A Vale não liga para a tragédia e só quer aparecer bem na foto

Roberto Junquilho

Finalmente, 20 dias depois da tragédia de Mariana, a Vale sai da moCapa folhaita em grande estilo, como manda o figurino das grandes corporações. Cavou a manchete de capa da Folha de São Paulo (foto) e desse modo iniciou o gerenciamento da crise em que está metida por ser protagonista de um dos maiores crimes ambientais da história, papel que relutou em aceitar até agora. Não pense que a crise de que se ocupa a Vale está relacionada às vítimas do rompimento das barragens da Samarco, que atingiu milhares de pessoas e devastou a bacia do Rio Doce. Nada disso, a preocupação é outra: resguardar sua imagem perante os mercados.

No dia anterior, segunda-feira 23.11, o Valor Econômico, controlado pela Folha e o Globo, informou que a diretoria da Vale se reunira para definir a contratação de empresas de publicidade visando resguardar a imagem da empresa, a sua marca, atingida por uma baixa de 13% no valor de mercado, caindo de R$ 82,6 milhões para R$ 71,7 milhões. Com a manchete da Folha de hoje, terça 24.11, a imagem da empresa começa a aparecer bem na foto, como se diz por aí.

A matéria da Folha afirma: “A Vale confirmou à Folha que mantinha um contrato com a Samarco para utilizar a barragem como destinação de seus rejeitos, mas afirmou que sua lama correspondia a menos de 5% do total depositado em Fundão. Embora seja acionista da Samarco, a Vale até agora não admitiu qualquer responsabilidade pela tragédia. Nos pronunciamentos feitos pela mineradora e por seus diretores não houve menção aos rejeitos que a empresa depositava na barragem”.

E mais adiante: “do ponto de vista jurídico, a responsabilidade é da Samarco, responsável pela gestão e manutenção…” As causas do rompimento Ainda são desconhecidas e só uma investigação poderá dizer se a quantidade de lama enviada pela Vale estava ou não dentro das normas”.  Aí está a defesa, dentro do objetivo da Vale, totalmente voltado para o mercado, para o lucro. A confissão é feita, mas a culpa minimizada, como manda o bom gerenciamento de crise: não se deve esconder nada do que possa ser revelado no curso das investigações. Não existe, no entanto,  a preocupação de buscar medidas necessárias para impedir outra tragédia, a degradação ambiental ou a redução das toneladas de pó preto que diariamente são despejadas na Grande Vitória.

Com poderosos instrumentos econômicos, políticos e nos meios de comunicação, mantém o compromisso firmado com o mercado, especialmente os sócios estrangeiros que se beneficiam de uma legislação frouxa e contrária aos interesses nacionais. “A imagem acaba sendo afetada porque ficou a percepção de que a empresa não estava preparada para lidar com crises, tanto da operação quanto na comunicação ao mercado”, afirmou Eduardo Tomyia, diretor geral da Milward Brown Vermeer para a América Latina, ao jornal Valor Econômico, referindo-se à imagem da Vale.

“Os produtos são criados na fábrica. As marcas são criadas na mente”. A frase do designer Walter Landor define as ações que a Vale passa a adotar a partir de agora, na tentativa de resgatar uma imagem bastante desgastada por uma série de ações desastrosas. Para ter valor, uma marca precisa ter coerência, reduzir o índice de risco percebido pelo comprador e oferecer uma série de atributos funcionais e emocionais valorizados pelo mercado e, também, pelas comunidades que ficam em seu entorno

A Vale investe na construção de sua imagem. Patrocina a Feira do Verde, em Vitória, o maior evento relacionado ao meio ambiente no Espírito Santo, e ali vendo o seu peixe, abre ao público A Fazendinha, um bosque localizado ao lado de suas usinas poluidoras de Tubarão, onde nos fins de semana se reúnem famílias em torno de jogos, exposições e farta literatura sobre a empresa, mantém o Museu da Vale, espaço para manifestações artísticas, e banca maciças inserções na área de mídia. Além disso, desenvolve ações de filantropia junto a entidades das áreas social e de saúde e se mostra muito generosa em doações para campanhas políticas. Consegue enganar a alguns e, desse modo, define seu modelo e passa um clima de normalidade, para poder continuar poluindo, exterminando com nossas reservas naturais e contribuindo para a morte de pessoas, como agora em Mariana.

Até agora, o rompimento de duas barragens da Samarco/Vale/BHP, no dia 5 passado, arrasou a bacia do Rio Doce, matou 11 pessoas, deixou 12 desaparecidas, destruiu lavouras, paralisou várias atividades numa extensão de mais de 600 quilômetros, desaguando a onda de lama tóxica na localidade de Regência, município de Linhares, no Espírito Santo. A lama ameaça santuários marinhos do Espírito Santo e da Bahia, além de impedir a pesca para milhares de pessoas que vivem dessa atividade.

As providências adotadas até agora para minorar o sofrimento e evitar que a onda de lama cause mais danos mostram resultados questionáveis. De concreto, fica a dor de quem perdeu família, casa, comércio, lavoura e viu o rio Doce se transformar em um mar de lama. Essa imagem, que expõe a dor de cada um, no entanto,  não atinge as corporações. A ciranda da ganância continua girando, acobertada por um modelo perverso para o qual pouco importa o meio ambiente e a desigualdade social. O dinheiro fala mais alto.

 

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