daqueles que eram jovens assim como a televisão, que completava pouco mais 20 anos no Brasil.

É certo que 1967 foi um ano rico para a música popular brasileira e muito disso se deve à televisão. Foi o ano do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, que apresentou para o Brasil “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”, dos pré-tropicalistas e ainda comportados Caetano Veloso e Gilberto Gil, canções que inovaram a MPB e grandes sucessos daquele ano cheio de sucessos musicais. Mas o fato não modificou a cena na Rua Sete, que era frequentada pelas moças e rapazes que amavam os Beatles, Roberto, Erasmo, Renato e seus Blue Caps e aos sábados marcavam ponto na Lanchonete Sete, local da balada da juventude classe média da época. É claro que invariavelmente, aconteciam brigas entre turmas de playboys que queriam marcar território e exibir virilidade para os brotos assustados.

“Vai lá em casa”

Marco Antônio Grijó não se interessava pela música da Jovem Guarda nem por brigas. Recém-chegado de Santos, a cidade em que nasceu filho de mãe de família santista e pai capixaba, Marco, apesar de muito jovem, já era músico experiente que tocara na noite paulista com músicos profissionais mais ligados à Bossa Nova e ao jazz do que às baladas pop rock que dominavam o som das rádios e TVs do país. Em 1967 ele veio viver em Vitória em definitivo, depois de idas e vindas entre as duas cidades, e foi morar com as irmãs de seu pai, na Rua Sete, rua que era endereço também da Jairo Maia Discos, onde Marco Antônio encontrou Branca Santos Neves pela primeira vez.

Jairo Maia, além de radialista de grande audiência, tinha a melhor casa de discos de Vitória e era lá que podiam ser encontrados outros sons e não só a música juvenil que predominava nas rádios e na televisão. Na Jairo Maia, podiam ser encontrados discos de jazz, estilo de pouca audiência na cidade. “Não era comum ver pessoas comprando discos de jazz em Vitória naquela época, muito menos uma mulher. Isso me chamou atenção”, lembra Marco. Trocaram impressões sobre Wynton Kelly Trio, o disco que ela tinha em mãos. Branca tinha pouco mais de trinta anos e quatro filhos. Marco Antônio era um rapaz de vinte e um.

O gosto comum pelo Jazz foi pretexto suficiente para minha mãe fazer o convite que ela sempre fazia quando simpatizava e sentia afinidades com alguém, ainda que tivesse acabado de conhecer: “vai lá em casa”. E Marco Antônio foi naquele mesmo dia, à noite, levado por Afonso Abreu, que já conhecia e frequentava a casa dela.

Casa cheia

Desconfio que esse interesse espontâneo de minha mãe por pessoas que mostravam alguma afinidade de gostos com ela e sua abertura para novas amizades é que manteve nossa casa sempre movimentada e cheia de amigos, um vai e vem de gente de manhã, mais principalmente a partir dos fins de tarde, depois do expediente, e noite adentro.

A Praia do Canto de então, ao contrário do centro, tinha ritmo lento, de pouco comércio, sem agências bancárias e cinemas, com ruas de paralelepípedos. E ficava realmente no canto da cidade, no extremo norte da ilha. Os bairros continentais como Jardim da Penha, Mata da Praia e Jardim Camburi nem sequer existiam. Em Camburi, via-se uma ou outra construção. Era então um areal coberto de mata de restinga e cortado por uma estrada de mão dupla que beirava a praia. A via é hoje a movimentada Avenida Dante Michelini, que engarrafa todos os dias úteis da semana a partir das seis da tarde, a hora do rush.

Mas naquela época, como anotou Álvaro Abreu, no volume 19 da coleção “Escritos de Vitória, o tempo passava mais devagar, “ficava-se tardes inteiras e noite adentro conversando ao som do jazz, nas casas de Rogério Coimbra, de Victor e Branquinha Santos Neves e de Ronaldo Alves, felizes proprietários de modernos equipamentos de som e discos importados”.

