Houve uma vez um verão, um festival e Fábiôôô

Quando lembro nestas memórias a casa de Branca, estou sempre me referindo a casa no morro do Barro Vermelho onde ela morou por mais de 30 anos e só saiu porque o Barro Vermelho não comportou mais casas. Sobram algumas poucas ainda, é verdade, mas estas que resistem estão espremidas entre espigões que deram nova densidade ao bairro e as suas ruas, que hoje engarrafam nas horas tensas dos dias úteis da semana. Mas houve outra casa de Branca, que estendeu para Guarapari o mesmo movimento de amigos e agitação que havia na casa do Barro Vermelho, quando o morro era ainda calmo e sossegado.

Foi no verão de 1971 que meus pais alugaram uma casa em Muquiçaba, bairro então afastado do centro da cidade saúde. Não por coincidência, no mesmo ano e na mesma estação aconteceu o Festival de Verão de Guarapari. E como minha mãe sempre foi atraída por gente e movimento, na rua ou em casa, acredito que o festival foi pretexto para passarmos aquele verão na cidade.

A título de informação, o Festival

Só para registrar, o Festival foi um quê de ousadia e amadorismo, confusão e repressão, mas que entrou para a história do movimento musical do estado, tanto que mereceu registros importantes na historiografia da cultura e arte capixaba. Por isso não vou me estender aqui sobre o evento memorável, apesar dos pesares, mas recomendo aos que tiverem maior interesse pelo Festival, os livros de José Roberto Santos Neves – Rockcrise, a história de uma geração que fez barulho no Espírito Santo – e de Francisco Grijó – Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular –, que contam com riqueza esta saga.

Organizado por Rubinho Gomes e Antônio Alaerte, o Festival de Verão, nosso pequeno, pretensioso e confuso Woodstock, não cumpriu muito do que prometeu. Dos artistas anunciados – alguns sem saber disso – boa parte declinou por prever roubada. E o festival teve mais polícia do que público – afinal era 1971, de tempos sombrios e intolerantes no Brasil – e muita gente levada em cana, inclusive os próprios organizadores e alguns artistas locais.

Mas o festival aconteceu com os artistas que aceitaram participar de graça ou por pouca grana – problema que quase inviabilizou o evento. Entre os artistas de maior evidência no cenário nacional de então, se apresentaram no festival Milton Nascimento, Ivan Lins, Luiz Gonzaga, Novos Baianos, Tayguara e o fatídico Tony Tornado, que fraturou a coluna de uma espectadora ao se jogar do palco, no que seria, proposital ou não, uma performance antecipada da atitude punk e arriscada de se lançar sobre a plateia. “I’m flaying”, disse ele antes de machucar a menina.

Fábio

Outro artista em evidência que foi convidado e aceitou participar do evento, estava Fábio – que não era padre nem Júnior e nem mesmo Fábio.  Paraguaio de origem, seu nome de batismo é Juan, virou Fábio quando se tornou artista no Brasil em meados da década de 1960. Cabeludo, como eram cabeludos os artistas de então, grande amigo de Tim Maia, Fábio teve sucessos entre o fim da década de 1960 e início dos anos 70. “Stella”, lançada em 1969, foi seu maior êxito e não só pela canção. O trecho inicial, quando o cantor pronuncia em eco o nome que dá título à música, foi adaptado para servir de vinheta sonora às transmissões radiofônicas da Rádio Globo nos jogos de futebol dos times do Rio de Janeiro nos anos 1970 e 1980: FLAMENGÔÔÔÔ; BOTAFOGÔÔÔÔ, VASCÔÔÔÔ; FLUMINENSÊÊÊÊ. E esse talvez tenha sido o maior sucesso dele, pois que Fábio teve pouco tempo de evidência nas paradas de sucesso – foi como um cometa que passou rápido e sem maior relevância na música popular do Brasil.

***

Mas Voltando a Branca, lembro que assim como era comum na casa do morro, que recebeu muitos dos artistas que se apresentaram em Vitória nos anos 1970 – Maria Bethânia, Djavan, Moraes Moreira, por exemplo – a casa de Muquiçaba recebeu alguns dos artistas, locais e nacionais, que se apresentaram no Festival. Fábio foi um deles. Levado por algum amigo que não recordo, lembro que ele passou boa parte da tarde conversando na varanda da casa de Muquiçaba. Depois, seguiu de carona com Branca para o hotel em que se hospedou.

