Quem paga a conta da tragédia de Mariana?

mariana_valeRoberto Junquilho

O rompimento de duas barragens da Samarco na região de Mariana, Minas Gerais, está na ponta do noticiário, com prejuízos que afetam vários municípios e centenas de famílias no Espírito Santo e Minas Gerais. Muitos discursos, comissões, movimentação política, ações de solidariedade. Estranhamente, porém, os responsáveis diretos pela tragédia, os diretores da Samarco – leia-se Vale e BHP -, pouco tem aparecido no noticiário para explicar o ocorrido, ou seja, a empresa não está sendo cobrada e se manifesta, basicamente, por meio de discretas notas oficiais.

Onde está o jornalismo investigativo, tão aguerrido em outras situações, em especial as que envolvem pessoas ou instituições atuantes fora dos círculos de interesse das empresas midiáticas? A imprensa vai permanecer unicamente na cobertura dos danos ambientais, mostrando a tragédia que atinge centenas de famílias sem questionar os autores do crime?  A Vale, que controla a Samarco, tem o dever de vir a público para explicar detalhadamente o que ocorreu, esclarecendo se os pontos relacionados à segurança das barragens que foram colocados pelo Ministério Público, em 2013, receberam a devida acolhida ou foram negligenciados, como tudo indica.

Da mesma forma, onde estão os órgãos do poder público, em nível federal, que até agora permanecem calados, com exceção da Justiça Federal, e a bancada capixaba no Congresso Nacional? Uma situação como essa exige o envolvimento de todos, principalmente aqueles diretamente relacionados aos setores atingidos. Reina, porém, um pesado silêncio em torno das coisas que possam levar aos erros que provocaram a tragédia.

Ao contrário do cenário atual, representantes do poder público sempre aparecem em dia de festa. É bom lembrar que pouco mais de um ano separa a tragédia de Mariana da badalada festa de inauguração da quarta usina de pelotização da Samarco em Ubu, município de Anchieta, aqui no Espírito Santo. As cabeças coroadas estavam ali, em clima de confraternização.  Ainda em 2014, a empresa, controlada pelas gigantes da mineração Vale e a australiana BHP, ampliou sua capacidade de produção na região de Mariana, sem, contudo, reforçar as barragens, apesar do aumento de rejeitos.

Em sua corrida para ampliar a produção, a Vale inaugurou, também em 2014, a oitava usina na ponta de Tubarão, na Grande Vitória, no segundo mandato do governador  Paulo Hartung, com licenciamento dos órgãos ambientais,  que ignoraram protestos de várias entidades civis, incluindo associações de moradores que lutam pela redução do pó preto.

A Vale tem um histórico tenebroso, incluindo as toneladas de pó preto despejadas diariamente na Grande Vitória, motivo de CPIs cujos resultados são, até agora, inócuos.  Em 2012, foi escolhida como a pior corporação do mundo, segundo o Public Eye Awards, conhecido como o “Nobel da vergonha corporativa mundial”. A empresa também é foco de denúncias de emissão excessiva de gás carbônico, além de poluentes como óxido de nitrogênio e dióxido de enxofre, prejudiciais ao ambiente.

Essas acusações estão contidas no Relatório de Insustentabilidade da Vale 2012, divulgado pela Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale,que reúne 30 organizações e movimentos sociais não apenas do Brasil, mas de países onde a mineradora atua, como Argentina, Chile, Canadá e Moçambique.

Os danos ambientais em consequência do rompimento das barragens serão permanentes e vão acabar com a pesca em parte dos rios Guaxalo do Norte e Rio do Carmo, que desaguam no Rio Doce. O próprio Rio Doce, por sua vez, também pode ser afetado pelo grande volume de lama de rejeito da mineração, e terá a vida aquática comprometida, na avaliação do coordenador do Projeto Manuelzão, Marcus Vinicius Polignano, ligado à Universidade de Minas Gerais.

Apesar desse  cenário, nota-se, no entanto, um descaso dos órgãos ambientais, que adotam ações superficiais, como distribuição de água à população atingida, sem atacar o problema real, que é a destruição do meio ambiente, principalmente o já devastado rio Doce, os casos de pessoas desaparecidas e mortas. Será fruto de uma velha parceria entre a Vale, outras grandes poluidoras e o poder público?  Só para ilustrar: a Feira do Verde, maior evento ambiental de Vitória, é  patrocinada há anoas pelas maiores poluidoras do Estado, a própria Vale, a ArcelorMittal (CST) e a Fíbria (Aracruz Celulose). São as poluidoras, também, que patrocinam o Prêmio Ecologia 2015 neste mês de novembro, bancado pela Samarco, Vale e o Governo do Estado, por meio do Instituto Estadual de meio Ambiente (Iema).

Essas empresas são grandes financiadoras de campanhas políticas, em todos os níveis. É público que sete dos 15 deputados estaduais que integram a comissão formada pela Assembléia Legislativa do Espírito Santo para monitorar os estragos da tragédia receberam doações. Junte-se a isso, o fato de as corporações manterem eficientes programas de mídia, relações públicas e relacionamento com as comunidades, estrategicamente distribuídos nas regiões onde operam. A construção da imagem é perfeita e, hipocritamente, engana os incautos.

O que se espera é que esse mar de lama, morte e destruição que se estende por vários quilômetros de Minas e Espírito Santo leve as autoridades a reverem seus conceitos de desenvolvimento, passando a olhar as comunidades e cada cidadão, como mais importantes. Somente dessa forma, o processo contábil que a tudo subjuga poderá ser repensado, em favor da vida.

Um pensamento sobre “Quem paga a conta da tragédia de Mariana?

  • 23 de novembro de 2015 em 17:28
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    QUANDO O ARROGANTE E INCOMPETENTE PRESIDENTE DA SAMARCO SERÁ PRESO , E NÃO ADIANTA FAZER CARA DE COITADINHO E IR A TV PEDIR DESCULPAS DE POIS DE SEMANAS DO CRIME ACONSELHADO POR ADVOGADO NÃO , CADEIA NELE !

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