Depois da praia

Marco Antônio lembra que não havia muito o que fazer em Vitória, então, a casa de Branca e Victor era sempre uma opção para encontrar novidades e pessoas com os mesmos gostos e afinidades musicais, literárias e cinematográficas. E minha mãe era uma pessoa que gostava muito de conversar. “Sou de família de mulheres. A intimidade com Branca talvez tenha a ver com isso. Ela era uma pessoa com quem trocávamos confidências”, lembra Marco, que se sentiu à vontade naquela casa e passou a frequentá-la. “Nos fins de tarde e nos fins de semana, depois da praia, era para lá que íamos todos.”

***

Marco tem jeito especial de me chamar: “Má”. Sempre gostei. Nas vezes em que cruzo a esquina da Rua Graciano Neves com a Rua Professor Baltazar e escuto “Má”, já sei, é Marco Antônio tomando uma cervejinha no bar do Gegê, que fica ali pertinho de seu apartamento, que é justamente no Edifício Valverde, endereço da galeria de mesmo nome que um dia abrigou a Jairo Maia Discos.

A contracultura na ilha – Mamíferos, parte III

A contracultura na ilha – Mamíferos, parte III

Na época em que os Mamíferos surgiram, o contexto social mundial do lado ocidental estava mais ou menos assim: “Os jovens de hoje parecem querer expressar-se de todas as formas e em todos os setores. Em todo canto a juventude moderna se insurge, presentemente contra o mundo que chamam de ‘quadrado’”. A citação que anuncia a insurgência dos jovens contra o mundo “quadrado”, é um trecho do lead da matéria escrita por Maura Fraga e publicada em edição do jornal O Diário de novembro de 1969. Já de início, Maura constatava (ou acreditava) que “Vitória, como não poderia deixar de ser, também sofre (sic) com este fenômeno: os jovens daqui não são diferentes dos de outros mundos.” E a prova disso era o trio formado por Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó e Mário Ruy Nogueira: “inconformados com a velha regra que a seu ver dominava nosso ambiente, um grupo de jovens criou um conjunto rebelde e que se tornou em pouco tempo motivo para muitas discussões: Os Mamíferos.”

A matéria n’O Diário foi publicada dois meses depois da apresentação dos Mamíferos no II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, quando a banda sacudiu e dividiu o público com a performance em “Cosmorama Total”, composição de Chico Lessa e Ronaldo Alves, interpretada “insanamente” por Aprígio Lyrio, que ocupava o vocal do grupo naquela ocasião, episódio narrado em post anterior.

A Contracultura

O texto de Maura e outros textos dão uma ideia de que controvérsias culturais e comportamentais agitavam o mundo e a ilha nas revolucionárias décadas de 1960 e 1970. E os Mamíferos seria a prova de que a contracultura chegara também a Vitória.

Um parêntese:

Contracultura: substantivo feminino – diz-se da mentalidade dos que rejeitam e questionam valores e práticas da cultura dominante da qual fazem parte (Google).

Inicialmente um movimento filosófico com marco no existencialismo de Jean Paul Sartre, reverberou na arte e no comportamental da Beat Generation, que, por sua vez, resultaria no movimento hippie (Wikipédia).

Esses movimentos contestatórios chegaram ao Brasil dando origem à “Tropicália”, movimento musical que inovou a música popular brasileira, trazendo em suas letras versos irreverentes. Em suas roupas e estilos também havia a influência do estilo hippie (Brasilescola).

De fato, a banda foi formada por garotos que amavam os beatniks, os Rolling Stones, o Jazz, Caetano e Gil, Tom e sustenidos. “Eles foram (…) a grande célula de uma obra musical surrealista, para marcar o absurdo de uma época”, escreveu Sandra Aguiar, em matéria de novembro de 1986, em A Tribuna, que relembrava os 20 anos do surgimento da banda.

O que havia diferente em os Mamíferos era que, enquanto aqui predominavam os chamados “conjuntos de baile” que se contentavam em tocar música padrão “aceitável” e já incorporada ao gosto comum, como samba, boleros e bossa nova, eles traziam uma proposta de um som contemporâneo, autoral, antenado com o que havia de mais experimental e ousado na música aqui e lá fora. “Música de vanguarda”, com se dizia na época, ao som de guitarras distorcidas e “com letras que não eram usuais aos padrões dos letristas da época”, como anotou Willis Machado, no artigo “Os Mamíferos contra o tédio”, na Gazeta de março de 1970.

