Visão limitada da classe política engaveta projetos importantes

Roberto Junquilho

Projetos de mobilidade urbana da Grande Vitória anunciados por sucessivos governos do Espírito Santo se encaixam como um exemplo perfeito da visão limitada da classe política, ressaltadas raríssimas exceções. Em consequência, há um desorganizado cenário na gestão pública, principalmente com a paralisação de programas e projetos toda vez que ocorre a mudança do gestor pela via de processo eleitoral.

Ações de novos gestores públicos, geralmente anunciadas com grande estardalhaço, envolvem contratação de especialistas em diferentes áreas, técnicos, servidores e gastos em campanhas publicitárias. Como demoram a sair do papel ou são, simplesmente, engavetadas, provocam significativos prejuízos e frustração para as equipes técnicas.

Nada disso importa, porque a marca principal da classe política é o egoísmo e o egocentrismo, bem distantes de interesses comunitários que deveria representar. Os candidatos se elegem por meio de estratégias de marketing e se mantém com discursos altruístas, mas o foco principal de sua atuação como gestores está fixado, unicamente, na eleição que virá no final dos quatro anos de seus mandatos.  Com essa postura, atuam como se estivessem em permanente campanha por votos.

O programa de mobilidade urbana, por exemplo, consumiu muito dinheiro, desde seu anúncio até o melancólico estado atual, porque a lógica da falta de visão é não colocar azeitona na empada de outro. O ex-governador Renato Casagrande turbinou projetos nessa área criados no segundo mandato do governador Paulo Hartung, iniciou algumas ações, mas tudo ficou em uma tímida intervenção na avenida Leitão da Silva, depois que seu antigo aliado reassumiu o governo pela terceira vez e cancelou a maioria das obras previstas, inclusive as de sua gestão.

Hoje, o projeto em execução na avenida Leitão da Silva é alvo de reclamações por parte de comerciantes, que se queixam de alterações em sua forma original que foi formalizada depois de discussões entre eles e as equipes responsáveis pela obra. Uma comprovação de que as intervenções viárias não obedecem a critérios técnicos e, sim, a interesses políticos do chefe de plantão. Os anseios da comunidade ficam para depois.

O sistema de transporte aquaviário então é um caso à parte, até hoje não explicado detalhadamente. Os gestores públicos continuam privilegiando o caro e precário transporte rodoviário, sufocando as vias de acesso, enquanto fazem vistas grossas para uma das melhores opções de transporte coletivo, utilizada em todo o mundo: o mar.

O sistema foi suspenso em 2000 e, desde então, permanece em um vai-e-vem sem fim, enquanto a população segue sofrendo com superlotação do transporte coletivo, vias esburacadas e uma tarifa alta e fora da realidade. Por várias vezes, sua reativação foi anunciada. Em julho de 2008, o hoje senador Ricardo Ferraço, ocupando a Secretaria de Estado de Transportes do governo Paulo Hartung, informava o retorno desse meio de transporte para o final do mesmo ano. O projeto parecia estar consolidado.

Tanto era assim que em agosto do mesmo ano, Ricardo Ferraço recebeu uma comitiva do Governo do Rio de Janeiro para conhecer o Programa de Mobilidade Urbana desenvolvido pela Secretaria de Transportes e Obras Públicas do Espírito Santo (Setop). O programa previa também a criação de 10 corredores exclusivos para ônibus, criação de novos terminais de integração, faixas multiuso, entre outras ações, com investimento previsto de cerca de R$ 600 milhões.

Nada disso aconteceu e hoje o projeto ficou apenas na lembrança, fora de um cenário no qual o transporte rodoviário assume o protagonismo com toda a força que possui e que lhe dá prestígio junto à classe política. O sistema aquaviário faz parte da onda de indignação dos cerca de 100 trabalhadores que perderam o emprego e de milhares de pessoas que já o experimentaram, para ir ao trabalho ou em passeios turísticos pela bela baía de Vitória, a um preço bem mais em conta. São coisas da máquina pública deformada, que a população precisa aprender a azeitar, pelo voto, para que ela funcione melhor.

2 pensamentos sobre “Visão limitada da classe política engaveta projetos importantes

  • 18 de julho de 2016 em 20:51
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    Por isto a nossa maior arma é o voto e somente a democracia nos garante isto. Agora, mais do que nunca precisamos, além de conhecer os projetos do candidato, passar a vida pública dele a limpo, buscando informações que contribuam na hora da escolha. Além disto podíamos defender como garantia a continuidade de projetos importantes por parte do candidato, de forma documentada para ele nao dizer depois de eleito que “não me lembro de ter dito isto…”e outras balelas do gênero, tão comumente vistas por aí. Ótimo artigo e bastante oportuno, afinal, as eleições estão aí!! abraço 😉

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  • 25 de julho de 2016 em 02:52
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    Por isso que eu defendo que os Governos, estaduais e municipais devem trabalhar com uma agenda propositiva e vinculativa, com proibição de não cumprimento (poderia ser considerado ilegal o não cumprimento). Não se suporta mais a defesa do tripé, saúde, segurança e educação que não saem do papel ou com má prestação de serviços, desperdícios de dinheiro e recursos públicos. Dados com maquiagem e etc. E para isso, o ESTADO deve parar de querer ser empreendedor, passando a ser planejador e fiscalizador. A melhor ferramenta para isso são os projetos de Concessões (comum) (administrativa ou patrocinada) as tão faladas PPP’s (Parcerias Público Privadas). Que Deus abençoe nossos gestores e nossas cidades!

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