A Samarco não é vítima, lembre-se disso!

Roberto Junquilho

A Samarco/Vale/BHP é a responsável direta pela tragédia provocada pelo rompimento de duas barragens de rejeito de minério de ferro na cidade de Mariana, Minas Gerais, no dia 5 deste mês, matando pessoas, bichos e o rio Doce, causando uma devastação ao meio ambiente como nunca existiu e protagonizando um dos maiores crimes ambientais do planeta. A empresa não é vítima, isso tem que ser dito várias vezes, é preciso repetir a frase, incansavelmente, visando estabelecer um contraditório à postura de parte da imprensa e de agentes públicos, para que haja, efetivamente, a apuração rigorosa de responsabilidades.

Como sempre, a manipulação de informações busca mudar o foco para favorecer a empresa, coincidentemente muito generosa na liberação de dinheiro para campanhas políticas, estabelecendo dessa forma um clima de generosidade e simpatia. Uma clara demonstração desse relacionamento foi a reunião do diretor comercial da Samarco, Ricardo Carvalho, nesta semana, com membros da comissão formada na Assembléia legislativa do Espírito Santo para apurar as responsabilidades pelo crime. Vários deles receberam doações da mineradora na última eleição.

Exceção dos deputados Enivaldo dos Anjos e Sérgio Majeski, que condenaram a Samarco e os processos de licenciamento ambiental em discursos no plenário da Assembléia, o clima da reunião foi marcado por falta de conhecimento e postura subserviente dos membros da comissão. Dessa maneira, a conversa, realizada no gabinete da presidência da Assembléia, com toda a pompa, foi um exemplo de que os processos cujas bases estão fincadas no dinheiro desconstroem facilmente contraditórios, mudam comportamentos e deságuam em um profundo retrocesso de conceitos. Nesse cenário não há lugar para a justiça, o direito e a solidariedade, uma vez que prevalece o pensamento único direcionado por quem detém o poder, nesse caso as corporações.

O mesmo clima da reunião na Assembléia Legislativa do Espírito Santo, encerrada de forma patética, com mesuras e agradecimentos por parte dos deputados, registrou-se em outros encontros de diretores da empresa com agentes públicos não somente no Espírito Santo, mas, também, em Minas Gerais, palco da tragédia, e Brasília. Funcionou com eficiência o comitê de gerenciamento de crise da empresa. Vale registrar, a título de ilustração,  que a coletiva à imprensa do governador mineiro, Fernando Pimentel (PT), no dia seguinte ao rompimento das barragens, foi dada na sede da Samarco, em Belo Horizonte.Não que esse ato tenha algo de errado, mas, simbolicamente, remete a uma espécie de cumplicidade entre a corporação e os agentes públicos.

Não é só isso. As multas estabelecidas pelo poder público, de R$ 250 milhões, segundo disse a presidente Dilma Rousseff quando visitou o Espírito Santo, e de R$ 112 milhões, de acordo com o Ministério Público de Minas, que se somam ao R$ 1 bilhão bloqueado nas contas da empresa,  parecem irrisórias se comparadas ao seu lucro líquido em 2014, de R$ 29,1 bilhões, e ao estrago registrado até agora na bacia do rio Doce, com a ameaça de atingir santuários ecológicos no oceano Atlântico.

Nesta sexta-feira 20.11, a lama começou a chegar a Regência, na foz do rio Doce, no Espírito Santo. A correnteza já está mais fraca, mas seu poder de destruição ainda é capaz de causar enormes prejuízos à fauna e flora marinhas, colocando em risco reservas ambientais importantes, pois a lama tem rejeito de minério, mata. O longo rastro de morte e destruição deixado para trás e o futuro sombrio que se forma levou  “seu” Bira, pescador que vive na região a perguntar, atônito, em dramático relato divulgado nas redes sociais.

“Vivo do peixe desde pequeno. E agora, como faço para sobreviver com minha família?” A pergunta não tem resposta, como milhares de outras formuladas por pessoas simples que perderam entes queridos, lavouras, casas, pertences, meios de sobrevivência e um pedaço de sua dignidade por não ter onde se abrigar. São danos irreparáveis, bem como a recuperação do rio Doce, que pode levar 30,40 anos. Apontar culpados é tarefa difícil, considerando o contexto no qual tudo e todos fazem parte de um modelo cujo nexo está, unicamente, no dinheiro.

A cumplicidade do dinheiro com a informação manipulada destrói o que tem pela frente e se opõe à construção de um cenário irreal, onde tudo parece normal, aceitável. A realidade é escamoteada, os agentes públicos minimizam sua atuação e o próprio Estado se mostra omisso, para se adequar ao conceito de desenvolvimento estabelecido pelo dinheiro. Não fosse assim, o presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, e seus diretores estariam maias preocupados. Mas não, a arrogância é tanta que levou o diretor comercial da empresa, Kleber Torres a afirmar: “Não é hora de pedir desculpas”.

O professor da PUC/SP Ladislau Dowbor, em análise sobre o livro O “Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty, diz: “Estamos administrando o planeta para uma minoria, através de um modelo de produção e consumo que acaba com nossos recursos naturais, transformando o binômio desigualdade/meio ambiente numa autêntica catástrofe em câmara lenta. Enquanto isso, os recursos necessários para financiar as políticas de equilíbrio estão girando na ciranda dos intermediários financeiros, na mão de algumas centenas de grupos que sequer conseguem administrar com um mínimo de competência a massa de dinheiro que controlam”.

Quinze dias depois da tragédia, com 11 mortos, 15 pessoas desaparecidas e um rastro incalculável de destruição, a situação ainda é de insegurança com o que poderá vir a ocorrer. O poder público se movimenta, instituições públicas e privadas também e a própria causadora da tragédia, pressionada,  adota medidas visando reduzir a dor e a desesperança. Há uma alteração no ritmo de cada setor, a solidariedade aparece.

Menos no modelo de desenvolvimento, que permanece o mesmo, no fornecimento de licenças ambientais e no debate em torno do novo Código Brasileiro de Mineração, engavetado no Congresso Nacional desde 2013, cujo teor é contestado pelas mineradoras, que visam somente a acumulação de riquezas por meio de ações que desrespeitam a todos os que se opõem à sua ganância. Para se ter uma ideia, dos 27 membros que compõem a comissão para analisar o novo código na Câmara dos Deputados, 20 receberam doações em dinheiro de mineradoras nas últimas eleições. Já se fala que o processo de investigação sobre as causas da tragédia é demorado, uns seis meses, tempo suficiente para o esquecimento apagar o registro do fato no imaginário coletivo. Por tudo isso é bom repetir: a Samarco não é vítima, ela tem que ser responsabilizada, mesmo que isso não apague a dor de quem perdeu tudo na tragédia.

Um pensamento sobre “A Samarco não é vítima, lembre-se disso!

  • 22 de novembro de 2015 em 21:16
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    Pois é amigo Roberto Junquilho, essas doações de campanha estão desmoralizando a representação popular, ainda bem que não vai acontecer mais, pelo menos formalmente…

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