Era muito para a conservadora Vitória e dividiu muita gente. Nos festivais dos quais participaram, os Mamíferos conseguiam tirar dos jurados o mesmo número de notas dez e zero, como lembrou Afonso na matéria de Sandra. Ou seja, os Mamíferos conseguiram dividir públicos, gostos, críticas e vontades, boas e más. Na mesma matéria, Marco Antônio admite que apesar de todo o barulho em torno do grupo, os Mamíferos queriam apenas “ser bons instrumentistas”, mas “com toda a irreverência” que aquelas décadas inspiravam.

Na ilha, a viola e lua

Sobre a formação musical dos músicos e parceiros dos Mamíferos, deixo que outras publicações que virão, como o livro “Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular”, de Francisco Grijó, contem melhor e com mais detalhe. Não cabe aqui neste post, que é também propósito para introduzir as mudanças na casa de Branca, que agora me lembro melhor, começou antes do pôster de Caetano no fundo da sala maior. Creio que começou em 1969, ano em que o som dos Mamíferos abalou Vitória.

Mas para finalizar este texto e dar um pouco mais do clima da época, reproduzo dois textos que exemplificam a incompreensão e a intolerância de muitos em relação ao som dos Mamíferos, reações que mereceram uma queixa de Afonso. Em artigo em O Diário, intitulado a propósito “As hienas dos festivais” ele desabafava: “estou falando aos fariseus coisa muito séria e moderna, ela toca e corrói os tímpanos dos que ouvem somente as velhas liras (…) Músicos, poetas, vocês pararam numa tremenda acomodação, eu não, eu sou eterno pesquisador acossado, sempre, por uma nova sede. (…) Hoje estou muito farto dessa viola, dessa lua, dessas concessões tão irrisórias.”

Com carinho e solidariedade, Carmélia Maria de Souza consola Afonso da melhor forma que ela poderia fazer, escrevendo uma crônica para ele.

“Afonso, meu irmão:

É verdade que o tempo, que era bom, foi passando.

Mas é verdade também que a nossa viola continuou. É a mesma viola que ontem chorava canções baixinho nas nossas serestas de beira de praia embalando as nossas conversas e os nossos silêncios das noites de verão, banhados pela luz das estrelas ou da lua cheia que eram sempre imensas sobre nós.

E eu juro a você, do alto do meu perdão, que as estrelas se multiplicaram no céu da madrugada. Embora os sonhos, alguns sonhos, se tenham desmanchado e se continuado no sopro violento das hienas dos festivais.

Mas há o nosso tempo, companheiro. Sempre haverá, na vida e em nós, UM tempo. E basta.

 

Impossível falar de Vitória dos anos 1960 e 1970 sem lembrar Carmélia M. de Souza.

Uma noite no Livepub com Afonso Abreu e amigos, muitos amigos

Uma noite no Livepub com Afonso Abreu e amigos, muitos amigos

No dia 14 de setembro, quarta-feira da semana passada, revi e ouvi o trio original dos Mamíferos tocando juntos outra vez.  Fui assistir Afonso Abreu e convidados no show comemorativo “Afonso Abreu – 70 anos”, ideia que segundo ele, “foi sacanagem do Murilo”, seu filho e produtor. “Quem gosta de comemorar 70 anos? E depois eu só faço aniversário no dia 18”, informou. Afonso estava de ótimo humor, cercado de amigos e atrasado.

– Como sempre –, disse Marco Antônio Grijó, o que sempre chega cedo. “Compromisso é compromisso”. Mas ele deve estar acostumado, afinal são 50 anos fazendo música e dividindo palcos com Afonso.

E depois de muitos anos, revi Mário Ruy, que sempre foi magro e continua. Fácil reconhecê-lo, apesar de tanto tempo. “Bom tempo”, foi o que ele me disse e não se referia apenas ao tempo decorrido, mas sim ao tempo do início. Mário Ruy foi um dos amigos convidados para tocar com Afonso naquela noite. Outro que se apresentou com Afonso foi Gabriel Grossi, um dos maiores representantes da harmônica e que integra o “Hamilton de Holanda Quinteto”, além de Marco Antônio e Pedro de Alcântara. Os dois últimos formam com o anfitrião o conjunto Afonso Abreu e Trio, que toca com frequência mensal no Livepub, dentro o projeto LiverJazz.