No Gordine que minha mãe dirigia de Muquiçaba para o centro de Guarapari, ele perguntou a ela qual o meu nome da criança sentada no banco de trás do carro. Minha mãe informou e não deu outra: “Manuelââââ”, repetiu Fábio.

Uma noite mamífera – o epílogo

Uma noite mamífera – o epílogo

Antes de mais nada, peço desculpas pela minha falta. Que coisa feia, intervalar sem maiores explicações. Mas explico breve: questão de tarefas extras e exigentes. Mas volto ao fio da meada, que deixei solto. E nem ia falar do que vou falar aqui, neste post atrasado. Até achei que ia partir para outros assuntos e outras lembranças de Branca. Mas o fato é que na quarta-feira da semana passada, dia 9 de novembro, aconteceu o show da banda Aurora Gordon e o lançamento do livro “Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular”, do professor e escritor Francisco Grijó, no Teatro da Ufes, dois eventos que comemoraram os 50 anos dos Mamíferos. E assim a saga mamífera continua, e por bons motivos, gosto e prazer. O show foi ótimo, com o Aurora Gordon e participação preciosa de André Prando interpretando o repertório dos Mamíferos; o livro é importante para a historiografia da cultura e da arte capixaba e pelo prazer da leitura; e o assunto me é especial. Foi uma noite em que encontrei muita gente, muitos amigos, que fizeram essa história agora comemorada e contada em livro.

Todos esses eventos são parte do Aurora Gordon, que além de nome da banda de música é um projeto maior de memória e preservação, produção e criação artística e é nele que se inserem Francisco Grijó e sua crônica biográfica da saga dos Mamíferos. O livro é dividido em duas partes, além do prólogo e do epílogo com textos e letras de autoria dos personagens retratados no livro. Aliás, mais que personagens, são personalidades que Grijó retrata no perfil e na história de todos que participaram da banda, seja como músicos, seja como autores.

O livro

A primeira parte do livro é dividida em oito capítulos, um para cada participante. Nos títulos dos capítulos, o autor colocou uma qualidade que de certa forma sintetiza a personalidade e o papel de cada um na banda. Afonso Abreu é o líder, Marco Antônio Grijó, o profissional; Mário Ruy, as cordas; Aprígio Lyrio, a voz; Arlindo Castro, a palavra; Paulo Branco, o rock; Rogério Coimbra, a produção; e Sérgio Regis, a letra. São estes enfim, os meninos dos Mamíferos, como diria Branca. Mas há muitas outras pessoas que passam pelo livro e direta ou indiretamente passaram pela trajetória meteórica da banda, que surgiu em 1966 e findou em 1971. Foi breve, mas fez um barulho danado, como o livro mostra.

Mas os títulos dos capítulos são só uma pista, pois cada capítulo revela um pouco da formação, interesse e histórias acontecidas com e entre seus personagens e vai além. O livro do Grijó lança um olhar revelador de uma época que foi criativa e contestatória em quase todo mundo e aqui em Vitória também. É sobre essa época e seu contexto que o livro passeia numa perspectiva não só local, mas também brasileira, retratando e refletindo de maneira crítica sobre o momento social, político, econômico e ideológico em que os Mamíferos surgem.

Na segunda parte do livro, o contexto da época fica ainda mais revelador quando trata de dois eventos que sacudiram a cena cultural capixaba, os festivais capixabas de MPB e Festival de Verão de Guarapari, este último uma mistura de música e desbunde, polícia e repressão, acidentes e desorganização e principalmente, que marcou o fim da banda Mamíferos.

O livro “Os Mamíferos, crônica biográfica de uma banda insular” foi escrito a partir de dezenas de entrevistas e minuciosa pesquisa documental, que formam um retrato detalhado de uma época e por meio de texto que aproxima o leitor de personagens e de um tempo interessante em Vitória.

