Esperando Godot ou a vez que Marinho Celestino ousou no teatro e Amylton de Almeida não perdoou

Esperando Godot ou a vez que Marinho Celestino ousou no teatro e Amylton de Almeida não perdoou

Como disse em post anterior, Marinho Celestino viveu na Europa de onde vinha frequentemente cheio de novidades. Quando voltou em definitivo para o Brasil, trouxe propostas que pareciam bastante ousadas, que ele acreditava revolucionárias. Estava mesmo cheio de ideias depois de dez anos de experiência europeia. Ousado sempre foi, pois afinal, quem nasceu mulato e viado em Vitória de mais de 50 anos atrás e não teve a menor vergonha disso é antes de tudo um forte, um corajoso.

No seu retorno a Vitória, Marinho veio com a proposta de realizar um “projeto ambicioso de teatro popular que [exigia] um espaço totalmente anticonvencional”, como contou em entrevista a Tinoco dos Anjos, publicada na primeira página do Caderno Dois de A Gazeta de 7 de fevereiro de 1981. “Marinho espera, com esse trabalho, oferecer uma nova abertura para os próprios grupos artísticos locais, mas seu maior objetivo é atingir o operariado”, anotou Tinoco.

E ele escolheu para esse projeto “Esperando Godot” de Samuel Beckett, uma obra complexa de uma arte tão pouco popular como é o teatro no Brasil, e que iria estrear dali a pouco mais de um mês. O espaço anticonvencional foi concretizado num improvisado Teatro do Mercado da Capixaba, prédio já naquela época decadente do centro da cidade, cujo pátio central recebeu arquibancadas de madeira que formavam uma arena coberta com lona de circo e palco em três planos com plataforma móvel, além de uma montanha de terra de cinco metros de altura, projeto cênico executado por Luizah Dantas. Era um cenário que impressionava. Para Marinho, era também um espaço adequado para um público “que tem medo de sentar no veludo”, numa referência às poltronas do Teatro Carlos Gomes.

“Pérolas aos porcos”

Talvez a ousadia maior de Marinho tenha sido conseguir que o espetáculo seguisse depois realizando sessões especiais para os operários da Antarctica, da Pepsi Cola, Escelsa e Larica, algumas das empresas que compraram pacotes de ingressos que distribuíram entre seus empregados. Não se sabe se Marinho pretendia fazer a revolução nas fábricas. Talvez apenas pretendesse levar teatro “para o operariado através do patronato”, como afirmou na entrevista a Tinoco. “Esta é uma forma de fazer com que a classe menos favorecida tenha acesso também à cultura. Para que o operariado, no seu período de lazer, não se limite à praia, ao futebol e à televisão à noite,” disse.

Era uma proposta não só ousada, mas também inédita. Na época, ainda não havia as leis de incentivo cultural e era pouco comum o patrocínio empresarial para projetos culturais, ainda mais de teatro, que dependia de verba pública, e ainda mais no Espírito Santo, onde público quase nunca pagou custos de produção e cachê de ator. Marinho conseguiu mover mundos e fundos, públicos e privados, para viabilizar a produção e pagar os atores, inclusive pelos exaustivos ensaios. Mas muita gente duvidou dele.

“Quem é esse cara que acha que o povão vai entender Godot, que tem um texto pesado mesmo para a gente”, foi um dos comentários não creditados anotados por Victor Martins em matéria de página inteira no Caderno Dois de A Gazeta do dia da estreia, 12 de março de 1981. Para Marinho, Godot era o texto certo, pois que trata da “relação mestre-escravo, dominante-dominador (sic)”.  Na matéria, Victor parecia já adivinhar a polêmica que viria depois. “O frisson – além de algumas pontadas de inveja – que esta versão de 81 de Godot consegue disseminar aqui e ali seriam prenúncios do êxito de uma montagem reconhecidamente pretensiosa,” escreveu Victor.

A crítica

A estreia no dia 12 de março lotou o Teatro do Mercado da Capixaba. O elenco era formado por Anginha Buaiz (mensageiro), Laura Lustosa (Lucky), Milson Henriques (Pozzo), Bob DePaula (Estragon) e Branca Santos Neves (Vladimir), além de Selmo Rocha, Hélio Gama e Balduino El Africano, que formavam o cortejo.  A produção foi de Marinho e Antônio Alaerte. Mas a peça, que tinha duração de mais de três horas. foi mal recebida pela crítica local que se dividiu quanto ao desempenho do elenco. E teve quem não perdoou nada, sobretudo não perdoou a Marinho. Afinal, quem era “aquele cabeleireiro bicha que veio de Paris com ideia de montar Beckett para o operariado?”, segundo outro comentário anotado por Victor Martins.