Mas rever Afonso, Marco Antônio e Mário Ruy, o trio original de “Os Mamíferos”, tocando juntos mais uma vez foi motivo a mais para ir ao Livepub. Estão todos bem, reconhecíveis nas aparências e nos humores, e tocando ótima música desde sempre.

Sobre acrescidos ou outros amigos

Entre os que estiveram naquela noite no Livepub para assistir Afonso e amigos, revi Paulo Branco, também depois de anos, e ainda Álvaro Abreu, o irmão, este visto e revisto.  Mas não vi Rogério Coimbra. “Deve estar no Rio,” me disse Afonso, que emendou: “ele sempre diz que está no Rio quando tem show meu”. O humor de Afonso é delicioso.

Encontrei também com Marcos Moraes, irmão de Zé Renato, que foi casado com Zilá que também casou com Chico Lessa. Era um mundo pequeno, esta ilha. Lembrei da Zilá porque foi a primeira noiva, que eu soube, que chegou na igreja numa motocicleta. Mas não me lembro em qual casamento, com Chico ou com Zé Renato.

Paulo Branco, Zé Renato, Rogério Coimbra e Chico Lessa estão entre os compositores, instrumentistas e poetas que orbitaram e contribuíram com a história e com o repertório dos Mamíferos, quando não, foram acrescidos à banda e estenderam para mais de três o trio original, que naquela noite, tocou junto “Malandro”, composição de Afonso e Mário Ruy. São todos amigos de longa data. Grandes amigos, afinal o nível das amizades pode ser medido pelo tamanho das implicâncias.

Próximos capítulos – um livro

Contar desses encontros serve de pretexto para recordar um pouco mais da banda, que foi formada quando os três contavam 20 anos em 1966. Fazendo as contas, comemoram-se este ano 50 anos do surgimento do grupo e 70 de cada um. E as efemérides não vão passar em branco. Em novembro, o projeto Aurora Gordon lança o livro “Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular”, de Francisco Grijó, que conta em detalhes e a partir de memórias e depoimentos de seus principais personagens e daqueles que de uma forma ou de outra estiveram envolvidos nessas histórias, a trajetória do grupo que sacudiu a cena musical de Vitória dos anos 1960 e 1970. São histórias de pessoas interessantes que fizeram parte da crônica cultural capixaba no contexto da contracultura, tendo a ilha como cenário.

De minha parte, conto mais em próximo post e através de texto que remontam ao início dessas histórias. São textos jornalísticos que ajudam a recuperar memórias e climas de outras épocas e revelam um pouco sobre cultura e comportamento na Vitória de 50 nos atrás. O pretexto é comemorar essas trajetórias. Afinal, são 70 anos.

Foto: Miro Soares

1969, o homem pisa na lua e os Mamíferos acontecem em Vitória

1969, o homem pisa na lua e os Mamíferos acontecem em Vitória

Uma última, talvez, lembrança de Marinho Celestino me leva aos Mamíferos e ao ano de 1969 em Vitória. Nessa época, Marinho era ainda um cabeleireiro, o melhor da cidade apenas, mas já companheiro das ousadias. Tanto que foi ele quem produziu o figurino e o make-up dos Mamíferos, quando o grupo se apresentou na finalíssima do II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, realizado entre agosto e setembro de 69, no Ginásio do Sesc, Parque Moscoso. Foi ideia de Marinho “colocar peruca em Marco Antonio Grijó e criar o penteado de Afonso Abreu, além de dar as dicas de como Mário Ruy deveria se vestir,” como lembrou Francisco Grijó em comentário em post que publiquei aqui.

Para quem não conheceu os Mamíferos e muito menos ouviu falar do episódio narrado acima, vale citar matéria publicada em novembro de 2011 pelo jornal O Estado de São Paulo, a título de introdução: “(…) anos antes de Alice Cooper, de David Bowie, na cena musical de Vitória, Espírito Santo, a partir de 1966, um (…) grupo assombrava as plateias com uma performance psicodélica, os rostos pintados, maquiagem pesada e a atuação insana e performática de um cantor andrógino (Aprígio Lyrio). Era Os Mamíferos, garotos fãs de Allen Ginsberg e do movimento beat americano, de Aldous Huxley e Marshall McLuhan.”