Eu, Ronaldo e Chico Lessa

Nesta noite comemorativa tive ainda um privilégio que aconteceu por puro acaso. Foi por coincidência que, ao descer para a cantina do cine Metrópoles, encontrei no caminho Chico Lessa acompanhado de Ronaldo Alves, que chegavam para o evento.  Chico e Ronaldo são os autores da antológica “Cosmorama Total”, canção com que os Mamíferos causaram no II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira (fato contato em detalhes no livro do Grijó) e inauguraram a modernidade na cultura capixaba. A canção não teve registro material e quase se perdeu na memória do próprio autor. Chico me contou que teve que recorrer a Afonso para lembrar a melodia, pelo menos partes dela, e assim recuperar a música.

Mas o que eu queria contar foi que Chico tocou para mim ali mesmo pelo caminho sua versão mais melodiosa de Cosmorama Total, que na noite do II Festival Capixaba de MPB, tinha se transformado num rock pesado na versão mamífera. Então era eu com Ronaldo e Chico numa audição exclusiva e recuperada da música que marcou época e fez história com os Mamíferos. Foi bom à beça, Chico Lessa.

A contracultura na ilha – Mamíferos, parte III

A contracultura na ilha – Mamíferos, parte III

Na época em que os Mamíferos surgiram, o contexto social mundial do lado ocidental estava mais ou menos assim: “Os jovens de hoje parecem querer expressar-se de todas as formas e em todos os setores. Em todo canto a juventude moderna se insurge, presentemente contra o mundo que chamam de ‘quadrado’”. A citação que anuncia a insurgência dos jovens contra o mundo “quadrado”, é um trecho do lead da matéria escrita por Maura Fraga e publicada em edição do jornal O Diário de novembro de 1969. Já de início, Maura constatava (ou acreditava) que “Vitória, como não poderia deixar de ser, também sofre (sic) com este fenômeno: os jovens daqui não são diferentes dos de outros mundos.” E a prova disso era o trio formado por Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó e Mário Ruy Nogueira: “inconformados com a velha regra que a seu ver dominava nosso ambiente, um grupo de jovens criou um conjunto rebelde e que se tornou em pouco tempo motivo para muitas discussões: Os Mamíferos.”

A matéria n’O Diário foi publicada dois meses depois da apresentação dos Mamíferos no II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, quando a banda sacudiu e dividiu o público com a performance em “Cosmorama Total”, composição de Chico Lessa e Ronaldo Alves, interpretada “insanamente” por Aprígio Lyrio, que ocupava o vocal do grupo naquela ocasião, episódio narrado em post anterior.

A Contracultura

O texto de Maura e outros textos dão uma ideia de que controvérsias culturais e comportamentais agitavam o mundo e a ilha nas revolucionárias décadas de 1960 e 1970. E os Mamíferos seria a prova de que a contracultura chegara também a Vitória.

Um parêntese:

Contracultura: substantivo feminino – diz-se da mentalidade dos que rejeitam e questionam valores e práticas da cultura dominante da qual fazem parte (Google).

Inicialmente um movimento filosófico com marco no existencialismo de Jean Paul Sartre, reverberou na arte e no comportamental da Beat Generation, que, por sua vez, resultaria no movimento hippie (Wikipédia).

Esses movimentos contestatórios chegaram ao Brasil dando origem à “Tropicália”, movimento musical que inovou a música popular brasileira, trazendo em suas letras versos irreverentes. Em suas roupas e estilos também havia a influência do estilo hippie (Brasilescola).

De fato, a banda foi formada por garotos que amavam os beatniks, os Rolling Stones, o Jazz, Caetano e Gil, Tom e sustenidos. “Eles foram (…) a grande célula de uma obra musical surrealista, para marcar o absurdo de uma época”, escreveu Sandra Aguiar, em matéria de novembro de 1986, em A Tribuna, que relembrava os 20 anos do surgimento da banda.

O que havia diferente em os Mamíferos era que, enquanto aqui predominavam os chamados “conjuntos de baile” que se contentavam em tocar música padrão “aceitável” e já incorporada ao gosto comum, como samba, boleros e bossa nova, eles traziam uma proposta de um som contemporâneo, autoral, antenado com o que havia de mais experimental e ousado na música aqui e lá fora. “Música de vanguarda”, com se dizia na época, ao som de guitarras distorcidas e “com letras que não eram usuais aos padrões dos letristas da época”, como anotou Willis Machado, no artigo “Os Mamíferos contra o tédio”, na Gazeta de março de 1970.