Dois dias depois da estreia, 14 de março, foi publicada na primeira página do Caderno Dois a crítica de Amylton de Almeida para Esperando Godot na versão de Marinho Celestino. Vinha com o seguinte título: “Enfim, o teatro desastre nas travessuras de um cabeleireiro”. Isso não ia dar certo.

No seu texto, Amylton não deixava pedra sobre pedra. Sua crítica desferiu sarcasmo para todos os lados. Ele começou ferino escrevendo que “o cabeleireiro Marinho Celestino, após cinco anos de Paris, sofre com a aflitiva certeza de que sua volta à terra o obrigará a comer pão em vez de brioche. (…) Ele pretende sacudir todo o marasmo que sempre foi do teatro capixaba (…) para realizar um espetáculo revolucionário destinado a divertir o operariado capixaba em local compatível, com muito calor e cadeiras desconfortáveis.”

Entre os atores, nenhum foi elogiado. Sobre a minha mãe, Amylton a descreveu “como uma mulher mal informada, que jamais soube da existência de Cacilda Becker e Lilian Lemmertz”, em referência a duas das maiores intérpretes de Godot no teatro nacional. E continuou: “parece ser uma mulher séria e provavelmente até inteligente para se entregar a um ridículo espalhafatoso (…) O seu ridículo é muito mais aflitivo exatamente porque contido e dolorosamente consciente. Branquinha Santos Neves deve se achar a pior atriz do mundo”. Ufa!

Não sobrou nem mesmo para o autor. Samuel Beckett foi taxado por Amylton como “o obscuro e mal humorado empregado de James Joyce”, que seguindo o exemplo de seu patrão, conseguiu cometer o mesmo pecado do autor de Ulisses. Como disse Virgínia Woolf a respeito do romance de Joyce e devidamente reproduzida por Amylton: “Nenhuma obra-prima tem o direito de ser tão chata”. Não sobrou nem para Godot.

Bem, sobre a qualidade da obra de Beckett não ouso opinar, mas lembro que a crítica de Amylton enfureceu Marinho, que transtornado exigiu espaço para réplica, que A Gazeta não concedeu. O motivo eu não sei. Só sei que Amylton voltou à carga e no dia 18 de março, na seção agenda cultural, afirmou que a encenação era “indigna do nome teatro”. E insistiu na agenda cultural do dia 27: “Enquanto Branquinha Santos Neves e Bob DePaula imitam Renato Aragão e Dedé Santana, sem intenção de divertir o público, Milson Henriques intencionalmente caricatura seu personagem, conferindo-lhe tiques de Zé Bonitinho.” Ia dar merda, quase deu.

Marinho Celestino x Amylton de Almeida, o embate

Noite de chuva, evento na Galeria Homero Massena, centro da cidade, Marinho entrando, Amylton saindo. Podia dar em tapa na cara, quadros voando ou briga na calçada, mas deu apenas em dedo na cara, batida no peito e num insulto que definia, segundo Marinho, a diferença entre ele e Amylton.  Rogério Medeiros, que acompanhava Marinho, é quem conta:

“Vi Amylton saindo e alertei Marinho: ‘é a sua oportunidade’. Ele partiu grande para cima do Amylton, que mais baixo, se encolheu.” Marien Calixte tentou apaziguar, mas Rogério insistiu: “vai deixar por isso mesmo?” Marinho mais puto ainda, bateu no peito, botou o dedo na cara de Amylton e cuspindo, esbravejou mil insultos que encerram a seguinte sentença: “eu sou viado, mas você não passa de uma bicha”.

Rogério conta que não entendeu o insulto e na volta, no carro, perguntou a Marinho que negócio era aquele de viado e bicha. Marinho explicou: “bicha tem problema com o pai, com a mãe, com o mundo, consigo mesma. Dá a bunda com desgosto, complexo e culpa. Eu sou viado, dou a bunda porque gosto”. Baixa o pano.