Segundo o Estadão, essa é “uma história nunca contada porque [os Mamíferos] não alcançaram o estrelato.” Não é bem assim. A história dos Mamíferos pode ter sido pouco ou nem contada em outras plagas para além do Espírito Santo, mas aqui há bom registro e testemunho sobre o grupo musical que surgiu em Vitória em 1966 e agitou a cena local até meados dos anos 1970.

A lembrança do II Festival talvez seja uma das passagens mais folclórica deles e vêm a propósito, porque os Mamíferos estariam comemorando 50 anos este ano. Não é pouco coisa e é uma bela história na memória cultural capixaba e vai muito além das caras pintadas. Como registrou José Roberto Santos Neves no livro “Rockcrise – a história de uma geração que fez barulho no Espírito Santo”, os Mamíferos foi o primeiro grupo a construir de fato uma produção autoral em terras capixabas, “que se preocupou em reverberar a contracultura no Estado a partir de letras poéticas e provocativas, visual ousado e uma base sonora ampla, em sintonia com a diversidade da Era de Aquários”.

 

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Mário Ruy, os Mamíferos e Aprígio Lyrio. Fotos: Antônio Sessa Netto. Acervo: Milson Henriques

 

Frenesi total

Os Mamíferos se constituiu com mais frequência como um trio formado por Afonso Abreu no contrabaixo, Mário Ruy na guitarra e Marco Antônio Grijó na bateria, mas durante certo período acrescido de Aprígio Lyrio nos vocais. Foi com esta formação em quarteto que eles se apresentaram no II Festival Capixaba de MPB, produzidíssimos por Marinho Celestino, para delírio da plateia e para marcar a história da música no Espírito Santo.

“’Os Mamíferos’ arrancaram as maiores gargalhadas. Com uma letra inteligente (…) arrancaram muitos aplausos para a música ‘Cosmorama Total’. O público não se aguentou quando os mais diferentes sons eram produzidos pelo conjunto, enquanto um homem e uma mulher dançavam freneticamente ao ritmo. O Festival foi uma festa completa onde o público viu de tudo: desde as mais lentas e poéticas melodias ao frenesi total do Cosmorama”. Esse é o parágrafo de abertura da cobertura de Willis Machado da final do Festival, publicada em 16 de setembro de 69, em A Gazeta, e nela dá para sentir o impacto causado pela apresentação dos Mamíferos.

Contracultura

Naquele II Festival Capixaba de MPB, os Mamíferos causaram e não só pelo visual ousado. Bebiam de tudo que explodia em sete mil cores no Brasil e no mundo na década das revoluções políticas, sociais, culturais, sexuais, musicais. Contemporâneos de Os Mutantes, uma das bandas mais criativas surgidas na música brasileira em todos os tempos, os Mamíferos tinham como marca a inventividade e a irreverência, além do visual psicodélico típico dos que comungavam no movimento tropicalista de Caetano Veloso e Gilberto Gil, seus principais expoentes. Não que os Mamíferos fossem do movimento. Bebiam de muitas e outras fontes. Mas viviam e produziam em Vitória, cidade fora do eixo principal da produção cultural do Brasil e do planeta. O que acontecia em Vitória não ia além das divisas do Espírito Santo. Ficava por aqui mesmo.  E às vezes ficava mal.

A ousadia daquela apresentação não foi bem aceita por todos. Eram os anos 60, que apesar de toda a revolução que marcou a época, ainda eram tempos conservadores e ainda mais na pequena Vitória, onde cabelos compridos, roupas coloridas e música visceral eram quase subversão e requisitos para a má fama. Na matéria do Estadão, Afonso Abreu lembra que o II Festival “era um festival de almofadinhas. Todo mundo de smoking (…) Olhando das coxias, a gente teve a ideia de derrubar tudo.” Mas teve quem não reagiu bem.