Era muito para a conservadora Vitória e dividiu muita gente. Nos festivais dos quais participaram, os Mamíferos conseguiam tirar dos jurados o mesmo número de notas dez e zero, como lembrou Afonso na matéria de Sandra. Ou seja, os Mamíferos conseguiram dividir públicos, gostos, críticas e vontades, boas e más. Na mesma matéria, Marco Antônio admite que apesar de todo o barulho em torno do grupo, os Mamíferos queriam apenas “ser bons instrumentistas”, mas “com toda a irreverência” que aquelas décadas inspiravam.

Na ilha, a viola e lua

Sobre a formação musical dos músicos e parceiros dos Mamíferos, deixo que outras publicações que virão, como o livro “Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular”, de Francisco Grijó, contem melhor e com mais detalhe. Não cabe aqui neste post, que é também propósito para introduzir as mudanças na casa de Branca, que agora me lembro melhor, começou antes do pôster de Caetano no fundo da sala maior. Creio que começou em 1969, ano em que o som dos Mamíferos abalou Vitória.

Mas para finalizar este texto e dar um pouco mais do clima da época, reproduzo dois textos que exemplificam a incompreensão e a intolerância de muitos em relação ao som dos Mamíferos, reações que mereceram uma queixa de Afonso. Em artigo em O Diário, intitulado a propósito “As hienas dos festivais” ele desabafava: “estou falando aos fariseus coisa muito séria e moderna, ela toca e corrói os tímpanos dos que ouvem somente as velhas liras (…) Músicos, poetas, vocês pararam numa tremenda acomodação, eu não, eu sou eterno pesquisador acossado, sempre, por uma nova sede. (…) Hoje estou muito farto dessa viola, dessa lua, dessas concessões tão irrisórias.”

Com carinho e solidariedade, Carmélia Maria de Souza consola Afonso da melhor forma que ela poderia fazer, escrevendo uma crônica para ele.

“Afonso, meu irmão:

É verdade que o tempo, que era bom, foi passando.

Mas é verdade também que a nossa viola continuou. É a mesma viola que ontem chorava canções baixinho nas nossas serestas de beira de praia embalando as nossas conversas e os nossos silêncios das noites de verão, banhados pela luz das estrelas ou da lua cheia que eram sempre imensas sobre nós.

E eu juro a você, do alto do meu perdão, que as estrelas se multiplicaram no céu da madrugada. Embora os sonhos, alguns sonhos, se tenham desmanchado e se continuado no sopro violento das hienas dos festivais.

Mas há o nosso tempo, companheiro. Sempre haverá, na vida e em nós, UM tempo. E basta.

 

Impossível falar de Vitória dos anos 1960 e 1970 sem lembrar Carmélia M. de Souza.

Uma noite no Livepub com Afonso Abreu e amigos, muitos amigos

Uma noite no Livepub com Afonso Abreu e amigos, muitos amigos

No dia 14 de setembro, quarta-feira da semana passada, revi e ouvi o trio original dos Mamíferos tocando juntos outra vez.  Fui assistir Afonso Abreu e convidados no show comemorativo “Afonso Abreu – 70 anos”, ideia que segundo ele, “foi sacanagem do Murilo”, seu filho e produtor. “Quem gosta de comemorar 70 anos? E depois eu só faço aniversário no dia 18”, informou. Afonso estava de ótimo humor, cercado de amigos e atrasado.

– Como sempre –, disse Marco Antônio Grijó, o que sempre chega cedo. “Compromisso é compromisso”. Mas ele deve estar acostumado, afinal são 50 anos fazendo música e dividindo palcos com Afonso.

E depois de muitos anos, revi Mário Ruy, que sempre foi magro e continua. Fácil reconhecê-lo, apesar de tanto tempo. “Bom tempo”, foi o que ele me disse e não se referia apenas ao tempo decorrido, mas sim ao tempo do início. Mário Ruy foi um dos amigos convidados para tocar com Afonso naquela noite. Outro que se apresentou com Afonso foi Gabriel Grossi, um dos maiores representantes da harmônica e que integra o “Hamilton de Holanda Quinteto”, além de Marco Antônio e Pedro de Alcântara. Os dois últimos formam com o anfitrião o conjunto Afonso Abreu e Trio, que toca com frequência mensal no Livepub, dentro o projeto LiverJazz.