A temporada

Toda a crítica capixaba da época foi unânime em considerar a incursão de Marinho Celestino no teatro como amadorística. Quanto aos atores, houve elogios. Minha mãe, inclusive, teve seu desempenho considerado positivamente como surpreendente na crítica de Toninho Neves para A Tribuna.

E a temporada cumpriu seu objetivo. Esteve por três meses em cartaz no Teatro do Mercado da Capixaba e recebeu também o público operário que esperava. Depois disso, Marinho não teve novas experiências com o teatro. Minha mãe seguiu.

Marinho Celestino, uma lembrança entre muitas

Como venho contando, minha mãe foi atriz. Estreou no teatro pelas mãos de Paulo DePaula em “Anchieta: um depoimento”, em abril de 1976, no Teatro Carlos Gomes. Depois vieram experiências com outros parceiros de palco e arte. Um desses parceiros, talvez o mais inusitado, foi Marinho Celestino, que viveu na França por uns bons anos e voltou de lá cheio de ideias.  Uma das ideias foi fazer teatro em Vitória. Não se sabe se ele fez teatro na França – cinema sim, que ele provou –, mas ousou encenar Samuel Beckett no então improvisado Teatro do Mercado da Capixaba, no início dos anos 1980. “Esperando Godot” teve em seu elenco Bob de Paula, Milson Henriques, Laura Lustosa, Ângela Buaiz e Branca Santos Neves, sob direção de Marinho Celestino.

Mas antes de tratar dessa experiência, vou apresentar Marinho, ou ao menos contar alguma das muitas lembranças que tenho dele, pois histórias, muitas histórias, foi o que ele deixou na memória de quem o conheceu.

Marinho Celestino, Marinho festivo, Marinho trambiqueiro, Marinho “pé de pato”

Marinho era uma figura em todos os sentidos. Fisicamente, sua presença chamava atenção. Mulato alto, corpulento e bicha, costumava vestir-se com batas e calças pantalonas (traje típico da época) apertadérrimas até a altura do joelho que pareciam prestes a arrebentar naquelas coxas grossas. Dono de uma das bundas mais insinuantes da cidade, Marinho tinha um salão de beleza badaladíssimo nas décadas de 1960 e 1970 e era a festa em pessoa. Feminino, extrovertido e falante, cortou o cabelo de muitos. Pediu empréstimo que nunca pagou – minha mãe se queixou muito – e foi morar em Paris, na época que muitos brasileiros se exilaram na Europa por opressão ou por vontade própria (chegamos atrasados para os anos 20, mas fizemos, nos anos 70, de Paris a nossa festa). De lá mandou e trouxe novidades e muitas histórias – algumas possivelmente verídicas e outras provavelmente exageradas.

Porque ele era exagerado. Exagerava o nome da minha mãe quando encontrava com ela – “Branquiiiiiinnnhhhaaa”.  Isso antes dos dissabores. E depois também, acho. Marinho era pé de pato e cara de pau. E incrivelmente sedutor. Envolvente, de fato. Perdoável também. Minha mãe perdoou.

Onde andarás?

Enquanto morou na Europa, Marinho veio ao Brasil com frequência anual. Numa dessas vindas levou um rapaz bonito, argentino, de nome Rodolfo, para dormir lá em casa. Minha mãe providenciou uma cama para os dois. No dia seguinte Marinho foi embora e Rodolfo ficou com a gente. Gostou de todos nós e nós dele também. Contou ter deixado a Argentina por causa de seus cabelos cumpridos, que para a ditadura militar e paranóica que vitimou também nossos vizinhos, era sinal de subversão. Depois continuou mochileiro em direção ao Nordeste com intenção de chegar ao México. De Olinda, mandou notícias. Estava bem e com saudades. Voltou à Vitória um ano depois e foi direto lá pra casa, acolhida certa. Matou nossas saudades, contou histórias de viagem, viveu uma paixão. E foi embora mais uma vez. Notícias nunca mais. Por onde andará Rodolfo?

Ah, sim, Rodolfo teve sucesso: alcançou o México com o polegar estendido.

 

Rodolfo, Bia e Tango na varanda

Na varanda da casa do morro, Rodolfo, Bianca minha irmã e Tango, o cachorro que coincidentemente já tinha este nome antes de Rodolfo chegar. Prenúncio de boas vindas. Foto: Flavinho Santos (o menino de Pasolini, como dizia Marinho)

A foto e outras histórias de Marinho ficam para o próximo post.