Por causa da apresentação do grupo na finalíssima, teve quem vaiou e quem xingou o grupo de bicha e maconheiro, ou algo assim. Teve jornalista que esqueceu a música e trocou o nome do grupo para Os Herbívoros. Que maldade. Isso irritou Afonso e Marco Antônio, rapazes de boas famílias que só queriam fazer música em Vitória.

Os Mamíferos, a casa e o cachorro

O grupo Mamíferos foi formado por músicos talentosos e em comemoração aos 50 anos e porque merecem, terão novos registros aqui, sobretudo da boa música que fizeram e fazem até hoje e que revela, acho eu, um pouco da alma da ilha. Mas aproveito e lembro que eles frequentaram muito a nossa casa e eram muito amigos de Branca, minha mãe, motivo dessas memórias. Ela gostava de todos. E provavelmente muito das mudanças de gosto e interesses dela tenha a ver com a amizade com os meninos, como minha mãe se referia ao trio e aos acrescidos. São historias que tratarei mais à frente. Mas a título de ilustração, conto um caso.

Os Mamíferos eram tão íntimos e amigos da casa do morro que mereceram carinhos e cuidados especiais, dos mais inusitados até, como os de Duque, o cachorro que por mais tempo guardou a casa. Duque, o cachorro da família que latiu, rosnou e abanou o rabo para muitas das históricas que conto aqui, era um vira lata peludo e íntimo dos íntimos da casa – agia como um leão de chácara que selecionava pelo abanar do rabo ou pelo rosnar do focinho quem tinha acesso livre à casa e quem ainda não tinha. E que ninguém teimasse, porque o bicho era bravo.

Mas era fiel aos amigos, como os meninos dos Mamíferos. Duque gostava tanto deles que chegou a escoltar, já de madrugada, Marco Antônio e Afonso do Barro Vermelho até o horto de Maruípe, cerca de cinco quilômetros da casa do morro, a casa dele.

– Acho que tem um cachorro seguindo a gente – disse Marco Antônio para Afonso, que dirigia o fusca azul.

– É o Duque! – reconheceram e ficaram preocupados. Pararam o carro e insistiram com Duque que voltasse para casa. Perderam o cachorro de vista e assim que Afonso chegou em casa, ligou pra nossa casa. Minha irmã atendeu.

– Bia, o Duque está aí? – perguntou Afonso, preocupado.

– Sim, está dormindo na varanda – respondeu Bianca.

Acho que Duque deve ter ficado preocupado também. Se pudesse falar, teria ligado para a mãe de Afonso e para as tias de Marco Antônio e perguntado se eles já tinham chegado também. Não era um cão de raça nobre, mas tinha seus critérios e valores. Adorava os amigos. Só os amigos.

Duque foi enterrado aos 14 anos, e com tristeza, no quintal que hoje é a área de lazer do condomínio que ocupa o lugar onde um dia foi a casa dele.

 

Cosmorama Total

Aos interessados, a letra de “Cosmorama Total”, que junto com o ritmo, causou na apresentação dos Mamíferos, em setembro de 1969. Chico Lessa e Ronaldo Alves são os autores. Tropicalismo puro.

COSMORÂMA TOTAL

PONTOS

TELEPONTOS

E OS CONTOS DE RÉIS

TELAS

AS JANELAS

MILHÕES DE FIÉIS

 

ESTÁ NA MODA SINHÁ

ESTÁ NA MODA SINHÁ

 

PROGRAMADA A MEMÓRIA

O CICLO SE COMPLETA

EMULSÃO DE HISTÓRIA

NOS CONDULTOS DE CRISTAIS

O CÍRCULO SE FECHA:

  • MILHÕES DE ANIMAIS

JOGUE TÔDA DOR

NUM COMPUTADOR

SAIA DA RODA SINHÁ

SAIA DA RODA SINHÁ

 

SEM GRAVITAÇÃO

SOMOS DOIS SÊRES HUMANOS

PELO ESPAÇO

OCEANOS

SEM PLANOS

MERIDIANOS

NUM ABRAÇO SIDERAL

NUM ABRAÇO SIDERAL

JOGANDO O MESMO JÔGO

COM BOLAS DE FOGO

EM COSMORÂMA TOTAL