Mas rever Afonso, Marco Antônio e Mário Ruy, o trio original de “Os Mamíferos”, tocando juntos mais uma vez foi motivo a mais para ir ao Livepub. Estão todos bem, reconhecíveis nas aparências e nos humores, e tocando ótima música desde sempre.

Sobre acrescidos ou outros amigos

Entre os que estiveram naquela noite no Livepub para assistir Afonso e amigos, revi Paulo Branco, também depois de anos, e ainda Álvaro Abreu, o irmão, este visto e revisto.  Mas não vi Rogério Coimbra. “Deve estar no Rio,” me disse Afonso, que emendou: “ele sempre diz que está no Rio quando tem show meu”. O humor de Afonso é delicioso.

Encontrei também com Marcos Moraes, irmão de Zé Renato, que foi casado com Zilá que também casou com Chico Lessa. Era um mundo pequeno, esta ilha. Lembrei da Zilá porque foi a primeira noiva, que eu soube, que chegou na igreja numa motocicleta. Mas não me lembro em qual casamento, com Chico ou com Zé Renato.

Paulo Branco, Zé Renato, Rogério Coimbra e Chico Lessa estão entre os compositores, instrumentistas e poetas que orbitaram e contribuíram com a história e com o repertório dos Mamíferos, quando não, foram acrescidos à banda e estenderam para mais de três o trio original, que naquela noite, tocou junto “Malandro”, composição de Afonso e Mário Ruy. São todos amigos de longa data. Grandes amigos, afinal o nível das amizades pode ser medido pelo tamanho das implicâncias.

Próximos capítulos – um livro

Contar desses encontros serve de pretexto para recordar um pouco mais da banda, que foi formada quando os três contavam 20 anos em 1966. Fazendo as contas, comemoram-se este ano 50 anos do surgimento do grupo e 70 de cada um. E as efemérides não vão passar em branco. Em novembro, o projeto Aurora Gordon lança o livro “Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular”, de Francisco Grijó, que conta em detalhes e a partir de memórias e depoimentos de seus principais personagens e daqueles que de uma forma ou de outra estiveram envolvidos nessas histórias, a trajetória do grupo que sacudiu a cena musical de Vitória dos anos 1960 e 1970. São histórias de pessoas interessantes que fizeram parte da crônica cultural capixaba no contexto da contracultura, tendo a ilha como cenário.

De minha parte, conto mais em próximo post e através de texto que remontam ao início dessas histórias. São textos jornalísticos que ajudam a recuperar memórias e climas de outras épocas e revelam um pouco sobre cultura e comportamento na Vitória de 50 nos atrás. O pretexto é comemorar essas trajetórias. Afinal, são 70 anos.

Foto: Miro Soares

1969, o homem pisa na lua e os Mamíferos acontecem em Vitória

1969, o homem pisa na lua e os Mamíferos acontecem em Vitória

Uma última, talvez, lembrança de Marinho Celestino me leva aos Mamíferos e ao ano de 1969 em Vitória. Nessa época, Marinho era ainda um cabeleireiro, o melhor da cidade apenas, mas já companheiro das ousadias. Tanto que foi ele quem produziu o figurino e o make-up dos Mamíferos, quando o grupo se apresentou na finalíssima do II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, realizado entre agosto e setembro de 69, no Ginásio do Sesc, Parque Moscoso. Foi ideia de Marinho “colocar peruca em Marco Antonio Grijó e criar o penteado de Afonso Abreu, além de dar as dicas de como Mário Ruy deveria se vestir,” como lembrou Francisco Grijó em comentário em post que publiquei aqui.

Para quem não conheceu os Mamíferos e muito menos ouviu falar do episódio narrado acima, vale citar matéria publicada em novembro de 2011 pelo jornal O Estado de São Paulo, a título de introdução: “(…) anos antes de Alice Cooper, de David Bowie, na cena musical de Vitória, Espírito Santo, a partir de 1966, um (…) grupo assombrava as plateias com uma performance psicodélica, os rostos pintados, maquiagem pesada e a atuação insana e performática de um cantor andrógino (Aprígio Lyrio). Era Os Mamíferos, garotos fãs de Allen Ginsberg e do movimento beat americano, de Aldous Huxley e Marshall McLuhan.”

Segundo o Estadão, essa é “uma história nunca contada porque [os Mamíferos] não alcançaram o estrelato.” Não é bem assim. A história dos Mamíferos pode ter sido pouco ou nem contada em outras plagas para além do Espírito Santo, mas aqui há bom registro e testemunho sobre o grupo musical que surgiu em Vitória em 1966 e agitou a cena local até meados dos anos 1970.

A lembrança do II Festival talvez seja uma das passagens mais folclórica deles e vêm a propósito, porque os Mamíferos estariam comemorando 50 anos este ano. Não é pouco coisa e é uma bela história na memória cultural capixaba e vai muito além das caras pintadas. Como registrou José Roberto Santos Neves no livro “Rockcrise – a história de uma geração que fez barulho no Espírito Santo”, os Mamíferos foi o primeiro grupo a construir de fato uma produção autoral em terras capixabas, “que se preocupou em reverberar a contracultura no Estado a partir de letras poéticas e provocativas, visual ousado e uma base sonora ampla, em sintonia com a diversidade da Era de Aquários”.

 

14248084_1172153736185096_1209175164_o

Mário Ruy, os Mamíferos e Aprígio Lyrio. Fotos: Antônio Sessa Netto. Acervo: Milson Henriques

 

Frenesi total

Os Mamíferos se constituiu com mais frequência como um trio formado por Afonso Abreu no contrabaixo, Mário Ruy na guitarra e Marco Antônio Grijó na bateria, mas durante certo período acrescido de Aprígio Lyrio nos vocais. Foi com esta formação em quarteto que eles se apresentaram no II Festival Capixaba de MPB, produzidíssimos por Marinho Celestino, para delírio da plateia e para marcar a história da música no Espírito Santo.

“’Os Mamíferos’ arrancaram as maiores gargalhadas. Com uma letra inteligente (…) arrancaram muitos aplausos para a música ‘Cosmorama Total’. O público não se aguentou quando os mais diferentes sons eram produzidos pelo conjunto, enquanto um homem e uma mulher dançavam freneticamente ao ritmo. O Festival foi uma festa completa onde o público viu de tudo: desde as mais lentas e poéticas melodias ao frenesi total do Cosmorama”. Esse é o parágrafo de abertura da cobertura de Willis Machado da final do Festival, publicada em 16 de setembro de 69, em A Gazeta, e nela dá para sentir o impacto causado pela apresentação dos Mamíferos.

Contracultura

Naquele II Festival Capixaba de MPB, os Mamíferos causaram e não só pelo visual ousado. Bebiam de tudo que explodia em sete mil cores no Brasil e no mundo na década das revoluções políticas, sociais, culturais, sexuais, musicais. Contemporâneos de Os Mutantes, uma das bandas mais criativas surgidas na música brasileira em todos os tempos, os Mamíferos tinham como marca a inventividade e a irreverência, além do visual psicodélico típico dos que comungavam no movimento tropicalista de Caetano Veloso e Gilberto Gil, seus principais expoentes. Não que os Mamíferos fossem do movimento. Bebiam de muitas e outras fontes. Mas viviam e produziam em Vitória, cidade fora do eixo principal da produção cultural do Brasil e do planeta. O que acontecia em Vitória não ia além das divisas do Espírito Santo. Ficava por aqui mesmo.  E às vezes ficava mal.

A ousadia daquela apresentação não foi bem aceita por todos. Eram os anos 60, que apesar de toda a revolução que marcou a época, ainda eram tempos conservadores e ainda mais na pequena Vitória, onde cabelos compridos, roupas coloridas e música visceral eram quase subversão e requisitos para a má fama. Na matéria do Estadão, Afonso Abreu lembra que o II Festival “era um festival de almofadinhas. Todo mundo de smoking (…) Olhando das coxias, a gente teve a ideia de derrubar tudo.” Mas teve quem não reagiu bem.

Por causa da apresentação do grupo na finalíssima, teve quem vaiou e quem xingou o grupo de bicha e maconheiro, ou algo assim. Teve jornalista que esqueceu a música e trocou o nome do grupo para Os Herbívoros. Que maldade. Isso irritou Afonso e Marco Antônio, rapazes de boas famílias que só queriam fazer música em Vitória.

Os Mamíferos, a casa e o cachorro

O grupo Mamíferos foi formado por músicos talentosos e em comemoração aos 50 anos e porque merecem, terão novos registros aqui, sobretudo da boa música que fizeram e fazem até hoje e que revela, acho eu, um pouco da alma da ilha. Mas aproveito e lembro que eles frequentaram muito a nossa casa e eram muito amigos de Branca, minha mãe, motivo dessas memórias. Ela gostava de todos. E provavelmente muito das mudanças de gosto e interesses dela tenha a ver com a amizade com os meninos, como minha mãe se referia ao trio e aos acrescidos. São historias que tratarei mais à frente. Mas a título de ilustração, conto um caso.

Os Mamíferos eram tão íntimos e amigos da casa do morro que mereceram carinhos e cuidados especiais, dos mais inusitados até, como os de Duque, o cachorro que por mais tempo guardou a casa. Duque, o cachorro da família que latiu, rosnou e abanou o rabo para muitas das históricas que conto aqui, era um vira lata peludo e íntimo dos íntimos da casa – agia como um leão de chácara que selecionava pelo abanar do rabo ou pelo rosnar do focinho quem tinha acesso livre à casa e quem ainda não tinha. E que ninguém teimasse, porque o bicho era bravo.

Mas era fiel aos amigos, como os meninos dos Mamíferos. Duque gostava tanto deles que chegou a escoltar, já de madrugada, Marco Antônio e Afonso do Barro Vermelho até o horto de Maruípe, cerca de cinco quilômetros da casa do morro, a casa dele.

– Acho que tem um cachorro seguindo a gente – disse Marco Antônio para Afonso, que dirigia o fusca azul.

– É o Duque! – reconheceram e ficaram preocupados. Pararam o carro e insistiram com Duque que voltasse para casa. Perderam o cachorro de vista e assim que Afonso chegou em casa, ligou pra nossa casa. Minha irmã atendeu.

– Bia, o Duque está aí? – perguntou Afonso, preocupado.

– Sim, está dormindo na varanda – respondeu Bianca.

Acho que Duque deve ter ficado preocupado também. Se pudesse falar, teria ligado para a mãe de Afonso e para as tias de Marco Antônio e perguntado se eles já tinham chegado também. Não era um cão de raça nobre, mas tinha seus critérios e valores. Adorava os amigos. Só os amigos.

Duque foi enterrado aos 14 anos, e com tristeza, no quintal que hoje é a área de lazer do condomínio que ocupa o lugar onde um dia foi a casa dele.

 

Cosmorama Total

Aos interessados, a letra de “Cosmorama Total”, que junto com o ritmo, causou na apresentação dos Mamíferos, em setembro de 1969. Chico Lessa e Ronaldo Alves são os autores. Tropicalismo puro.

COSMORÂMA TOTAL

PONTOS

TELEPONTOS

E OS CONTOS DE RÉIS

TELAS

AS JANELAS

MILHÕES DE FIÉIS

 

ESTÁ NA MODA SINHÁ

ESTÁ NA MODA SINHÁ

 

PROGRAMADA A MEMÓRIA

O CICLO SE COMPLETA

EMULSÃO DE HISTÓRIA

NOS CONDULTOS DE CRISTAIS

O CÍRCULO SE FECHA:

  • MILHÕES DE ANIMAIS

JOGUE TÔDA DOR

NUM COMPUTADOR

SAIA DA RODA SINHÁ

SAIA DA RODA SINHÁ

 

SEM GRAVITAÇÃO

SOMOS DOIS SÊRES HUMANOS

PELO ESPAÇO

OCEANOS

SEM PLANOS

MERIDIANOS

NUM ABRAÇO SIDERAL

NUM ABRAÇO SIDERAL

JOGANDO O MESMO JÔGO

COM BOLAS DE FOGO

EM COSMORÂMA TOTAL